23 abril 2022

Esses deuses que somos nós - Por: Emerson Monteiro


Sois deuses e não o sabeis
. Jesus-Cristo

Em quais dimensões ser isto, deus que somos, eis a equação das existências. Disso falam todos que buscam desvendar o mistério de viver. Uns indicam caminhos, outros exemplificam o jeito de ser. Assim descemos neste rio de continuar rumo ao desconhecido. A cada indivíduo, portanto, cabe responder ao enigma que grita dentro de si com a igual intensidade. Tocamos as paredes da caverna tais cegos no escuro dessa missão de avisar a nós mesmos onde fica o mar. Divagamos pelas humanas contrições e padecemos a síndrome da busca, num afã de dor por vezes mascarado nas ilusões incontidas. Isto é, enganamo-nos de embriaguez com as próprias nuvens que passam quais também passamos.

Luas e luas, fustigamos a sorte em toques alucinados de resolver o que por ele já se acha definido desde sempre que existirá vida. Meros espectros de sonhos imaginários, viajamos nas abas do destino apegados nas formas e objetos, pensamentos e sentimentos, sem, contudo, abrir mão dos blocos de granito das horas que se desfazem. Elas escoam pelo Infinito e ficamos a observar o eco das saudades que repercutem no coração da gente, folhas secas de outras estações adormecidas.

Enquanto isso, nunca deixaremos de ser esses deuses sem o sabermos. Atravessamos o rio da morte quais visagens que sofrem de não conhecer o que existirá logo ali adiante, no transe da imortalidade. Ainda desse modo persistimos tontos de continuar pela Eternidade, a ignorância qu


e apreciamos e que irá a lugar algum. Disso nascem e morrem as crostas que deixamos largadas nos sóis de que viemos. Doces pássaros dessas novas madrugadas, de novo regressaremos ao mesmo ofício de achar, certa feita, o tesouro da luminosa certeza que abandonamos pelas plataformas da ficção. Durante todo tempo, Ele esteve juntinho de nós e não tivemos consciência de reconhecer, isto por Ele somos nós e nós é Ele que o somos.

Trilogia de um aprendiz de passarinho!– por José Luís Lira (*)

     Na antiga Grécia, a trilogia se constituía de poema dramático composto de três tragédias que devem ser representadas juntas. Em pleno século XXI ainda temos trilogias. Não, obrigatoriamente, no estilo grego. Dias antes da Páscoa recebi de presente do poeta Bruno Paulino uma trilogia: “Ofertório de Pássaros” (2019), “Breviário” (2020) e “Salmos para orquestrar silêncios” (2022). Essa trilogia ao invés de tragédia, traz beleza, arte e muito sentimento. Todos os livros são lindamente diagramados, com ilustrações magnificamente antigas que nos remetem, historicamente, ao passado, num momento tão presente.

   Pela argúcia do título comecei pelo Breviário. Logo num dos primeiros poemas li “como nunca aprendi dançar forró/ tornei-me poeta”.  Na sequência encontramos a “árvore sagrada/ o juazeiro...” “verdejante e festivo/ portal d’outro mundo” que “abriga visagens e esconjura demônios”. E falando em geografia o poeta diz: “pra lá,/ pra lá dos ermos/ foi morar minha saudade”. E o poeta que se diz aprendiz de passarinho lembra que os “passarinhos estão cantando/ o sol hoje está brilhoso/ os lírios são para o poeta/ um presente maravilhoso”. E lembrando Vinícius o autor arranca lágrimas do leitor: “quando você morreu/ tive que morrer também/ p’ra vida seguir adiante”... E como isso é real. E para o poeta “as horas não descansam/ o silêncio não dorme”. E heresiando, o poeta se propõe a “tirar Deus lá de cima/ e acordá-lo do seu sono eterno”. Seu poema hagiografia III é tão belo que merece ser citado por completo: “rainha Aparecida/ que emergiu negra/ das águas do rio:/ coroada, liberta/ e imponente// és a única Senhora/ do meu culto”. E no canto final, lembrei-me do Evangelista Amado, João, e de Olinto (menino mineiro que viveu quase nove décadas): “pelo século dos séculos/ a palavra/ alimentará/ o homem// o resto,/ como diz o Eclesiastes:/ será silêncio”.

   Seguindo, fui aos “Salmos para orquestrar silêncios”. Que beleza: “VENI CREATOR SPIRITUS”. Me senti rezando, num alpendre, pois, “o mundo/ acaba/ e nem sempre/ recomeça”; “arrumo gavetas/ incendeio velhas cartas/ escrevo poemas que você não vai ler”. E “meus versos/ sem rima/ - com cervejas -/ desmetrificados”. O leitor sabe que os textos aspeados são de Bruno Paulino e citando-o, mais uma vez: “que descaradamente/ roubei pra te dizer/ o que não sei dizer”. E a aldeia do Poeta cintila e tudo é Quixeramobim: “na estrada: paisagem, pedra/ cemitério, silêncio e soluço”. E num “bilhete”: “rezei para nossa senhora dos poetas/ pedindo que ela me inspirasse”.

   Indo por onde deveria ter começado, cheguei ao “Ofertório de Pássaros”, cheio do “vírus da poesia”. “Madrugada/ o vento sopra lá fora...// ... sozinho em casa/ ouço passos contidos/ e recebo sem medo/ a visita dos meus sonhos mortos”. E “um homem sem tempo/ num tempo sem pássaros/ caminha sozinho”... “entre a boca da noite e a madrugada/ a rua silencia, faz frio, e canta o salmo do homem só”. E rezando à Mãe de Deus: “Mãe Maria/ mãe do céu dos passarinhos/ mãe do crucificado/ fortaleça minha fé/ interceda por mim/ perdoa os meus pecados”. E muitos pássaros são ofertados e o autor viu “o beato iluminado tombar/ e os anjos o carregaram para o céu”.

   Uma trilogia. Excelente leitura.
   Amém!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.