18 março 2022

Origens da Fé - Por: Emerson Monteiro


Diante das circunstâncias deste mundo, perante os impasses talvez intransponíveis, vem o senso do absoluto que toca o coração da gente. Ninguém quer desistir inteiramente face às barreiras com as quais se depara no decorrer do tempo. Há que existir essa força descomunal que a tudo transpõe e no oferece alternativa a que superemos as crises, os desenganos.

Outro dia, me avistei com uma senhora, uma mãe, que narrou suas dores. Ouvi de olhos acesos o quanto padece vista perda irreparável de um filho ainda jovem face um homicídio. Além do que, outros impedimentos de viver em paz, conquanto tenha saúde debilitada. Porém poucas vezes presenciei tamanha vontade de viver e atravessar tais sofrimentos. Nem ela sabe explicar direito o que lhe mantém viva. Sentados na sala de espera de um consultório médico, conversávamos após ela chamar minha atenção a uma notícia da tevê de alguns romeiros que chegavam a pé desde Alagoas até Juazeiro do Norte, devotos do Padre Cícero. Jornada de 500 km.

De novo me veio à memória uma peça que assisti na década de 70, em Salvador, O que mantém um homem vivo. (... uma coletânea de textos do dramaturgo, poeta e encenador alemão Bertolt Brecht, com músicas de Kurt Weil, Hans Eisler, Paul Dessau e Jards Macalé, com adaptação de Renato Borghi e Esther Góes, à época recém-saídos do Teatro Oficina.) Jornal da USP

Esta a grande interrogação dos humanos na face do mistério de tudo quanto aqui encontram, e que resolveram denominar de “viver”, o bloco de notas do Destino. O espaço, o tempo, as cores, o som, as memórias, os astros, o Infinito cósmico, as sociedades, a vegetação, os enigmas e os séculos, a ciência, mil determinações, o que quase só de longe a gente participa e, no entanto, se vê na condição exclusiva de responder por si mesmo ao pedaço de céu que preencha durante as idades presentes. Querer saber mais disso, o que classificam “liberdade”, “existência”, sobremodo.

Bem desse modo, no centro dessa estrutura indeclinável, foco essencial de toda história dos indivíduos, bem ali, bem aqui, vemo-nos pelos olhos do invisível à busca incessante da Fé real, sentido e razão de estar nesse lance imbatível dos segredos de alma aberta ao que possa nos acontecer de hoje em diante.

(Ilustração: O que mantém um homem vivo, Teatro da USP).