12 março 2022

O sonho e as gerações - Por: Emerson Monteiro


Ainda que eu queira aceitar de bom grato tudo que chegue à caixa do juízo, mesmo assim reajo qual quem deseja que de outro jeito pudesse ser. Nem de longe pretendo mais admitir falta de razão nos segredos da Natureza. A mim o que quer que aconteça tem lá suas claras razões de acontecer, e pronto, assunto resolvido. Isto porque o mundo e as ações fluem de modo pleno ao sabor do tempo, feito dentro da leveza do que de nenhum outro modo, porquanto nosso poder é pequeno. A gente busca, de verdade, respostas precisas, no entanto limitadas os padrões de desconhecimento em fase de aproximação do que venhamos, certo dia, a descobrir e viver. Se existe o imperfeito é que existe o perfeito, causa do equilíbrio universal.

Dito isto, revejo este momento exato, quando meu amigo José Roberto França de Sá houve de fazer sua passagem a outro plano. De início, quis ficar constrangido, só isso de viver e sumir sem deixar vestígios de aonde foi. Porém o simples aspecto de estarmos aqui significa que qualquer dia desses estaremos noutro lugar, pois existimos bem dentro de um ser em movimento que o somos. Desvendar esse mistério eis o motivo de virmos à consciência que assegura os passos do nosso ser em movimento.

Disso vêm as religiões, filosofias, mergulhos muitos de tantos no infinito da compreensão. Ajuntaram milhões de códigos que perfazem a humana aventura. Uns chegam primeiro a esse outro universo que lhes aguarda e aguarda todos. Num devir constante, as estradas e os destinos. Vislumbro, por isso, a possibilidade da redenção do que viemos trabalhar neste Chão. Seres pequenos à procura da Luz. Fora dessa possibilidade inestimável, cá tocamos adiante o barco das horas e sorrimos prudentes em plantar sementes de Amor no coração das pessoas.

Uma calma me invade ao saber desse amigo que ora cresce em novas paisagens, no sonho de guardar consigo o quanto viveu e desfrutou das belezas deste lugar com gosto e boa vontade. Sempre na certeza das luzes de novas experiências, siga em Paz, José.


José Roberto França, um amigo que se vai

 Carlos Rafael Dias

 


José Roberto França de Sá, ou simplesmente Zé Roberto, é uma referência marcante da geração caririzeira que despontou nos anos 1970, protagonista da cena cultural da região do Cariri cearense, a partir do Grupo de Artes Por Exemplo, depois fundadora do movimento Nação Cariri.

Tive, - utilizando um batido, mas sempre providencial jargão,  - o privilégio de tê-lo como fiel amigo desde o início dos anos 1980, em encontros prazerosos no Parque Municipal, em Crato, ao lado de Geraldo Urano, Clélio Reis e José Bezerra de Figueiredo Filho (Deca).

Zé Roberto era um leitor assíduo de publicações que contivessem mensagens progressistas e engajadas na luta pela justiça social, leituras, portanto, de viés descolonizador e libertário. Uma verdadeira biblioteca ambulante. No mínimo, um grande bibliófilo. Nos tempos plúmbeos da ditadura, lia, até com uma certa e necessária ostentação, os jornais alternativos e de resistência. Ele chegou a me presentear algumas das lendárias edições de O Pasquim

Das artes, que cultivava como “norte” de vida, ele tinha um verdadeiro amor pelo cinema, notadamente o de vanguarda, a exemplo do Cinema Novo. Glauber Rocha era-lhe quase como um sinônimo, um perfeito alter ego.

Zé Roberto era uma pessoa de aguçada ironia, no sentido de ser um expert no emprego inteligente de contrastes, criando ou ressaltando certos efeitos humorísticos. São inúmeras, e até folclóricas, suas “tiradas” verbais dotadas de verve jocosa.

De tipo charmoso, causava admiração, notadamente nas mulheres. E, sabedor disso, desempenhava, com elegância e respeito, o indefectível papel de galanteador contumaz. Em contrapartida, era respeitado por todos.

Ultimamente, com a saúde fragilizada, vivia recluso, mas sempre visitado pelos amigos de longas datas. A última vez que o encontrei, foi em uma visita que o fiz, ao lado de Luiz Carlos Salatiel e Clélio Reis, quando ele estava passando uns dias na casa de sua irmã Vânia. Mesmo adoentado, nunca perdeu o senso de humor que tanto caracterizou o seu “personagem”.

Zé Roberto fez a inevitável travessia, “velejando no mar do Senhor” rumo à Pasárgada Celestial. Nós, que aqui ficamos, lhe desejamos o merecido repouso eterno e agradecemos sua fiel amizade.