25 janeiro 2022

O eterno retorno - Por: Emerson Monteiro


Nesta tarde acinzentada de janeiro aqui do pé da serra, deu de me voltar um sentimento bem remoto, dos tempos da infância, de quando, depois de passar o mês de férias no Tatu, via minha mãe organizando os trens para regressar ao Crato, trazendo a família. Eu ficava sem planos, andando acima e abaixo pelas estradas do sítio já o coração apertado de saber que, logo no dia seguinte, de novo não mais estaria naquele lugar que tanto amo, onde nasci e passei os quatro primeiros anos.

Algo assim como se o mundo viesse abaixo e nada fosse como antes fora; deixava pedaços de mim naquelas matas, cercas, currais, casas, árvores, marmeleiros, o brejo, o engenho, as cancelas, os animais, um fim de era talvez, o que nunca compreendi bem porquê. Dor de não ter tamanho invadia minha alma e me parecia que ninguém sentisse o mesmo, pois se animavam de voltar à cidade lá longe qual atitude natural, que a mim quase dizia só da saudade que amarguraria dias afora. Olhava o Açude Velho, a varanda da casa de meu avô, nossa casa, a igrejinha, o movimento dos moradores, as comadres que viviam lá em casa, os meninos com quem brincava, aquilo tudo sumiria assim como num passe de mágica, e ficaria um ano a esperar, outra vez, reviver aquela felicidade que adormeceria, sem dúvida, no outro dia pela manhã ao viajar.

Um sentimento forte esse que às vezes cresce no meu peito e chama atenção ao momento atual da existência. As pessoas, os lugares, os sons, as cores, o tempo, o céu, o clima, as nuvens, os próprios pensamentos, as lembranças agarradas dentro da gente, nesse tudo de agora que somos. E aquela saudade do Tatu de novo pulsa em mim tão alto de não saber aonde isto de hoje irá parar num dia, em que oceano, em que outro universo que seja, a tocar nas pessoas uma urgente necessidade de exercer o momento qual aquilo que jamais irá se repetir no decorrer do Infinito.

Artistas caririzeiros nascidos em 1953: um alinhamento raro de astros

 


Por Carlos Rafael Dias

 

A

constelação caririzeira tem muitos astros que brilham com luz própria. A priori, todos alinhados em uma perspectiva de cultura e arte inclusivas, voltadas para a construção de projetos de vida diferenciados e portadores de justiça histórica e bem-estar coletivo.

Dentre os astros que iluminam o horizonte caririzeiro, alguns estão também alinhados por uma sincronia temporal, vistos que nasceram no mesmo ano, o de 1953: Jackson Bantim (Bola), Luiz Carlos Salatiel, Rosemberg Cariry, Geraldo Urano e Luís Fidélis. Artistas e seres humanos que já deixaram uma marca indelével nesta existência, por serem protagonistas de memoráveis feitos na seara da arte e da cultura, também estratégicas trincheiras do bom e necessário combate.

Cultura e arte são, pois, suas armas e armaduras. Armas que não matam, pelo contrário. Projetam tão somente certezas e esperanças de que a vida é bela, basta querer e fazer.

Com exceção do poeta Geraldo Urano, nascido em Crato, em junho, que já se mudou para a Pasárgada Celestial, - os demais estão vivos e bem vivos. Atuantes e compromissados com o fazer artístico cotidiano.  Sintonizados pela criatividade imorredoura que projeta novos horizontes. Antenados nas ondas das mudanças necessárias e que renovam sonhos, utopias e desejos. Formuladores de ideias e ideais proponentes de identidades que permitem o sentimento de pertencimento a uma nação guerreira e intransigente na luta pelo bem comum, a Nação Cariri.

Jackson Bantim é um artista versátil e eclético. Cineasta, fotógrafo, compositor, artista plástico e radialista, além de ser um grande animador cultural e memorialista. Há 20 anos é servidor da Universidade Regional do Cariri – URCA, lotado na Rádio Universitária FM 94.3. Cratense, aniversaria em maio.

Luiz Carlos Salatiel, nascido em Araripe, é de abril. Compositor, cantor, ator, fotógrafo, comunicador, poeta e o escambau, além de produtor cultural. Fez da cultura a sua religião e filosofia de vida. É um sacerdote da arte, na melhor acepção da palavra.

Rosemberg Cariry, nascido em Farias Brito, também é de abril. Uma das maiores referências da identidade caririzeira. O homem que carrega a região até no nome. Poeta, escritor, jornalista, pesquisado e cineasta de renome internacional, só para citar algumas de suas “trincheiras”.

Luís Fidélis, nascido em Juazeiro do Norte, é de outubro. Cantor e compositor de músicas qualificadas e popularmente reconhecidas. Tem músicas gravadas por vários cantores e bandas do Nordeste.

Todos são companheiros e irmãos de vida e de arte. Integraram o Grupo de Artes Por Exemplo, participaram dos festivais da Canção do Cariri e fizeram cinema experimental e documental, ainda nos anos 1970. Fundaram o movimento Nação Cariri, pioneiro na proposição de uma cultura e identidade caririzeiras. Foram protagonistas e abre-alas de uma frente por onde até hoje passamos todos, fluindo nas trilhas da cultura cabloca-kariri.

Salve, salve Jackson, Salatiel, Rosemberg, Geraldo e Fidélis! Flâmulas que brilham e brilharão eternamente, a nos guiarem por essas sendas insondáveis e belas da vida.