14 janeiro 2022

O passado esteve aqui – por José Luís Lira (*)

   O título desta conversa de hoje é uma lembrança. Um livro infanto-juvenil de 1988 que não li por completo, lembro-me bem, porque apareceu “Em algum lugar do passado” e optei por este. Mas, hoje revi sua capa. Não tenho mais o livro físico. Foi-se embora na voragem do tempo e, sinceramente, talvez hoje é que compreenda mais este título. Vamos vivendo e o tempo, como dizia o Cazuza, não para.  Não para. E vez por outra nos encontramos em mesmos lugares, mas, não temos os mesmos convivas, as mesmas sensações e se tem a impressão de que o passado quase passou por ali, mas, recordando Drummond. “Não serei o poeta de um mundo caduco./ Também não cantarei o mundo futuro”. E ouso citar a Rainha Elizabeth II em sua clássica mensagem do último Natal: “A vida, claro, consiste em despedidas assim como primeiros encontros”.

   Este tempo que vivemos não tem sido fácil. Até uns dias nos animávamos com o afastamento da pandemia. Aos poucos a vida começa ou começava a se normalizar. Pude ir ao Rio de Janeiro e cumpri as atividades que me são afetas naquela Cidade Maravilhosa. Por aqui, fui ao cinema e até viajei a Juazeiro do Norte. Fizemos a reunião presencial de fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Sobral – um grande alento. O Natal permaneceu como em 2020, só a família. Não posso nem dizer que poucos amigos lá estavam. Só a família mesmo. E, de repente, não mais que de repente, como dizia Vinícius de Moraes, a turbulência começou a nos assustar novamente.

   O aumento dos casos de Covid e de gripe se constitui realidade e dessa realidade não podemos fugir. É preciso ter cuidado. Parece até exagero, mas, muito cuidado mesmo. E o que resta a nós é nos apegarmos à fé em Deus e na iluminação que Ele dá aos cientistas. Então, temos nos cuidar, nos prevenir e confiar que esse tempo passará. E nessa crônica quase sem tema, sinto-me tentado a citar o cantor Gonzaguinha: “Ontem um menino que brincava me falou/ Hoje é semente do amanhã/ Para não ter medo que este tempo vai passar/ Não se desespere e nem pare de sonhar/ Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs/ Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar/ Fé na vida, fé no homem, fé no que virá/ Nós podemos tudo, nós podemos mais/ Vamos lá fazer o que será”.

    Às vezes queremos até maquiar o nome morte. Dizemos que alguém fez sua viagem, partiu... Enfim, não quero, como nem sempre aceitamos essa realidade. Muita vez a pessoa está sofrendo, inconsciente, mas, nós a queremos por perto. E ela, o que dirá? Dependendo de sua espiritualidade, quer ir aos braços do Pai. Recordo-me de uma amiga cujas penúltimas palavras foram: “Vem logo Senhor”. Isto é fé. Que tenhamos fé!

   Às vezes ficamos com aquela sensação de que o passado veio nos visitar, numa música, num poema, num livro, numa paisagem, numa pessoa. Todavia, no ensinamento da Rainha Elizabeth, lembremo-nos de que os primeiros encontros ocorrem todos os dias. Só precisamos de habilidade para enxergá-los e viver plenamente cada momento.

    E assim seguimos nossa caminhada, seguros de que temos uma missão a desempenhar aqui e que só quando a concluímos é que somos chamados que nem na parábola dos talentos à prestação de contas final, onde estaremos, com a graça da Luz Perpétua, diante de Deus Altíssimo.

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.