11 janeiro 2022

O tempo e o Infinito - Por: Emerson Monteiro


Nesta região sul do Ceará, denominada Cariri, existe uma formação montanhosa característica, a Chapada do Araripe. Do lado Poente dessa chapada, logo nas proximidades da encosta, são encontrados longos veios calcários que oferecem substanciais e nítidos registros pré-históricos do Período Cretáceo, último período da Era Mesozoica, de aproximadamente 130 milhões de anos, que, segundo estudos, seriam originários da época quando surgiram as flores na formação da vida nesta Terra. E na cidade de Santana do Cariri, localizada nesse sítio, funciona um Museu de Fósseis de rico acervo, pertencente à Universidade Regional do Cariri, dotado de peças fossilizadas de vegetais e animais daquele período geológico, aberto à visitação, considerado o terceiro melhor equipamento em nosso País.

Bom, tudo isso eu disse na intenção de justificar um sonho que tive recentemente. Via adiante longo itinerário pelo qual avançara no tempo, algo em torno de dois milhões de anos depois de agora. Fora longe, bem longe. Recordava de poucos detalhes daquele tempo visionário; observava, no entanto, a cor azul como a de maior intensidade qual característica do lugar lá onde me achava então. Mas algo chamou minha atenção, a querer recordar o que vivera aqui no passado das eras, em mundo distante, remoto, ausente. E senti saudade deste lugar e de onde eu hoje sou.

Quis imaginar qual a possibilidade do regresso aos meus inícios e sentir de novo o quanto das emoções atuais. Nisso mergulhava no trilho de onde viera, espécie de linha tênue a se projetar no vácuo do Infinito, na intenção de regressar. Num impulso voluntário, temeroso, avançava pela trilha e, depois de reduzir tudo a um único ponto minúsculo, simplesmente o via sumir em um nada absoluto, sem que nem contivesse na memória o que quer que fosse deste tempo em que ora estou. Isso em hipotéticos dois milhões de anos do sonho.

Avaliemos pois o quanto possui de poder a força da imaginação, que propicia a tantos o recurso de mobilizar o instante do presente aos pousos remotos e inalcançáveis, condão do pensamento e do sentimento, num dispor das criaturas humanas nessas maravilhas da Criação, e ver o tempo se diluir no Infinito e sumirmos juntos.