18 maio 2022

No mar do esquecimento - Por: Emerson Monteiro


Tantas vezes são estas cenas que se repetem na vastidão das memórias fieis. Andar pelas ruas e rever pessoas e lugares do pretérito que nunca morreu. As mesmas cenas assim perduram claras no teto infinito da subjetividade. As histórias de antigamente, nos pagos soltos da saudade. Nisto, hoje achei de caminhar um pouco, em face do carro na oficina, e pausei alguns momentos desses de idos tempos, pelas calçadas onde pisava nos cotidianos dalgumas décadas. Até os prédios velhos ganharam alma nova. Outros desapareceram envoltos nos vestígios de construções renovadas e lojas de artesanato dos dias que desgrudam das ausências e sobrevivem aos desejos insaciáveis do abandono.

Ali as pessoas vivem nos pedaços de lembranças semelhantes ao que foram pelos desvãos das consciências adormecidas. O prédio onde ficava minha primeira escola, por exemplo, agrega uma igreja evangélica em formato diferente. As casas revestidas de taipa de antanho, três quase iguais, num repente mudaram aos moldes das argamassas cinzentas, brilhosas. O mais incrível, a força resistente de grudar por dentro feito pedras irreversíveis, tijolos de metais incandescentes, não acaba nunca nos quereres aqui jogados fora.

E sai a caminhar no calor escaldante de um sol do meio-dia, a meio de silêncios e solidão, nos recantos de mim que restou enternecido às folhas dos pergaminhos das horas outras que regressam ao presente que fossem as velhas ruas deste dia, tal existência das criaturas que permanecem gravadas nas lâminas eternas de cada instante, entre aqui e jamais, formas daqueles engenhos de emoção que fervem as rapaduras da memória e as deixam abandonadas no açúcar das ondas deste mar de eternidades.

Via com nitidez pessoas ali naqueles muros onde as deixara largadas no sonho desse filme insistente. Legiões de afetos, fisionomias, sorrisos; um coração ainda pulsando às aproximações, nos caminhos, nas páginas desse conteúdo que agora sou, de velas ao vento na sequência natural de tudo. Que nem de procurar, me resumo longe nos céus nebulosos dos outros dias, este ser único de quem preciso a fim de ouvir os murmúrios, e viver sempre nesta sede perpétua da continuação das espécies.

16 maio 2022

A resistência da vontade - Por: Emerson Monteiro


O querer desde sempre impõe condições. Qual quem obedece a uma força desconhecida, tem-se a nítida impressão que somos comandados por entes até então desconhecidos, neste mar de fenômenos inevitáveis. Depois da prática vem a virtude dos que praticam. O desejo de acertar naquilo que a vontade determina fica aquém dos que a exercitam. Tais blocos de pedras que descem das montanhas, as atitudes crescem na medida em que os resultados sujeitam os que os deram origem à força de tê-los praticado. Algo assim de receber os próprios frutos, porém quase sem compreender a força que impõe a sua produção. Espécies de consequências de si mesmos, seres pensantes vivem no mar das consequências e adormecem debaixo das suas ações.

Nisso a visão de sermos produtos de nossas ações no decorrer de todo tempo. Sermos o que fizemos do que ora somos; seres agidos, antes de seres agentes. Uma matéria prima da individualidade, fazemos do que nos é dado fazer através das nossas escolhas. Então seremos os frutos das escolhas que tivermos feito. A pretensa liberdade vem nesse ritmo, de termos liberdade a fim de acertar, porquanto errar não é liberdade, mas escravidão.

E a vontade corre solta nesse viver a vida que nos é dada. Após escolher, resta receber os resultados. Nem, muitas vezes, sabe-se o que lhe moveu a agir. Seremos, pois, vítimas ou senhores do que fizermos, e não donatários exclusivos das ações.

Daí a importância da vontade férrea no caminho que desejamos nos sujeitar. O plantio é livre, mas a colheita obrigatória. E longe de alegar que desconhecíamos a Lei do Retorno. A facção do bem reporta o merecimento do Bem. São leis da existência durante qualquer época e onde quer que seja. Fazes por ti e os Céus de ajudarão.

Há de se pensar que o materialismo desconhece a realidade maior, invisível, por conta de alimentar ignorância dos reais propósitos de tudo quanto determinam os acontecimentos, no entanto a eles deverá, sem alternativa, obedecer e render graças ao processo em movimento.

14 maio 2022

Padre Cícero, um Bezerra de Menezes

 Abaixo, postagem antiga feita em  de outubro de 2013, pelo historiador Daniel Walker (in memoriam) no Blog Portal de Juazeiro:

Padre Cícero, um Bezerra de Menezes 


   Alguns ancestrais do Pe. Cícero pertenciam à Família Bezerra de Menezes. Quem lê estudos mais aprofundados sobre a biografia de Cícero Romão Baptista, o padre secular que revolucionou a Povoação do Joazeiro, entre 11 de abril de 1872 - quando chega na povoação para residir, na companhia de sua família (a mãe Joaquina Vicência – chamada Dona Quinô, duas irmãs – Mariquinha e Angélica, e uma escrava, Terezinha) e 20 de julho de 1934, quando falece - deve ter encontrado alguns destes registros. As suas tetravó e trisavó paternas, respectivamente, Petronila Bezerra de Menezes e Ana Maria Bezerra de Menezes, filha de Petronila, eram relacionadas por genealogistas como oriundas da contribuição étnica da família, dos troncos existentes entre velhos povoadores da Bahia, de Pernambuco e de Sergipe, especialmente. Contudo, as ressalvas eram feitas, admitindo-se que eventualmente fossem estes ancestrais consanguíneos.

   Levantamentos mais recentes mostram de forma inequívoca, as relações familiares destes avoengos com as mesmas heranças espanholas e portuguesas já referidas para a ancestralidade do Brigadeiro Lndro Bezerra Monteiro. O nono filho do casal Bento Rodrigues Bezerra e Petronilla Velho de Menezes, se não teve uma grande importância no povoamento do Cariri, menor não é o significado de sua descendência, especialmente, para Juazeiro do Norte, pois representou o berço do patriarca da extensa Nação Romeira, o reverendíssimo padre Cícero Romão Baptista . Assim:
1. João Bezerra de Menezes matrimoniou-se com Maria Gomes, e foram os pais de:
2. Petronila Bezerra de Menezes que casou com o Cap. João Carneiro de Morais, e geraram:
3. Ana Maria Bezerra de Menezes, que desposou o Cap. Francisco Gomes de Melo, pais de:
4. José Gomes de Melo, capitão, de cujo enlace com Ana de Farias, tornaram-se pais de:
5. Vicência Gomes de Melo, que uma vez casada com José Ferreira Castão, foram os pais de:
6. Joaquina Vicência Romana (ou Joaquina Ferreira Castão – Dona Quinô), de cujo casamento com Joaquim Romão Baptista Mirabeau, foram os pais de:
7. Padre Cícero Romão Baptista.

   Por conseguinte, o Pe. Cícero Romão Baptista é um Bezerra de Menezes. Neste caso, sem nenhuma dúvida, este parentesco com os povoadores do Sítio Joazeiro se verifica bilateralmente, pelos lados materno e paterno. (Daniel Walker e Renato Casimiro)  

Postado por Daniel Walker às 15:02


13 maio 2022

Acreditar no imponderável - Por: Emerson Monteiro


Quanta distância entre o visível e o inalcançável pelos sentidos da matéria. Nesse espaço imenso ali acontece a evolução do espírito humano. Dali nascem as buscas, filosofias, religiões. O que um de nós percebe torna-se exclusividade individual, porquanto por mais que digamos, descrevamos, resta uma própria presença de quem ouve dentro da vivência pessoal. Nisso o direito inevitável do respeito a ambos, vez ser impossível só duvidar, vez que ninguém é proprietário do outro na sua essência. São muitas as narrativas das descobertas através dos tempos. O materialismo, a seu modo, impõe limite particular a dizer que existe o que possa cruzar a experiência sensória, o que é pouco face ao aspecto abstrato da existência, a subjetividade da experiência humana.

Ainda assim, persiste a necessidade premente do método, larga conquista da Ciência, a impor a demonstração do fenômeno antes de aceitá-lo qual definição de uma verdade conclusiva.

Porém negar, por si só, é insuficiente a provar a impossibilidade, conquanto conhecesse unicamente uma face do poliedro infinito nas normas do Universo. E negar, apenas negar, em minuto algum oferece inviolabilidade aos conhecimentos científicos, também humanos, aferidos através dos mesmos elementos que pretendem contradizer a imponderabilidade.

Ao afirmar seu absoluto desconhecimento (Sei que nada sei), o filósofo Sócrates testemunha     a insuficiência da percepção diante do Tudo magnânimo da Natureza. O puro raciocínio, raiz do pensamento, estabelece bases relativas ao que o ser humano sustenta de certeza perante o Cosmos. Enquanto isto, outros fatores de compreensão existem que propiciam navegação noutras dimensões, às quais se nega foro absoluto face à subjetividade, a percepção através dos sentimentos, das emoções, dos sonhos, visões que pouco requer da participação dos sentidos materiais.

Todavia há quem afirme que se diz o que pensa que está dizendo, e que o outro ouve o que pensa que está ouvindo, deixando, destarte, a percepção definitiva de tudo quanto há, numa margem de profundidade que afirma a clareza das palavras do filósofo grego que citamos, no mundo particular de cada um.

11 maio 2022

Uma embriaguez coletiva e as redes sociais - Por: Emerson Monteiro


Já ouvi que tempo de guerra é tempo de boatos sem conta. Isso nesta hora a mim me parece semelhante. Cada usuário passou a ser uma fonte de notícias. Ninguém quer ficar por baixo e tomem versões, desencontradas ou não, do cotidiano em jogo. Sei mesmo que quase chegamos a um tempo da casa do sem jeito em matéria de notícias bem concatenadas, porquanto a todos foi dado o poder de emitir seus boletins diários numa velocidade cibernética, graças ao avanço imediato da tecnologia. De todos os lados vêm páginas e acontecidos, sempre a corresponder no gosto de quem os administra, espécie de revelação de profissionais da comunicação numa concorrência surda aos anteriores ocupantes das faixas, das colunas e dos canais, febre de revelações jamais vista no âmbito do jornalismo, desde quando surgiram as páginas impressas, agora virtuais. Ninguém que cheque as fontes, qual dizíamos nos passados ainda próximos das redações coletivas.

Quer-se crer mesmo serem sinais dos tempos, de avalanches de apropriação desencontrada dos meios de massa da informação. Órgãos de elevada credibilidade e tradição hoje viraram meros tabloides informáticos, sob a igual concorrência dos emergentes individuais e só há pouco conhecidos. Raros ainda mantêm edições impressas, com retiradas das ruas, bancas, alamedas, e desaguando apenas no salve-se quem puder da mídia contemporânea instantânea dos computadores e celulares (computadores de bolso).

Ao lado disso tudo, o que eram notícias bem investigadas sob o crivo dos jornalistas de plantão ou pesquisadores fervorosos, às vistas dos chefes de redação, virou meros arremedos. A depender dos interesses em jogo, o próprio direito de opinião atual disputa com o passado as suas prerrogativas. Os custos dos recursos em jogo e a distância das bases saturam tribunais e escritórios advocatícios.

A origem noticiosa trocou, pois, de lugar com a paixão desenfreada dos autores das notícias, o que, decerto, dificultará sobremaneira, mais do  que antes, a narrativa histórica deste ciclo de tanta guerra de critérios e pecados à Ética e aos reais valores na busca dos caminhos conscientes da Humanidade.


(Ilustração: R7 Internacional).

10 maio 2022

As tardes assim - Por: Emerson Monteiro


Das que deixam aqui de junto da gente a larga margem de compreender o som cálido das manifestações que acontecem no bojo da imaginação. Tons pálidos de cinza que esvoaçam suavemente pelas gretas do sentimento e revelam a intensidade maior que tem em tudo de um mistério imortal. Qual pulsar dos mecanismos das horas dentro dessas pessoas, persiste o ritmo monótono da existência enquanto mergulha nas ondas o inesperado; velhos guerreiros que regressam aos pousos de todas as batalhas chegam devagar. Uma espécie de ficção olha de frente a cada pessoa e deixa que desista de acreditar nos segredos apenas guardados a sete capas nas florestas da ausência, que aos poucos some pelo abismo da tarde. Algo que tal, sons cavos das longas noites que virão logo depois ali no deslizar frágil dos dias. Tardes definitivas das doces lembranças só agora trazidas ao silêncio das horas que não terminam nunca. Voos de pássaros invisíveis nas estradas que sustentam, pois, esse calor de sol na alma das criaturas humanas, caudal insistente do somatório das inúmeras vidas espalhadas pelo mundo.

Pudessem determinar os próximos passos e jamais reuniriam tamanhas sombras, que descem pouco a pouco nas encostas do poente avermelhado. Ao fechar os olhos desses viajantes, o dia alimenta para sempre as bordas do firmamento nas entranhas do Paraíso. E adormece dentro de si feito senhor da vontade que arrasta o cordão dos séculos afora. Ele, o autor da solidão que transporta no peito as criaturas a quem deu origem, guardião do próprio sonho de que não quer dele desprender as amoladas garras.

Isto de seguir adiante sob o signo dessas alucinações reunidas no tempo e que ainda irão permanecer estiradas nos desejos das luas inevitáveis e novos sóis, e outros apegos. Assim, tais mantos rubros formados nas pequeninas células que sustentam as individualidades, além do que tenhamos de certeza, restam palavras que se sucedem nas malhas da consciência, adormecida na escuridão das noites. Nós, prudentes anônimos das aventuras deste chão, peças do tabuleiro das dúvidas e mestres na Criação em movimento, eis algures os mártires das epopeias que se desfazem na sombra imensa das árvores em volta. Profundos textos das sinfonias das muitas cores, sussurros cálidos aos ouvidos surdos, melodias do Infinito de que somos agora uma pauta no coração do Universo.

09 maio 2022

Clareza e paz na consciência - Por: Emerson Monteiro

 


Com a medida com que medirdes, medir-vos-ão também a vós. Jesus-Cristo

 Das conquistas individuais uma merece destaque, vistos seus frutos diante dos acontecimentos que vivemos a todo instante, qual seja, o mérito de uma consciência tranquila face às nossas atitudes. Nos livros místicos, o que mais guarnece a vida de uma pessoa bem significa o fiel cumprimento dos sentimentos bons nas histórias dos viventes. Face à Justiça maior, que tudo comanda no transcorrer dos acontecimentos, isto aonde quer que seja, obedecer às leis da existência favorece sobremodo a evolução e representa vitória sobre as armadilhas do inesperado.

Porém não poucos insistem ferir as malhas da ordem através dos improvisos e casos pensados, a calcular possam escapar pelos caprichos do que queira fazer quando queira. E nisso a consciência exerce o papel de agente preservador da espécie, a indicar prudência e honestidade aos que avançam o sinal da sorte e ficam assim na linha de tiro dos destinos. A consciência é este filtro balizador constante que alerta os incautos e clareia o caminho.

Ninguém, portanto, que alegue descaso à Natureza, pois ninguém foge das malhas desse instrumento de absoluta perfeição que já carrega consigo bem dentro do íntimo. Que existem os testes sucessivos de aprimoramento isto traspassa o limite da ignorância, e mostra com insistência, aos que precisam, as consequências das ações tresloucadas, impondo condições e preço ao que virá em consequência.

Aqueles que atentam contra a justiça natural, com isto recebem de volta o custo que terá de pagar no regresso ao caminho do qual nunca houvesse abandonado. Tal o mérito infalível das reencarnações, invés das calandras do fogo eterno. Nas vindas das muitas existências aqui na matéria, virão resgates ou recompensas do quanto das práticas exercidas nas vidas. Daí o tanto de exatidão na matemática das gerações, lugar de plantio e colheita neste solo da nossa própria consciência. 

07 maio 2022

Bispo de Crato encontra-se em Roma

  Dom Magnus Henrique Lopes, Bispo Diocesano de Crato, está em Roma, em Visita Ad Limina Apostolorum, que acontecerá de 8 e 15 de maio do corrente ano.

 

Neste domingo, o programa "Fantástico" exibe matéria sobre a Beata Benigna

   Neste domingo, 8 de maio, o Fantástico (@showdavida ) irá contar um pouco mais sobre a história de Benigna Cardoso, beatificada no próximo dia 24 de outubro. 

   A equipe de reportagem esteve em Santana do Cariri, conheceu o local do martírio, o santuário, e conversou com pessoas que conviveram com a “Heroína da Castidade”


 

Na seca do Nordeste, o desvelo do Imperador por seu povo

 

   Quando, em 1877, o Imperador Dom Pedro II retornou ao Brasil, após sua segunda viagem ao Exterior, grandes festejam haviam sido planejados para a sua chegada. Mas a satisfação de retornar ao lar foi diminuída pelas más notícias da Província do Ceará, onde a fome rugia, depois de prolongada seca.

    Dom Pedro II cancelou as celebrações oficias, dizendo que os fundos reservados para tal fim deveriam ser empregados no trabalho de alívio aos flagelados. Apesar dos grandes gastos que tivera na viagem, o Soberano destinou parte de sua dotação para a mesma finalidade.

   Durante uma reunião do Gabinete de Ministros, o Ministro de Estado da Fazenda informou:
– Majestade, não temos mais condições de socorrer o Ceará. Não há mais dinheiro no Tesouro.

   O Imperador então baixou a cabeça por alguns instantes, antes de dizer com firmeza:
– Se não há mais dinheiro, vamos vender as joias da Coroa. Não quero que um só cearense morra de fome por falta de recursos.

Fonte: Xavier, Leopoldo Bibiano. Revivendo o Brasil-Império. 1º ed. São Paulo: Artpress, 1991, pp. 74-75.

Publicado originalmente no site Pró Monarquia

05 maio 2022

A escrita e os sentimentos - Por: Emerson Monteiro


Do jeito de ver a vida tal seja o jeito de escrever. Se com otimismo, alegria, as palavras acompanham tais sentimentos e os transmitem na vontade dos que escrevem. Sem deixar que o estado de espírito circunscreva a escrita é difícil criar um texto que isso não transpire, no ânimo de quem a utiliza. De tal modo a força de escrever tem esse condão de influenciar o leitor e permitir que ache no que lê o alimento que lhe acrescente naquilo que pretenda.

São quantos, são tamanhos os resultados da escrita no decorrer da civilização, que daí nasceram as religiões, filosofias, doutrinas, raízes dos caminhos de quem conduz os grupos. Filões de instrumentos, os textos perpassam turnos da História de modo constante, inclusive nas versões posteriores dos acontecimentos, resultados de quem a conta, a dizer que a história é dos vitoriosos, dos que permanecem no poder após embates de povos e nações.

Há também as angústias dos desesperados que recusam ficar em silêncio. Contam de suas dores, frustrações, seus percalços, desde que possam chegar adiante e relatar dramas e perdições por que houvessem de transcorrer, deixando, assim, a canção dos sofrimentos na forma de poemas, romances, narrativas atiradas aos mares ignotos em busca doutros incertos destinos.

Escrever... Gestos aflitos dos que recusam o vazio da ausência. Vem disso o desejo de preservar a consciência dos tempos na viagem pelas mentes e épocas. Em decorrência da escrita, provêm os outros meios de ir mais longe às pessoas através dos folguedos populares, cinema, teatro, imagens visuais, fotografia, sempre a descrever momentos e plasmar os dias que somem céleres pelo abismo do passado.

A narrativa, por isso, sustenta a memória das gentes e reflete os sentimentos que vivem soltos na imaginação. Este o sonho da Salvação que há de, eternamente, revelar à aventura humana o encontro das palavras e dos pensamentos nas praias do definitivo. 

(Ilustração: William Blake).

04 maio 2022

Viagens pelas cavernas da alma - Por: Emerson Monteiro


Nas circunstâncias dessas daqui do Chão, lugar onde moram as nossas presenças, vive-se entre árvores de pensamentos e palavras, num processo ininterrupto de registrar os pedaços de tempo que escorrem todo momento. Elas, as florestas de acontecimentos, também nos envolvem; julgamos isso constantemente na medida em que trocamos a solidão pelas suas versões individuais no movimento dos dias. Todos, sem qualquer exceção, singram os ares e produzem neles os seus habitantes, crostas de si mesmos. Quanta imprevisão, pois, a todo tempo. Ainda fora de uma visão definitiva, preenchem esse espaço aberto, artesões das histórias imaginárias. Avistam até onde a visão pode chegar e se prendem aos instintos de sobreviver. Assim revelam as dores e os amores deste mundo na carcaça que jogam no lixo.

Quer-se reunir as tais versões individuais através dos documentos escritos, das paisagens fotografadas, dos quadros, filmes, músicas, no entanto estes sendo meros escolhos do que resta bem longe da realidade, daí nascendo outras e novas realidades, fabricadas no vazio das criaturas. A ânsia de não perder o rio dos dias força as multidões a plantar flores nos jardins da humanidade. Nisso, marcas profundas invadem o mistério das histórias e somam ao que antes foram presenças, mas que sumiram no limbo do passado. Espécie de vultos sombrios, lá nas ruas desce o séquito desses que foram e aqui permanecem na memória dos entes vivos.

Ora seres esquisitos, contudo, tocam adiante o fardo das horas em forma de imagens que persistem no solo dessas pessoas iguais que somos. Qual figuração de si mesmos, os humanos tecem o mar das existências com essa mesma linha do que sejam eles e que depois restarão tão só as mãos das outras criaturas que nem existem mais. Daí as melodias desse tempo inesquecível dos animais que pensam e continuam a produzir o Eterno das próprias entranhas, fragmentos extintos de antigas tradições que já desapareceram.

Quando vemos ao nosso lado o reflexo de cada um de nós nas individualidades que nos acompanham, vem isto de saber que nesses outros ali de junto também reviveremos para sempre. E dormiremos em paz no coração das ausências imortais.

02 maio 2022

Quando nascem os sonhos - Por: Emerson Monteiro

 


Tudo são sonhos dormidos ou dormentes!
Cecília Meireles

 Agora, quando a necessidade obriga, todos passam a viver dias de sonhos bons que precisam a fim de orientar os humanos. As horas se desmancham pelos ares e uma fome de novos momentos que sejam felizes cresce no peito das criaturas que ora vivem a gênese disto, de atravessar os dias de angústia e revelar aos sentimentos da vontade extrema de acreditar em novas possibilidades que moram vivas no coração das pessoas e adormeceram sob os escombros dos conflitos doentios da sociedade. Isto acontece, na maioria das vezes, quando impera esse drama das feras de violentar o equilíbrio da espécie, deixando tantos só a imaginar tempos outros dos dias de paz e querer de ser feliz qual vocação da espécie.

Assim nascem os sonhos, lá de dentro das salas escuras dos gabinetes que planejam destruir, em nome da prepotência, os desejos de dominar a riqueza e sucumbir aos instintos de perdição de que são eles responsáveis. Tal agora, quantos viajam nas trilhas misteriosas de alimentar sonhos de amizade, solidariedade humana, auxílio de uns aos outros, face os trâmites das guerras que nunca param, no seio da mesma humanidade da qual fazemos parte. E querer construir a esperança nos que vagam pelos países, sem teto, sem pão, vítimas da truculência deslavada dos bárbaros que sustentam armas construídas com a riqueza das populações em sacrifício.

Agora, nesses turnos de ignorância, o desejo do bem serve de instrumento da revivescência dos séculos em nossas próprias mãos calejadas. Esperar, que deixa de ser um verbo atual. Carecemos de praticar o que aprendemos; revelar todo tempo o que já adquirimos de conhecimento, independente dos quereres injustos dos brutos. Sejamos, por isso, a razão que possa faltar naqueles em quem não mais acreditamos que possam reviver os anseios de todos na face da Terra, à procura das teorias tão propagadas dos dias melhores sem as vivências de fraternidade e progresso. A hora é esta e protagonistas já o somos, longe das sombras que eles são. A ocasião ideal de vislumbrar essa força de que somos dotados eis o atual instante, pois.