08 abril 2022

Os dias grandes para os cristãos – por José Luís Lira (*)

   Para muitos, a Semana Santa se resume aos feriados – facultativo de 5ª feira e obrigatório de 6ª feira. Em minha família nunca foi assim. Logo na sexta-feira que antecede a Semana Santa nós entramos no clima da Paixão de Cristo. A imagem de Jesus carregando a cruz percorrendo as principais ruas e o encontro d’Ele com Maria, sua mãe, Nossa Senhora das Dores, nos emociona profundamente. Quando morávamos no sítio, sábado era dia de ir à cidade comprar os mantimentos para os Dias Grandes, sem esquecer-se de trazer um pouco a mais para doar aos que vinham pedir “esmolas” para o jejuar. Ainda no sábado à tarde, acompanhávamos nosso pai para a retirada do melhor “olho” de palmeira para o Domingo de Ramos, quando íamos à Missa vespertina e voltávamos para casa contritos, pois, os dias seguintes seriam de silêncio e respeito.
    
    A propósito, amanhã é Domingo de Ramos. Celebraremos a entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa de Jerusalém. E o tema, inevitavelmente, me leva ao título do livro do Papa Bento XVI, “Da entrada de Jerusalém à Ressurreição”. Hoje temos a sorte de sua trilogia estar reunida num só livro. E este é quase um companheiro, ao logo das festas litúrgicas, se iniciando com o Natal, passando tempo comum, Quaresma e Páscoa!

   Voltando aos Dias Grandes, penso que na infância o feriado se estendia por toda a semana. Assistíamos na TV, em preto e branco, a Paixão de Cristo, em vários episódios. Como no sítio só tinha TV lá em casa, os vizinhos acorriam e esta era posta do lado de fora, quando não chovia.

   Com o passar do tempo, o feriado foi se resumindo. Só a partir da quarta-feira de trevas, data que lembra a traição de Judas e a entrega de Jesus aos seus carrascos, era feriado. Depois, o feriado se dava a partir quinta-feira santa, hoje, em alguns lugares considerada ponto facultativo; é dia importantíssimo para os cristãos-católicos: celebração do lava-pés, instituição do sacerdócio e da Eucaristia, presença permanente de Cristo no nosso meio. Atualmente o feriado é sexta-feira da Paixão, dia de jejum e abstinência de carne. Mas, no íntimo continuo achando que a semana toda é santa. São os dias mais importantes para a nossa fé cristã.

   A mim, no ambiente familiar, sinto o mesmo clima em relação àqueles sagrados ritos e a o preparo para os Dias Grandes. Esta semana o papai, atento, se preocupava em comprar queijo, peixes, em saber se o feijão “novo” plantado lá no sítio estará bom na Semana Santa. A mamãe lembrava que sexta-feira de Passos não comeríamos carne e parece que o tempo agradavelmente voltara... O clima de Semana Santa, como antigamente, se renovou. É a primeira Semana Santa após o período mais complicado da pandemia, mas, ela ainda não chegou ao fim.  Peçamos a Deus para que voltemos, plenamente, à vida normal.

   Participaremos das celebrações, algumas presenciais, outras à distância, rezaremos em família, jejuaremos na sexta-feira santa e cantaremos Aleluia no Sábado Santo, em preparo à Páscoa, pois, o Senhor Ressurgido da morte sobre nós derrama bênçãos. Renovamos a esperança de que a Páscoa do Senhor nos traga o fim da pandemia e a paz que aspiramos!

   Lembremo-nos que a Semana Santa não é um feriado, mas, um período de rememoração de Deus que se fez homem e habitou entre nós!
    Abençoada Semana Santa!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.



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