30 março 2022

Fidelidade doutrinária - Por: Emerson Monteiro


Dentre as argumentações de Allan Kardec a propósito da verdade espírita como instrumento divino de redenção, uma há que, por si, suficiente seria à defesa da tese: a concordância dos ensinos, na mesma ocasião em todos os lugares onde eram recolhidos através do fenômeno mediúnico.

Quando as guarnições do Espírito da Verdade se lançaram a campo, nos diversos centros, distantes ou próximos, sobretudo na Europa, médiuns foram acionados e o confronto das comunicações coincidiu em seus postulados essenciais.

Os temas abordados deixaram entrever, com clareza, conceitos reencarnatórios, de mundos habitados, escala dos espíritos, leis morais, dentre outros, sem contradições que comprometessem a brisa nova que percorria a crosta terrestre.

Depois, o trabalho veio se materializar com a participação firme de Kardec, o bom senso encarnado, no dizer de Camille Flammarion. Em O Livro dos Espíritos se localizam as estruturas basilares da filosofia transformadora, em l.0l9 perguntas, feitas pelo Codificador, numa visão científica da necessidade humana de conhecer os segredos universais e respondidas pelos espíritos a serviço da Terceira Revelação.

Em tudo, e por tudo, há coerência lógica. Os membros da Sociedade de Ciências de Paris, no ano de l857, na ocasião do lançamento de tal obra, foram unânimes em asseverar que ali estavam respondidas todas as perguntas que qualquer estudioso, de sã consciência, faria sobre a vida após a morte.

Esse patrimônio, hoje, supre as interrogações que se arrastaram durante tantos séculos, herança benfazeja daqueles que têm o merecimento de alcançar. Portanto, digno do respeito das coisas sublimes, alívio dos aflitos, alimento dos famintos, bálsamo dos feridos e código do Amor de Deus, a informação espiritista deve ser, desta forma, apreendida e praticada, para mostrar toda a sua pujança transformadora.

Pois se trata de edifício doutrinário que não contém reparos, nem os comporta, uma vez apagar as dúvidas com fachos luminosos de transparência sem precedente na história dos humanos.

Felizes dos seres que galgarem a compreensão da Doutrina dos Espíritos, estabelecendo vidas em suas pautas de Luz. Quando assim se der com a Humanidade inteira, a Terra será morada de uma raça espiritual superior, e Jesus-Cristo voltará a viver no meio de nós.

Dina - Por: Emerson Monteiro


Depois de servir a Labão tempo suficiente para receber em casamento suas duas filhas Lia e Raquel, Jacó decidiu retornar ao país de Canaã, onde deixara seu pai.

Aproveitou uma ocasião de ausência do sogro, quando este saíra na tosquia dos carneiros, e fugiu em segredo, levando consigo tudo o de que se achou digno, a título de remuneração pelos vinte anos em que ali passara.

Três dias depois, ao saber da retirada intempestiva que custava a perda de filhas e netos, nada satisfeito, Labão reuniu seus irmãos e perseguiu Jacó sete dias, indo alcançá-lo no monte de Galaad.

Antes, porém, fora avisado em sonho que deixasse Jacó e suas filhas continuarem a jornada, se despedindo deles com forçada amizade, após formalizar pacto no monte Galed, denominação dada por essa razão:

- Este monte, a partir de hoje, é testemunho entre nós dois - com isso, Jacó deu andamento à caravana, tangendo seus rebanhos até chegar à cidade de Salém, no país de Canaã, armando acampamento nas cercanias da povoação.

Logo adquiriu, junto aos filhos do governador Hamor, pela quantia de cem moedas, uma gleba de terra, instalando-se no novo país.

Alguns dias mais, e Dina, uma das suas filhas Jacó, ao sair na busca de fazer amizade com as mocinhas da localidade, viu-se notada por Siquém, filho de Hamor.

Tomado de arrebatadora paixão, Siquém resolveu se apoderar da jovem, violentando-a de inopino, com isso precipitando os nefastos acontecimentos que daí sucederiam.

Praticada a injúria, só então Siquém resolveu dirigir-se ao pai dizendo querer a moça para sua esposa. 

Na seqüência do incidente, o pai de Siquém buscou Jacó. Queria contemporizar as greves circunstâncias ocasionadas pelo filho. Sua proposta: que fizessem a aliança das tribos e pudessem entrelaçar as famílias, desde aquele que seria o primeiro dos casamentos entre elas.

Mal satisfeitos, os filhos de Jacó protestaram, no entanto, por conta de Siquém ser incircunciso e nisso não merecer casar com sua irmã. O motivo propiciou a que estabelecessem as bases de acordo onde todo varão daquele povo aceitasse o dever da circuncisão, a partir de Siquém, caído que andava de amores por Dina.

E procederam segundo o estabelecido.

No terceiro dia, contudo, deu-se terrível contradição. Simeão e Levi, filhos de Jacó e irmãos de Dina, traindo as bases do combinado, armando-se de espadas, marcharam contra Salém e eliminaram seus cidadãos ainda abatidos pelo ritual da circuncisão neles pouco antes executada.

Nas ações agressivas também eliminaram Hamor e seu filho Siquém, enquanto Dina, que fora residir na casa de Siquém, nisso trariam de volta. Despojaram corpos, saquearam a cidade e os campos, e apropriaram-se dos rebanhos e dos bens que encontraram pela frente. Nada restou incólume, nem crianças, ou mulheres, transformadas em prisioneiras e despojos de guerra, isto segundo o livro bíblico de Gênesis (34, 26-29), onde há registros do trágico drama.

28 março 2022

Perquirições arrevesadas - Por: Emerson Monteiro


Perquirições é o plural de perquirição. O mesmo que: devassas, pesquisas, averiguações, indagações, inquirições, investigações, perquisições. Dicio - Dicionário Online em Português

 Nesses tempos que é de apuração dos resultados eis aqui o termo melhor indicado às ações de observar e viver cada momento útil. Reunir as estações, os infinitos e as luas numa só direção; plantar o solo fértil de tudo quanto até então aconteceu diante dos fins de tarde inebriantes e manhãs primaveris, enquanto nossa humanidade alimentava o sonho de dominar o quanto existiu. Longas essas noites de alucinações, festejos e desapreço pela determinação do que virá, pedaços de matéria largados no horizonte das mais febris indagações.

Assim, a gente... Sujeitos de tudo, senhores de nada, que seguem sorrateiros nas frestas das madrugadas, sombrios vácuos da realidade que se desfaz numa velocidade sem dimensão. Enquanto isto, à mesa das refeições, os pratos da exatidão matemática dessas criaturas vindas do desconhecido sobrevivem nas custas da ausência que em si mesmas transportam vidas afora.

Daí, paramos face ao monturo desses restos de passado que voejam na fuligem de tantas guerras, vítimas da incúria e da ignorância que parecem querer a tudo dominar e nos digerir na lama de uma inanição artificial. Nós, senhores do absoluto de nós mesmos, máquinas de contrição, sobras do baquete das horas em movimento. Pequenas fagulhas de todas as compreensões, que deitam braços aos sóis e dormem sobre os espinhos do egoísmo. Andamos, pois, rumo ao Norte desses sinais misteriosos, contudo muitos afeitos aos erros das lutas insanas, dos gestos de dor que impõem o limite da condição humana em desenvolvimento.

Utilizamos as vasilhas dos dias a julgar tantos equívocos, porém há que lembrar com gosto o quanto dos acertos já creditamos às nossas atitudes, neste crescimento de conhecer aquilo que nos resta examinar com carinho. Mesmo que vítimas da imprudência, no entanto reconhecer o valor inestimável do que já produzimos nesse decorrer de gerações, e guardar no íntimo coração o brilho forte da esperança e da fé.

26 março 2022

Palavras proferidas na inauguração do "espaço-memorial" do Padre Cícero, no Palácio Episcopal de Crato, em 24-03-2022 -- Por Armando Lopes Rafael

 

   Na mensagem de outubro de 2014, enviada pelo Secretário de Estado de Vaticano, Cardeal Pietro Parolin ao Bispo do Crato – em nome do Papa Francisco – contém um parágrafo, emblemático. A conferir.

“(...) não é intenção desta Mensagem pronunciar-se sobre questões históricas, canônicas ou éticas do passado. Pela distância do tempo e complexidade do material disponível, elas continuam a ser objeto de estudos e análise, como atesta a multiplicidade de publicações a respeito, com interpretações as mais variadas e diversificadas. Mas é sempre possível, com a distância do tempo e o evoluir das diversas circunstâncias, reavaliar e apreciar as várias dimensões que marcaram a ação do Padre Cícero como sacerdote e, deixando à margem os pontos mais controversos, pôr em evidência aspectos positivos de sua vida e figura, tal como é atualmente percebida pelos fiéis”.

    Esta solenidade se insere dentro dos pequenos gestos, advindos após aquela mensagem oficial, enviada há oito anos pela Santa Sé. Ela se insere nos gestos, sempre crescentes, das análises sobre os frutos advindos da herança espiritual deixada pelo Pe. Cícero. Estamos, agora, materializando um pequeno gesto. Dando continuidade às pequenas atitudes – algumas vezes feitas com pequenas (e grandes) palavras...  De olho nas perspectivas da História. Os grandes acontecimentos históricos resultam, muitas vezes, do somatório de pequenos gestos... Estamos agora fazendo, embora tardiamente, uma significativa homenagem – há muita reclamada - a um dos mais ilustres homens nascidos nesta Cidade de Frei Carlos Maria de Ferrara.

     Parabéns ao Pe. Ivo, idealizador deste pequeno memorial.  Parabéns ao Pe. José Vicente, o qual, como Administrador Diocesano temporário, apoiou esta iniciativa. Nem é necessário justificá-la. Pois, dentre as personalidades nascidas no Cariri, Padre Cícero tornou-se a mais conhecida em todo o Brasil. Ele veio ao mundo, aqui, neste pequeno chão, que agora pisamos, da então Real Vila do Crato, em 24 de março de 1844. Homenagem justa.

       Deus lo vult.  (Deus o quer)

    Padre Cícero foi, inegavelmente, um padre humilde e obediente aos seus superiores. Também obedientes às autoridades da nossa Igreja foram – e continuam sendo – os devotos deste sacerdote. Sobre o Padre Cícero já foram escritas mais de duas centenas de livros; dezenas de teses de doutorados (em renomadas universidades brasileiras e estrangeiras) e centenas de monografias de mestrado. Abordando a figura do Padre Cícero, foram realizados filmes (de curta e longa metragem), além de documentários, seriados e reportagens para a televisão. Incontáveis são as matérias e reportagens publicadas em revistas e jornais sobre este sacerdote. Sem falar nas canções gravadas e nos cordéis publicados pelo povo. Inimaginável o número de ruas, praças e estabelecimentos comerciais – com o nome do Padre Cícero – espalhados Brasil afora. Incontáveis os monumentos públicos e particulares – pequenos bustos ou de corpo inteiro – espalhados na vastidão da Nação Romeira, como é chamado o semiárido nordestino, onde o Padre Cícero continua a ser, cada vez mais, admirado, venerado e amado... 

     E agora, neste gesto concreto, nesta Cúria Diocesana de Crato, é afixada uma placa comemorativa ao local do nascimento do Padre Cícero. Nada mais precisa ser dito. O fato fala por si. Parabéns à Igreja Particular de Crato pela continuação deste diálogo (prudente, transparente e verdadeiro) com seus fiéis daqui e de longe sobre a figura do Padre Cícero. Afinal, a influência da Diocese de Crato não se restringe ao espaço geográfico do extremo meridional do Ceará.  Vai além. Chega ao imenso Sertão Nordestino e até em menor escala noutras partes do Brasil. Tudo isso graças à memória do Padre Cícero.  

     Obrigado pela atenção!

25 março 2022

Há 104 anos um jornal surgia em Sobral– por José Luís Lira (*)



 

    Domingo, 31 de março de 1918. Os sinos do campanário da Catedral de Sobral tocavam alegremente, pois é a Ressurreição de Cristo. Domingo de Páscoa que nos remete à boa-nova de Cristo. Graças a Dom José Tupinambá da Frota, sobralense, símbolo maior da sobralidade, nosso primeiro bispo, surgia um jornal semanal da Diocese de Sobral, então, com menos de 3 anos de instituição. Na Sobral, literalmente de Dom José, circulava o primeiro número do Correio da Semana, tendo como redator o Padre Leopoldo Fernandes, primeiro Cura da Sé Sobralense, que 4 anos depois, há cem anos (1922), foi um dos fundadores e primeiro presidente da Academia Sobralense de Letras que teria pensado o jornal junto com o Padre José de Lima, primeiro Vigário da Paróquia do Patrocínio.

   Ao longo de 104 anos, muita coisa mudou. Findou a Primeira, teve início e conclusão a Segunda Guerra, a sociedade começou a mudar, primeiros colabores e o fundador do jornal faleceram. Neste jovem século, uma guerra surgiu em meio a uma pandemia; o Sumo Pontífice da Igreja Católica, Papa Francisco, protagonizou cenas memoriais, nestes tempos ditos pandêmicos: percorreu a Praça São Pedro sozinho e abençoou o mundo e fez a Consagração da Rússia e da Ucrânia ao Sagrado Coração de Maria, unido com o Papa Emérito Bento XVI e os Bispos de todo o mundo.

   Em suas páginas ficaram gravadas a História de Sobral, de suas paróquias; das paróquias das atuais Dioceses de Crateús e de Tianguá; do velho Seminário São José da Betânia, cantado em prosa e em verso, principalmente nos versos do ex-aluno e poeta maior Pe. Osvaldo Carneiro Chaves, saudoso; da Academia Sobralense de Letras, de 1922, fundada pelo Pe. Leopoldo Fernandes; da Academia Sobralense de Estudos e Letras, de 1943, fundada pelo Mons. Vicente Martins, que por decisão de seus membros, sucede a anterior; da Academia Sobralense de Letras Jurídicas e, por último, do Instituto Histórico e Geográfico de Sobral, os dois últimos por mim fundados; da Faculdade de Filosofia Dom José (extinta), fundada por Dom José Bezerra Coutinho; da Universidade Vale do Acaraú, depois transformada em Universidade Estadual Vale do Acaraú, fundada pelo Mons. Francisco Sadoc de Araújo; da transformação da Heráldica Cidade em Cidade Universitária, com a chegada de universidades públicas e institutos, centros universitários; as posses de prefeitos, vereadores e outras autoridades civis, militares, eclesiásticas, com destaque para os nossos bispos, Dom José Bezerra Coutinho (bispo auxiliar, 1956); Dom João José da Mota e Albuquerque (1961), Dom Walfrido Teixeira Vieira (1965), Dom Aldo de Cillo Pagotto (1998), Dom Fernando Saburido (2005), Dom Odelir Magri (2010) e de nosso atual Bispo e Pastor Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos (2015).

   O jornal se tornou História. É mais que centenário. Se perpetua no tempo. Parabenizo a toda a equipe administrativa, técnica e de colaboradores nas pessoas do Sr. Bispo Diocesano, Dom José Vasconcelos, Pe. Lucas Moreira, Wilson Calixto e Marcildo Brito. Aos diretores passados, felicito-me na figura do imortal Mons. Francisco Sadoc de Araújo. Que as páginas do Correio da Semana, o mais antigo jornal do Ceará em circulação, continuem a levar aos nossos lares a boa-nova, a boa-notícia!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


22 março 2022

Escrever tem disso - Por: Emerson Monteiro


De recolher pensamentos no decorrer do tempo e formar nova realidade por dentro, através das palavras que descem ao papel. São lembranças, emoções, sentimentos; retalhos da presença da gente com a gente mesma, num processo de contar o que se passou no tribunal da consciência. Às vezes, são duras penas, saudades, angústias, etc.; e doutras, alegrias, doces recordações, planejamentos e encontros consigo próprio, nessa jornada de viver e aperfeiçoar  o sentido das horas no íntimo. Viram imagens mentais que as letras reúnem por meio do discurso e das falas escritas. Nisso, as previsões de um futuro que nascerá de nossos braços e que nem nós sabemos o quê ou quando virá.

Esse jornal que vem e vai no território interno das pessoas serve de motivo a imaginar o ser que somos, longe, no entanto, da realidade plena que todos buscam sem saber direito o que seja. Representa a produção de significados de onde colhemos as experiências e transformamos no diálogo interno, a fim de construir um eu melhorado, aprimorado, que, lá certa vez, fará de nós alguém que venha merecer a vida de novos seres. Um processo de aperfeiçoamento em que revisamos as atitudes e modos de plantar as sementes da evolução.

Escrever, pois, qual quem analisa a si e trabalha o ente que ora seja na personalidade, no caráter, longe de poder esconder a verdadeira natureza que já conhecemos agora. - Quem engana se engana, qual diz a sabedoria do povo. Autoconhecimento, autocrítica, isso bem representa o instante atual de todos, em fase contínua de revisão, nos textos que produz.

O que vejo de maior destaque nisto de mergulhar na alma e desvendar seus mistérios demonstra que estamos onde precisamos estar e que existe um itinerário a cumprir no decorrer de tudo. Nós conosco, nesta empreitada rumo a níveis mais adiantados de perfeição. Limpar o ser que aqui vemos e aspirar graus maiores de esperança e felicidade, à medida que pratiquemos as virtudes adquiridas em cada existência. Nós, senhores da realização do Ser em si mesmo. E as palavras a servir de instrumento a tais avaliações continuadas.

(Ilustração: O jardim das delícias terrenas, de Pieter Brueguel, o Velho).


Crato inaugura espaço-memorial do Padre Cícero – por Armando Lopes Rafael

Memorial feito para assinalar o local onde teria nascido o Padre Cícero

     O antigo Palácio Episcopal de Crato – onde hoje está localizada a Cúria Diocesana – ganhará na próxima quinta-feira, 24 de março de 2022, um pequeno memorial para assinalar o mais provável local de nascimento do Padre Cícero Romão Batista. Como é de domínio público, naquele terreno – numa casinha simples situada entre árvores fruteiras – teria nascido, em 24 de março de 1844, o menino Cícero, filho do casal Joaquim Romão Batista e Joaquina Ferreira Castão (Dona Quinô).

   Duas versões sempre circularam sobre o local do nascimento do Padre Cícero, na cidade de Crato. A primeira, defendida pelo escritor Irineu Pinheiro, é que ele teria vindo ao mundo numa casa localizada na antiga Rua Grande, hoje denominada Rua Miguel Limaverde. No entanto, conforme pesquisas feitas pelo historiador Padre Antônio Gomes de Araújo, publicadas na revista “Itaytera”, Ano V, Número 5 (1959) e, posteriormente, reproduzida no seu livro “A Cidade de Frei Carlos” (1971), consta:

“É corrente que, no chão onde hoje se ergue o Palácio Episcopal, nasceu o Padre Cícero Romão Batista. Esta informação me foi prestada pelo Cônego Climério Macedo, que afirmou: “Minha tia paterna, Missias Correia de Macedo, cortou o cordão umbilical do Padre Cícero, numa casa que foi substituída pelo atual Palácio Episcopal de Crato (...) no terreno onde se ergue aquele palácio, havia de fato uma casa, que foi cenário, por exemplo, da recepção do Padre Cícero quando este chegou do Seminário de Fortaleza, ordenado sacerdote, bem como das festas que envolveram a celebração de sua primeira missa. É certo que dita casa pertenceu ao major João Bispo Xavier Sobreira (...) com sua morte a dita casa passou à viúva, dona Jovita Maria da Conceição. Seus herdeiros venderam a casa a esta diocese”.

    Esta versão é defendida hoje pela maioria dos historiadores cratenses.

O pequeno memorial

     Por iniciativa do Pe. Joaquim Ivo Alves dos Santos – Pároco da Paróquia de N. S. Aparecida de Crato e ecônomo da Diocese de Crato – foi providenciada uma pintura, numa parede existente nos jardins da Cúria Diocesana, muro esse que é um provável resquício da casinha onde teria nascido o Padre Cícero. Ali está agora um desenho com a figura do Padre Cícero, de seus pais e de uma irmã do sacerdote. Também foi colocada uma placa para assinalar a efeméride, bem como instalada uma pequena estátua do Padre Cícero. Iniciativa louvável e que agradou a muitos caririenses.

        Agora, na cidade de Crato,  serão dois os lugares a serem visitados pelos devotos do Padre Cícero, Anteriormente, ao tempo que Dom Edmilson Ferreira Neves (hoje Bispo de Tianguá)  foi Cura da Catedral de Nossa Senhora da Penha, ele restaurou a pia batismal da Sé cratense. Lá foi colocada uma fotocópia da Certidão de Batismo do Padre Cícero, constante da folha 61 do Livro de Batizados de 1843 a 1845 – onde se lê:

“Cícero, filho legítimo de Joaquim Romão Batista Meraíba, e de sua mulher Joaquina Ferreira Castão. Nasceu em 23 de março de 1844 e foi batizado pelo pároco solenemente com santos óleos nesta cidade do Crato em 8 de abril do mesmo ano. Foram seus padrinhos seu avô paterno Romão José Batista e Antônia Maria de Jesus, do que para constar mandei fazer este assento em que me assino. Manuel Joaquim Aires do Nascimento”.

   Crato começa a conservar a lembrança do seu filho ilustre, Padre Cícero Romão Batista...

Pia batismal da Catedral de Crato

    

20 março 2022

Olhos postos no Infinito - Por: Emerson Monteiro


Ninguém foge de si mesmo. Porém aonde ir que não seja ao sumidouro da ausência, quando lá estaremos na certa. Conclusões nítidas face aos céus da alma da gente, avaliações por demais necessárias a que cheguemos à conclusão definitiva da importância de existir. Conjugar todos eles os tempos na primeira pessoa, vez que de olhos no universo o Tempo alimenta o presente na máquina de contar segundos e sustentar as colunas de tudo a desmanchar sem chance alguma de dominar o momento.

Assim, passa aos olhos o circuito inextinguível de acompanhar nossas ações e seus resultados, as ações da Natureza pelo visor dos acontecimentos. Nós, de tão pequenos a tão grandes, por contar essa virtude da presença e de ter consciência a escorrer no caudal, aparecer e desaparecer na tela de uma nossa mente contínua. Vítimas e privilegiados, pois, no único ser que o somos e deixamos de ser em seguida enquanto iscas incessantes de transformar sonhos em realidade, nesse túnel que liga passado e futuro e que nos engole devagar pelas suas células das entranhas.

A quantas anda, portanto, o destino, essa casa constante que domina e que a ela nos rendemos sem qualquer alternativa senão dominar a um só tempo a dor e o prazer. Escafandristas de nós, por isso invadimos territórios e distâncias, e mergulhamos nesse mar sem fim, estonteante, escravos e senhores da própria sorte, de olhos postos no Infinito da história que constróe sempre novas saudades e novos amores. Daí, sermos todos meros vazios em preenchimento no decorrer do mistério que ainda de longe ignoramos o que resta.

Quando ouvimos o que contam de outras horas, de outros lugares, outras dimensões, alargamos as horas da imaginação e persistimos de continuar feitos autores de roteiros adormecidos aonde desaparecem luas e sóis. Pedimos de nós a paciência de que tudo isto dará aonde nasce a esperança e fé, e viveremos a nós mesmos numa longa espécie em evolução.

Deixar, contudo, que flua esse pulsar do Tempo no íntimo das criaturas, eis o modo prático de escutar a voz do silêncio e dormir o sono adiante das certezas de que, logo ali adiante, reviverá na paisagem.


19 março 2022

Hoje, 19 de março de 2022, é dia de São José -- por José Luís Lira (*)

 

"São José e os Santos" (Pintura de Cecilia Lawrence)  

     Em minhas pesquisas, localizei essa imagem retratando São José com um rosário na mão. Os santos ao redor de São José são à direita do Esposo de Maria Santíssima, Santo Estanislau Papczynski, São Domingos e São João Paulo II; à esquerda: Santa Filomena, Santo André Wouters (mártir holandês) e Beato Bartolo Longo (fundador do Santuário do Rosário de Pompéia, Cavaleiro Grã-Cruz da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém), alguns notadamente devotos do Santo Rosário, sendo o Beato Longo nosso irmão de Ordem.

   Viva São José!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.

18 março 2022

Origens da Fé - Por: Emerson Monteiro


Diante das circunstâncias deste mundo, perante os impasses talvez intransponíveis, vem o senso do absoluto que toca o coração da gente. Ninguém quer desistir inteiramente face às barreiras com as quais se depara no decorrer do tempo. Há que existir essa força descomunal que a tudo transpõe e no oferece alternativa a que superemos as crises, os desenganos.

Outro dia, me avistei com uma senhora, uma mãe, que narrou suas dores. Ouvi de olhos acesos o quanto padece vista perda irreparável de um filho ainda jovem face um homicídio. Além do que, outros impedimentos de viver em paz, conquanto tenha saúde debilitada. Porém poucas vezes presenciei tamanha vontade de viver e atravessar tais sofrimentos. Nem ela sabe explicar direito o que lhe mantém viva. Sentados na sala de espera de um consultório médico, conversávamos após ela chamar minha atenção a uma notícia da tevê de alguns romeiros que chegavam a pé desde Alagoas até Juazeiro do Norte, devotos do Padre Cícero. Jornada de 500 km.

De novo me veio à memória uma peça que assisti na década de 70, em Salvador, O que mantém um homem vivo. (... uma coletânea de textos do dramaturgo, poeta e encenador alemão Bertolt Brecht, com músicas de Kurt Weil, Hans Eisler, Paul Dessau e Jards Macalé, com adaptação de Renato Borghi e Esther Góes, à época recém-saídos do Teatro Oficina.) Jornal da USP

Esta a grande interrogação dos humanos na face do mistério de tudo quanto aqui encontram, e que resolveram denominar de “viver”, o bloco de notas do Destino. O espaço, o tempo, as cores, o som, as memórias, os astros, o Infinito cósmico, as sociedades, a vegetação, os enigmas e os séculos, a ciência, mil determinações, o que quase só de longe a gente participa e, no entanto, se vê na condição exclusiva de responder por si mesmo ao pedaço de céu que preencha durante as idades presentes. Querer saber mais disso, o que classificam “liberdade”, “existência”, sobremodo.

Bem desse modo, no centro dessa estrutura indeclinável, foco essencial de toda história dos indivíduos, bem ali, bem aqui, vemo-nos pelos olhos do invisível à busca incessante da Fé real, sentido e razão de estar nesse lance imbatível dos segredos de alma aberta ao que possa nos acontecer de hoje em diante.

(Ilustração: O que mantém um homem vivo, Teatro da USP).

17 março 2022

A Monarquia combate a corrupção

 


   A Monarquia não pretende ser uma panaceia, capaz de curar milagrosamente todos os males, mas é certo que ela cria as condições necessárias para sanar ou ao menos minorar muitos deles, como a corrupção. Isso acontece porque a forma monárquica de governo traz consigo uma influência altamente positiva sobre o andamento dos negócios públicos, quer sejam políticos, econômicos ou sociais.

   Há que se considerar que o Imperador paira acima dos interesses políticos ou privados de qualquer ordem, com o seu interesse pessoal confundindo-se inteiramente com os da Nação. O Soberano pode, assim, exercer sobre a política e a administração pública uma ação moralizadora ao mesmo tempo firme e serena, de modo a corrigir e por nos eixos o que deve ser corrigido e ordenado.

   Pelo contrário, na República, se deseja alcançar os mais altos cargos, um político tem literalmente que comprar o apoio dos amigos e até mesmo dos inimigos; do contrário, ele cai em desgraça e não consegue governar. Basta lembrarmos aqui os tristemente famosos “Mensalão” e “Petrolão”, para não falar de outros esquemas de corrupção...

   Conforme mostra o quadro abaixo, dos dez países menos corruptos do mundo, um total de seis são Monarquias, a começar pelo primeiro, a Dinamarca. O Brasil, por sua vez, ocupa a desonrosa 96º posição na classificação, ficando muito atrás de países como Ruanda (52º) e Namíbia (58º). Inclusive, nossa situação piorou, pois estávamos 94º lugar em 2021... Coisas da República.

   Fica evidente a falta que faz em nosso País uma figura como a do Imperador Dom Pedro II, que, utilizando-se do Poder Moderador e de sua inegável presença moralizadora, era o grande fiscal da honestidade pública. De fato, o célebre escritor Monteiro Lobato comparou o Imperador à “Luz do Baile”, apagada pela República, com os lamentáveis resultados que assistimos hoje.

(Publicado originalmente no Facebook Pró Monarquia)

Padre Antônio Martins Irineu – por José Luís Lira (*)

    

   O Padre Irineu nasceu em Barra do Corda, Maranhão, em 13/03/1961, filho de José Irineu Filho e de Maria do Carmo Martins Irineu, tendo cedo migrado para Brasília, com a família. Ingressou no seminário na Ordem dos Agotinianos Recoletos (OAR), tendo cursado Filosofia no Instituto Agostiniano de Filosofia, em Franca (SP), realizou a licenciatura plena em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e Teologia no Instituto Salesiano Pio XI (SP). Bacharelou-se, em Teologia, pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção (SP), antes do sacerdócio e depois de ordenado, realizou Especialização em Gestão Eclesial e Marketing – IBMC.

   Com a posse de Dom Francisco Javier Hernández Arnedo (OAR) no Bispado de Tianguá (1991), este convidou o seminarista Antonio Irineu a fazer uma experiência pastoral na Diocese de Tianguá e ele prontamente aceitou. Na Catedral de Sant’Ana foi ordenado diácono no dia 06/10/1992 e para estar mais próximo da família foi ordenado sacerdote em Brasília, a 10/07/1993. Dom Javier o ordenou tanto diácono, quanto sacerdote.  

   Foi Pároco da Paróquia São Benedito, em São Benedito, Ceará entre 2002 e 2005; Vigário Geral da Diocese de Tianguá, em 2005; Ecônomo da Diocese de Tianguá, de 2007 a 2012 e, finalmente, Reitor do Santuário Diocesano Nossa Senhora de Fátima, em São Benedito, Ceará, do qual foi fundador. No Ano da Misericórdia foi designado pelo Papa Francisco “Missionário da Misericórdia de Deus”. Exercia, também, a função de Exorcista Oficial da Diocese de Tianguá. 

   O Santuário Diocesano de Nossa Senhora de Fátima da Serra Grande, em São Benedito, no Ceará, grande desafio dele, teve sua construção iniciada em 2005, por iniciativa do Pe. Antonio Martins Irineu, seu primeiro Reitor. Ele contou-me que, andando por aquelas cercanias, teve a inspiração da construção de um Santuário: local sagrado, para onde, por devoção, acorrem peregrinos de diversas regiões. O Santuário possui uma Igreja principal para 1.800 fiéis sentados e até 5.000 em pé; a Capela do Santíssimo para 60 fiéis; as Capelas da Mãe de Deus e do Padre Pio, ambas para 150 pessoas; próxima a estas, a Capela do Santíssimo, para 50 pessoas. Diariamente, romeiros afluem ao Santuário e, notadamente, nos dias 13 de cada mês, quando são celebradas 7 missas, chegando, ao final do dia, a mais de 30.000 pessoas. 

   A Consagração do Santuário e Dedicação do Altar foi presidida pelo então Núncio Apostólico do Brasil, Dom Giovanni d'Aniello, representando o Papa Francisco. Sete mil peregrinos participaram, entre os quais, autoridades, o Governador do Ceará, as Paróquias da Diocese de Tianguá e fiéis do Piauí, do Maranhão e outros Estados e, ainda, dois representantes do Santuário de Fátima da Cova da Iria, Portugal: o Reitor, Pe. Carlos Cabecinhas, e a Postuladora dos Pastorinhos Francisco e Jacinta Marto e Vice-Postuladora da Serva de Deus Ir. Lúcia, Ir. Ângela Coelho. Todos os bispos do Ceará estiveram presentes e foram recepcionados pelo Bispo de Tianguá, Dom Javier Hernández e pelo arcebispo de Fortaleza, Dom José Antonio Tosi e, ainda, bispos do Piauí, destacando o arcebispo Dom Jacinto Furtado, e o então bispo de Parnaíba Dom Alfredo Schaffler. 

   A propósito do Pe. Cabecinhas, após a partida do Pe. Antonio, ele escreveu ao Pedro Lucas que com o Pe. Antonio esteve ultimamente no Santuário de Fátima, na Cova da Iria: “Não tenho dúvidas que a sua última passagem por Fátima foi a sua despedida, até ao Céu, onde agora contempla a face de Deus na companhia de Nossa Senhora e dos Santos Pastorinhos de Fátima”. 

   A ação pastoral do Padre Irineu foi ímpar. São muitos os testemunhos de diversos locais por conta de fiéis que acompanhavam o Padre pelas redes sociais que eles mesmo chamam de “Santuário Virtual”. 

   Conheci o Pe. Antonio quando ele era pároco de São Benedito e no Santuário de Fátima, ao qual sempre me senti vinculado, estreitamos nossa amizade. Foi um estimado amigo, orientador e pastor. Particularmente doei as primeiras relíquias dos pastorinhos ao Santuário. As havia recebido do Diácono António Machado, em Portugal. Quando dos preparativos para a dedicação do Altar e consagração do Santuário, passei manhãs e tardes no Santuário (2014/2015) redigindo com ele correspondências às postulações, solicitando relíquias para a consagração do altar, o convite para o Reitor do Santuário de Fátima, em Portugal, e a Postuladora da Causa dos então pastorinhos. Em março de 2015, o acompanhei em peregrinação, primeiramente a Fátima, depois, a Roma, onde recebemos várias relíquias nas postulações, e a Cracóvia, onde recebemos a relíquia de Santa Faustina. Até Portugal nos acompanharam Dom Javier, nosso querido Bispo Emérito, éramos quatro: Dom Javier, Pe. Irineu, Pedro Lucas (que fazia sua primeira viagem internacional) e eu. Para a Itália fomos os três: Pe. Irineu, Pedro Lucas e eu. Foi uma grande experiência.  

   Não dá para delongar, por conta do espaço. Ele concelebrou as Bodas de Ouro dos meus pais (2015) e, antes da pandemia, no último dia de dezembro de 2019 eu o recebi em Guaraciaba do Norte. Ele publicou numa rede social, “Amigo de verdade é artigo raro. Neste último dia do ano fui a Guaraciaba visitar meu amigo @prof.joselira. Como é bom conversar com quem ama os santos”. Em março de 2020, um pouquinho antes da pandemia ele batizou minha sobrinha Anne Eloísa. Uma cerimônia linda! 

   Quase ao anoitecer de sábado, 5 de março último, o Pedro Lucas me avisou que o Padre havia tido um infarto. Dia seguinte, avisei ao meu querido Bispo Diocesano, Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos, da internação e pedi-lhe uma recomendação ao Hospital do Coração. Sem me surpreender por conhecer bem o zelo de pastor de nosso Bispo, logo na sequência Dom Vasconcelos me passou uma mensagem dizendo que já havia se comunicado com o Diretor do Hospital, Dr. David Neto, e que este acompanharia o Pe. Antonio. 

   Ao longo dos dias – digo longos porque pareceu uma eternidade – fui sendo informado por Dom Vasconcelos e Pedro Lucas a situação do Padre. Quarta-feira, vim a Sobral, e logo chegando fui ao Hospital. O Padre estava na UTI, não cabia visita, mas, fui lá. Estive com o pessoal do Santuário que lá estava, com a irmã do Padre, Rebeca, e o filho desta, Marco; Pedro Lucas, dona Fátima e com o Dr. David. Este recomendou a análise de um cardiologista externo, Dr. Lima Neto, de quem também sou paciente. À noite ele foi e lá estávamos. Ficamos numa sala a irmã e o sobrinho do Padre, Pedro Lucas e eu. O médico demorou, saiu e disse da possibilidade de uso de um equipamento que não existia na cidade, mas, nos animou dizendo que o Padre estava lúcido, perguntou o nome dele, Dr. Lima Neto, que lhe disse que foi visitá-lo a pedido de sua irmã, mas, ele, Dr. Lima, não lembrava o nome dela, mas, que estavam fora o José Lira e o Lucas. 

   Dia seguinte, quinta-feira, 10 de março, viajei para Fortaleza. Chegando à cidade fui almoçar com a Irmã Antonieta e suas confreiras, incluindo a Madre Ir. Maria de Jesus. Após retornei ao hotel e fui cortar cabelo etc., pois dia seguinte tinha audiências importantes. Concluído o serviço, já passava das 18hs, fiquei me lembrando do Padre, quando, por um pequeno lapso de tempo, perdi a consciência presente, repentinamente. Quando comecei a retornar, consegui efetuar o pagamento dos serviços via cartão, e eu sentia que o Padre havia ido para o Céu. Pouco depois recebi uma ligação do Pedro Lucas, me dizendo que nosso amigo não havia resistido. Eu acredito que o Padre Irineu foi me avisar que estava indo para o Céu ou dar-me um abraço antes que nos encontramos na Pátria Eterna. 

   Soube que uma das enfermeiras presentes à UTI na hora do falecimento do Pe. Antonio Irineu o ouviu chamar por Nossa Senhora de Fátima para vir buscá-lo. Ele expirou confortado pelos sacramentos da Igreja e se constitui intercessor nosso e da humanidade, dando continuidade à missão sacerdotal que abraçou por amor. Parecendo nos dizer igual à Santa Teresinha: “Não morro, entro na Vida… ‘Até breve… no Céu’”. 

   Por recomendação médica não fui ao velório e sepultamento. Cumpri agenda na sexta-feira, mas, não me desliguei do canal do Santuário. Pude ver tudo. A emoção do povo em Tianguá tocando terços e santinhos no corpo do Padre Irineu. O traslado do corpo de Tianguá passando por Ubajara, cuja cidade fechou literalmente para homenagear o grande sacerdote, e Ibiapina até chegar à sua São Benedito, cujas Igrejas tocavam os sinos, o povo acenava com lenços, terços e eram populares transmitindo a passagem do Padre, de modo que a tudo presenciei. As Missas foram cada uma mais emocionante que a outra. Na internet, além de agradecimentos e manifestações de carinho, víamos pedidos de intercessão junto de Deus. É a certeza de que ele já goza da plenitude sem fim, confirmando as palavras do Bispo de Tianguá, Dom Edimilson Neves, em relação ao Padre Irineu: “como vale a pena ser bom, fazer o bem, anunciar o Evangelho, celebrar a fé e doar a vida pelo reino”. Dom Javier Arnedo, Bispo Emérito, que o ordenou fez um pedido final: “Que o Padre Antonio seja uma bênção a todos nós da Ibiapaba!”. 

   O Padre Antonio Martins Irineu faleceu no Hospital do Coração, em Sobral, na noite de quinta-feira, dia 10/03/2022. Seu corpo foi trasladado para a Igreja da Sé de Tianguá, no dia 11/03, onde aconteceu a primeira Missa de Corpo Presente, depois seguiu para a Matriz da Paróquia de São Benedito e, finalmente, para o Santuário de Fátima, sua casa definitiva. Após celebrações tendo o ápice a Missa de Exéquias presidida pelo Bispo Diocesano de Tianguá, Dom Francisco Edimilson, concelebrada pelo Bispo Emérito de Tianguá, Dom Javier Arnedo, pelo Bispo de Itapipoca, Dom Rosalvo de Lima e pelo clero, no dia 12/03, com grande assistência e participação dos fiéis e de sua família vinda de Brasília, seus restos mortais repousaram na Capela de São Pio de Pietrelcina do Santuário, em cujas pedras, telhas, madeira e seres humanos, ele deixou sua marca. 

   Nas redes sociais da Diocese de Tianguá, do Santuário de Fátima e do próprio Pe. Antonio, víamos uma média de 2.000 pessoas constantes acompanhando. Para escrever esta matéria, a coluna de hoje virou matéria, revi partes da gravação e vi até hoje, 15/03, são quase 26 mil visualizações, além de mais de 2.600 curtidas, nenhuma expressão em contrário. 

   O Prefeito Municipal de São Benedito decretou luto oficial por sete dias e ponto facultativo no dia 11 de março de 2022, o Regional da CNBB Nordeste 1 e bispos do Ceará enviaram condolências. Pedi um espaço maior essa semana ao jornal e aqui ainda não consegui expressar todo o carinho e a admiração que o Padre Irineu merece. Ele disse que eu amava os santos, talvez por isso gostasse tanto dele. Numa rede social eu disse, eu conheci este santo!
   Que ele interceda a Deus por nós!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


12 março 2022

O sonho e as gerações - Por: Emerson Monteiro


Ainda que eu queira aceitar de bom grato tudo que chegue à caixa do juízo, mesmo assim reajo qual quem deseja que de outro jeito pudesse ser. Nem de longe pretendo mais admitir falta de razão nos segredos da Natureza. A mim o que quer que aconteça tem lá suas claras razões de acontecer, e pronto, assunto resolvido. Isto porque o mundo e as ações fluem de modo pleno ao sabor do tempo, feito dentro da leveza do que de nenhum outro modo, porquanto nosso poder é pequeno. A gente busca, de verdade, respostas precisas, no entanto limitadas os padrões de desconhecimento em fase de aproximação do que venhamos, certo dia, a descobrir e viver. Se existe o imperfeito é que existe o perfeito, causa do equilíbrio universal.

Dito isto, revejo este momento exato, quando meu amigo José Roberto França de Sá houve de fazer sua passagem a outro plano. De início, quis ficar constrangido, só isso de viver e sumir sem deixar vestígios de aonde foi. Porém o simples aspecto de estarmos aqui significa que qualquer dia desses estaremos noutro lugar, pois existimos bem dentro de um ser em movimento que o somos. Desvendar esse mistério eis o motivo de virmos à consciência que assegura os passos do nosso ser em movimento.

Disso vêm as religiões, filosofias, mergulhos muitos de tantos no infinito da compreensão. Ajuntaram milhões de códigos que perfazem a humana aventura. Uns chegam primeiro a esse outro universo que lhes aguarda e aguarda todos. Num devir constante, as estradas e os destinos. Vislumbro, por isso, a possibilidade da redenção do que viemos trabalhar neste Chão. Seres pequenos à procura da Luz. Fora dessa possibilidade inestimável, cá tocamos adiante o barco das horas e sorrimos prudentes em plantar sementes de Amor no coração das pessoas.

Uma calma me invade ao saber desse amigo que ora cresce em novas paisagens, no sonho de guardar consigo o quanto viveu e desfrutou das belezas deste lugar com gosto e boa vontade. Sempre na certeza das luzes de novas experiências, siga em Paz, José.


José Roberto França, um amigo que se vai

 Carlos Rafael Dias

 


José Roberto França de Sá, ou simplesmente Zé Roberto, é uma referência marcante da geração caririzeira que despontou nos anos 1970, protagonista da cena cultural da região do Cariri cearense, a partir do Grupo de Artes Por Exemplo, depois fundadora do movimento Nação Cariri.

Tive, - utilizando um batido, mas sempre providencial jargão,  - o privilégio de tê-lo como fiel amigo desde o início dos anos 1980, em encontros prazerosos no Parque Municipal, em Crato, ao lado de Geraldo Urano, Clélio Reis e José Bezerra de Figueiredo Filho (Deca).

Zé Roberto era um leitor assíduo de publicações que contivessem mensagens progressistas e engajadas na luta pela justiça social, leituras, portanto, de viés descolonizador e libertário. Uma verdadeira biblioteca ambulante. No mínimo, um grande bibliófilo. Nos tempos plúmbeos da ditadura, lia, até com uma certa e necessária ostentação, os jornais alternativos e de resistência. Ele chegou a me presentear algumas das lendárias edições de O Pasquim

Das artes, que cultivava como “norte” de vida, ele tinha um verdadeiro amor pelo cinema, notadamente o de vanguarda, a exemplo do Cinema Novo. Glauber Rocha era-lhe quase como um sinônimo, um perfeito alter ego.

Zé Roberto era uma pessoa de aguçada ironia, no sentido de ser um expert no emprego inteligente de contrastes, criando ou ressaltando certos efeitos humorísticos. São inúmeras, e até folclóricas, suas “tiradas” verbais dotadas de verve jocosa.

De tipo charmoso, causava admiração, notadamente nas mulheres. E, sabedor disso, desempenhava, com elegância e respeito, o indefectível papel de galanteador contumaz. Em contrapartida, era respeitado por todos.

Ultimamente, com a saúde fragilizada, vivia recluso, mas sempre visitado pelos amigos de longas datas. A última vez que o encontrei, foi em uma visita que o fiz, ao lado de Luiz Carlos Salatiel e Clélio Reis, quando ele estava passando uns dias na casa de sua irmã Vânia. Mesmo adoentado, nunca perdeu o senso de humor que tanto caracterizou o seu “personagem”.

Zé Roberto fez a inevitável travessia, “velejando no mar do Senhor” rumo à Pasárgada Celestial. Nós, que aqui ficamos, lhe desejamos o merecido repouso eterno e agradecemos sua fiel amizade.

11 março 2022

Carta sobre uma fotografia do tempo passado – por José Luís Lira (*)

 

Dom Bertrand de Orleans e Bragança, Príncipe Imperial do Brasil, ladeado por  Cícero Moraes (à esquerda) e José Luís Lira (à direita), recebendo a foto do  verdadeiro rosto de Dom Pedro I, depois da restauração (abaixo).

   Sempre achei a reconstrução facial uma imagem que nos é enviada dos tempos passados. Quando o Designer Cícero Moraes me mostra as primeiras provas de uma reconstrução facial, pareço viajar no tempo e encontrar aquelas figuras que deixaram suas contribuições para a humanidade. Sempre há o reconhecimento público, as críticas favoráveis ou desfavoráveis. De todas as que participamos do processo e, também, das que não participamos, além do aporte científico que é fundamental, buscamos pessoas que conheceram a personalidade cuja face foi reconstruída ou que a ela são ligados, seja por parentesco ou por instituição.

   As comprovações enquanto familiares mais notáveis que vimos foi da Família Imperial com Dom Pedro I. A aprovação de Suas Altezas Imperiais e Reais Dom Luiz e Dom Bertrand de Orleans e Bragança foram imediatas e nos deram a certeza de que olhávamos a face de Sua Majestade Dom Pedro I, que há quase 200 anos proclamou o Brasil independente. De Santa Paulina também nos cativou muito quando a Irmã Célia Bastiana Cadorin (de saudosa memória), reconheceu a face de sua fundadora. Ela comentou cada detalhe como sendo da santa: este sorriso, este olhar, esta face.

   Por último, vimos a face de São Vicente de Paulo com peculiaridades que a imagem feita dele em vida, embora sem ele ter posado para o artista, não possui e contemplamos o olhar do Santo, seu envelhecimento, pois a imagem que citei não é contemporânea à morte do santo que se deu aos 79 anos e a reconstrução está com essa idade e características, além e principalmente, da questão da boca do Santo. Seus dentes superiores eram mais pra dentro que o normal e o queixo mais avantajado. Havia uma retrusão e isso não ficou muito claro nas imagens anteriores. Eu fiquei muito feliz com o resultado e até refleti que Deus busca é a beleza interior, como o fez em São Vicente, em Santa Teresa de Calcutá, em Santa Dulce dos Pobres e em tantos outros santos e santas.

   Quando uma Filha da Caridade amiga minha viu a imagem, agradeceu a mim e à equipe e disse: “Foi muito emocionante ver a foto do meu pai São Vicente”, além da realização pessoal, senti a compensação de todo o trabalho.

   Ainda do Projeto de Reconstrução Facial Forense Independente de São Vicente de Paulo, por mim coordenado juntamente com o 3D designer Cicero Moraes, com o auxílio de 8 outros especialistas no campo médico e forense, a reconstrução da face do Santo, foi com base em imagens do reconhecimento dos seus restos mortais da década de 1960 e estas imagens nos foram cedidas pela DePaul University, em Chicago, nos Estados Unidos, por meio do ex-Reitor daquela Universidade e grande investigador sobre São Vicente, Pe. John E. Rybolt. Os resultados foram encaminhados ao Pe. John E. Rybolt, junto com artigo produzido pela coordenação e equipe científica. 

   A resposta foi imediata. Em inglês, o Pe.  Rybolt disse que gostou do trabalho e ter ficado muito feliz com o resultado e afirmou, ainda, estar certo de que os Padres da Missão, as Filhas de Caridade e outros membros da Família Vicentina, apreciarão o trabalho.

   O Dr. Cícero Moraes e toda a equipe estamos muito felizes com a manifestação do grande Pe. John Rybolt, C.M. e eu, pessoalmente, louvo a Deus!

   Viva São Vicente de Paulo!

***

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.



08 março 2022

Intactos - Por: Emerson Monteiro


Há, sim, um bloco indivisível na origem de tudo. Daí o que denominam perfeição absoluta. Do nada vem o um; do um, o dois; dos dois, o três. Deste, o Infinito, donde tudo recomeça dentro da mesma condição irreversível de vagar do Eterno e regressar ao Infinito. Destarte, não importa aonde ir, que o regresso é parte integrante do todo que, de novo, restabelece o sentido de ordenamento do Universo. Isso de tão simples já nem precisa mais que se volte a dizer, de tão óbvio e significativo nas ações da Natureza. Uma página virada na compreensão da maioria dos que abriram o olho e anotaram tamanha qualidade nos blocos que formam a base de tudo quanto há, em todos os quadrantes.

Assim, o percurso de achar a casa da Consciência dentro de todos representa esse movimento de revelar a si mesmo a sonhada perfeição que de tudo emana. Pois bem, ainda existe a opção de querer ou não compreender, e refastelar-se no seio da acomodação, esconder a cabeça no areal dos desertos, vícios e perdições desnecessárias da inanição, conquanto está aí por demais o senso de aceitar a quem disso queira.

A ordem do Universo vem certa na hora certa a todos. Tantos sofrem a consequência dos desinteresses, o que passa a ser escola dos que cedo abriram os olhos à virtude. Nem de longe resta justificar o atraso de esquecer a si em nome dos prazeres inconscientes. Os códigos falaram, as lições ensinaram, as gerações repetiram, enquanto a história continua sua marcha acelerada rumo às interpretações e conclusões definitivas. As respostas percorrem o nosso ser numa velocidade sem limite, a nosso favor.  

Tais fontes do próprio itinerário, toquemos a trilha da sorte nas condições que ora atravessamos, passados que foram tantos milênios, e acharemos o destino certo da realização com o que sonha o nosso coração.

05 março 2022

Parabéns, Patativa

 


Por Jackson de Oliveira Bantim (Bola)

Mais um aniversário sem a presença física do poeta-mor Patativa. Mas, da minha parte, sua presença continua firme e marcante, resultado de uma longa convivência, fraterna e próxima, que mantivemos desde a década de 1970, quando nos conhecemos em meio às lidas artísticas e culturais. Uma amizade de três décadas, que o próprio Patativa assim a definiu: “é, Bola, a nossa amizade é uma amizade sadia, pura e decidida, sem sentido de exploração. É aquela amizade que Jesus Cristo pregou na Palestina”.

(Veja o depoimento completo em https://www.youtube.com/watch?v=jaZGPUo28XI).




Antônio Gonçalves da Silva, nosso querido e inesquecível Patativa do Assaré, é considerado, com muita justiça, um dos maiores poetas da literatura universal, equiparado a Camões. Nasceu há exatos 113 anos ,em 5 de março de 1909, em Assaré, no Cariri cearense. Faleceu há quase vinte anos, em 8 de julho de 2002. Deixou imenso e eterno vazio na cena cultural do nosso país e uma imorredoura saudade em todos nós que tivemos a honra e o inestimável privilégio de conhecê-lo pessoalmente e de privarmos de sua amizade. Ele era, além de sábio, um verdadeiro santo pela sua vida permeada de retidão e generosidade. 

Parabéns, Patativa. Poetas não morrem, mas se eternizam quando transcendem para a Pasárgada Celestial.

04 março 2022

Um clássico da história do Sertão - Por: Emerson Monteiro


Dentre os principais livros que tratam da história do Sertão do Nordeste brasileiro, Império do Bacamarte, de Joaryvar Macedo, merece destaque pela operosidade e pelo aprofundamento do seu conteúdo. Elaborado na pesquisa séria dos acontecimentos do Cariri cearense, sobretudo desde os finais do século XIX à primeira metade do século XX, mergulhando com intensidade nas situações contraditórias das comunas interioranas em suas nas lutas marcantes pelo domínio dos grupos de comando, durante o feudalismo nordestino, evidenciando aspectos sociológicos e etnográficos de soberba importância, a serem estudados nas atuais e futuras gerações. Portanto, vejo com satisfação a nova edição deste trabalho, acrescida de vasto material fotográfico por demais característico daquele período, de uma riqueza visual exemplar.

Joaryvar Macedo, o nome literário de Joaquim Lobo de Macedo, foi exímio genealogista e historiógrafo, natural de Lavras da Mangabeira, Ceará, graduado em Letras pela Faculdade de Filosofia do Crato, Ceará, e Mestre em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Católica de Salvador, Bahia. Professor colégios de Crato e Juazeiro do Norte, Ceará, foi Secretário Estadual de Cultura do Ceará, Presidente do Conselho Estadual de Cultura, além de Presidente do Instituto Cultural do Vale Caririense (Juazeiro do Norte) e membro do Instituto Cultural do Cariri (Crato). Ele viveu longo tempo juntos aos sítios referenciados na citada obra, apurando, junto às fontes vivas de época, os registros originais aqui consignados, presenteando a História brasileira com trabalho típico da melhor história.

Destarte, vemos agora em nossas mãos este material traçado numa linguagem típica, dotada de características autóctones, que temos a satisfação de reencontrar, documento autêntico de época memorável de cunho essencial aos que desejam conhecer a formação de nosso povo heroico e lutador. Assim, desejamos ao leitor que usufrua desta oportunidade literária de sabor próprio das riquezas sem igual.

 

Cidades invisíveis – por José Luís Lira (*)

 


   Nos primeiros dias deste ano, Salete Araújo me sugeriu o livro “Cidades Invisíveis”, da jornalista Kelly Garcia, que atua em seu site de notícias. O título me levou a uma das epígrafes do meu último livro publicado, “Nossa Senhora dos Prazeres e a História de Guaraciaba do Norte”, onde se lê o imortal José Saramago: “No interior da grande cidade de todos está a cidade pequena em que realmente vivemos”. 

   E, neste carnaval, depois de ter esquecido o livro no sítio Monte Alegre, além de minhas obrigações acadêmico-universitárias, para o ministério do magistério, peguei-o novamente e a leitura de suas mais de cem de páginas me segurou. A capa e as ilustrações são de Vando Figueiredo, autor de tela especial com um menino mexicano de quem sou homônimo e de quem sou devoto. Na dedicatória, a letra delicada da autora me deseja que suas crônicas me transportem para a Fortaleza que nela habita. “E, de repente, não me que de repente”, eu me vi não só na cidade “invisível” que na autora habita, mas, naquela cidade que também está dentro de mim.

   Artur Eduardo Benevides dizia que “Em poesia, o que não for saudade é liturgia”. E nas 23 crônicas enfeixadas neste livro, vemos a saudade falando e parecia que eu ouvia parte do refrão do Hino de Fortaleza: “Fortaleza! Fortaleza!/ Sempre havemos de te amar”. E é isso que ocorre quando chegamos à nossa Capital. A amamos. Não tem outra saída. Ela não perde sua majestade, não deixa de nos encantar.

   Kelly Garcia conseguiu passar bem isso nas páginas de suas crônicas poéticas, cheias de “recortes de um tempo que não volta”. E vem a Ponte dos Ingleses, metálica mesmo no popular, e que saudades ela reacende em quem a frequentou para um sorvete ou pôr-do-sol. Nem mesmo um navio naufragado na costa da praia de Iracema passa despercebido, esta Praia tão encantadora. Recorda o velho Estoril e as coca-colas, me fazendo, irremediavelmente lembrar de Rachel de Queiroz a quem meu pensamento volta quando ela cita o ano de 1925, quando Rachel se formou professora, no Colégio da Imaculada Conceição, também lembrado.

   Rachel dizia que “o trem era o rei do mundo, só tinha como rival o navio, que anda por cima do mar”. E assim, após passear na Praia de Iracema invisível aos olhos de hoje, dos sábados no Cais-Bar, Kelly chega à Estação João Felipe, saudosa... Caminha na Praça do Coração de Jesus e o Centro de Fortaleza, coração da Cidade, das livrarias, dos cafés, dos restaurantes que não mais existem, surge, sob o olhar Hotel Excelsior, seu construtor e sua amada que me fizeram lembrar de ilustres hóspedes dali, Amélia e Clóvis Beviláqua.

   A data de criação de Fortaleza é lembrada e foi num desses aniversários que Matusahila, de quem morro de saudades, e eu, decidimos fundar a Academia Fortalezense de Letras. O grande Dr. Ximenes, do Montese, mas, antes, de Groaíras, e sua esposa, são lembrados. E já quase no finalzinho, aparecem as damas Beatriz Gentil e Suzana Ribeiro (que tinha o sorriso de minha avó), prima de Mílton Dias, a quem a autora escreve lindamente e quase me arranca lágrimas quando chegou ao Centro Dragão do Mar, encantador, sempre.

   “Cidades Invisíveis”, de Kelly Garcia, é da Editora Sol Literário, e mais não digo nem cito os amigos que escrevem orelha e prefácio, Bruno Paulino e Raymundo Netto, pelo espaço e para deixar que o leitor mesmo constate a beleza da obra.

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.



02 março 2022

A grande busca de adaptação - Por: Emerson Monteiro


Desde sempre que o ser humano peleja na intenção de achar o seu lugar no Universo. Isso bem caracteriza toda a história durante todo tempo. Desejo sem limites de revelar a si mesmo o melhor jeito de viver. Viver sem medo, com facilidade na aceitação dos segredos que a vida impõe. No entanto, longe de qualquer dúvida, no processo de perceber com clareza o que seja isso de existir, vem sendo a grande interrogação de todos nós no diversos quadrantes. A resposta de ontem não serve nos dias de hoje. E a resposta de hoje não servirá nos dias de amanhã. Daí a luta insana de acertar, contudo fora de cogitação, que muitos notem o melhor lenitivo.

Por isso, nessa loteria dos mistérios, a Humanidade experimenta de tudo, porém quase nunca descobre o modo ideal de responder aos enigmas do momento. Razão fundamental de ser assim é que em cada um há seu próprio foco de anotar as muitas ações da Natureza. Uns falam desse modo, outros, daquele, enquanto gira a roleta da sorte nas mãos de tantos. Grupos inteiros veem-se submetidos aos caprichos dos líderes, que, por sua vez, veem-se limitados nas condições imprecisas da razão. A Ciência oficial prova isso com facilidade. Ninguém que se preze aceita por inteiro todas as versões da História. Qual pedra que desliza na imensidão do Tempo, todos nos sujeitamos a essa estação inevitável de padecer as normas das razões de cada povo, de cada tempo aonde quer que for.

Qual dizíamos, vem sendo assim desde muito. O intuito de acertar denota o instinto de encontrar a resposta ideal que favoreça, sobremodo, a que esteja no comando. Depois, pouco importam os frutos das experiências, algo que demonstra a escuridão dessas mentes de conduzir os destinos de tantos jogados em suas mãos e manipulações. Os grandes traumas humanos nascem desse procedimento irresponsável de quem chega no alto e esquece dos que ficaram lá embaixo. A dor do próximo deixa de ser dor quando distante das classes que dominam.

Nisso, os embates da condição humana pelas vidas afora. Ao indivíduo investido de poder quase nada representam os interesses das multidões. Persiste então o grosso modo de abandonar fracos aos seus alvedrios de vítimas da solidão particular que têm de transportar consigo nas crises e hecatombes, às indiferenças dos gigantes. São grupos de poder que determinam os trilhões gastos a todo ano em armas e mecanismos de defesa dos países, em detrimento dos menos aquinhoados que amarguram fome, fragilidades mil, vítimas da perversidade e indiferença dos poderosos. Arrastam famílias inteiras à miséria, ao sofrimento coletivo, ralés do atraso da espécie de que aparentemente fariam parte.

Essa autocrítica poderia significar algo, entretanto vaga solta nas mentes de alguns alienados dessa carga pesada que domina e impõe por milênios, por vezes comentada, criticada, até confrontada, sem, com isso, acontecer práticas diferentes. A seara da política, que no início parecia desvendar o grande lance de transformação necessária, hoje merece baixos qualificativos, usada a interesse de alguns, talvez a marca de negociatas e níveis inferiores adotados na intenção medíocre de favorecimento dos mais ambiciosos que abiscoitam as posições.

Quiçá perente fase de sacrifício de gerações, o movimento do barco desses dias indica novos desafios aos que prosseguem acreditando em horas melhores, quando as riquezas naturais sejam revertidas em prol de todos, do tipo que Jesus quis ensinar, de sermos irmãos e um só rebanho de paz neste mundo de tantas maravilhas a que, na certa, estamos longe de merecer, até provarmos o contrário, que deverá vir do coração de todos, sem distinção de credo, raça, cor, nacionalidade, poder aquisitivo, direito de todos e sonhos de poucos.