15 janeiro 2022

As natas da memória - Por: Emerson Monteiro


Gosto por demais de deixar que o filme da memória projete suas imagens constantes através do pensamento. Frases, períodos, textos, livros, películas inesgotáveis que sucedem histórias, cenas inteiras, impressões de viagem, luas e sóis das caminhadas no campo das abstrações em que todos nós vivemos. De uma hora a outra, vou de Crato a Brejo Santo, a Salvador, Iguatu, Lavras, Minas, São Paulo; nada nem ninguém a comandar as imagens do projetor na tela do meu infinito, no entanto eu aqui comigo sozinho a relembrar fiel velhas estradas, ruas, praças, cinemas, comércios, cemitérios, festas, hospitais, passeios, pessoas, dramas, angústias, aulas, palestras de antanho, num fervilhar de situações as mais inesperadas. Vêm, vão, ao sabor dessa função avassaladora de viver e experimentar, e gravar, e recontar, e reviver...

Quantas vezes me acho nos lugares a olhar as mesmas pessoas, sofrer e gozar das mesmas saudades; muitos que foram embora mas ficaram dentro de mim acondicionados nas lembranças insistentes de imaginar que houvesse acontecido diferente e os tivesse mantido todos juntinhos em minha alma acesa. Admiro essa capacidade, e reconto as histórias que li nos romances, nos contos, nas crônicas; as alegrias, os devaneios. Tudo bem perto, no meu coração, a pulsar nas veias, quais de um deposito inesgotável do sangue das maravilhas em fusão com dramas e dúvidas, solidão e amores inesquecíveis.

Ando às vezes tonto nesse território que bem sei pertencer ao tempo eterno. Nessa ocasião chego interpretar que tempo e espaço significam tão só e a mesma espécie de existência, una, exclusiva. Que Infinito e Eternidade são de que única essência e significação. Seriam aquelas duas paralelas a encontrar o Infinito no Tempo, e o Tempo na Eternidade, nesse chão de galáxias adiante de nós próprios, pequeninos seres, moléculas do Grande Universo. Porquanto o Nada e o Tudo, ao saber dos guardiões dos mistérios, hão de somar, ambos, nos lados inevitáveis de um mesmo corpo. Ou de corpo nenhum, indivisível.

Isso a memória me fala com tamanha intensidade que procuro com esforço acalmar o pensamento a fim de dormir um pouco ou serenar a fome das ansiedades. Tenho comigo isto de afagar essa celulose das películas de sempre, e que isto, a certo momento, fará de nós seres únicos, imortais, quando, então, reuniremos as tantas vivências no poder superior da Consciência perfeita.

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