26 junho 2022

A floresta das palavras - Por: Emerson Monteiro

Lá de onde vêm o silêncio e os sonhos, dali também vêm as palavras. Elas que sempre vivem soltas nos mundos invisíveis além da imaginação. Num mar imenso de significados, nele elas nadam sem pressa, vivem, apaixonadas, misteriosas, quais bichos de outras esferas, doutras dimensões... Têm existência própria e são meio selvagens, às vezes, porque a elas pouco ou nada importa serem utilizadas ou não em qualquer canto... Mesmo assim, elas alimentam em todos nós o desejo forte de domá-las, acarinhá-las, animais caprichosos e livres, porém cheias de poder inigualável tais belas pérolas, relíquias, pedras preciosas que iluminam a noite da ignorância à medida que sejam utilizadas no tanto certo, na quantia ideal como instrumentos de libertação dos que as dominem e sejam a elas fieis. Muitas dessas espécies voam pelos céus, pelos universos, pela inexistência; tantas, inclusive, desconhecidas, jamais vistas e levadas em conta pelos possíveis gestos nobres de quem delas se aproxime. Afoitas como só elas podem ser, mergulham nas vestes e nos sonhos; desvendam segredos; machucam compreensões, até verem nascer novas florestas e outros mares. Pródigas, despejam sentimentos puros naqueles que acreditam na verdade do coração e multiplicam histórias, belas aventuras de epopeias nunca vistas; criam contos fantásticos ao sabor da infância de povos primitivos; nutrem filosofias as mais inigualáveis que abastecem bibliotecas inteiras espalhadas pelo mundo; chegam ao sacrário das religiões e transmitem prodigiosas profecias, que se cumprem no decorrer dos infinitos séculos; insistem nas conversações de paz quando nações querem destruir umas as outras; murmuram declarações maravilhosas entre os amantes verdadeiros; substituem cautelosas as esperanças perdidas; e criam novas oportunidades aos infelizes que aguardam consolação de seus atos insanos. Palavras, que nascem às profusões nas ribeiras menos promissoras, porém necessitadas do ânimo de sobreviver diante das intempéries e dos dramas que sofrem as humanidades aonde quer que exista algum senso de consciência e vontade firme dos sinceros autores de tempos ricos de poesia e festa. Chegam suaves e abraçam carinhosamente os seres que aceitem a paz e o sol da presença superior dos dias iluminados. Suas sementes que germinarão de tudo, quando houver a certeza da felicidade nas pessoas e nos seus pensamentos.

(Ilustração: Floresta do Congo, reprodução).

Instituto Cultural do Cariri– ICC lança Itaytera especial sobre o Prof. José Newton Alves de Sousa

 

    Antecedendo a uma festa junina – denominada “Furna da Onça, 2ª versão –  o Instituto Cultural do Cariri lançou, ontem à noite, no Crato Tenis Clube, o número especial de Itaytera – dedicado ao centenário de nascimento do Prof. José Newton Alves de Sousa. O historiador Armando Lopes Rafael apresentou o livro, quando pronunciou as palavras abaixo:   


    “O lançamento deste número especial de Itaytera – dedicado ao centenário de nascimento do Prof. José Newton Alves de Sousa – se constitui em mais um êxito na história do Instituto Cultural do Cariri. Resultou, este volume, do esforço coletivo de sócios desta instituição, apoiados por outras pessoas ligadas – por laços de sangue, amizade, afeto e admiração – ao Prof. José Newton.

     “Fundado em 4 de outubro de 1953, portanto próximo de completar 70 anos de existência, o Instituto Cultural do Cariri tem procurado – desde o seu início – ser fiel ao compromisso estatutário de promover o desenvolvimento do estudo das ciências, das letras e das artes em geral, dando ênfase à divulgação da História e da Geografia, bem como das tradições populares do povo que habita o Sul do Ceará.

      O ICC é, inegavelmente, o mais importante pólo cultural de Crato e do Cariri. Seu espaço é ocupado por homens e mulheres, que exercem as mais variadas atividades profissionais. Todos eles unidos – de forma democrática – buscando   o resgate e a preservação cultural da nossa região, dentro do mais amplo sentido da palavra cultura.  Operamos a cadeia da produção cultural, que valoriza até as pessoas mais simples, algumas excluídas da sociedade de consumo. Fazemos nosso o conceito empregado pela ex-Secretária de Cultura do Ceará, Cláudia Leitão, quando acertadamente definiu:

“Cultura é tudo que o homem faz”.

Sobre a revista Itaytera

        Órgão oficial do Instituto Cultural do Cariri, Itaytera teve seu primeiro número publicado no já distante 1955. A finalidade desta publicação foi muito bem definida na sua edição de número 7, publicada em 1961, assim descrita: 

   “No entanto, o coração de todo o Instituto Cultural do Cariri é a revista ITAYTERA, que entra agora em seu sétimo ano. Esta revista é a força propulsora do nosso movimento cultural, e dificilmente, nesse particular, encontra outro lugar que supere Crato em toda a hinterlândia nordestina. São as páginas da revista que atraem as simpatias unânimes para as realizações do Instituto”.

        Em anos recentes, a revista só fez crescer, melhorar seu aspecto gráfico, publicar excelentes trabalhos produzidos por seus sócios. Este ano será lançado o nº 51 de Itaytera. Entretanto, não bastasse o meritório trabalho de publicar anualmente um volume desta revista, o Instituto Cultural do Cariri, desde 2019,  lançou três “números especiais “de Itaytera. Foram volumes destinados a preservar a memória de três grandes educadores que marcaram, de forma indelével, a atividade educacional de Crato e do Cariri. A título de comemorar o centenário de nascimento desses três mestres, as edições especiais foram dedicadas: ao Prof. José do Vale Arraes Feitosa (em 2019); à Madre Feitosa (em 2021) e, no corrente 2022, esse tributo focou a vida e obra do Prof. José Newton Alves de Sousa.

       Itaytera realizou assim, um relevante serviço de reconhecimento e gratidão a esses educadores. Mas não só. Resgatou e disponibilizou para as futuras gerações os frutos das atividades desses três mestres na área educacional. Aliás, os professores citados, deram sobejas mostras de amor, abnegação e idealismo nas suas tarefas na área educacional.  Ou seja, deixaram marcas inapagáveis no decorrer do processo de ensino e aprendizagem de muitas gerações. Nunca é demais relembrar o papel do verdadeiro  educador, pois este é  um profissional que investe, dando o melhor si.  da sua inteligência, do seu vigor e do seu idealismo  no processo de desenvolvimento do educando. Não só ensina, mas forja o caráter das  pessoas durante o aprendizado escolar, preparando-as para enfrentar os desafios da vida através da aquisição do conhecimento e da formação moral e cívica...

O número especial dedicado ao Prof. José Newton

              No que concerne ao presente número, ora entregue ao público, e dedicado ao Prof. José Newton Alves de Sousa, acho oportuno relembrar uma frase, escrita pelo renomado médico Clóvis Paiva – conhecido oftalmologista de Recife – que preferia ser titulado como “Professor” ao invés do tradicional “Doutor”. A conferir.

“Viver é sempre um privilégio, mesmo que seja marcado pela saudade e alguns desencantos. Desde que se conserve o afeto e a crença na vida e no perdão.”

     Sábias palavras! Penso que este pensamento sintetiza bem a existência do Prof. José Newton Alves de Sousa, que completou -- no último dia 5 -- cem anos de nascimento, encontrando-se lúcido e ativo. Neste momento, sua cidade natal, num preito de gratidão, o homenageia através do Instituto Cultural do Cariri. Todos nós aqui presentes estamos materializando o reconhecimento e gratidão de Crato a um dos seus mais ilustres filhos.

       Não é o caso de relembrar, aqui e agora, a gama de qualidades morais e intelectuais do Prof. José Newton. Ela é muita vasta e temos de ser breve e objetivo, nesta apresentação da revista.

       Os senhores e senhoras conhecerão as virtudes do velho mestre ao lerem as páginas de Itaytera – edição especial. No seu papel de cidadão e educador, o Prof. José Newton Alves de Sousa foi mais do que um simples docente. Ele executou com maestria e denodo sua missão de um autêntico mestre, foi detentor e transmissor do conhecimento às novas gerações. Orientou jovens em processo de formação, transmitindo a eles um conjunto de valores éticos e morais.

          Foi, e continua sendo,  uma das reservas morais deste mundo em crise que vivemos e sofremos.  É um intelectual, um homem de ação para os assuntos que envolvem a educação e os princípios morais que devem reger a sociedade. Autor de vários livros, aí incluídos alguns reunindo suas poesias, ele foi fundador de escolas. universidades e academias. É  Chefe de Família exemplar, um mediador do conhecimento, sendo uma referência de  legado de sabedoria, ética e respeito ao próximo.

                 Deus salve o Professor José Newton  Alves de Sousa...


24 junho 2022

Vazios entre pensamentos e palavras - Por: Emerson Monteiro


Todo eu sou qualquer força que me abandona.
 Fernando Pessoa

Isso de sermos entes que vagam pelas nuvens de si mesmos quais clareiras de inexistências a meio mastro do que fomos todo instante o que não mais houvesse, de ser matéria que alimenta lá longe os céus, enquanto isto sermos restos de pequeninos objetos ainda apegados ao rebanho de seus sonhos, daí formar pensamentos e palavras, anseios e liberdade, guardados no íntimo das almas famintas.

Exato nesse campo aberto das criaturas, árvores a pedras, gravetos servem de almoços de lama, objetos rudes que saem das linhas de produção nas fábricas escuras; aviões supersônicos de guerras inúteis; curativos usados e jogados na sarjeta onde habitam os bêbados esquecidos; portas lacradas de edifícios no isolamento das pestes; tradicionais aventuras de alpinistas descrentes dos gestos e das cores; aves de arribação que voaram pelo abismo da lonjura, tontos; equipamentos de mergulho abandonados ali assim na praia dos dilúvios universais; apartamentos largados fora em cidades poluídas, fechadas ao firmamento; nortes de bússolas enferrujadas; trastes arriscados em mãos mais delirantes; largas avenidas cobertas de lodo e pó; no entanto as telas dos cinemas de antigamente que insistem projetar os filmes amarelecidos nas salas escondidas dos mistérios que ora somos, neste chão de aço.

Fica, portanto, esse gesto apressado de formar a compreensão no silêncio que alimentamos de sorrir, viver, amar. Vemos, sentimos forte a presença das ondas monumentais que querem devorar as nossas entranhas todo tempo aos pinos da velocidade incontrolável  do que vai para sempre.

Um grito secreto dentro de todas as tais existências vira perguntas, quais sejam elas a que vêm?!. Ninguém que se preze deixará de lado a interrogação que pesa no horizonte. Meros sinais de prováveis respostas, nisso rasgam o interior dos livros, das flores, dos automóveis pelos corredores do inesperado, buscas, entre ritmos e melodias que vagam no sentimento dos gestos adormecidos.

(Ilustração; Hieronymus Bosch).

22 junho 2022

O senso do eterno agora - Por: Emerson Monteiro


Ver de frente o movimento dos corpos pelo espaço sujeita isso de causar espécie na vertigem mórbida de assistir ao desaparecimento quase imediato das paisagens e seus elementos, dentre eles nós mesmos. O que quer significar senão um tipo de êxtase da ausência inevitável, perdidos que fossemos nas ondas insistentes do Tempo, ou do eterno vir a ser desse fluir constante. Tal desejo insano de imortalidade assim vivem os que pensem nisto ou não, porquanto há uma larga distância entre ser e ter consciência de ser. Eles, nós aceitamos este capricho dos acontecimentos de engolir as peças do tabuleiro do agora numa fração de segundos. Qual dentro da respiração intermitente, agônica, aflita, pulsa nos astros essa fome insaciável de reiniciar o parto dos objetos e seres, pois são eles os atores que caracterizam a paisagem e os humores do Tempo, na digestão de tudo sem outra indagação que fosse. Seria um fenômeno impossível, mas realimenta em si o firme prazer de tragar as criaturas que dera início, numa ação caprichosa de partir em mil pedaços o que eram suas mesmas partes, fontes semelhantes, nos laços invisíveis de amoladas presas. Nuvens que antes formara viram meras ausências do que pusera em prática. Nutre e devora; devora e se nutre, ao ritmo assustador do futuro sobre o presente e do presente sobre o passado, pulmão avassalador dos sóis que devoram as noites mais escuras do Universo e acendem os dias claros da aurora que irá devorar logo em seguida ao calor de outros sóis.

Outrossim, fervilha na alma das criaturas humanas o firme anseio da imortalidade, atitude adversa, no entanto, à razão do Tempo de alimentar seu abdômen pelas garras do fascínio de si em mergulhar no abismo das horas que passam. Suposto fole de ferreiro, avança numa peleja candente da função que executa, ele autor e senhor do que faz. Junto de nós, passo a passo, assiste intimorato o volteio das aves na sofreguidão dos ares que também se desmancham e que fomos nós, enquanto reproduzíamos as luas no declinar das gerações agora inexistentes. Todos, de olhos postos no infinito, quando assistem cordatos à inevitabilidade que revolve nas próprias entranhas, testemunhas da certeza desse próximo desaparecimento, porém fieis ao sentido de um encontro que lhes aguarda de braços abertos a saborear com incrível sofreguidão os entes luminosos que existirão para sempre. 


21 junho 2022

Isso de ser assim tal e qual - Por: Emerson Monteiro

 

Nem sei o porquê de tantos reclamarem de sentir saudade, pois tudo passa a todo instante numa velocidade própria. É vivendo e cruzando a linha do horizonte; nos dias, nas noites, nas horas, a todo momento, pois. O tempo, este some tal qual chegou, silencioso, escondido, e pronto, a quem reclamar, a quem pedir explicação daquilo que veio e foi sem deter os passos? Só gestos de tudo em tudo às nossas vistas, numa fração de segundo, e nós, aceitemos ou não, tem de ser assim. Vidas vividas, quais pedaços de nós mesmos largados às calçadas do Infinito. Nisso, tocamos em frente os fusos horários dessas histórias incríveis que o circular dos séculos nos impõe na maior serenidade, aceitemos ou não...

Conquanto venham as lendas, melodias, sagas, planejamos vaidades, ideias, sentimentos, nas trilhas dessa condição apenas, que aguarda os quadros seguintes que se desfarão na franqueza dos próximos dias que virão na sequência natural do firmamento. Fertilizamos a memória com os acontecimentos; produzimos objetos, jornadas; reproduzimos cenas anteriores; destruímos armários de ferramentas inúteis; acumulamos muafos; ferimos; lutamos; caminhamos; esperamos; e os dias desfolham suas pétalas aos nossos pés já machucados de quantas aventuras errantes pelo chão. Os séculos, os céus, os sóis... Largas listas de perdidas ilusões ao clarão dos novos tempos que virão sempre nas crinas do bicho razão desse universo onde habitamos e lá longe esquecemos o endereço de regressar à coerência das espécies. Nós, fagulhas insólitas nessa imensidão de eras e solidão cósmica, em meio ao mistério solene dos segredos guardados a sete capas dentro dos nossos corações que arfam e persistem.

Enquanto isto, sob as vistas do Ser Supremo, autor do que existe e senhor da perfeição, vagamos soltos nas vagas do vento, de almas postas numa certeza de que há nexo nos seus mínimos detalhes. Acalmamos os ânimos e pomo-nos determinados a encontrar as portas do Destino e nelas mergulhar o que fomos na forma de Esperança de uma dia chegar à plena realização. 

17 junho 2022

Os olhos de Deus - Por: Emerson Monteiro


Nesse pestanejar da sorte à flor dos dias, tocamos em frente o silêncio de nós mesmos, filhos do Tempo, ele o senhor da Razão. Pisamos os pastos que nos permitem as conchas do mistério; às vezes sob as ações positivas; noutras, ao crivo das ilusões, porém em tudo dentro do que de real existe na humana liberdade. Assim, de acordo com circunstâncias e valores do quanto possamos ser. Isso aos sóis das determinações do que compreendemos. Todos despertos naquilo que a interpretação pode conceder, sempre presos nas normas do destino.

Aonde se quer chegar nos tais raciocínios?! Que argumentos cabem diante das leis nas quais navegamos ao mar deste mundo?! Um furor de tempestade determina o que ora somos mesmo fora do que desejamos. Há um poder bem maior do que as vontades individuais. Este equilíbrio em tudo vê e oferece os meios de ser. E a nós resta desvendar as existências do que fazemos parte, ou que nela habitamos à busca da perfeição. Afinar o instrumento da nossa alma ao diapasão do Universo eis o porquê de aqui andarmos, peças deste imenso tabuleiro em movimento, nas individualidades que determinam andar os acontecimentos.

Outro jeito de ver senão através dos olhos de Deus inexiste, pois. Isso de ritmar o quanto existe, inclusive no nosso interior, minerar o som do infinito na consciência, a isto aqui persistimos. Em cada segundo sua eternidade, a tanto desfiamos o novelo do firmamento, nas mínimas histórias, nos pendores, multicores e objetos. Um eco distante, que produz esperança e guardamos no coração a luz da certeza, nos sonhos inesquecíveis dos nossos próprios olhos.


A relevância da beatificação de Benigna Cardoso -- por Armando Lopes Rafael (*)

  

   O Vaticano confirmou para o próximo dia 24 de outubro de 2022, a solenidade de beatificação da Serva de Deus Benigna Cardoso da Silva, a Mártir da Castidade. Qual a relevância dessa beatificação para o Ceará e, particularmente, para a Diocese de Crato? Sabe-se que a Igreja Católica Apostólica Romana não cria o santo, apenas o reconhece. Nunca é demais recordar a célebre frase de São Josemaria Escrivá, o fundador do Opus Dei: “Verdadeiramente a crise do mundo é “crise de santos”. Ou seja, todos os desacertos morais da humanidade – e os sofrimentos daí advindos – decorre, em grande parte, do pouco número daqueles que hoje se sacrificam e oram por si e pelos outros.

    Através das beatificações e das canonizações, a Igreja dá graças a Deus pelo dom dos seus filhos que corresponderam heroicamente à graça divina concedida por ocasião do batismo. Ao honrar esses Beatos e Santos, a Igreja incentiva seus filhos a invocá-los como nossos intercessores junto a Deus. 

    Interessante conhecer a história da menina Benigna. Nascida na pequenina cidade de Santana do Cariri, desde a mais tenra infância, Benigna ficou órfã de pai e mãe. Foi adotada por uma família da zona rural. Viveu apenas treze anos, no segundo quartel do século XX.  E viveu em meio aos humildes trabalhos domésticos daqueles tempos difíceis. Vivenciando uma fé comum, simples, sem êxtases ou visões. Sem ocorrência de milagres ou fatos extraordinários. Benigna não realizou prodígios. Atravessou o anonimato do seu cotidiano, fiel a sua crença expressada num profundo, exemplar e singelo amor a Deus e na caridade para com o próximo. Rezando as orações diárias. Enfrentando a poeira e o sol quente, no verão, e a lama na temporada de chuvas, para ir à cidade, a fim de assistir as missas e comungar.

      Em meio a isso, sofria um tenaz e penoso assédio sexual, da parte de um rapaz que era seu colega de escola. Contudo Benigna resistiu bravamente em defesa da sua virgindade e pureza. Até que um dia, desesperado pelas recusas da menina, seu algoz a feriu mortalmente com uma arma cortante.  Ao resistir bravamente e heroicamente à investida do mal, Benigna não apenas preservou sua virgindade. Foi além. Consolidou eternamente sua amizade com Jesus. A futura Beata Benigna Cardoso é hoje um exemplo de santidade leiga, na qual realizou plenamente o Projeto do Deus Uno e Trino para a humanidade...

(*)Armando Lopes Rafael é historiador. Integrou a comissão formada pela Diocese de Crato para a beatificação de Benigna Cardoso da Silva. (Este artigo foi publicado originalmente no jornal "O POVO", de Fortaleza (em maio de 2022) e reproduzido pelo "Jornal do Cariri" este editado em Juazeiro do Norte).


15 junho 2022

A fragilidade e a Consciência - Por: Emerson Monteiro

De tão pouco e estaremos próximos de responder aos mistérios nos quais existimos. Já reconhecemos as paredes que nos envolvem, tocamos pelos pensamentos as limitações que restringem nossos passos, estudamos a melhor forma de vencer os desafios e crescer, porém num peso que ainda transportamos quando prisioneiros do passado e ansiamos demasiadamente o futuro. Somos, portanto, parceiros de certeza frágil que nos alimenta diante dos blocos sob os quais aqui vivemos. Senhores de si, fustigamos a sorte tais aventureiros da solidão e autores dos laços que nos oprimem, contudo herdeiros da fortuna desse universo de que fazemos parte e queremos dominar ao iluminar a nossa consciência. Pedaços de um chão de dúvidas, transportamos em nós o barco das existências em mares de tormenta, fazedores de outras muralhas às quais prendemos nossos sonhos em meras fantasias de ilusão e quimeras dos pesadelos de mundo que se desfaz ao clarão dos dias.

Eis, pois, o quadro fiel de tudo quanto há em volta das criaturas humanas, tão prodigiosas na essência, porém vítimas da incompreensão delas próprias. E nisso arquitetam saídas mil desse embate consigo nas planícies da imensidão que lhes compõem, no entanto na pura ânsia de saber lá um dia o instante da transformação de um novo ser em nova presença. De quão frágeis, amarguram a incerteza da esperança quando padecem dos excessos da sua autoria, encandeados na luz que vive bem dentro no seu interior.

Vemos por demais esses aspectos da necessidade humana pelo ato do crescimento que lhe espera. Partos dolorosos de si, escolhem prolongar as angústias, contidos pelas ferragens desse mundo vão. E conhecer o espaço que nos distancia da libertação permitirá vencer a distância exata de tantos segredos imortais. O que resta significa, assim, conhecer e exercitar este voo de salvação.


08 junho 2022

Esfinges ambulantes - Por: Emerson Monteiro


As esfinges manifestam presenças nas várias civilizações, mito por demais consagrado durante os milênios. Uma figura composta por vários animais em um só corpo, indaga qual animal de manhã anda de quatro patas, à tarde, com apenas duas, e à noite, com três patas. A resposta, o ser humano, que, quando criança, engatinha; ao crescer anda com dois pés; e na ancietude com o apoio de uma bengala. Isto grosso modo, porém sem ainda conhecer a sua verdade essencial, o sentido da existência. O ser de dentro de si, o Eu essencial, o ente interior mais profundo, a consciência além da mente, de sensações, pensamentos e emoções.

Este ser verdadeiro, de pura essência, a luz da Paz, da Consciência, vive latente em toda criatura humana, no entanto ainda submisso aos pendores dos instintos, de um eu menor, a mente, o ego, longe do domínio da quietude interna, soberana, ausente do Ser profundo que lhe habita as entranhas.

A isto todos aqui persistem nessa busca definitiva da sua real finalidade, à cata da iluminação, superação do enigma fundamental que nos põe a caminho da conquista da matéria, num estágio apenas provisório da evolução.

Tantos os nomes que resumem a aventura de todo humano e perpassam os fenômenos naturais e as ânsias incontidas do mistério a ser interpretado e resolvido pelo transcorrer das eras. Parceiros de si mesmos, negociam diante das contingências a que se veem submetidos perante a condição de meros aprendizes de um eterno Ser.

Filósofos, heróis, profetas, místicos, santos, vilões, todos, sem qualquer exceção, arrastam a tal contingência de resolver a questão fundamental do quanto existe e desvendar o segredo maior das existências. Nisso a verdadeira identidade carece da luz do Conhecimento a clarear os passos que conduzirão ao céu da Consciência, na tão sonhada paz de Deus.

(Ilustração: Esfinge de Gizé, Egito).

07 junho 2022

Amar só se aprende amando - Por: Emerson Monteiro


Amor que rompe enfim os laços crus do Ser; / 
Um tão singelo amor, que aumenta na ventura; / Um amor tão leal que aumenta no sofrer.  Fernando Pessoa

Enfim isso de amar... A descoberta da forma em volta da imaginação e suas aventuras nos mundos até então desconhecidos... Amar, enfim, disso que todos têm a contar, mas apenas restringem viver. Sobrevivem aos instintos de sustentar o destino com as próprias mãos, no entanto subjugados a dois numa fração distante do Universo.

Tantos foram os autores que percorreram o território do sonho no abismo de conhecer a tal função dos corações que, nem destarte vieram a compreender o senso das canduras que o amor transporta no bojo da sua sorte. Sobem às alturas e mergulham às profundezas do Ser, contudo quais fantasmas de si em voos imaginários que ao nada buscam e aceitam jamais conhecer aonde foram.

Nesse transe avançam os santos, os aventureiros da solidão, e aceitam de bom grado viver ao léu da sorte sem outra razão que não seja unicamente render reverência ao deus do impossível nas palmas do coração.

De quantos persistem na ânsia de encontrar nos sentimentos o real motivo de tudo o que existe, poucos, raros, desvendam o sentido absoluto do amor durante as histórias que aqui vivem. Saboreiam do fruto mágico da vida, porém logo esquecem, quase imediatamente, o sabor, vultos esquivos da salvação que fogem apressados de seus lábios invasores do mistério, largados que estão sob as bênçãos do definitivo que nunca haverão de esquecer, pois trazem agora preso à mesma essência dos que amam.

Depois de tudo a isto experimentar, os amantes santificam suas lendas e as transportam pelos mares do Infinito, missionários desse dom maior, prova definitiva dos segredos em forma de visões inesquecíveis. Passam a ser  relíquias de si mesmos e iluminam as horas mortas dos dias áridos. Aqueles que foram meros aprendizes, hoje mestres, revivem na alma o percurso das estrelas que rumaram à Eternidade.

06 junho 2022

As palavras dormem no silêncio e sonham na literatura - Por: Emerson Monteiro


Tais seres vivos, elas habitam a dimensão das criaturas quais sombras de si mesmas, no entanto apenas jogadas pelos cantos das histórias que nunca cessam de acontecer no céu das existências. Nisso, as criaturas vagam soltas na busca de responder aos novos desafios de seus corações insaciáveis, encontrando, por vezes, o significado daquelas palavras antigas e juntando pedaços de seus sentimentos nos pensamentos, a formar conteúdos eternos pelas religiões dos povos. Nunca é tarde falar que elas também sofrem com isso, espécie de outros seres noutra dimensão talvez até mais profunda do que aquela em que vivem as criaturas humanas, e que delas se alimentam na formação dos seus valores e decisões.

Esses entes que vivem, pois, a percorrer o coração das criaturas chegam, nalgumas ocasiões, a dominá-las. Conquanto pouco senhoras de sua condição apenas menor, porquanto dependentes dos seus autores, impõem, nas horas mortas da consciência, planos de verdadeiros tumultos da ordem em volta, as fazendo vítimas delas mesmas, só que em consequências desses atos nefastos das palavras ditas inocentes, que tomam as rédeas do comando e produzem perdições, fazem guerras, cavam discórdias e geram arrependimento tardio no âmbito das humanas criaturas.

Assim, elas, aparentemente inofensivas, bichos quietos pelos cantos, viram armas de longo alcance e destroem reinos inteiros, cavilam malquerenças e suprem a necessidade humana de sofrer depois de ter errado, a fim de, lá um dia, evoluírem e se livrarem desse chão de matéria orgânica. Elas, nuvens dos céus das criaturas, de comum flores e frutos nos jardins do invisível, de hora a outra invadem o território do anonimato, dividem tribos, repartem botins de conflitos e saem caladamente à toca de outras aventuras nas ações do que puderem ser mas que não serão jamais. Isto sem esquecer, igualmente, que geram esperança, conciliam grupos adversos, reformam sociedades, libertam países submissos e alimentam a paz naquelas imediações. Tudo isso, porém, na razão das condições dos humanos, das falas, dos discursos enormes de calendários e sonhos, amores e vontade constante, que persistirão durante todo tempo na alma das criaturas e seus processos inesgotáveis de criação da pura Felicidade.

05 junho 2022

Emoções desses dias frios - Por: Emerson Monteiro


Dizem que as lembranças só querem um pretexto para mostrar a cara. E nesse tempo frio deste ano em nossa região, com madrugadas indo à faixa de 15, 16°, achei de lembrar uns dias que, em setembro de 2015, estivemos no Peru. Grupo de amigos, participamos de excursão aos Andes, 19 pessoas, das quais dez do Cariri. Viajamos de carro até Recife; daí, fomos de avião a São Paulo; de São Paulo a Lima; e de Lima a Cusco, aonde chegamos no final da tarde do dia seguinte à partida. Nem sei o que querem caboclos do sertão do Nordeste em realizar esses extremos opostos de frieza.

O tempo fechado daquela tarde trazia consigo temperatura de causar preocupação, principalmente a mim que sou friorento nato. Instalados devidamente, iniciamos o primeiro desafio, assim por volta de uns 5°. Vesti todo o equipamento que levara, a fim de sair nas primeiras incursões pela cidade. Até que deu certo, uma segunda pele, duas calças, pulôver, cachecol, gorro, etc.

Logo voltaríamos ao hotel para rever as camas, três edredons em cada uma, dois aquecedores de quarto e portas e janelas bem vedadas. Bom, tínhamos de encarar de algum jeito. Primeiro, o banho. Chuveiro quente de fumaçar, no entanto, ao sair, o primeiro grande espanto, pisar no chão frio e retornar ao quarto. Restava mergulhar debaixo dos edredons grossos, porém lá debaixo tínhamos de aquecê-los com o calor do próprio corpo, noite adentro. Quando veio a vontade de mijar, ihhhh, cadê coragem. Nunca tive tanta vontade de mijar na cama, a reviver os tempos do Tatu, quando menino, que, nos frios das madrugadas sertanejas, urinava na rede mesmo, com preguiça e sono, sem querer descer para, no escuro, usar o pinico. Mijava a camisola de menino, o fundo da rede, e acordava de manhã agarrado lá em cima no punho da rede para fugir da frieza.

Os aquecedores do quarto mal davam para secar as cuecas. Isso já a 2, 3° graus abaixo de zero, o que pegamos nalgumas das nove madrugradas. A gente ainda voltava para dentro dos lençóis grossos preocupados com a próxima vez de ir de novo ao banheiro. Um sufoco de temperatura.

Nisso, eu fico a imaginar o sacrifício desses alpinistas que gostam de subir aos picos mais elevados, Aconcágua, Everest, por vezes em perdidas aventuras de nunca mais regressar. Daí pensar o quanto de interesse teria em realizar tais aventuras. De 0 a 10, ficarei no 0 absoluto. Acho que nada disso me bate a passarinha, meio comodista e desconfiado dessas experiências desnecessárias.

02 junho 2022

Quem contará a nossa história?! - Por: Emerson Monteiro

E reviverá os momentos que ainda quiseram fugir apressados quais suaves encantos de impossíveis traços, porém a isto jamais conseguirão... Assim tais saídos pelas mesmas ruas depois as de termos vivido nos filmes inesquecíveis do Cassino, Moderno, Educadora, a prolongar as histórias de outras terras e que hoje fazem parte de todos nós os que viveram de perto tudo aquilo, desde então até nunca mais, e seguem vivas... As noitadas na Praça Siqueira Campos aos domingos nos milhares de cores, nos sons das Lojas Stuart, entre horas de felicidade a olhos vistos... Os jogos do Campo do Esporte, nas tardes da mais pura emoção e movimento... As lides estudantis entre os grêmios; as maratonas; os desfiles de 7 de Setembro... A Praça da Sé, suas fontes e as bênçãos de Nossa Senhora de Penha, as quermesses, os jardins... As feiras livres e os visitantes das segundas-feiras, em multidão exótica, personagens inigualáveis, de muitas procedências, cheiros, artefatos, atividade intensa, uma festa de rua sem par no quanto de produtos e variedades, uma renovação de valores e artes populares... A Exposição Agropecuária, dos tantos enlevos e viagens sentimentais... Subidas à Cascata, Nascente, caminhos de terra a pé e alimento dos finais de semana... Os bares; as lojas do centro; as notícias; os boatos; os circos; parques de diversão de setembro; interrogações do tempo todo no furor das campanhas políticas; dos dramas encenados nos colégios; os clubes do pé de serra; as missas do domingo na Igreja de São Vicente, na Sé; o Seminário São José e os seminaristas que desciam nas festas maiores ou solenidades fúnebres; as chegadas e partidas do trem; os carnavais de rua; os corsos; as bancas de revistas e os jornais trazidos pelos voos da VARIG; os livros maravilhosos. lidos com fome e sede; o futebol de salão na Quadra Bi-Centenário; a paixão pelos times do Rio; as kombis quando iniciaram o percurso para Juazeiro, lá da Praça da Estação; as conversas intermináveis entre os amigos às noites da semana nos bancos da Siqueira Campos; os flertes e namoros; as notícias que percorriam fácil os ouvidos, numa velocidade estonteante; os tipos populares espalhados pelas calçadas a conviver espontaneamente na cidade, todos característicos e de hábitos constantes; as excursões aos lugares afastados; a União dos Estudantes e suas campanhas apaixonadas; o Clube de Cinema; o jornal A Ação; as exposições de arte; as rádios Araripe e Educadora e os programas consagrados; a Faculdade de Filosofia, que veio crescendo aos poucos até gerar a Universidade Regional do Cariri; as partidas emocionantes no Campo do Cariri; as tertúlias das sextas-feiras da AABB; as mudanças que se deram com o asfalto das ruas centrais; um Crato prenhe de memórias inextinguíveis, a reviver a alma de tantos que presenciaram tudo isso, eles que guardaram a ferro e fogo expectativas deste futuro nos quadrinhos fixados na consciência, espécie de fotogramas daquyeles filmes não desaparecem jamais. Quem, pois, contará a nossa história tão rica de beleza e sonhos?!.. Quem?!....E reviverá os momentos que ainda quiseram fugir apressados quais suaves encantos de impossíveis traços, porém a isto jamais conseguirão... Assim tais saídos pelas mesmas ruas depois as de termos vivido nos filmes inesquecíveis do Cassino, Moderno, Educadora, a prolongar as histórias de outras terras e que hoje fazem parte de todos nós os que viveram de perto tudo aquilo, desde então até nunca mais, e seguem vivas... As noitadas na Praça Siqueira Campos aos domingos nos milhares de cores, nos sons das Lojas Stuart, entre horas de felicidade a olhos vistos... Os jogos do Campo do Esporte, nas tardes da mais pura emoção e movimento... As lides estudantis entre os grêmios; as maratonas; os desfiles de 7 de Setembro... A Praça da Sé, suas fontes e as bênçãos de Nossa Senhora de Penha, as quermesses, os jardins... As feiras livres e os visitantes das segundas-feiras, em multidão exótica, personagens inigualáveis, de muitas procedências, cheiros, artefatos, atividade intensa, uma festa de rua sem par no quanto de produtos e variedades, uma renovação de valores e artes populares... A Exposição Agropecuária, dos tantos enlevos e viagens sentimentais... Subidas à Cascata, Nascente, caminhos de terra a pé e alimento dos finais de semana... Os bares; as lojas do centro; as notícias; os boatos; os circos; parques de diversão de setembro; interrogações do tempo todo no furor das campanhas políticas; dos dramas encenados nos colégios; os clubes do pé de serra; as missas do domingo na Igreja de São Vicente, na Sé; o Seminário São José e os seminaristas que desciam nas festas maiores ou solenidades fúnebres; as chegadas e partidas do trem; os carnavais de rua; os corsos; as bancas de revistas e os jornais trazidos pelos voos da VARIG; os livros maravilhosos. lidos com fome e sede; o futebol de salão na Quadra Bi-Centenário; a paixão pelos times do Rio; as kombis quando iniciaram o percurso para Juazeiro, lá da Praça da Estação; as conversas intermináveis entre os amigos às noites da semana nos bancos da Siqueira Campos; os flertes e namoros; as notícias que percorriam fácil os ouvidos, numa velocidade estonteante; os tipos populares espalhados pelas calçadas a conviver espontaneamente na cidade, todos característicos e de hábitos constantes; as excursões aos lugares afastados; a União dos Estudantes e suas campanhas apaixonadas; o Clube de Cinema; o jornal A Ação; as exposições de arte; as rádios Araripe e Educadora e os programas consagrados; a Faculdade de Filosofia, que veio crescendo aos poucos até gerar a Universidade Regional do Cariri; as partidas emocionantes no Campo do Cariri; as tertúlias das sextas-feiras da AABB; as mudanças que se deram com o asfalto das ruas centrais; um Crato prenhe de memórias inextinguíveis, a reviver a alma de tantos que presenciaram tudo isso, eles que guardaram a ferro e fogo expectativas deste futuro nos quadrinhos fixados na consciência, espécie de fotogramas daquyeles filmes não desaparecem jamais. Quem, pois, contará a nossa história tão rica de beleza e sonhos?!.. Quem?!...

01 junho 2022

Hoje eu quero caminhar - Por: Emerson Monteiro


Agora recente, sempre que não chove nos fins de tarde, me vem a vontade de caminhar pelas estradas desta encosta de serra em que vivo. Vontade de caminhar tal qual a vontade de beber água, de pensar, imaginar, sonhar, essa força que desce lá de não sei onde e vai até não sei onde. Um instinto puro de viver, eis o que assim me vem tudo isso, esses sintomas continuados que, menos espero, aparecem na forma das vontades, a preencher o momento ali mesmo no lugar em que me acho no espaço da presença. Um desejo de tocar em frente o barco em que habito durante todo tempo. Horas que vivem livres pelas planícies dentro da gente quais seres imprevisíveis de natureza que pelejo de, lá um instante, identificar em todas as suas qualidades, sinais que falam de ter paz, acalmar a consciência e ser com absoluta intensidade. Tais pedaços de sentimentos e pensamentos, vivemos, pois, juntando as amarras dos dias em outros dias; tocamos o itinerário de prosseguir na busca incessante de resolver as perguntas que transportamos, que somos, minutos adiante, espécies de tracejados de um bordado no mínimo instigante, revelador de uma revelação que, por vezes, parece demorar a vir, mas que cresce de algum ponto no Infinito que nós somos, durante longas noites e esplendorosos dias. Os passos nas estradas, por isso, contam dessas lendas que alimentamos de vir a ser no universo de nós mesmos, autores das razões que justificam existir. Desse modo, caminhar qual caminham as possibilidades de conversar, no íntimo, com a nossa real condição de seres andantes e, enquanto isso, escutar pássaros que trinam códigos pelas florestas em volta. Estes caminhares que nada mais significam além de avaliar o destino e recolher as sementes dos amanhãs de que seremos testemunhas em um mar de imensas interrogações. Isto, peças vivas do quebra-cabeça que compomos na paisagem dos sonhos, alguns personagens a continuar sem limites; daí a vontade de sair pelas tardes e poder usufruir das bênçãos constantes do inesperado em movimento.

31 maio 2022

A coragem da fé - Por: Emerson Monteiro


Vejo bem isso na missão de Paulo de Tarso, o apóstolo da cristandade no Ocidente. Antes vivia de perseguir os primeiros cristãos, pouco tempo depois o sacrifício de Jesus, às suas primeiras manifestações. Destacada autoridade no Sinédrio, exercia com veemência o mister de reverenciar seus conceitos judaicos em Jerusalém, sendo com isso levado até a execução dos mais devotos do Cristianismo primitivo, qual fez no apedrejamento de Estêvão.

Daí, achou de conveniência ir até Damasco, em demanda dos fieis do lugar. Nisto se daria o instante da sua conversão, quando, à frente dos que formavam sua tropa, avistou intensa luz e caiu por terra, a ouvir o Divino Mestre a lhe indagar:

- Saulo, Saulo, por que me persegues?

Nessa hora, diante de tamanha manifestação do Poder, sente de perto o quanto de magnitude assim presenciava, rendendo-se de uma vez à grandeza do Mistério, e exclamou:

- Senhor, que queres que eu faça?

Permaneceria cego e seria conduzido a Damasco, orientado a buscar a casa de Ananias, onde receberia cura da cegueira e iniciaria de todo a missão que Deus lhe confiaria.

Desde então promoveria sua existência a uma verdadeira epopeia de heroísmo místico, liderando com vigor a expansão da doutrina do Cristo, sendo ele o principal instrumento de trazer a Roma e suas possessões o conteúdo de tudo que hoje conhecemos da Boa Nova, a mensagem viva da Salvação.

Viveria em constantes viagens também pelas cidades do Oriente, a coordenar os conversos e formar novas comunidades, num trabalho primoroso de testemunho, na expansão dos ensinos cristãos, líder inconteste do quanto promoveu do conhecimento das verdades advindas pela presença de Jesus-Cristo.

Foram décadas de inteira dedicação, por vezes submetido a graves perseguições, prisões, torturas, no entanto sob dignidade e coragem inabaláveis, tudo numa prova do quanto aceitou o ofício a ele determinado, sempre a conclamar:

- Não sou eu quem vive. É o Cristo que vive em mim..

30 maio 2022

Há sim poesia na existência - Por: Emerson Monteiro

Meras tardes do que se foi pelas horas menos previstas. Ruas de ladeiras que descem às sombras de nós mesmos quais veias do infinito da alma. Elas que realimentam de desejo o sol das consciências e somem quais crianças levadas que esqueceram a que vieram, e foram a gargalhar. Depois, essas dúvidas que acumularam nas raízes do coração e insistem produzir novas sementes. Sonhos, os sóis que nos resolvem lá por dentro e aguardam reações inesperadas todo momento. Um nós que voa às estrelas e traz de volta novas certezas e indagações de viver, doces repastos da presença em forma de criaturas errantes, cabeças pensantes. Pequenos seres assim livres, leves, que desfilam aos olhos dos dias na busca de, num tempo qualquer, achar a si nas curvas sombrias das longas jornadas nesse universo que esconde suas respostas. Esses antigos sinais de que guardamos bem pouco e que significam tudo, pedaços da gente grudados nas árvores que já foram embora deixando apenas o perfume de suas flores e a saudade no canto dos pássaros que insistem dizer no silêncio das manhãs ensolaradas. Milênios que formam as muralhas donde gritaram as gerações adormecidas. Sobras do repasto dos dias largadas nas estradas do firmamento. Luzes insistentes na fogueira acesa dos sentimentos a dizer as falas desse instante. Perfume dourado das entranhas que movimentam o sentido das histórias aqui contadas pelas nuvens dos pensamentos. Todos, filhos do mistério nas lâminas vivas da realização do ser durante as jornadas do invisível bizarro. Tais múltiplos jornais que incendiavam o mundo, agora dormem a sono solto no fulgor das gerações esquecidas. Estes seres exóticos que pensam e desconhecem os motivos de todos os sons, bruxos de outras dimensões que ainda persistem nesta fome de viver para sempre. Nós, pois, os heróis da ausência no íntimo de revelar aquilo que nem conhece o que seja. Nós... 

29 maio 2022

A perpetuação dos momentos bons - Por: Emerson Monteiro


Eles jamais desaparecem da memória, exato de onde nada desaparece para sempre. Ali ficam assim guardados, acondicionados nas fibras do coração e se estendem à Eternidade quais partes dela, os seus componentes. Felizes são, pois, os que dispõem das lembranças inesquecíveis, ainda que agora hajam aparentemente sumido nas curvas de antes, nas dobras do passado remoto. Ficam, no entanto, perpétuas na leveza do que há de melhor durante todo tempo. Mesmo que os poetas insistam nas dores da saudade, bem que sejam eternas as recordações, porquanto ninguém tem saudade do que não seja bom, prova nítida dessa força viva do que descobrimos na real intensidade da alegria, nas horas de carinho, afeto persistente no íntimo da ali acesas, tais flores bonitas, perfumadas, propriedade inalienável dos que sobrevivem diante das ilusões das existências transitórias. O valor da consistência dessas heranças, adquiridas a troco do merecimento positivo, muitas vezes trazemos na história pessoal, essas ocasiões agradáveis de rara beleza que fertilizam o solo da consciência, alimentando o regresso a horas inigualáveis da certeza de que o amor existe, porém reservado aos que dele fazem jus.

Numa demonstração da força do que possui de essencial a verdadeira esperança, vivemos na busca da realização deste ser que somos através dos frutos favoráveis da natureza onde habitamos. Conquanto ocorram circunstâncias desafiadoras a essa vontade do bom e do melhor, no entanto carecemos sustentar a lucidez das bênçãos que produzimos no decorrer das vidas.

Invés de imaginar algo que contradiga o senso desta perfeição absoluta de que já participamos, sustentemos, por isso, o desejo forte de achar de uma vez por todas o pouso na satisfação de nós mesmos nesse território definitivo do encontro com as virtudes imortais da humana plenitude. 

27 maio 2022

Temas da atualidade - Por: Emerson Monteiro


Agora, as informações circulam numa outra velocidade. Raros são os que ficam fora das notícias. Antes seriam as cartas, os boatos, os editos. Neste momento, há assunto a todo gosto. Ninguém queira afirmar que não sabia disso ou daquilo. Aonde se virar, entram noticiários invasivos. Nos grupos, nas redes, nos sites, no escambau a quatro. E tem mais, carregados de intenções propositadas, visando interesses em geral só particulares. Eis os temas da atualidade, que são impossíveis de saber até onde chegam os fakes, os jogos de mídia, as variações de pretensões. Nisso hoje desliza o fio da civilização internética, cibernética, a não dizer irresponsável com os resultados daquilo que querem que seja a tônica dos dias. Só fome de poder, de manipulação, a comprometer o próprio dito avanço da tecnologia dos meios de comunicação. Enquanto isto, as grandes marcas perderam altura. Os jornais famosos de algumas décadas sumiram nos tabloides, ou sumiram mesmo, virando meros boletins de notícia perdidos na multidão das mensagens da rede mundial. Quem diria chegássemos a isso?! Tanto poder nas mãos dos empresários da mídia que some pelos ares, diluído na massa geral das versões espalhadas neste chão impessoal.

Uma mudança jamais prevista veio de acontecer. As máquinas feitas pelo homem estenderam seus tentáculos ao cidadão médio, que também criou os seus tentáculos, numa queda de braços de causar espécie. Ao surgir o cinema quiseram que sumisse o teatro. Ao surgir a fotografia imaginaram desaparecer a pintura. Assim sucessivamente, no entanto com espaço a todos. As cartas, os livros, as artes, os gritos humanos de conhecer e divulgar aquilo que conhece e espalha. Bem nos moldes dos avanços da necessidade. Outro dia, assisti a um vídeo em que falavam não existir inteligência artificial, porquanto tudo isso vem da inteligência da raça, que multiplica a força da informação e quebra as barreiras do anonimato. Isto, por demais, indica o quanto podemos em termos de conhecimento e progresso, quando soubermos usar com sabedoria os valores de que dispomos.

(Ilustração: Picasso em 1951).

25 maio 2022

Coração de Dom Pedro I está guardado numa igreja de Portugal

          No último dia 6 de maio, o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, teve a grata satisfação de visitar a Igreja de Nossa Senhora da Lapa, em Porto, na Região Norte de Portugal. Naquele hierático recinto – construído entre 1756 e 1863, pela Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa – encontra-se sepultado, na Capela-Mor, o coração do Imperador Dom Pedro I, indômito tetravô de Dom Bertrand.

     Dom Pedro I (Rei Dom Pedro IV de Portugal) deixou seu coração à Igreja em testamento, pelo apoio que recebeu de Porto, a Cidade Invicta, na Guerra Civil Portuguesa, que travou contra o irmão, o Rei Dom Miguel I de Portugal, para devolver o Trono à Soberana legítima, sua filha, a Rainha Dona Maria II de Portugal. Desde 1972, ano do Sesquicentenário da Independência do Brasil, o corpo do Imperador repousa na Cripta Imperial sob o Monumento à Independência do Brasil, em São Paulo. Permanece em Portugal apenas o coração do Imperador Dom Pedro I, na igreja objeto desta postagem.

Fonte: Facebook do Pró Monarquia

Dom Bertrand sendo recebido na igreja de Nossa Senhora da Lapa
Interior da igreja que guarda o coração do imperador Dom Pedro I

 




24 maio 2022

As luzes do silêncio - Por: Emerson Monteiro


A inspiração que você procura já está dentro de você. Fique em silêncio e escute.
Rumi

Quanta sofisticação em poder transmitir o que nasce da inspiração, senhores que somos de nossos predicados. Força descomunal disso vem nas artes, ciências, criações do próprio punho. Ao mesmo instante quando muitos largam de lado a chance de estabelecer novos padrões na presença deste lugar que ocupamos, outros mergulham fundo na perspectiva de buscar as pedras raras do mistério de si mesmo na essência da alma. Acham, sim, tanto de paz e luz na consciência, oportunidade que temos de vasculhar as profundezas do ser e minerar as distâncias do eterno infinito aberto no íntimo. A isto chamam inspiração. Coragem de aceitar o conteúdo que dispõem sobre nós as luzes da existência.

Durante todo tempo, essa condição vive solta na percepção, restando tão só estirar as mãos e colher seus frutos. Já está dentro de você.  O ritmo do tempo quer isto significar, o pulsar do mistério nas criaturas humanas. De um lado, a escuridão mental. Do outro, a luz do sol desse fator aqui em nós.

Por mais pareça distante, tamanha profundidade vive no ser que testemunha o pouso onde esteja; bem nele reside tudo quanto há, desde antes e sempre.

A prova disto impera nos moldes da Natureza, e seguiremos assim. Nem de longe caberá desistir, mesmo porque nem existe aonde ir nessa fuga imaginária. Será do nada a coisa nenhuma. Porquanto, vemo-nos restritos à existência que isto significa, nas planícies da Criação. Vivemos, pois, no seio da nossa revelação que nos aguarda de braços abertos, quando ali aportar, nessa longa jornada cósmica da Felicidade que já trazemos conosco.

Quer-se admitir outros eus que andem vagando nos limbos do Universo, no entanto há apenas este qual somos, razão de tudo quanto existirá durante todo tempo. Nisso acertamos a cada momento o que seja, diante das imaginações e percalços, viagens e motivos, isto que agora somos, e deixemos fluir a luz dos acontecimentos na alma da gente, fruto de todas as recordações reunidas a um só Eu, num só instante.

Vencer a si mesmo - Por: Emerson Monteiro


Vencer a si próprio é a maior das vitórias
. Platão

Nas filosofias do autoconhecimento essa busca de dominar o instinto e chegar ao sentimento significa, pois, deter a força bruta e reduzir tudo ao pó das ilusões que antes conhecemos, nas lutas desta vida. Quer-se vencer, eis o empenho. Superar o desgaste do tempo e transcender a pura matéria. Achar o desiderato de uma razão maior, condição dos que já trazem consigo a luz da consciência qual variável que os orienta pelos caminhos da virtude, da imortalidade. Espécie de espelho dos demais seres, tocamos adiante o desejo de existir, porém longe da conformação inoperante face ao desconhecido. Ninguém, por si só, entrega o corpo ao chão sem antes refletir numa saída mais honrosa de responder ao enigma do desaparecimento puro e simples, sem haver pelejado no esforço de revelar a si mesmo o mistério de existir.

Nisto se resume, todo momento, o que equivale possuir a presença pessoal e administrar um corpo e suas nuances. E conhecereis a verdade e ela os libertará. João 8:32 Libertará de tudo quanto representa a inutilidade, a ausência de uma compreensão plena do que nos traz até aqui e daqui nos conduzirá perante o Eterno das infinitas gerações.

Enquanto isto, sofrer sem a consciência de transcender o sofrimento de comum eis o retrato fiel daquilo que vivemos durante a permanência neste chão. Além disso, pouco importam as justificativas parciais ofertadas pela razão corriqueira, conquanto dá de cara na inutilidade dos argumentos trazidos à tona. Tal afirmou Salomão, Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

Derrotados pelo tempo que nunca passa, vez que quem passa somos nós pelo tempo, instrumentos frágeis das limitações, os humanos atravessam vidas sucessivas até quando, lá um dia, desperta à verdade que guardava dentro da presença e acha de uma vez por todas a plena Libertação.

(Ilustração: Bhagavad Gita).


20 maio 2022

A solidão dos que amam - Por: Emerson Monteiro


Às vezes me pergunto a respeito de como vivem os que se dedicam de corpo e alma às ideias religiosas com ânimo de pô-las em prática. Viver de renúncia, bondade, fraternidade, serviço, esperança, fé... Isto em um mundo onde de comum mais prevalecem os interesses individuais, projetos pessoais, intenções de lucro e competitividade... Mesmo assim existem esses exóticos que buscam desenvolver outra compreensão que não seja apenas o materialismo vigente e resolvem ser em vez de apenas ter, e saem vagando, nesse meio tempo, até chegar aos páramos de uma verdadeira espiritualidade.

Andam que andam, persistem nos propósitos que adquirem nas visões, nos estudos da visão interna, pessoal, pela descoberta dos mistérios da consciência. Atravessam contradições e desafios; sustentam as barras do cotidiano quase igual desta civilização; e estudam a história que o tempo registrou, de tanta repetição de conflitos, guerras e conquistas, destruição egoísta de povos e nações. Veem o exercício das funções da humanidade que precisa desenvolver, no entanto até parece que pouco ou nada aprende no exercício justo deste chão de quantas lutas.

Daí nascem os místicos, poetas, visionários, profetas, mártires, a contar dos segredos que aprendem de dentro de si, numa vontade férrea de conquistar meios da tão sonhada felicidade. Há sempre novos e novos missionários dos tempos e das promessas. Seres iguais a nós que desgarram do grupo social e vão arrastando pelos campos um viver de explicar modos outros que permitam desvendar o enigma profundo do desaparecimento de todos pelo sumidouro da morte. Empregam os trunfos da certeza aos meios de revelar trilhos da sonhada transição a planos superiores, ainda que também guardados a sete capas na constituição das gentes.

Isto faz com que, nalgumas ocasiões, os vejamos quais bichos esquisitos, seres surreais, pessoas alienadas, dementadas, sequeladas, cartas fora do baralho, porém de todos a quem podemos dar um crédito de confiança e esperar sinais de boas novas, de que falam os livros sagrados.

(Ilustração: Santo Afonso de Ligório).

(Re)mexendo nos meus alfarrábios – por Armando Lopes Rafael (*)

 A noite que transformaram dona Bárbara de Alencar numa "anã" 

    Na noite de 21 de junho de 2016, data do Município de Crato, o então prefeito Ronaldo Gomes de Matos (“O Fenômeno”, como gostava de ser chamado), inaugurou um “monumento” no calçadão da Praça da Sé. Criticada por ser “pobre de monumentos”, a Cidade de Frei Carlos (não existe nada que lembre o fundador de Crato, sequer uma ruela no chamado bairro "Rabo da Gata")  recebia um “busto” de Bárbara de Alencar, uma figura emblemática no episódio que se convencionou chamar de “desdobramento da Revolução Pernambucana de 1817 na cidade de Crato”.

     Tratava-se, na verdade de um simulacro de monumento. Uma "anã", colocada rente ao chão (pense no nivelamento, que contrariava toda a politica dos monumentos), simbolizava a "heroína dos cratenses". Sinceramente, dona Bárbara merecia ser homenageada com um monumento à altura da sua memória.

     Sobre esse “busto” assim foi noticiado no Blog Plim-plim do Cariri, mantido pelo Sr. André Lacerda: 

     “Inaugurado o busto da heroína Bárbara de Alencar no município do Crato, parece brincadeira, ou alguma criança brincando de argila, me desculpe o artista, mas até agora eu fico imaginando de quem foi a brilhante ideia, se a guerreira estivesse viva, era capaz dela ter um enfarte fulminante, já não bastasse a cara torta e mal feita da santa”. (SIC)

    Passados quase oito anos da introdução daquela “aberração” ainda não se viu um protesto à altura contra aquela coisa horrorosa, capaz de motivar a retirada da “anãzinha” que fere os foros da memória histórica de Crato. Triste!

Sobre a  Revolução Pernambucana de 1817 em Crato:  mito e realidade

     A participação de Crato na Revolução Pernambucana de 1817 tem sido o episódio histórico desta cidade mais exaltado, nos anos "pós–proclamação" da República. Costuma-se dizer que a história é sempre escrita pelos vencedores. Os revolucionários republicanos de 1817 – derrotados pela contrarrevolução do monarquista cratense Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro – passaram a ser exaltados como heróis, após o golpe militar que impôs a forma de governo republicana no Brasil, em 15 de novembro de 1889. Os feitos desses republicanos de 1817, no Cariri cearense, são divulgados em proporções maiores que as reais, tanto nos meios de comunicação, como por parte de alguns historiadores. Do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro pouco se fala. Quando se escreve sobre o efêmero movimento que foi a Revolução Pernambucana de 1817, em terras do Cariri cearense, omite-se a decisiva participação do Brigadeiro Leandro, ao debelar aquela revolta. Omite-se, também, a coragem pessoal e cívica de Leandro Bezerra Monteiro naquele episódio.

   Aliás, o historiador cratense J. de Figueiredo Filho, apesar de simpático às ideias republicanas foi veraz ao escrever: “Muito se tem discutido em torno da Revolução de 1817, na Vila Real do Crato. Foi movimento efêmero, que durou apenas oito dias. Ocorreu a 3 de maio de 1817, em consonância com a revolução que eclodiu em Pernambuco. Foi abafada, quase ingloriamente, a 11 do mesmo mês. É verdade que a vila bisonha de então não estava suficientemente preparada para a rebelião que, para rebentar, em Recife, necessitara da assimilação de muitas páginas de literatura revolucionária, da luta entre brasileiros e portugueses, em gestação desde a guerra holandesa e do preparo meticuloso, em dezenas de sociedades secretas, além de fatores econômicos múltiplos”. (01)

   Passados 200 anos daquele episódio e analisando de forma objetiva vários escritos e opiniões dos pesquisadores regionais chegamos à conclusão: o que ocorreu no Cariri, em 1817, não foi uma simples disputa entre clãs familiares, como alguns historiadores escreveram no passado. Tratou-se, na verdade, de um confronto de ideias. De um lado, o proselitismo e ações concretas em favor dos ideais revolucionários e republicanos, feitos por membros da ilustre família Alencar, um dos clãs mais importantes do Sul do Ceará. No entanto, o povo não apoiou os Alencares, que lutaram para impor uma ideologia estranha à mentalidade da sociedade caririense de então. Do outro lado, opondo-se a essas ideias republicanas, estava o Coronel das Milícias  Leandro Bezerra Monteiro, um homem dotado de profundas e arraigadas convicções católicas e monarquistas.

   Relembre-se, por oportuno, que a fidelidade à Monarquia, por parte de Leandro Bezerra Monteiro e seu clã, motivou a concessão – partida do Imperador Dom Pedro I – da honraria ao ilustre cratense do primeiro generalato honorário do Exército brasileiro. Àquela época, embora em desuso, o posto de Brigadeiro correspondia – na escala hierárquica do Exército Imperial – à patente de General.

No mais 

    Outro historiador cratense, o Prof. Dr. José Denizard Macedo de Alcântara fez interessante análise sobre a mentalidade vigente na população do Cariri, à época da Revolução Pernambucana de 1817.  A conferir:

    “Um bom entendimento dos fatos exige que se considere a realidade histórica, sem paixões nem preconceitos. Ora, dentre os dados da evolução histórica brasileira há que se ter em conta o seguinte:

a)    a sociedade brasileira plasmou-se, em mais de três séculos, à sombra da monarquia absoluta, com todo o seu cortejo de princípios, hábitos, usos e costumes, não sendo fácil remover das populações esta herança cultural, tão profundamente enraizada no tempo;

b)    daí o apego aos Soberanos, a aversão às manobras revolucionárias que violentavam suas tradições éticas e políticas, os reiterados apelos de manutenção da monarquia absoluta, que aparecem, partidos de Câmaras Municipais – os órgãos públicos mais aproximados das populações – mesmo depois que Pedro I pôs em funcionamento o sistema constitucional de 1826;

c)    o centro de gravidade desta sociedade eminentemente rural era sua aristocracia territorial, única força social de peso na estrutura nacional, repartida em clãs familiares, e profundamente adita ao Rei, de quem recebia posições públicas e milicianas, além de outras benesses, sentimento este que mais se avolumara com a transmigração da Família Real, em 1808, pelo contato mais imediato com a Coroa, bem como pelos benefícios prestados ao Brasil, no Governo do Príncipe Regente;

d)    sendo insignificante a sociedade urbana, era mínima a capacidade de proselitismo da vaga liberal que varria o mundo ocidental, na época, restringindo-se a uma minoria escassa, embora ativa e diligente. (02)

    Donde se conclui que não houve simpatia, nem apoio da sociedade caririense às ideias republicanas da Revolução Pernambucana de 1817, difundidas no Sul do Ceará pelo seminarista, subdiácono José Martiniano de Alencar.


Referências bibliográficas:

(01) FIGUEIREDO FILHO, J. História do Cariri. Vol. I. Edição da Faculdade de Filosofia do Crato, 1964.  p.61
(02) ALCÂNTARA, José Denizard Macedo de. Notas preliminares in Vida do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro. Secretaria da Cultura, Desporto e Promoção Social do Ceará, Fortaleza, 1978. p.26

 (*) Armando Lopes Rafael é historiador. Sócio do Instituto Cultural do Cariri e Membro–Correspondente da Academia de Letras e Artes Mater Salvatoris, de Salvador (BA).
 


18 maio 2022

No mar do esquecimento - Por: Emerson Monteiro


Tantas vezes são estas cenas que se repetem na vastidão das memórias fieis. Andar pelas ruas e rever pessoas e lugares do pretérito que nunca morreu. As mesmas cenas assim perduram claras no teto infinito da subjetividade. As histórias de antigamente, nos pagos soltos da saudade. Nisto, hoje achei de caminhar um pouco, em face do carro na oficina, e pausei alguns momentos desses de idos tempos, pelas calçadas onde pisava nos cotidianos dalgumas décadas. Até os prédios velhos ganharam alma nova. Outros desapareceram envoltos nos vestígios de construções renovadas e lojas de artesanato dos dias que desgrudam das ausências e sobrevivem aos desejos insaciáveis do abandono.

Ali as pessoas vivem nos pedaços de lembranças semelhantes ao que foram pelos desvãos das consciências adormecidas. O prédio onde ficava minha primeira escola, por exemplo, agrega uma igreja evangélica em formato diferente. As casas revestidas de taipa de antanho, três quase iguais, num repente mudaram aos moldes das argamassas cinzentas, brilhosas. O mais incrível, a força resistente de grudar por dentro feito pedras irreversíveis, tijolos de metais incandescentes, não acaba nunca nos quereres aqui jogados fora.

E sai a caminhar no calor escaldante de um sol do meio-dia, a meio de silêncios e solidão, nos recantos de mim que restou enternecido às folhas dos pergaminhos das horas outras que regressam ao presente que fossem as velhas ruas deste dia, tal existência das criaturas que permanecem gravadas nas lâminas eternas de cada instante, entre aqui e jamais, formas daqueles engenhos de emoção que fervem as rapaduras da memória e as deixam abandonadas no açúcar das ondas deste mar de eternidades.

Via com nitidez pessoas ali naqueles muros onde as deixara largadas no sonho desse filme insistente. Legiões de afetos, fisionomias, sorrisos; um coração ainda pulsando às aproximações, nos caminhos, nas páginas desse conteúdo que agora sou, de velas ao vento na sequência natural de tudo. Que nem de procurar, me resumo longe nos céus nebulosos dos outros dias, este ser único de quem preciso a fim de ouvir os murmúrios, e viver sempre nesta sede perpétua da continuação das espécies.

16 maio 2022

A resistência da vontade - Por: Emerson Monteiro


O querer desde sempre impõe condições. Qual quem obedece a uma força desconhecida, tem-se a nítida impressão que somos comandados por entes até então desconhecidos, neste mar de fenômenos inevitáveis. Depois da prática vem a virtude dos que praticam. O desejo de acertar naquilo que a vontade determina fica aquém dos que a exercitam. Tais blocos de pedras que descem das montanhas, as atitudes crescem na medida em que os resultados sujeitam os que os deram origem à força de tê-los praticado. Algo assim de receber os próprios frutos, porém quase sem compreender a força que impõe a sua produção. Espécies de consequências de si mesmos, seres pensantes vivem no mar das consequências e adormecem debaixo das suas ações.

Nisso a visão de sermos produtos de nossas ações no decorrer de todo tempo. Sermos o que fizemos do que ora somos; seres agidos, antes de seres agentes. Uma matéria prima da individualidade, fazemos do que nos é dado fazer através das nossas escolhas. Então seremos os frutos das escolhas que tivermos feito. A pretensa liberdade vem nesse ritmo, de termos liberdade a fim de acertar, porquanto errar não é liberdade, mas escravidão.

E a vontade corre solta nesse viver a vida que nos é dada. Após escolher, resta receber os resultados. Nem, muitas vezes, sabe-se o que lhe moveu a agir. Seremos, pois, vítimas ou senhores do que fizermos, e não donatários exclusivos das ações.

Daí a importância da vontade férrea no caminho que desejamos nos sujeitar. O plantio é livre, mas a colheita obrigatória. E longe de alegar que desconhecíamos a Lei do Retorno. A facção do bem reporta o merecimento do Bem. São leis da existência durante qualquer época e onde quer que seja. Fazes por ti e os Céus de ajudarão.

Há de se pensar que o materialismo desconhece a realidade maior, invisível, por conta de alimentar ignorância dos reais propósitos de tudo quanto determinam os acontecimentos, no entanto a eles deverá, sem alternativa, obedecer e render graças ao processo em movimento.

14 maio 2022

Padre Cícero, um Bezerra de Menezes

 Abaixo, postagem antiga feita em  de outubro de 2013, pelo historiador Daniel Walker (in memoriam) no Blog Portal de Juazeiro:

Padre Cícero, um Bezerra de Menezes 


   Alguns ancestrais do Pe. Cícero pertenciam à Família Bezerra de Menezes. Quem lê estudos mais aprofundados sobre a biografia de Cícero Romão Baptista, o padre secular que revolucionou a Povoação do Joazeiro, entre 11 de abril de 1872 - quando chega na povoação para residir, na companhia de sua família (a mãe Joaquina Vicência – chamada Dona Quinô, duas irmãs – Mariquinha e Angélica, e uma escrava, Terezinha) e 20 de julho de 1934, quando falece - deve ter encontrado alguns destes registros. As suas tetravó e trisavó paternas, respectivamente, Petronila Bezerra de Menezes e Ana Maria Bezerra de Menezes, filha de Petronila, eram relacionadas por genealogistas como oriundas da contribuição étnica da família, dos troncos existentes entre velhos povoadores da Bahia, de Pernambuco e de Sergipe, especialmente. Contudo, as ressalvas eram feitas, admitindo-se que eventualmente fossem estes ancestrais consanguíneos.

   Levantamentos mais recentes mostram de forma inequívoca, as relações familiares destes avoengos com as mesmas heranças espanholas e portuguesas já referidas para a ancestralidade do Brigadeiro Lndro Bezerra Monteiro. O nono filho do casal Bento Rodrigues Bezerra e Petronilla Velho de Menezes, se não teve uma grande importância no povoamento do Cariri, menor não é o significado de sua descendência, especialmente, para Juazeiro do Norte, pois representou o berço do patriarca da extensa Nação Romeira, o reverendíssimo padre Cícero Romão Baptista . Assim:
1. João Bezerra de Menezes matrimoniou-se com Maria Gomes, e foram os pais de:
2. Petronila Bezerra de Menezes que casou com o Cap. João Carneiro de Morais, e geraram:
3. Ana Maria Bezerra de Menezes, que desposou o Cap. Francisco Gomes de Melo, pais de:
4. José Gomes de Melo, capitão, de cujo enlace com Ana de Farias, tornaram-se pais de:
5. Vicência Gomes de Melo, que uma vez casada com José Ferreira Castão, foram os pais de:
6. Joaquina Vicência Romana (ou Joaquina Ferreira Castão – Dona Quinô), de cujo casamento com Joaquim Romão Baptista Mirabeau, foram os pais de:
7. Padre Cícero Romão Baptista.

   Por conseguinte, o Pe. Cícero Romão Baptista é um Bezerra de Menezes. Neste caso, sem nenhuma dúvida, este parentesco com os povoadores do Sítio Joazeiro se verifica bilateralmente, pelos lados materno e paterno. (Daniel Walker e Renato Casimiro)  

Postado por Daniel Walker às 15:02