04 dezembro 2021

A intuição - Por: Emerson Monteiro


Dessas variantes que chegam em ocasião necessária e trazem consigo milhares de pequenas partículas de longas jornadas mentais, invadindo o deserto da gente e esfacelando de vez a sequidão do silêncio. Chegam, e determinam. Impõem, até podemos dizer, qual sonho que se houvesse real sonhariam longe das mais vagas previsões. Trazem de junto, no entanto, respostas a quantas perguntas que viviam vagando os céus da consciência, talvez fora de propósitos, mas que pediam resultados, a fim de escolher um caminho a seguir. Então, abrem alternativas de modo que restam disso tão somente andar pelo espaço da imaginação na busca de conhecer aonde ir nessas paisagens da existência.

São assim as intuições tais inspiração de momento a momento, resgando clareiras nessas florestas dos dias, talhos imensos no teto do universo em movimento de dentro das pessoas. E daí, surgem questões de querer saber também o que nadaria no íntimo das outras criaturas, que diriam a si que presenciassem da própria história. Mesmo que sejam só figuras de preencher o território que ocupem, no entanto se não iguais pelo menos que sejam tão parecidas com a nossa identidade.  Gente, afinal.

Nisso, nos observando, queremos conhecer que, se somos iguais às outras criaturas caminhando ao nosso lado, ao menos saber quem o são, e nós iguais dessa forma seremos. Essa procura insana de revelar o ser de dentro, se nem saber o que eles, os outros, sejam, de maneira semelhante vagam todos no tempo feitos fervilhantes pensamentos em ação inevitável.

Intuir, pois, eis o formato de transcrever no sentimento aquilo que as horas quiseram falar e deixamos de interpretar, esse esforço sobre-humano de salvar a pele e trazer à tona conteúdo às nossas almas vazias. Sustentar o enredo das histórias individuais, porém só meras peças soltas de descomunais quebra-cabeças, numa constante agitação. Fagulhas de fornalha acesa sob camadas sucessivas de terra em que antes fomos o abismo desse nada que bem ali permanecemos até desaparecer.

Siara: Uma Lenda de Amor – por José Luís Lira (*)

   Normalmente um romance histórico busca uma inspiração em fatos do passado, em personalidades históricas ou anônimas. O indianismo brasileiro foi dominado por José de Alencar que inaugurou o romance brasileiro no gênero. É claro, sem querer entrar em polêmica, não se pode esquecer de Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, português, romancista, político que nem Alencar e, também, indianista. 

   Tudo isso me vem à mente quando concluí a leitura “Siara: Uma lenda de Amor”, da confreira Grecianny Carvalho Cordeiro. A autora é Promotora de Justiça no Estado do Ceará, com mestrado em Direito Público pela Universidade Federal do Ceará e pela Universidade de Fortaleza. Escritora e jornalista, articulista do Jornal O Estado. Da Academia Cearense de Letras, da Academia Metropolitana de Letras e da Academia Fortalezense de Letras, entre outras. Autora de livros, jurídicos, romances, poemas. 

    O livro em comento é um romance histórico. Estamos no Brasil holandês e o Ceará está dividido entre indígenas e holandeses. Neste contexto surge uma história de amor que move a história. É o amor de Laila, uma cacique indígena (é tão diferente que o computador não quer aceitar “uma cacique”), e o holandês Jonas.  

    De início da história, têm-se a impressão que o desfecho será parecido com Iracema, a lenda da mãe da raça cearense com seu filho Moacir ou filho da dor. Cresci na Ibiapaba, estudei no Ipu e conheço muito bem o cenário e a história de Alencar. Mas, no final o leitor se surpreenderá e aqui não abordarei para que o próprio leitor constate. Além de apresentação, prólogo e epílogo, o romance é composto por 31 capítulos. Romance, histórico, e interessante observar, têm notas de rodapé com fotos históricos e suas páginas lemos, com citações indiretas, Matias Beck, Raimundo Girão, Câmara Cascudo, Barão de Studart, entre outros. 

    Personalidades históricas são as mais variadas e podemos observar que nossa autora promove um encontro entre Martim Soares Moreno (considerado fundador do Ceará e, ficcionalmente, pai do filho de Iracema citada no início) e Laila, a cacique: “recordava vagamente desse português de nome Martim, trazido à presença de seu pai através do primo Jacaúna”, contextualiza. 

    Uma das forças motoras do romance é a busca de prata pelos holandeses, suas presenças na serra de Maranguape, Fortaleza, Camocim e na Ibiapaba. Observamos que o romance mostra também a força da mulher indígena e a coragem da cacique Laila quando da retirada dos holandeses do Ceará me lembrou o final do Memorial de Maria Moura, quando a Moura decide ir à batalha contra seus inimigos sem medo de morrer ou com esperança de viver. A cacique não abandona seu povo. É a única sobrevivente e como profetizará, sua história sobreviveu ao tempo, emoldurada pelo amor de um holandês e uma índia. Ela lembra que “Aquele era o seu Siara”. E aquela “espantosa felicidade” ultrapassou a razão sempre mortal diante da imortalidade do amor. 

    O livro de Grecianny Carvalho Cordeiro é daqueles que devemos ter sempre por perto para quando faltar algo interessante para ler, reler, folhear e se emocionar com tão belo enredo.
     Resta, portanto, parabenizar a autora e recomendar “Siara: Uma lenda de amor”, de Grecianny Carvalho Cordeiro (Fortaleza: Sol Literário, 2020, 224 páginas).
 
       (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.