05 novembro 2021

Em uma data no mês a imortalidade: Rachel e Fernanda, grandes damas – por José Luís Lira (*)

  

 Há 44 anos, o Petit Trianon se engalanava para receber sua primeira imortal, Rachel de Queiroz. Os que presenciaram disseram ter sido um grande acontecimento. A bateria da Escola de Samba Beija-Flor e a torcida do Vasco da Gama tomavam conta da Presidente Wilson, centro do Rio de Janeiro, eterna capital cultural do País, a Cidade Maravilhosa.

   Os jornais de todo o Brasil e revistas destacaram a posse de Rachel. Relato de uma pessoa presente à solenidade dizia que pouco depois das 20h40min daquele 4 de novembro de 1977, Rachel levantou os óculos, enxugou uma lágrima e assinou o livro de posse da Academia Brasileira de Letras. O tabu estava quebrado. Uma mulher se tornou imortal. O jornal Hoje da Rede Globo de Televisão anunciava dia 5 de novembro de 1977: “Com voz firme, demonstrando que se preparou muito tempo para aquele momento, Rachel de Queiroz tomou posse ontem na cadeira n° 5, da Academia Brasileira de Letras”.

   Rachel foi a maior romancista de sua geração. Considero-a o maior escritor, mas, talvez me faça suspeito, pelo amor e bem-querer que sempre tive por ela. Aos poucos, adentrei seu mundo e me tornei seu amigo, afilhado de formatura. Vinte e seis anos depois daquele 4 de novembro de 1977, no dia 4 de novembro de 2003, Rachel saia pela última vez do Petit Trianon, dessa vez para o Cemitério São João Batista, não para o Mausoléu da ABL, mas, para ficar junto com seu grande amor, Oyama de Macêdo e hoje lá estão seu cunhado, Namir e sua querida irmã-filha Maria Luíza de Queiroz Salek, a Isinha.


   Já falei muito sobre Rachel de Queiroz e ainda falarei, enquanto eu durar, porém, este ano foi o 18° de seu falecimento e como digo sempre, a saudade ainda é frequente e para acalentá-la, vez por outra, pego um de seus livros, seus romances. Mas, nada se compara a ouvi-la, ter sua opinião, no entanto, passados exatos 18 anos, posso afirmar que ela cumpriu – e muito bem – sua missão. Abriu a Academia para as mulheres mesmo antes que a Academia Francesa – que serve de modelo às demais – elegesse Marguerite Yourcenar; firmou o romance regional na Literatura. Foi um ser humano extraordinário.


   Pois 44 anos depois da posse de Rachel, a Academia anuncia: “Realiza-se no dia 04 de novembro a eleição para a Cadeira nº 17, vaga com o falecimento do Acadêmico Affonso Arinos de Mello Franco. Para esta Cadeira, encontra-se inscrita a Senhora Fernanda Montenegro”.

   Conheci, pessoalmente, dona Fernanda Montenegro no dia dos 90 anos de Rachel de Queiroz. Simples, autêntica, admirável. Depois a vida vai pontuando as ocasiões. E nós costumávamos dizer que Rachel de Queiroz era a grande dama da Literatura e dizemos que Fernanda Montenegro é a grande dama do cinema e da dramaturgia do Brasil. São duas grandes damas, envolvidas pela amizade e pela arte. E a Academia sempre elege notáveis. 

   Fernanda Montenegro é notável. Por toda uma vida dedicada à arte, primeira latino-americana e a única brasileira indicada ao Oscar de Melhor Atriz; única atriz indicada ao Oscar por uma atuação em língua portuguesa e autora da autobiografia Prólogo, ato, epílogo. 

    Fernanda e os tantos nomes que recebeu em mais de 70 anos de arte, é eleita para a Casa do Bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis, com os aplausos de uma Nação.

    Vida longa à nova imortal!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.