20 setembro 2021

Sem título - Por: Emerson Monteiro


Só conta a sabedoria de que o livro é portador, embora ela não esteja na essência da tinta e do papel. Antoine de Saint-Exupéry

 Dentre os livros consagrados nesta Era Contemporânea, O pequeno príncipe ainda hoje mantém lugar de honra entre tantos livros espalhados pelo mundo. Saint-Exupéry, ex-aluno da Congregação dos Maristas, na França, destacaria, com essa obra, a simplicidade dos contos infantis numa linguagem de largo poder de percepção, chegando à alma dos leitores com história inesquecível. Tanto ao nível das crianças quanto do público adulto, galgou tocar o coração dos seres humanos qual jamais antes fizera outro autor.

Conheci outros livros desse consagrado escritor, quais Voo noturno, Correio Sul (esses quanto às viagens intercontinentais dos correios ao início das missões aéreas ao longo do continente americano e da África, fonte de sua inspiração nessas obras), Terra dos homens, Piloto de guerra, Cartas ao pequeno príncipe e Cidadela.

Sempre um viajante solitário nas suas infinitas viagens, descreve como poucos as nuances da personalidade humana, refletindo seus conflitos íntimos existenciais, tendendo a interpretações filosóficas de alta reflexão e sofrimento. Isso fez valer como intensidade nas narrativas de Piloto de guerra, quando aviador militar aliado numa das bases da Segunda Grande Guerra, de onde, certo dia, partiria em uma missão de reconhecimento para não mais regressar.

Das suas produções, Cidadela seria a mais extensa, aonde pretendeu reunir maiores considerações quanto aos estudos da vida, o que, no entanto, permaneceria inédito durante sua existência.

Nas andanças pela América do Sul, nalgumas vezes pousaria em Natal, no Rio Grande do Norte, cenário em que conheceria uma das mulheres que lhe marcaram a existência. Na França, viveria intensa paixão ao lado de uma atriz de teatro, talvez o maior dos seus amores, de quem, no entanto, nunca viria a merecer igual dedicação.

Quase que na intenção de cumprir um dever de gratidão a esse escritor, responsável por parcela valiosa do gosto que tenho pela literatura, deixo aqui, nestas poucas palavras, meu rápido registro de agradecimento.

Vida interior - Por: Emerson Monteiro


Nessa busca do sentido de tudo, se chega a compreender a fluidez naquilo que avaliávamos ser pura realidade. Rastros de tempo que voam pelo abismo do passado logo viram presente ao impacto do futuro e esvaem ao clarão dos novos dias. Tais malabaristas das experiências adquiridas, os indivíduos avançam nessa fronteira do Nada, anestesiados pelas visões que projetavam na tela mental, e padecem da síndrome do desaparecimento instantâneo sem sombra de alternativas. Portanto, somos isto, sementes de um encontro marcado conosco próprios. Querer contrariá-lo eis o que restaria, por conta da sonhada liberdade, ou de nenhuma vontade de aceitar a morte como um valor definitivo.

Durante essa caminhada perene, no entanto, aparece necessidade do despertar, acordar daquilo que seria só pesadelo, desaparecimento inevitável. Daí o desejo de continuar, sobreviver a todo custo, se salvar. Desejo, ou consequência do viver em queda livre. Ainda que frágil, a vida traz em si o senso de eternidade, espaço apreendido na sombra das histórias e vivências. Ninguém que seja pretende apenas desfrutar das horas e nelas sumir nas suas entranhas de fatalidade.

Bem isto, a semente de uma vida interior, conquanto impossível prosseguir diante das peças deste cenário, que caem e somem aos nossos olhos. Persistirá força viva da imaginação e do furor da imortalidade. Querer e desenvolver isso através dos elementos da Criação, de que somos parte efetiva. Nas entrelinhas das dúvidas, ensaiamos a fome do poder, quais criaturas enigmáticas à procura da sorte. E mergulhamos nas cavernas deste ser que o somos, aventureiros da salvação.

O território aberto dos próximos acontecimentos supera, pois, nossos passos e alimenta nossas intenções de revelar a que viemos e descobrir, nas malhas da carne, o código perfeito desse mundo ignoto e rico de surpresas, o reino de toda possibilidade, quando as ilusões se apagarão à luz resplandecente das manhãs espirituais.