18 setembro 2021

Uma carta: "Impressionando os Anjos" – por José Luís Lira (*)

    Quando meu amigo Samyr Figueiredo faleceu, Você não acreditou. Ao me ver chorando, tentando me animar, Você pediu que eu ouvisse a canção religiosa “Verdades do Tempo”, de Thiago Brado. Em dado trecho da música se ouve: “Passado não volta, futuro não temos e o hoje não acabou/ Por isso ame mais, abrace mais/ Pois não sabemos quanto tempo temos pra respirar/ Fale mais, ouça mais/ Vale a pena lembrar que a vida é curta demais”. As lágrimas embaçam um pouco a vista e preciso, instantes em instantes, levantar os óculos para desumedecer os olhos...

   Há alguns dias encontrei várias fotos nossas. A Professora Graça Fonteles escreveu sua biografia para apresentar, oficialmente, seu nome para patrona da cadeira 40 da Academia Cearense de Cultura. Foram tantas lembranças e acabei indo a Fortaleza. Recordo bem do que Você falava de quando seu pai faleceu e Você ia ao cemitério só para estar lá. Acho que me impregnei desse sentimento e diante de seu túmulo, lembrei, também, de uma pergunta sua, há tempos... Estávamos num sebo no Rio de Janeiro e do nada Você perguntou: “Será que no céu tem livros?”. Eu indaguei o porquê da pergunta e Você disse que seria “muito triste a vida sem livros” e eu citei Jorge Luis Borges: “Siempre imaginé que el paraíso es una especie de biblioteca”. No retorno ao hotel, ouvi uma música que meu irmão Ticar já tinha me apresentado. Mas, hoje ela teve o real significado e a vejo nova...

    A música é “Impressionando os anjos”, de Theo Andrade e Gustavo Mioto, cantada por Mioto. É sobre uma separação pela morte. Dizem eles: “Hoje foi tudo bem, só um pouco cansativo/ Dia duro no trabalho que acabou comigo/ Tô aqui com os pés pra cima pronto pra dormir/ A saudade de você é visita frequente/ Que nem a sua tia chata que irritava a gente/ Ah, saudade da gente.../ Ah, falando nisso, terminei o livro que você pediu pra eu ler/ E só na página 70, entendi você/ Naquela parte onde diz que o amor é fogo que arde sem se ver/ Como é que tá aí?/ De você faz tempo que não ouço nada/ Fala um pouco, sua voz tá tão calada/ Sei que agora deve estar impressionando os anjos com sua risada/ Mas de você faz tempo que não ouço nada/ Fala um pouco, sua voz tá tão calada/ Aí de cima, fala alto que eu preciso ouvir/ Como é que tá aí?”

   A página citada é de Camões: “Amor é fogo que arde sem se ver,/ é ferida que dói, e não se sente;/ é um contentamento descontente,/ é dor que desatina sem doer”. Sei que diferentemente da música, Você não impressiona os anjos com sua “risada”, mas, com seus poemas, seus aconselhamentos, sua sabedoria e seu afeto que não conseguia esconder quando amava. Aqui, Sahila, a saudade é grande... Tantas coisas aconteceram. Algumas que nós até falávamos que aconteceria quando Você ou eu fôssemos e, ao mesmo tempo dizíamos, não: não será assim. Enfim, não esqueço de Você um só dia e como seria bom ouvi-la. Naquela varanda, com o vento batendo em nossas faces e Você a dizer coisas tão bonitas. É assim que a lembro...  “A saudade de Você é visita frequente... Como é que tá aí?/ De Você faz tempo que não ouço nada/ Fala um pouco, sua voz tá tão calada”... Mas, eu sei que Você está bem. Desculpe as reticências e nem me preocupei em tanto repetir “Você”... Sei que não incomodará!
    

   (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.