15 setembro 2021

Fahrenheit 451 - Por: Emerson Monteiro


Desconheço o porquê de, há pouco, relembrar esse filme de François Truffaut, um clássico da década de 70, que trouxe às telas o livro homônimo de Ray Bradbury. O romance apresenta um futuro onde todos os livros são proibidos, opiniões próprias são consideradas antissociais e hedonistas, e o pensamento crítico é suprimido. O personagem central, Guy Montag, trabalha como "bombeiro" (o que na história significa "queimador de livro"). O número 451 é a temperatura (em graus Fahrenheit) da queima do papel, equivalente a 233 graus Celsius. Wikipédia

Motivo por demais pertinente na época de agora, quando praticamente os meios eletrônicos dominam o território das letras e imagens, e os jornais, antes detentores das mentes com suas edições impressas, veem-se na condição inesperada de circular pela rede internacional de computadores, e o livro também padece da febre fantasmagórica do anonimato dos números elétricos, dos celulares e computadores.

A que temperatura isso vem de queimar nos circuitos mentais desses aparelhinhos exóticos ninguém, por cento, possui instrumento de avaliar, nem mesmo nas urnas contemporâneas de tantas inovações. O que saber, no entanto, resta circulando pela galáxia dos lixos plásticos dessa nossa civilização de bombeiros a queimar certezas que somem no vasto universo das interrogações. Mesmo assim as editoras persistem no afã de lançar aos mercados seus lançamentos em refinadas produções gráficas.

O fetichismo do livro impresso ganhou, assim, dimensão jamais imaginada de entes exóticos e seus leitores, num tempo em que tudo permite vascular os gênios do passado em velocidade estúpida, porquanto nunca foi tão fácil usufruir das obras de todas as gerações, em questão de minutos, sejam livros, filmes, composições musicais, telas, fotografias, quais herança comum aos aficionados das artes e dos séculos a um só instante.

Ao que nos consta, porém, vivemos o frenesi dos objetos diante da carência de senso crítico, fruto de acomodação e excesso, a determinar carência do que sejam valores e atitudes. Entretanto só o desenrolar dos acontecimentos provará do avanço da ciência na alma humana.

Ernesto Piancó - Por: Emerson Monteiro


Às 10h45 do dia quente de março e eu aqui ao volante, numa quarta-feira de sol aberto, à espera do espaço providencial de voltar ao circuito do tráfego que sobe a Rua Cel. Antônio Luiz, não achando vaga, dado o fluxo intermitente, barulhento, de carros, motos e bicicletas, indo rápidos aos seus destinos. Essa artéria virou retrato do trânsito caótico citadino, nível a que se chegou em matéria de sobrecarga, na era escura do petróleo.

Naquilo de aguardar o momento certo de encaixar feito objeto, no círculo em movimento das coisas que lotam as ruas, lembrei de um personagem cratense, constante no tempo de minha infância, Ernesto Piancó, parente próximo de Dona Chiquinha, educadora emérita de boa parte dos meus estudos, na década de 60.

Seu Ernesto, homem robusto, atarrancado, gostava de andar com uma pasta preta de couro, e de conversar nas rodas de amigos, bem humorado, afeito na característica de sempre repetir em voz forte, gutural, cheia, a mesma expressão: - Ave Maria!

Figura de permanente simpatia aquele cidadão...          

Nisso continuo aguardando a hora exata de lançar o carro no burburinho das horas na roleta mecânica, lembrando dele, pessoa das tradicionais que marcaram época, nesse lugar antes pacato. Os tempos marcham céleres em qualquer canto de planeta. O progresso se oferece nas possibilidades de multiplicar fragmentos do relógio, sem que denote fácil quais os frutos imediatos que advêm disso. As pessoas correm, correm, noutros ritmos febris. Filas constantes de uns perseguindo os outros, trilhas urbanas cotidianas da civilização maquinal. Intimoratos defensores dos direitos civis, audazes parceiros da pós-modernidade, aqui perto eles passam feitos cometas, em seus trombáticos cavalos velozes de cores reluzentes...

O sol ainda mais quente aquece a pele, o cabelo, no brilho das máquinas trepidantes. Crato nada deixa a dever aos outros centros dagora. As mototaxistas vieram acrescentar melhores médias ao formigueiro populacional. Transportam passageiros com menor ocupação de solo, preços módicos e maior velocidade. Compromissos. Negócios. Responsabilidades. Época de sobreviver das inimagináveis profissões. Idades. Vocações. Saber esperar, ânimo de poucos. Paciência, qualidade rara das contingências.

Noutro momento, a cidade andava passos leves, românticos, talvez. Havia ocasião de falar em bancos de praça, parar nas esquinas e sentir o calor agradável das manhãs, sem preocupações urgentes, prementes. Os tipos populares marcavam a paisagem, naqueles dias dourados. 

Quem testemunhou manifestação da veia jocosa de Seu Ernesto foi o escritor Jurandy Temóteo: Certa vez, num tempo em que eram ainda precárias as acomodações da Praça Siqueira Campos, em Crato, estavam ele e Ernesto Piancó sentados em um dos poucos bancos que havia no logradouro. Próximo, duas jovens estabeleceram diálogo que parecia de pouco duração, no entanto se alongando a ponto de querem espaço no assento de três lugares já preenchido pelas duas pessoas que os ocupavam, Ernesto e Jurandy.

Uma das mocinhas, sem aguentar a demora dos assuntos que conversavam, aventurou a vaga que restava no banco, e insinuou:

- Seu Ernesto, o senhor poderia cruzar as pernas para que eu também sentasse?

De inopino, o personagem pitoresco revidou ao jeito do seu característico bom humor:

- Cruze a senhora, que não tem o que amassar. 

... 

Quando parece surgir a chance na correia dentada do carrossel, um pedestre corta meu barato e cruza ao meio na minha frente. Outras vezes de certeza virão, penso cá dentro.

Os pensamentos retornam a Seu Ernesto, sua pasta preta, seu vozeirão. Pasta de tipo menor, com alças de viajante, representante comercial. Ele vendia alguma coisa. Não lembro bem o quê fosse. Agora, arriscaria dar algum palpite: planos de saúde, seguros de vida, lotes de terra, publicidade... (Quem sabe?).

Enfim consigo a prenda esperada, jogar o carro no fluxo da onda, e vou junto, de novo, nessa roda viva em que transformaram os detalhes do caos generalizado. Sozinho, na quente manhã, ao som de suspiros, ergo a voz com gosto e alívio, simulando na lembrança a fala recorrente de Ernesto Piancó:

- Ave Maria! – entre as carcaças luminosas dos outros automóveis.

(Ilustração: Rua Dr. Miguel Limaverde, Crato CE).