28 agosto 2021

A Arte da Escrita – por José Luís Lira (*)

    Um leitor me escreve (meu e-mail está na coluna e procuro dar resposta a todos os e-mails) pedindo que eu fale sobre a arte de escrever. É última semana de recesso do meio do ano para nós professores, dia de clima temperado aqui no sítio e decidi ir ao encontro de velhos poetas. Sou tentado a transcrever autopsicografia para atender ao leitor. O vate português Fernando Pessoa que tão bem encarnou e viveu a alma poética, dizia: “O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.// E os que leem o que escreve,/ Na dor lida sentem bem,/ Não as duas que ele teve,/ Mas só a que eles não têm.// E assim nas calhas da roda/ Gira, a entreter a razão,/ Esse comboio de corda/ Que se chama o coração”.

   Rachel de Queiroz, a autora que mais me inspira indiscutivelmente, em sua última crônica publicada na imprensa, em 22 de março de 2003, a partir daí ela disse que iria tirar férias, as primeiras em seus 70 anos de crônica e jornalismo, mas, não voltou, destaca na crônica “A ‘inspiração’ não vem para todos”: “O processo todo é penoso e dolorido – e se pode comparar a alguma coisa, digamos que se parece muito com o processo fisiológico -, que se assemelha terrivelmente à uma gestação, cujo parto se arrastasse por muitos meses e até anos”. Rachel dizia que não gostava de escrever e por isso, talvez, sua escrita tenha sido genial, tão bem trabalhada nos mínimos detalhes.

   Mas, ainda tentando responder ao leitor, decidi assistir pela enésima vez ao filme “Shakespeare Apaixonado”, de 1998, que retrata uma espécie de bloqueio criativo em Shakespeare que não consegue escrever nada. Em resposta a um dono de teatro que lhe cobrava “a peça”, o intérprete de Shakespeare diz a este: “Você não tem alma. Como iria entender o vazio da solidão?”. Mas, tudo se muda quando ele encontra uma paixão, uma musa para seus textos que passam a fluir naturalmente.

    Embora considere que escrever é algo “viciante”, Você começa e não quer mais parar, para se ter algo bem escrito é preciso ter uma causa a atender e porque não dizer que se escreve melhor quando se está apaixonado, que nem o tema do filme? A paixão tem variadas manifestações e aqui me lembro de Dom Helder Câmara que dizia que o segredo da eterna juventude era ter um ideal. Não quero aqui falar em livro meu, mas, quando o trabalho tem uma razão, ele flui. Não simplesmente por acaso, como quando numa hora vaga escrevo um poema, busco uma ideia para uma crônica. E até esta crônica tem razões de ser. Primeiro, é uma resposta; segundo, almejo que seja lida e seria estranho, mais uma vez citando o filme, “um poeta sem palavras”.

   Meu caro leitor, Wagner Mello, não sei lhe dizer se há uma técnica. É um mistério e lembrando Shakespeare, existem muitos “mistérios entre o céu e a terra”. A inspiração ajuda muito, uma razão, destinação também. Você não me diz no e-mail se escreve também ou se pretende escrever, mas, se puder dar alguma orientação, é interessante escrever de modo que todos entendam, nada de termos muito rebuscados. É preciso ser entendido para poder ser lido, seja em texto poético, histórico, jornalístico, enfim, na crônica ou romance. E recordando a musa Rachel de Queiroz, ademais, se “pena, padece e só então escreve”.


   (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com 26 livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.