12 agosto 2021

Imaginação - Por: Emerson Monteiro


Quem escreve vive disso, de buscar motivos de preencher as páginas. Espécie de instinto de expressão que não aguenta ficar quieto e se mexe por dentro da pessoa, e quer porque quer dizer algo que ali esteja escondido nos refolhos da distância, numa propensão da mais difícil resistência. Correr mundos e encontrar os temas. Vasculhar as latas de lixo da história, nas histórias que ouviu, nos livros que leu, nas fantasias que viveu vagando pelo estômago do pensamento, desejos que fossem a transformar em palavras, fome de transmitir de si mesmo o mistério do momento que passa veloz. As palavras são assim, têm vida própria, disso não restam dúvidas. Elas formam as frases e as frases conduzem os pensamentos. Seja o que for, há que demonstrar nas fagulhas de sentimentos as opiniões ou quimeras. Vagueiam pelos céus da mente feitas folhas secas das árvores da emoção. Quase que, certas horas, tomam das mãos de quem escreve e saem rebeldes pelas tramas dos destinos, animais bravios da criação, pedras que rolam dos montes lá adiante, e chegam aqui, e machucam os pés dos audaciosos videntes da imaginação.

Isso depois das várias tentativas de ficar em silêncio, no entanto a mesma febre que volta acesa às asas do pensamento e derrama fogo em brasa nos rios das criaturas, vítimas que parecem da intenção de devastar o Infinito e minerar mistérios e existências. Os sonhos falam disso, dessa disposição dos aventureiros da palavra escrita de desvendar universos recônditos da alma e trazer de volta, ainda envolta na placenta destes partos, a vontade insana de achar a porta do tempo, e salvar do desaparecimento as lâminas da memória que insistem sumir no túnel desta solidão.

Bem isto, de ir até os desertos da saudade e revirar as dobras do passado até salvar da inexistência o que ontem tanto significou às razões da presença. Contudo, sob o domínio dessa condição tão sobre-humana de vencer os caprichos do Poder soberano, supera os traumas da inutilidade e aceita permanecer, exausto, nos braços de um amor maior de todos, o sol da Consciência no eterno movimento.

(Ilustração: O astrônomo, de Vermeer).