25 junho 2021

O que cada um pensa - Por: Emerson Monteiro


Por vezes avalio existir um mundo diferente em toda pessoa. As percepções delas podem até se aproximar, no entanto serão sempre diferentes do texto original. No mínimo que seja, haverá soberbas diferenças. Isto em relação a tudo, desde aspectos de lugares, às cores, aos sons, aos momentos. Vemo-nos por trás desse muro da Realidade real. Do lado de lá, o jeito que ocorrer no tempo e no espaço, donde, em volta, cresce uma primeira parede. Do lado de cá, são as pessoas, o jeito que a gente interpreta, também por trás de outra parede. Daí as tantas naturezas vistas dos mesmos acontecimentos. Com isso, persistem as interpretações das criaturas humanas em relação a mundos que  existem, e que deles os fazemos à nossa imagem e semelhança, bem dizer em tudo irreal em relação à matriz original.

Desde sempre que vem sendo assim, de as pessoas pelejarem à busca de um termo médio desse jeito de ver o mundo e vencer essa distância imensa dos modos que a gente consegue enxergar. Portanto, as infinitas versões dos mesmos acontecimentos, dos mesmos fenômenos, das histórias e caligrafias, seriam meras recriações particulares, longe do modelo captado. Conquanto a realidade ofereça sobejamente esse fluir das ocorrências, no entanto velejamos neste mar das individualidades, constantes senhores de reinos imaginários ao sabor dos ventos da hora e da percepção. A consequência disto são atitudes particulares dos atores dessa pretensa verdade, um a um dispostos trazer em si o senso do absoluto, farsantes raramente bem sucedidos, sujeitos ao preço dos seus praticados.

Essa forma antiga e constante dos gestos humanos sujeita ao confronto do definitivo, diante da perfeição e do equilíbrio do Universo, numa linguagem matemática de tudo quanto há durante todo tempo, apesar das versões só individuais, o que pode levá-los às raias inevitáveis dos tribunais da Eternidade.

As memórias de Dr. Nildomar Soares – por José Luís Lira (*)

   Não é a primeira e não vai ser a última que repetirei Thomas Carlyle (1795/1881), escritor, historiador, ensaísta e professor escocês, que afirmava “A História é a essência de inúmeras biografias”. É o que sinto ao terminar numa manhã de domingo, de um fôlego só, a leitura do livro “Retalhos de Memórias”, do imortal Nildomar da Silveira Soares.

    Além do Direito, Dr. Nildomar chegou ao ápice da carreira, empossado desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, e da Literatura, entre ele e eu há uma familiaridade. Seu pai, Domingos Cordeiro Soares, era primo de um dos santos de minha devoção, canonizado em meu coração, Mons. Antonino Cordeiro Soares. Foi em Guaraciaba do Norte, há alguns anos, que conheci o Dr. Nildomar (que guarda traços do santo Monsenhor), num hotel-fazenda pertinho do sítio Monte-Alegre.

    Mas, o livro. Julgo da maior importância uma biografia. É tanto que já escrevi várias. O amigo e poeta Léo Prudêncio quis uma vez escrever algo assim sobre mim, mas, acho que ainda não é o momento. Mas, se um dia for feita, a preferência é do Léo. E o Dr. Nildomar, como confessa em prefácio o Presidente da Academia Piauiense de Letras, jornalista Zózimo Tavares, foi provocado, eu diria inquirido, a escrever sua biografia, suas memórias.

    O autor explica que foi “aqui e ali, contando um pouco de meu passado mais remoto, o da primeira infância, da adolescência que representou parte de um período vivido ao longo de 83 anos”... “Quantas voltas eu dei nesta vida, quantos sonhos realizei, quantas tristezas cruzaram o meu caminho, assim sou um homem feliz”.

    E o livro se inicia com a rua da infância e uma foto da velha casa da infância e a placa de denominação da rua Félix Pachêco, ainda sem acento. É naquela “velha rua, antes denominada de São José” que tudo se inicia. Ali nasceu Nildomar, aluno do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, formado pela antiga Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro (1961), que se iniciou na vida profissional como datilógrafo, passou pelo Banco do Brasil, presidiu a Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção do Piauí, imortalizou-se na Academia Piauiense de Letras e vestiu a toga de desembargador no Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, toga que honrou até sua aposentadoria. 

     Nildomar é casado com a Sra. Maria Salete Lopes Soares há mais de 50 anos. Ao falar de seu casamento no livro, coloca foto antiga do Iracema Plaza Hotel, de Fortaleza, foi que passou seus primeiros momentos de casado. O edifício, apelidado de Bolo de Noiva, na praia de Iracema, em Fortaleza, hoje está em abando. É de carta que ele leu para dona Salete nas suas bodas de ouro que encontro uma frase muito interessante: “As recordações são os únicos espelhos em que os velhos se miram satisfeitos”, mas, não só os mais vividos, os novos também têm suas recordações que amadurecidas poderão se tornar um memorial, como o faz o autor.

    Nildomar Soares percorre não somente suas lembranças, mas, a própria história da sua amada Academia Piauiense, do Tribunal de Justiça e da Capital do Piauí, Teresina, com seus prédios, suas praças (num dos causos lembra o “Habeas Pinho” de R. Cunha Lima), ruas, alguns de seus governos e tantas outras informações que merecem ser lidas!
    Parabéns, Dr. Nildomar!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.