19 junho 2021

O império da consciência - Por: Emerson Monteiro


Desde sempre vem sendo assim, de presenciar alguém que vive ali comigo no mesmo cômodo, porém nem sempre que nos vemos e quase não nos falamos. Sobretudo nas horas quando surgem as oportunidades de ligar som alto, uma das mais malfadadas ideias até então inventadas pelos humanos, que nos desentendemos de causar espanto. Tal que estivéssemos morando juntos no ambiente comum, no entanto por vezes dotados de opiniões adversas, quais fossemos ocupantes acidentais desse lugar. Imaginemos, por exemplo, sejamos dois estudantes do interior que vivam e trabalhem na capital, querendo com isso frequentar curso acadêmico e evoluir na sociedade. Ainda que desse modo, contudo pessoas bem particulares, cada um na sua, dotados de costumes próprios, enquanto que um gosta de futebol, o outro, de música clássica. Sei que se gostam, ou não, porém que terão de morar juntos durante o tempo necessário ao cumprimento do dever. Um, ressona que é uma beleza, de assustar; já o outro, respira silencioso e dorme sem qualquer barulho, isso em camas próximas, proporcionais ao espaço do pequeno quarto da pensão, que só dispõe de um guarda-roupa, meia porta de um e a outra do outro. Existe, de um deles, equipamento sonoro; ambos têm lá seus discos. As preferências, desiguais até dizer basta. Mas vivem, chegam, trocam de roupa, dão boa tarde; um, fuma; o outro, aguenta. Um quer dormir cedo; o outro fica de luz acesa até tarde, porque gosta de ler. Um, extrovertido. O outro, saudoso, macambúzio. Dias. Meses. Anos. Espécie de filosofia de conformação predomina o tempo todo entre eles. De extremas ocasiões, ambos silenciam desconfiados. Quer-se harmonia, coexistência, de jeito que tudo chegue a bom termo nem sei quando, todavia menos horas, mais horas, persiste uma espécie de paciência nascida nem sei de onde, que acalma as duas almas naquele território neutro, cheio de instrumentos particulares de humor, de sentimentos, pensamentos, gostos, regularmente contrários. Eles dois vivem de oscilar, numa contradição infinita dos pratos de uma balança imaginária; hora, um; hora, o outro; de tristeza, alegria; desengano, esperança; desistência, fé; angústia, felicidade; fastio, desejo; ódio, amor; egoísmo, paz... Há que ser até o senso do absoluto dominar aqueles dois naquela consciência, na descoberta do equilíbrio que virá um dia desses.

 

[Imagem: CC0 Public Domain/Pixabay]

Pula a fogueira– por José Luís Lira (*)

 

   Próxima semana teremos a fogueira de São João. Domingo passado foi Santo Antônio, amado em todo o Brasil. Até concedi entrevista à BBC sobre o Santo. Os tempos são estranhos. Em torno das fogueiras (fazemos as três), costumamos reunir além da família, amigos e os amigos destes, lá no Monte Alegre. Este ano foi diferente. Alguns membros da família e a fogueira parecia solitária, ela que tantas vezes nos aquece e reaproxima. Mas, isso passará. Sentindo o calor da fogueira, fiz prece a Santo Antônio pelo fim da pandemia. Que ele, com seus méritos diante de Deus-Altíssimo, rogue por nós!

   E chegaremos à fogueira de São João. “São João disse, São Pedro confirmou, que no dia dele, nós vamos ser compadres, que Jesus Cristo mandou”. Pulando pra lá e pra cá sob uma tora de lenha acesa, selávamos a passagem de fogo aos gritos de viva aos santos juninos e aos passantes de fogo. Que saudade!
            Escrevo este texto numa sala de escritório, mas, se fechar os olhos, volto à infância e lembrar-me-ei da alegria que tínhamos de ir às fogueiras das casas vizinhas, no escuro-breu antes da luz elétrica que a tudo iluminou, lá no Sítio Correios, em Guaraciaba do Norte. Também me recordo das guloseimas, dos aluás, para os adultos, dos bolos para nós, então crianças, das bandeirolas, fogos, traques, músicas, animações, enfim.... Como esquecer dos padrinhos e madrinhas, compadres e comadres, primos e até irmãos de fogueira. Era o tempo bom da inocência.

    As nossas festas juninas vêm de Portugal e lá são em celebração a três santos, como nós aqui temos, com peculiaridades próprias, Santo Antônio, São João e São Pedro. Santo Antônio e São Pedro, celebrados nos dias de suas chegadas ao céu; já São João é festejado com fogueira, na véspera de seu nascimento. Diz a tradição que os pais do santo Batista, moravam no topo de uma montanha e que São Zacarias acendeu uma fogueira quando se aproximou o nascimento do menino para anunciar aos parentes que moravam em baixo a chegada do primo e precursor de Jesus.

   É dia de fogueira. A segunda deste período. Mantenhamos viva a chama da tradição. Contemos para os nossos filhos, netos, sobrinhos, como eram as festas de junho, por isso juninas; se possível, façamos fogueiras, nos animemos, cantemos, mas, não aglomeremos. Necessitamos desse distanciamento, da máscara e do álcool gel. Não recomendo foguetes por respeito aos animais que sofrem ao estampido deles, mas, uma bombinha, estalinho, pode. O bolo de milho e o pé de moleque não podem faltar!

    Pedindo licença à cidade, vou voltar pr’o sítio, de onde parece que nunca saí, e, ilusionando, vou me sentir criança, ouvir Luiz Gonzaga e outros clássicos das festas juninas. E não estarei só. Terei meus pais, quem sabe meus irmãos, as sobrinhas Isadora e Anne Eloísa que fazem o momento ficar encantado e, comigo estarão também tantas lembranças. Algumas tão recentes, outras tão distantes. Talvez até cantarolarei, se a voz não embargar: “Quando eu era pequenino,/ De pé no chão,/ Eu cortava papel fino,/ Pra fazer balão.../ E o balão ia subindo,/ Para o azul da imensidão.../ Hoje em dia o meu destino/ Não vive em paz/ O balão de papel fino/ Já não sobe mais.../ O balão da ilusão.../ Levou pedra e foi ao chão…”

    Viva São João e viva a nós, meus compadres!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.