04 junho 2021

O mistério do espelho - Por: Emerson Monteiro


Quando eles, os colonizadores, chegaram aqui, entre as quinquilharias que trouxeram interpuseram os espelhos, isto a quem só se conhecia de olhar a si pelas águas calmas dos lagos, sem muita nitidez, porém que já dera origem a Narciso, o embriagado da própria sombra. É que o espelho inverte o nosso autoconhecimento daquilo que a gente pensava ser o nós mesmos, e vê, então, outro ser, o negativo de si. Causa isso, espelho, o negativo de si.

O mais surpreendente é que o espelho só inverte na horizontal, na vertical deixa tudo permanecer de cabeça no alto e pés no chão, enquanto um dos lados da face vira seu inverso, passando ao outro lado. Falei mistério, algo a ser compreendido, sobremodo quando cada lado da face corresponde a um dos lados de nosso cérebro, um dos hemisférios cerebrais, unidos apenas pelo corpo caloso, o que corresponde tão só a 25% da fronteira de entre esses dois hemisférios. A gente usa com predominância um dos dois lados, sendo o outro apenas seu assessor, na proporção de um para três.

E o espelho inverte esse ganho interior da consciência, dando impressão de que estamos do outro lado, porquanto a tal visão indica falsa imagem de si, o negativo da nossa face. Tal aspecto explica o motivo de virem os espelhos entre as fitas e bugigangas trazidas pelos colonizadores, mais sabidos do que tantos imaginam no decorrer da História. Conheciam do ofício de inverter o processo civilizatório das populações conquistadas, artimanha por demais esquisita e sofisticada, advinda do abismo dos séculos, de forças totalitárias e dominadoras.

Assim acontece desde longa data, até quando, lá um dia, Jesus propôs retomar o caminho de novas atitudes através dos segredos do Amor verdadeiro, do caminho do Coração, até chegar de volta ao Pai, razão das quantas perseguições às suas palavras, sobretudo nos grandes impérios. Uma longa história que traz a simplicidade original aos seres humanos.

(Ilustração: Narcissus, de Caravaggio).

Chapada do Araripe: candidatura a Patrimônio Mundial – por José Luís Lira (*)

 

    Na reunião ordinária do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural do Ceará – COEPA, realizada no dia 19 de maio último, aconteceu a apresentação da candidatura da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade junto à UNESCO. Na oportunidade, se pronunciaram os Professores-Doutores José Patrício Pereira Melo, Alemberg Quindins e Maria da Conceição Lopes. A candidatura da Chapada do Araripe é realizada por meio Governo do Estado do Ceará e da Secretaria da Cultura do Estado (Secult), junto com a Universidade Regional do Cariri (URCA), Funcap, Fecomércio, Sesc Ceará, Fundação Casa Grande, GeoPark Araripe e Instituto Cultural do Cariri. Por meio do “Dossiê para candidatura da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade (UNESCO): natureza, tradição e formação de um território encantado”, realizou-se inventário qualificando o diálogo sobre os desafios e possibilidades da salvaguarda patrimônio cultural e natural no Estado do Ceará. Daí o assunto ser levado ao COEPA, onde, mui honrosamente, ocupo o assento da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), có-irmã da URCA, cujo primeiro reitor, Prof. José Teodoro Soares, foi o segundo reitor da nossa Universidade Sobralense, a UVA.

    Entre alguns nomes que estão no Comitê Científico da candidatura, além dos doutores citados inicialmente, destacamos: Espedito Seleiro, Fabiano Piúba (presidente do COEPA e Secretário de Estado da Cultura do Ceará), Heitor Feitosa, Renato Casimiro, Ronaldo Correia de Brito e Weber Andrade Girão e Silva.

    A candidatura da Chapada do Araripe a Patrimônio Mundial se legitimou no Seminário Internacional Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade realizado em Juazeiro do Norte, Crato e Nova Olinda, com a participação de todos os cidadãos empenhados, singulares ou organizados, que em conjunto manifestaram o empenho pela candidatura. A Chapada do Araripe em seu contexto cultural, patrimonial e ambiental, revela condições culturais e naturais únicas, capazes de sustentar uma proposta para inscrição como bem na Lista do Património Mundial, com singular potencial Valor Universal Excepcional (VUE), conforme lemos no sítio eletrônico: http://dossiechapadadoararipe.urca.br/.

    Em fevereiro de 2020, representando o governador do Ceará, Camilo Santana, o secretário da Cultura, Fabiano Piúba, o Reitor da URCA, Francisco Lima Junior e o Diretor do Sesc/Senac Ceará, Rodrigo Leite, estiveram na  sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em Brasília (DF), para a entrega de documentos para solicitar a inscrição da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade ao presidente interino do IPHAN, Robson de Almeida. A partir daí, aquela região dos imortais Padre Cícero Romão Batista, Beatos José Lourenço e Maria de Araújo, Antonio Martins Filho (o reitor dos reitores), Patativa do Assaré, Irmãos Aniceto, Espedito Seleiro, Assunção Gonçalves, Daniel Walker, Madre Feitosa, Irmã Annette Dumoulin (filha adotiva) e futura Beata Benigna Cardoso, entre outros, incrementou essa campanha à qual, em sinal de justiça, todo o Ceará se integra, quiçá o Brasil e o mundo conhecedor da riqueza daquela chapada.

     O COEPA, unanimemente, aprovou a ideia e deu apoio à candidatura que almejamos sair vitoriosa!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.