25 abril 2021

Testemunhas de nós mesmos - Por: Emerson Monteiro


Assim é viver. Conhecer a própria história. Seguir os acontecimentos qual se deles nem fôssemos também os responsáveis. No entanto, observadores fieis dos movimentos dos astros na nossa consciência. Parceiros de todos os detalhes, atores de todas as cenas, instrumentos de nossas reações e sujeitos de nossas atitudes. Ninguém, ainda que o deseje, viverá à margem das ocorrências em volta. Pelo não, pelo sim, haveremos de determinar o quanto mereçamos. Disso vêm interpretações de como participar da natureza, oferecer o melhor do que somos e aceitar as consequências do passado, porta aberta de um futuro promissor.

Somos nós as nossas escolhas diante dos dias. Há, entretanto, padrões eternos que determinam o jeito exato em que firmar os passos e conduzir as ações, isto que bem caracteriza a liberdade. Somos livres à medida que agimos conforme leis morais superiores, pois as nossas simples escolhas fazem delas apresentar os frutos do que façamos. Daí os conceitos de tantos pensadores que trabalham esse modo de agir dos humanos. Livres enquanto pautam seus praticados nos limites do aprimoramento, os quais nascem do tempo em nossa consciência. São leis efetivas, semelhantes a leis materiais, por exemplo. Ninguém foge ao destino que assim determinou, por isso.

De tal modo, o sonho de felicidade significa sonho de harmonia com o ritmo e a melodia das existências, até compreender o valor de obedecer aos tais padrões inevitáveis e enxergar o equilíbrio diante das leis eternas sob que nos vemos submetidos, a rumo de evoluir, espécie de determinação inderrogável de tudo quanto existe. Quase que meras testemunhas, pois, da Salvação, eis aqui o itinerário da evolução de que somos sujeitos e objetos em um único ser. O que nos cabe, porém, nesse percurso universal das criaturas representa a fórmula ideal de conhecer e exercitar os ditames desta sinfonia de que significamos os principais protagonistas durante as eras sem fim.

(Ilustração: O pagamento, de Pieter Brueguel o Jovem).

No tempo que os políticos brasileiros eram pessoas exemplares (um episódio na vida do Primeiro Ministro Duque de Caxias)

 


   O Imperador Dom Pedro II admirou em Florença, na Itália, o quadro “Batalha do Avaí”, do célebre Pedro Américo, retratando o importante embate ocorrido durante a Guerra do Paraguai. Quando, em 1877, a tela chegou ao Brasil, o Soberano foi novamente vê-la, fazendo-se acompanhar pelo septuagenário Duque de Caxias, então Presidente do Conselho de Ministros.

    Os elogios foram unânimes, mas o Presidente do Conselho, que havia comandado as tropas brasileiras durante toda a primeira fase da campanha paraguaia, incluindo a Batalha do Avaí, e era figura predominante na tela, conservava-se mudo. Por fim, percebendo o que ocorria, o Imperador discretamente lhe perguntou:

   – Que diz, Senhor Caxias?

    – Desejava saber onde o pintor me viu de farda desabotoada. Nem no meu quarto!

 FONTE: Leopoldo Bibiano Xavier, no livro “Revivendo o Brasil-Império”. 1ª ed. São Paulo. Editora Artpress, 1991. Página 151.