19 março 2021

Mundos simbólicos em movimento - Por: Emerson Monteiro


Seres esses que se imaginam todo momento, que dormem e acordam sob o signo das figuras do pensamento, cercados das impressões que lhes trabalham à velocidade da luz; os seres humanos. Vivem postos nos cercados de símbolos constantes. Longe de si o desejo de jamais sonhar, conquanto vivem disso, dos sonhos inevitáveis, máquinas de produzir filmes no juízo da consciência; às vezes, em forma de palavras; às vezes, nos sons, imagens, visagens, impressões, desejos, amabilidades, saudades, planejamentos de anseios novos, viagens, afrontas e visões, o que nem sempre corresponde só a bem-estar das suas necessidades, pois deitam margem aos longos desertos de esperança e de fé ainda afastados.

Mas bem isto, essa espécie de criaturas bizarras vagando pelas sombras das próprias apreensões, antagonistas de si mesmos em atividade incessante; peças de quebra-cabeças desencontrados, sublimes. Riem por dentro; choram por fora; exercem papéis duplos, estruturas metálicas feitas de autores fantásticos, marcas largadas aos campos de batalha e que festejam a paz quase nunca duradoura. Eles, animais de sorte incerta, que jogam ao mar da vida pequenos botes que se desfazem num segundo e nas visões esquecidas na praia. Seres, antes de tudo, seres.

Houvesse alternativas de construir outras arcas da aliança, lançar-se-iam aos céus em naves silenciosas, à procura das almas dos que se foram no alvorecer, escafandristas do tempo traduzidos nessas lâminas de imagens feitas nas oficinas do mistério. Vagariam soltos pelo espaço dos dias, olhos postos em vencer apegos e egoísmos, entretanto máquinas de possessividade a todo preço. São isto os habitantes da solidão que balbuciam e suspiram ansiedades face ao inesperado que os envolve.

Menos que tudo, pequenas fagulhas deste Todo grandioso que os domina e experimenta, passo a passo, tais calçados de oficina improvisada nas barras do Infinito. E buscar a essência desse conhecimento significaria tais possibilidades, instrumentos que somos de paciência em elaboração, a trabalhar a força da humildade nos rios do coração.

(Ilustração: A palavra, de Hieronymus Bosch).



A República foi proclamada por acaso (por Carlos Chagas)

  


   O saudoso e incomparável Hélio Silva, dos maiores historiadores brasileiros, titulou um de seus múltiplos livros de "A República não viu o amanhecer".

   Contou em detalhes,  fruto de muita pesquisa, que a República foi proclamada por acaso. As lições daquele episódio não devem ser esquecidas. Vale lembrá-las com outras palavras e um pouquinho de adendos que a gente colhe com o passar do tempo, junto a outros historiadores  e, em especial, pela leitura dos jornais da época.

   Desde junho que o primeiro-ministro do Império era o Visconde de Ouro Preto. Vetusto, turrão, exprimia os estertores do chamado "poder civil" da época, muito mais poder do que civil, porque concentrado nas mãos da nobreza e dos barões do café, com limitadíssimas relações com o cidadão comum.

   O Brasil havia saído da Guerra do Paraguai com cicatrizes profundas, a começar pela dívida com a Inglaterra, mas com novos personagens no palco. O principal era o Exército, composto em  maioria por cidadãos da classe média, com ênfase para os menos favorecidos. Escravos aos montes também  haviam sido libertados para lutar nos pântanos e charcos paraguaios. Nobres  lutaram, como Caxias e Osório,  mas a maioria era composta daquilo que se formava como o  brasileiro médio.

   Ouro Preto, como  a maior parte da nobreza, ressentia-se daqueles  patrícios  fardados que começavam a opinar e a participar da vida política. Haviam sido peça fundamental na abolição da escravatura, em 1888.  Assim,  com o Imperador já pouco interessado no futuro,  o governo imperial tratou de limitar os militares. Foram proibidos de manifestações políticas, humilhados e   punidos, como Sena Madureira e tantos outros.

   Havia, nos quartéis e em certos  círculos políticos,  um anseio por mudanças. Até o Partido Republicano tinha sido criado no Rio e depois em  São Paulo, mas seus integrantes estavam unidos por um denominador comum: República, só depois que o "velho" morresse, pois era queridíssimo pela população. E quem passaria a mandar no Brasil seria um estrangeiro, o Conde d'Eu, francês, marido da sucessora,  a princesa Isabel.

   Cogitava, aquele poder civil elitista, de dissolver o Exército, restabelecendo o primado da Guarda Nacional, onde os coronéis e altos oficiais careciam de formação militar. Eram fazendeiros, em maioria. Os boatos ganhavam a rua do Ouvidor, no Rio, onde localizavam-se as redações de jornal.

   Na tarde de 14 de novembro movimentam-se  um regimento e dois batalhões sediados em São Cristóvão. Com canhões e alguma metralha, ocupam o Campo de Santana, defronte ao prédio onde se localizava o ministério da Guerra, na região da hoje Central do Brasil. Declararam-se rebelados e exigiam a substituição do primeiro-ministro, que lá se encontrava com seus companheiros. Comandados por majores, estava criado  o impasse: não tinham como invadir o prédio, por falta de um chefe de prestígio,   mas não podiam ser expulsos, já que as tropas imperiais postadas nos fundos do ministério não se dispunham a atacá-los.

   O Secretário-Geral do ministério da Guerra era o marechal  Floriano Peixoto, que quando exortado por Ouro Preto a investir à baioneta  contra os revoltosos, pois no Paraguai haviam praticado  feitos muito mais heroicos, saiu-se com frase que ficou para a História: "Mas no Paraguai, senhor primeiro-ministro, lutávamos contra paraguaios..."
 
   Madrugada do dia 15 e os majores, acampados com a tropa revoltada,  lembram-se de que ali perto, numa casinha modesta, morava o marechal Deodoro da Fonseca, há   meses perseguido pelo governo imperial, sem comissão e doente.  Dias atrás o próprio Deodoro recebera um grupo de  republicanos, com Benjamim Constant, Aristides Lobo e outros, aos quais repetira que não contassem com ele para derrubar o Imperador, seu amigo.

   Acordado, Deodoro ouve que dali a poucas horas Ouro Preto assinaria decreto dissolvendo o Exército. Não era  verdade, mas irrita-se, veste a farda e dispõe-se a liderar a tropa. Não consegue montar a cavalo, tão fraco estava. Entra  numa carruagem e acaba no pátio fronteiriço ao ministério da Guerra. Lá, monta um cavalo baio e invade o prédio, com os soldados ao lado, todos  gritando "Viva Deodoro!  Viva Deodoro!" Saudando-os com o  agitar o boné na mão direita,  grita "Viva o Imperador! Viva o Imperador!".  Apeia  e sobe as escadarias, para considerar Ouro Preto deposto. Repete diversas vezes : "Nós que nos sacrificamos nos pântanos do  Paraguai rejeitamos a dissolução do Exército." Estava com febre de 40 graus.   O Visconde, corajoso e cruel, retruca que "maior sacrifício estava  fazendo ele ouvindo as baboseiras de Vossa Excelência!"    Foi o limite para Deodoro dizer que estava todo mundo preso.

O marechal já ia voltando, o sol ainda não tinha  nascido  e os republicanos, a seu lado, insistem  para que aproveite a oportunidade e  determine o fim do Império. Ele reluta.   Benjamin Constant lembra que se a República fosse proclamada naquela hora, seria governada por um ditador. E o ditador seria ele, Deodoro. Conta a lenda que os olhos do velho militar se arregalaram, a febre passou e ele desceu ao andar térreo, onde montou outra vez o cavalo baio. A tropa recrudesceu com o "Viva Deodoro! Viva Deodoro!" e ele agradeceu com os gritos de  "Viva a República! Viva a República!" Os militares desfilaram pelas ruas do centro do Rio. Deodoro foi descansar em sua casa e,  à tarde,  meio surpreso com o que tinha  feito, recebeu homenagem da Câmara de Vereadores do Rio. Confirmou a mudança e assinou os primeiros  decretos republicanos, levados por Rui Barbosa e outros.

   Aristides Lobo escreverá depois em suas memórias que "o povo assistiu bestificado a proclamação da República."

   Preso no Paço da Quinta da Boa Vista, com a família, o Imperador teve 48 horas para deixar o Brasil.  Deodoro quis votar uma dotação orçamentária  para que subsistissem no exílio.  D. Pedro II recusou, levando apenas pertences pessoais.

   A República estava proclamada.

Um ano depois... – José Luís Lira (*)



    Há um ano eu havia passado pelo Rio de Janeiro. Tinha uma reunião com Sua Eminência o Cardeal Orani Tempesta, fiz visita à Dama de Comenda Isis Penido, Lugar Tenente da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém, assisti a uma peça de teatro, fui a uma consulta com o Dr. Luciano Negreiros. Aproveitei a viagem. Ouvia-se notícia da então, epidemia, da covid-19 no exterior, mas, não aqui. A Cidade estava linda, como sempre. No bairro em que costumo ficar, Catete, tudo transcorria normal. 

     Na volta para Fortaleza algumas poucas pessoas usavam máscaras dentro do avião ou no aeroporto. Passei em casa e vim para Sobral. Era início de semestre e recebi os alunos do primeiro período de Direito da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), na disciplina Introdução ao Estudo do Direito. Semana seguinte, dia 15, aconteceu o batizado de minha sobrinha Anne Eloísa, filha da Elisiane e do Robério. No outro dia, retornei a Sobral. As atividades no Museu Diocesano Dom José e as aulas, me chamaram. 

     Dia 17 começou a fechar tudo. Era iniciada essa “travessia”. Um ano depois, é primavera no velho mundo e chove nessa parte do novo mundo onde vivemos. Jardins floriram e murcharam. Pessoas nasceram e morreram... a vida foi seguindo. Novos hábitos se acoplaram às nossas vidas. O uso constante de máscaras; o álcool; os programas de TV com o repetido e desagradável assunto do aumento da epidemia que se tornou pandemia. Aulas remotas. Medo. Tivemos que nos isolar. Houve flexibilizações, mas, tudo volta pouco-a-pouco e temos a impressão de que estamos na estaca zero.

      Lembro-me da primeira coluna que escrevi sobre o tema, citando o poema de Irene Vella, publicado, em francês, e que o apresentador português Rui Unas emprestou sua voz. O tempo então presente se tornava passado e parece que retorna ao presente neste 2021: “Era março de 2020... As ruas estavam vazias, as lojas fechadas, as pessoas não podiam sair. Mas a primavera não sabia... Os jovens tinham que estudar online e arranjar como se ocupar em casa, as pessoas não podiam ir mais aos centros comerciais nem tão pouco ao cabeleireiro. Dentro em breve não haveria mais vaga nos hospitais, e as pessoas continuavam a adoecer... As pessoas foram colocadas em confinamento, para proteger avós, famílias e crianças. Acabaram as reuniões e refeições em família. O medo tornou-se real e os dias eram todos iguais... As pessoas começaram a ler, a brincar com a família, a aprender nova língua. Cantavam nas varandas e convidavam os vizinhos a fazer o mesmo. As pessoas aprenderam uma língua nova, ser solidários e concentravam-se n'outros valores. As pessoas aperceberam-se da importância da saúde, do sofrimento, deste mundo que tinha parado, da economia que tinha tombado...”. 

       E a autora concluía: “Então chegou o dia da libertação. As pessoas ouviram na televisão: ‘ – O vírus perdeu!’. As pessoas saíram às ruas. Cantavam, choravam, abraçavam-se os vizinhos... sem máscaras, nem luvas... E então o verão chegou, porque, a primavera não sabia. Ela continuou lá, apesar de tudo, apesar do vírus, apesar do medo, apesar da morte... Porque a primavera não sabia... mas, ensinou às pessoas... o Poder da Vida”. A libertação ainda não chegou. Façamos nossa parte e confiemos no Altíssimo Deus para que voltemos à normalidade.

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.