12 março 2021

Desde sua origem Crato é abençoado pela Mãe do Belo Amor -- por Armando Lopes Rafael

"Ego Mater pulchrae dilectionis”
                                                                                      (Eu Sou a Mãe do Belo Amor”)

                                                                                     (Livro do Eclesiástico, 24,24)

   Por volta de 1740, chegava ao sopé da Chapada do Araripe – do lado cearense – o capuchinho Frei Carlos Maria de Ferrara. Nascido na Itália, em família rica, esse frade aportara ainda jovem à cidade de Recife. Depois, penetraria no agreste interior nordestino a pregar a Boa Nova de Cristo. Chegara Frei Carlos ao Sul do Ceará para fundar um aldeamento, destinado à evangelização dos índios Cariús. Era assim a Igreja Católica Apostólica Romana daquele tempo. A prioridade primeira era a salvação das almas. Surgia, assim, a Missão do Miranda, origem da atual cidade de Crato. Provavelmente Frei Carlos trouxera, para a nova Missão, uma pequena imagem, sob à invocação da Mãe do Belo Amor, com cerca de 40 cm, lavrada a cinzel sobre a madeira.  

     Essa estatueta da Mãe do Belo Amor passaria a ser aureolada por fatos pitorescos e lendários, incorporados ao rico imaginário das tradições populares de Crato. Serviria essa escultura – entre 1740 e 1745 – de forma provisória, para suprir a ausência de uma imagem de Nossa Senhora da Penha, esta escolhida – por Frei Carlos Maria de Ferrara – como a Padroeira da humilde capelinha de taipa, coberta de palha, construída no centro da Missão do Miranda.

        Em 1745, o Prefeito da Missão dos Capuchinhos de Recife, Frei Carlos José de Spezia, doou à capelinha da Missão uma nova imagem da Virgem Maria. Esta de tamanho médio, agora reproduzindo a invocação de Nossa Senhora da Penha. Tratava-se de uma escultura chegada à capital pernambucana em 1641. Lá, essa estátua permanecera durante 104 anos. Trata-se da hoje segunda imagem da Padroeira de Crato, chamada a “histórica”, que anualmente sai em procissão pelas ruas da cidade, na festa de 1º de setembro. Com a vinda dessa nova escultura, recolheu-se a estatueta de Mãe do Belo Amor para um lugar secundário na capelinha. O povo cratense, no entanto, manteria forte devoção à pequenina imagem primitiva.

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    Sobre a linda invocação da Mãe do Belo Amor, assim escreveu o líder católico Plínio Correia de Oliveira:

"Esta expressão, tirada do livro do Eclesiástico (24,24), é usada pela Liturgia católica para honrar um dos mais gloriosos apanágios da Santíssima Virgem. Com efeito, este título evoca, de um lado a plenitude e a beleza do amor que Nossa Senhora tem a Deus e, de modo específico, à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade Encarnada, que é o Filho dEla. De outro lado, assinala a formosura que para a alma de Maria advém desse amor, fonte de esplendor moral que rejubila o mundo inteiro.

Nunca houve, e jamais haverá, em toda a história da criação, um amor a Deus tão belo, tão perfeito e tão ardoroso quanto o teve Nossa Senhora, desde o primeiro instante de seu ser". (...) "Enfim, Nossa Senhora é, sozinha, a corte inteira de Deus. Todo o resto é secundário. Ela é a Rainha da Prudência, a Rainha do conselho, a Virgem cheia de Graça. Ela é a Mãe do Belo Amor". (1)

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    Crato continua a venerar – e lá se vão quase trezentos anos – a pequenina Mãe do Belo Amor... Ela é parte integrante do nosso patrimônio espiritual, artístico e cultural. Continua presente, nos dias atuais, na nossa memória comunitária. Constituindo um valor simbólico dos mais expressivos desta cidade. A imagenzinha de Frei Carlos é considerada uma defensora e dispensadora de copiosas bênçãos para nossa população. Pena que essa valiosa escultura não esteja colocada em lugar de destaque na Catedral, para ser vista pelos fiéis.  Resta-nos aguardar a construção de um nicho para que nele, com a segurança necessária, seja colocada a Mãe do Belo Amor.

(1) Revista Dr. Plinio. Ano I, Nº 7.  Outubro de 1998. Revista mensal de cultura católica, publicada pela Editora Retornarei Ltda.


Santo Antônio de todo o mundo – José Luís Lira (*)

 

    Há dias ansiava por ler “Santo Antônio: A história do intelectual português que se chamava Fernando, quase morreu na África, pregou por toda a Itália, ganhou fama de casamenteiro e se tornou o santo mais querido do Brasil”, Editora Planeta, autoria de Edison Veiga que conheci por causa de Santo Antônio. Até que o recebi de presente do amigo Macsimus Duarte, colega na advocacia e na poesia, que testemunhou minha peregrinação em busca do livro. Queria, também, presentear o amigo Cícero Moraes, e Macsimus ofereceu-nos os dois livros. Sou-lhe grato. Voltando a Veiga, por causa de Santo Antônio? Foi por meio de Santo Antônio que conheci o amigo-irmão Cícero Moares. Tudo se iniciou em 2014, quando eu realizava estágio de pós-doutorado em Messina, no sul da Itália, na mesma região, mas, distante de Padova (Pádua). Aliás, no livro em comento descobri que pode ter sido em Messina que o Santo chegou à Itália. 

    Em Padova, procurei o Sacro Convento buscando obter uma relíquia do Santo. Falei ao Frade que me recebeu de algo que soube anos antes sobre a possibilidade de haver ligação dos Liras com Santo Antônio. Uma antiga tradição – penso que lendária, pois nunca encontrei prova – afirma que após a morte de Santo, parentes dele em linha direta passaram a usar Antônio no sobrenome. Ouvi isso de um “parente” português que, embora tenha me chamando de primo ao me ver, dizendo que reconheceu meus olhos característicos da família, não comprovamos parentesco. Dizia que no século XIII ou XIV, uma parenta direta de Santo Antônio de Lisboa, por nascimento, casara com um Lira e deu origem à família “Antônio de Lira”. Depois descobri que meu bisavô era Joaquim Antônio de Lira, o pai dele, meu trisavô, Francisco Antônio de Lira. Ainda assim, desde que me entendo, sou devoto do Santo. Consegui a relíquia autêntica e indaguei ao sacerdote onde encontraria uma imagem de Santo Antônio para trazer ao Brasil.

    Ele me disse, então, que haviam estudiosos fazendo trabalho sobre a face do Santo. Que eu aguardasse, pois, poderiam vir novidades.  Um dia, após retornar ao Brasil, vendo o Fantástico, da Rede Globo, saiu a matéria. E mais, um brasileiro estava entre os cientistas. Busquei e encontrei Cícero Moraes. Este assunto está finalizando o livro de Edison Veiga. Ficamos amigos, aos poucos, venci a timidez e lhe perguntei como obter o “rosto reconstruído do santo”. Hoje o tenho em minha casa em Sobral, em imagem de mais de um metro do santo. E depois vieram os trabalhos das Santas Maria Madalena e Paulina, entre outros, com imerecida participação minha, realizados por Cícero Moraes e assim conheci Veiga. Tenho mais ligações ao biografado dele como o registro da festa do pau da Bandeira de Santo Antônio de Barbalha, que relatei no Conselho do Patrimônio do Ceará etc.

     O livro de Veiga é uma preciosidade de deixar satisfeito qualquer hagiólogo. E muito se aprende de uma forma bem contemporânea dados tão históricos, colhidos com o maior cuidado. E além de muito aprender sobre o Santo, vemos relatos interessantíssimos como a participação do Santo nos exércitos português e brasileiro, após sua morte. Em solo brasileiro, Antônio é general da reserva não remunerada e na Igreja, Doutor Evangélico. Assim, Edison Veiga trata de Santo Antônio, tão amado em todo o mundo e seu livro passa a figurar como uma das melhores biografias de Fernando de Bulhões, sacerdote agostiniano, Santo Antônio de Lisboa e de Pádua, franciscano, que teve nos braços o Menino Deus, em fato que o autor narra. Parabéns, Edison! Obrigado por tão precioso trabalho! 

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.