28 fevereiro 2021

Cores do silêncio - Por: Emerson Monteiro


Escrever tem disso, de falar consigo mesmo defronte do espelho de um mundo desconhecido, no entanto ao nosso lado, todo tempo, interpretando as necessidades e contingências do silêncio. Qual escultor diante do frio bloco de mármore, a gente decodifica a ausência dos sons e pede perdão pela audácia de falar, quebrar a mágica das folhas em branco. Espécie dos navegantes de mares profundos, mergulhamos nas ondas feitos senhores nórdicos dos reinos impossíveis, e colhemos palavras, forjamos frases e aguardamos só o momento de, outra vez, regressar ao silêncio original, em um clamor de quem cometeu heresias por não resistir às cólicas do parto da solidão. 
Daí vêm lendas, fábulas fantásticas cheias de inexistências. Contos surrealistas. Narrativas de mistério. Luzes afinal que se despejam nas teclas das máquinas de sonhar. Olhos fixos na escuridão das pessoas, esfarelam esses mundos exóticos das madrugadas, saltimbancos impacientes dos autores que viajam pelos livros abandonados nas prateleiras do vazio. Letras que conspiram desde os mundos invisíveis das horas em movimento, impacientes, que correm soltas pelas linhas de parágrafos imaginários e surpreendem os animais que vagam perdidos nas esquinas dos céus. 

Ação de quem deseja continuar nas trilhas do tempo para sempre, através do artesanato das vidas, escrever significa, sobremodo, esforço de conter o pensamento e dele extrair sentimentos da própria alma e lançá-los às almas penadas do Purgatório. Pintores de quadros apressados que se desfazem na tela do Infinito, eles, os que escrevem, insistem nisso, de dizer o indizível, contar o improvável e estabelecer contatos junto de seres inexistentes. Algo, pois, semelhante a invadir searas do Tempo e fixar moradia perante abas soltas lá no Firmamento. 

Assim são as cores do silêncio com que místicos constroem suas histórias sagradas e refazem os caminhos da Humanidade por meio dos credos e profecias, brancura rude das vozes sussurradas nesse cosmos magnânimo da criação. Nisso, convictos da violência que praticam por meio das palavras, reencontram o vigor maravilhoso do silêncio, e deitam por terra qualquer anseio de virtude; aceitam, sem outro jeito, acalmar os ânimos dessa multidão calada, regressando ao sono inevitável e puro da doce realidade. 

Monarquia moderna: qual é o papel do Imperador?

    O Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, certa feita comparou o papel do Imperador ao de um maestro, que dirige uma orquestra. O maestro não emite, ele próprio, um som que impeça os outros de serem ouvidos. Não é ele quem toca os instrumentos; ele nem sequer toca um determinado instrumento. Sem impedir cada um dos instrumentos de se fazer ouvir, ele coordena o conjunto, de maneira que todos se fazem ouvir, para a harmonia geral.

    Compete ao Imperador, dentro do estrito âmbito de suas atribuições constitucionais, estimular tudo o que há de bom em seu povo; proteger os fracos, os menos favorecidos; e corrigir o que estiver errado e precisar de correção. Essas três tarefas correspondem precisamente – conforme já destacou seu irmão e imediato herdeiro dinástico, o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança – ao dever de um pai na formação de seus filhos. Mais do que nunca, deve ser este o papel do Imperador em uma Monarquia moderna.

Fonte: Armando Alexandre dos Santos. Livro: "Parlamentarismo, sim! Mas à brasileira: com Monarca e Poder Moderador eficaz e paternal". 2º ed. São Paulo: Editora Artpress, 2015. Página 83.