20 fevereiro 2021

Um oceano de memórias - Por: Emerson Monteiro


Nele, pois, navegamos dias e dias. Surpresas dos tempos que já se foram, carregando de nós os momentos, frágeis criaturas do Infinito que somos hoje. Tangemos as velas do próprio barco rumo ao depois das horas que somem no abismo do intransponível, quais tripulantes do tempo que esvaem no horizonte. Sacudimos os instrumentos de viver, equilibramos sonhos e dosamos o destino. Aprendizes da condição atual, submissos ao desconhecido, erguemos olhos às águas e esperamos existir para sempre nesse movimento das ondas impacientes.

Reunimos, assim, pedaços do passado e formamos ilhas de solidão, dividindo com pessoas e objetos as emoções sucessivas diluídas no abstrato. Sem quaisquer intervalos, remamos no mar das saudades e lembranças, rescaldos de tantas vivências que formam o que nos imaginamos ser, a gente na gente mesma. Peças que vêm à praia nos sargaços do que fomos, e gritam aquilo que ora vivemos, brados intensos das relíquias abandonadas de náufragos trazidos aos rochedos da vista interior. Quantas e tantas recordações que nessa ocasião ferem a alma de arrependimento do nunca mais poder reviver o que antes foi.

Bem isto, fragmentos de histórias, experiências, contradições, amores, que tudo somado dá nisso que transportamos vidas e vidas, arquivos esquisitos de tempos antigos, comandantes de universo à parte que aqui carregamos conosco em forma de imagens, músicas, festas, viagens, ausências, livros, filmes, amigos, farnéis de lutas, esperanças e anseios entranhados em nós feitos feras indomáveis.

Isto do ser das águas deste mar imenso e ao mesmo tempo sustentáculo de resistir a qualquer custo aos fatores do desaparecimento. Máquinas de contar as aventuras do passado ao presente, deslizamos a vontade livre pelas ondas de certezas impossíveis, fieis buscadores de conchas entre os farrapos da ilusão. Conquanto súditos desse reino invisível, alimentamos de perguntas o vento que, morno, sopra segredos em nossos ouvidos. Quando, afinal, tocaremos o reino definitivo dessas existências só de longe iremos saber, vez que haveremos de esgotar, de tudo, o instinto de sobreviver, enfim, às nuvens transitórias da mais fria realidade.