19 fevereiro 2021

O mundo em nós - Por: Emerson Monteiro


Desde mínimos detalhes, somos o espelho que reflete a realidade presente. Vivemos na medida com que nos apercebemos disto. Crescemos conosco próprios. Artífices da nossa consciência, elaboramos o caminho dos nossos passos e tocamos adiante esse mundo que nos é dado face a uma nova percepção. Daí vêm todas as escolas que transitam pelas nossas atitudes. Assim, tais maestros que se aperfeiçoam, vivemos mundo à parte do das outras criaturas individuais. Em segredo, construímos visão nova do universo e sustentamos histórias de que somos diretor e ator principal. 

No entanto havia de existir também aquele com quem nos cabe contracenar a peça desta vida. Enquanto viajamos pelos dias, temos em nós esta companhia incessante. Havemos, lá um momento, de compreender que a solidão é mero instrumento de revelar essa presença constante, contraditória. 

Foram muitos séculos até avaliar a dimensão de transformar a realidade que refletimos em consistente compreensão deste mundo, aonde todos seguimos na busca de encontrar uma verdade definitiva. Agora existem muitos que se trabalham neste sentido, adotando providências que possam sustentar a salvação de si mesmo depois de tudo, no quanto de concreto já exista.

Nisto, seremos os professores que ensinam outra visão do que seja viver, modificando-a incessantemente qual norma de resistência diante da transitoriedade desse plano material. Prudentes na resposta que providenciam no transcorrer das existências, trabalhamos outra possibilidade além do simples percorrer das vidas e desaparecer no firmamento.

Porém essa providência inevitável requer iniciativa de valor inestimável. Exige esforço de renúncia, e reclama superação das costumeiras respostas negativas dos comportamentos ocasionais. Algo de sublime que aconteça, vindo de nosso coração, misto de religiosidade e esforço. Fé e trabalho, em favor dos valores místicos; transformação de nós em novos seres, que significam o itinerário de Si a uma nova revelação. De meras presas do destino, seremos a fonte da Perfeição de que ora somos a semente. 


Saudades de Antônio Olinto – José Luís Lira (*)


   Chega o dia de enviar a coluna para o jornal e o blog e as ideias não fluem. Este tempo que vivemos nos deixa assim. Antes alegávamos falta de tempo... Era (é?) uma correria. Hoje, muitos estamos com trabalho em casa  (prefiro o português ao inglês).  Os  dias  parecem  demorar,  mas,  têm  a  mesma velocidade. Nós é que não estamos na mesma intensidade. Faz quase um ano que assim estamos, mas, parece mais tempo. A parada foi necessária. Nunca critiquei, nem criticarei, nenhuma medida nesse sentido. Lembrando o poeta Gonzaguinha, “este tempo vai passar”.

   No quarto que improvisei como local de trabalho na casa dos meus pais, antes mesmo de ser o espaço destinado a isso, eu já colocava livros, revistas, enfim. E, hoje pela manhã, deparei-me com o livro “O Menino e o Trem”, de Antônio Olinto, da Academia Brasileira de Letras, diplomata, amigo querido. Esses dias ouvi uma entrevista dele para o também imortal Arnaldo Niskier. Aliás, guardo uma entrevista que ele concedeu ao irmão Ticar, Diassis Lira para o público em geral, quando Olinto esteve em Guaraciaba do Norte (2007). Entrevista concedida num quarto da casa do Monte Alegre. Vínhamos de Sobral onde o imortal foi na Universidade Estadual Vale do Acaraú, experimentou da carne de sol do Aragão e foi à Biblioteca Municipal Lustosa da Costa. Para acomodar dignamente a ele, sua assessora Beth Almeida, Bárbara e Henrique Ayres (filha e neto de Mello Mourão), os hospedamos no extinto Hotel Sol Nascente e o jantar foi no sítio Monte Alegre. Comida tradicional, forró pé-de-serra (Olinto até ensaiou uns passos) e café, com pó feito de grãos torrados em caco de barro. Foi um dia espetacular.

     Depois que conheci Antônio Olinto, registrado Olyntho, mas, que ele simplificou, o inverso do que normalmente ocorre hoje, ele fez três visitas ao Ceará. N’uma veio para a Bienal do Livro (2006) quando estava com a querida Nélida Piñon; n’outra para o lançamento de meu livro sobre Gerardo Mello Moura, “A Saga de Gerardo: um Mello Mourão”, ocorrido em 26 de abril de 2007 e, finalmente, em outubro de 2008, mais especificamente dos dias 26 a 29, para lançar sua biografia, escrita por mim: “Brasileiro com alma africana: Antônio Olinto”. Na última visita, Matusahila e eu o recebemos em nossa casa, em Fortaleza, juntamente com Beth Almeida, sua assessora e quase filha.

     Olinto era uma figura amável e amada pelos que o cercavam. Foi seminarista e herdou para toda a vida a religiosidade. Criança, nas Minas Gerais, teve contato com ex-escravos, agregados de família que tinham conhecimento da cultura afro. Ao chegar a Lagos, na Nigéria (Continente Africano), como adido cultural do Itamaraty, apaixonou-se pela alegria do africano, pelo profundo respeito por seus antepassados e divindades. Foi a inspiração para sua trilogia “Alma da África”. Na sua despedida, um representante tribal, ao homenageá-lo, disse que o diplomata tinha a alma negra – na tradição deles, maior elogio que se pode dar a um não-africano. Hoje me volto à enésima releitura de “O Menino e o Trem” e destaco o conto que intitula o livro e “A Palavra”, no qual ele dá vida à palavra que “tinha consciência de sua integridade verbal”. Lindo, simples, mas, sofisticado como era nosso imortal que nos acompanha da eternidade.

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.