18 fevereiro 2021

Pelas ruas da cidade - Por: Emerson Monteiro


Os tempos em movimento nas situações e lembranças vivas, tempero da sobrevivência dos nativos em horas vazias de tudo. Lugares, pessoas, vivências. Filmes projetados na consciência da gente. Superposição de imagens que insistem persistir aonde quiser, pois vêm de moto próprio e invadem as sombras da consciência. Mesmas cenas de antes que regressam e confundem o senso do agora. Ninguém dormiu no passado, e despertos seguem através das criaturas dolentes que ora somos. Impregnados pela arquitetura das cidades, sustentam a necessidade das existências inevitáveis. Quantos séculos andam assim soltos no ar do infinito?!

Dizem que, de vez em quando, eles regressam na forma de sentimentos, saudades atrozes dos momentos agradáveis que perdemos nas atitudes, luzes a piscar na escuridão dessas janelas apagadas. Imagens dos seres de antigamente que percorrem, de jeito fantasmagórico, por dento, a alma das criaturas humanas. Lado a lado com esses escombros de memórias, renascem das cinzas e crescem no horizonte os pensamentos, feitos visagens renegadas, impertinentes. Guardam relíquias que as esquecemos de largar, no descompromisso da sorte de hoje, parte integrante do que fomos. Alguém que jamais deixaremos de ser, porquanto tais registros fincaram garras ao teto das visões, tangidos na espiritualidade imortal. Veremos nas tantas ocasiões nossos pecados enterrados em nós, e de nós pediremos perdão pelos atos espúrios ali praticados. Temos implorado o favor do esquecimento, no entanto ser imaginário diz que pecamos e que, com isso, reconstruiremos os velhos barcos abandonados nas praias distantes da ingratidão. Pátria do impossível, seguiremos trilhas de ausências, espécies de criação de nossos desejos que nunca sumiram de todo. Que sejam tais duas realidades, a fruto da ambição e a verdadeira, que nos devemos a ela submeter e ganhar na luta contra o desespero e a saudade. 

São bem essas as ruas da cidade onde pisamos um dia e deixamos nelas pedaços de vidas agarrados às frestas das casas e do chão, a que voltaremos em cima do rastro sob o peso dos sentimentos ali presenciados. Nós, pedaços eternos de nós mesmos, marcas indeléveis da caminhada dos sonhos e que levamos conosco até depositá-los, um dia, lá nas florestas virgens da Eternidade.