16 fevereiro 2021

O balbuciar das canções - Por: Emerson Monteiro


Houvesse o Sol ter que nascer sem o cantar dos passarinhos, sustento minhas dúvidas se com isso Deus concordaria. Nalgumas frases apenas as canções tocam forte nas fibras da alma da gente. Querer justificar o que cativam as melodias, nas letras, nos fás sustenidos, nas longas e breves, ninguém explica. E de onde elas vêm, quem sabe?! Doutros astrais, de longe das vistas, de longe, bem de longe decerto. Do campo das musas de profundas inspirações. Chegam aos abismos de dentro e ali permanecem plantadas para sempre na consciência distante. A beleza da poesia, da arte, da essência, que alimenta o desejo de felicidade traz consigo as pautas, os ritmos, o andamento...

Nunca esqueço o clima das canções que me fizeram a cabeça. Dos dias, daquelas horas santas de quando as ouvi. Bem claros os momentos, o estado de espírito, os sonhos incendiários. Lembro até das pessoas com quem, à época, mantinha aproximação e dividia as apreensões. Juntos tais pedaços de existências, posso, inclusive, formar, de novo, aquele eu que pensava ser e vagava nas calçadas do passado, e sofria, e angustiava, e ansiava. Espécie de romantismo crônico invadia os estágios entre as duas realidades e as canções trazidas à trilha sonora dessa perpetuação que hoje observo reviver nas audições daqueles turnos e de agora, únicas e iguais nos labirintos dos ouvidos. 

É quando escutamos a melodia, as letras, os tons, que daí advém quadros que apresentam primeiro os sentimentos, e só depois os pensamentos que dali nasceriam e salvos continuam. Tantas épocas de milhões de rostos anônimos que desfilavam à frente dos olhos, enquanto aos ouvidos vem esse comando insistente, definitivo, da música imaginária.

De comum, resumem ser saudade isso que se sente diante do que foi sem chances de regressar, a não ser que a música não houvesse, pois, de voltar. Saudade, que disseram tratar de palavra do Português no Brasil, com exclusividade. Saudade que vem de solidão, soledade, sordade, até virar saudade, tal jiló que arde nas entranhas da pessoa que padece. A música possui  condão de mexer o íntimo e reinventar do que sobrou através da arte, na sensibilidade, no sentimento que resta ao fim de nada mais. Uma fala doce que sussurra no peito as mesmas emoções antes vividas, tocadas de perto, guardadas com extremo zelo nos acordes e percussões.

De tanto esperar o invisível dos tempos, terminamos aceitando escutar, pelo sentido espiritual da audição, a presença forte e distante de tudo que retivemos às dobras do sentimento; são as músicas, que falam disso e alimentam a certeza da alegria eternizada em nós escondido na ausência. Por isso, bem melhor agora abrigar os acordes da canção no prazer de estar bem aqui e viver de novo tudo de bom.

 

Realidade provisória - Por: Emerson Monteiro


Em 1978, voltaria a Salvador, onde permaneceria por sete meses. Nesse tempo, assisti a uma palestra de Huberto Roden, filósofo e ex-sacerdote jesuíta, autor e tradutor de dezenas de livros que eu lia e estudava com frequência e entusiasmo. Tratou de um tema relativo à filosofia oriental, tendo por base o pensamento hinduísta, da cultura dos vedas. Dentre outros conceitos, abordaria a noção de maya, ou ilusão.

Seu significado é complexo porque envolve ele mesmo uma dualidade, pois maya não pode ser real se consideramos o Absoluto (Parabrahman) como a única realidade, mas não pode ser irreal pois é a base de todo o universo objetivo. A realidade última, assim, envolve a compreensão da natureza de maya sem sua negação, mas distinguindo-a do Absoluto. Wikipédia

Depois de concluída a fala principal, vieram as perguntas. Um dos presentes indagaria que, se maya não existe, porque tanta preocupação, conquanto fosse só mera ilusão. Ao que o palestrante foi incisivo em dizer que enquanto estamos aqui ela se faz parte a influenciar o comportamento das criaturas no processo de viver. Possui existência transitória, porém determinante. 

Ainda que tenhamos ciência dessa transitoriedade ilusória, no entanto somos levados a agir, tantas vezes, sob sua influência.

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A existência terrena significa, pois, mais que apenas agir, mas reagir em face das circunstâncias. Quais atores do destino, somos dele os responsáveis diretos, através das condições que se nos apresentem. Livres, contudo responsáveis pelas nossas ações na busca da realização pessoal. Ter por que viver e liberdade em aceitar as situações. Em nossas mãos, as rédeas do destino. Se eu não fizer, quem o fará. Se não faço agora, quando farei. Hilel Já que não se podem alterar as circunstâncias, que mudemos nós. 

Em nós, portanto, a alternativa de interpretar o Universo e dominar as malhas do desafio, até preencher de sentido a arte de viver.

(Ilustração: Arqueologia egípcia).