23 janeiro 2021

Benigno Aquino - Por: Emerson Monteiro


Há uma história que presenciei à distância, através dos programas de televisão. Isso no tempo em que Ferdinand Marcos era ditador nas Filipinas. Seu principal adversário político, Benigno Aquino, se achava ausente, em exílio auto-imposto nos Estados Unidos, quando decidiu que regressaria à pátria, então vítima do totalitarismo e submetida a duras penas de exceção. Nisso, Aquino embarca em avião comercial com destino às Filipinas. Junto dele havia jornalistas, cinegrafistas e testemunhas outras que o acompanhavam naquele voo de regresso, isto face ao grave impulso do líder perseguido pela ditadura de reaver a normalidade da nação. 

Era dia 21 de agosto de 1983. Durante o voo, houve entrevistas gravadas, fotografias, diálogos, tudo registrado sob os olhares da mídia internacional. Todos admiravam a atitude extrema daquele homem de feições tranquilas, olhos vivos e corpo franzino, que manifestava intenso o amor pelo seu povo, mesmo ciente dos riscos que atravessaria ao desembarcar, porém firme de sua decisão. Por tudo aquilo, pairava clima de incerteza e temor.

Daí, as cenas seguintes: O avião no solo; aberta a porta do desembarque; providências outras; de cima, trajado de branco e com uma bolsa de bagagem a tiracolo, as câmaras lhe gravariam os instantes finais de vida. 

Logo que pisou ao chão da querida pátria, vemos ser abordado por figuras truculentas e levado em direção a uma viatura militar. Foram as derradeiras imagens do político. Nunca mais dele haveria notícias, a não ser daquele momento, d que fora eliminado ali mesmo, mártir da coragem de permanecer fiel ao povo que tanto amava, que mereceu o seu sacrifício nas garras perversas do ditador, a quem a História não pouparia justiça.

O Dia de Ninoy Aquino é um feriado nacional que ocorre nas Filipinas, anualmente em 21 de agosto, comemorando o dia da morte do ex- senador Benigno "Ninoy" Aquino, Jr. Ele era o marido de Corazón Aquino, que mais tarde se tornou presidente das Filipinas; eles são tratados como dois dos heróis da democracia no país. Seu assassinato levou à queda de Ferdinand Marcos em 25 de fevereiro de 1986, através da Revolução do Poder Popular. (Wikipédia)


A dor e o menestrel - Por: Emerson Monteiro


Lemos em algum lugar história triste de um palhaço que perdera a esposa e se achava na condição de comparecer, no mesmo dia, ao picadeiro de um circo e fazer rir a platéia que lotava o espetáculo aonde tantas outras apresentações levara a efeito em condições satisfatórias.

No momento em que todos gargalhavam com desempenho magistral nunca antes presenciado pelo distinto público, dentro dele fervilhava a mais pungente amargura e desciam lavas amargas de dor, disfarçadas com maestria pela máscara que cobria o rosto banhado de lágrimas.

Enquanto alegria sem igual naquela hora contagiava os espectadores, no peito do homem ardia crise sem precedentes, propósito de quem conduz vida de quase nada pode exprimir da veraz realidade que impera no ser, por força de produzir emoções nos outros lá de fora.

A situação descrita, mudando o que merece mudar, caberia feita luva na circunstância que se verificou em Crato, quando, no Espaço Navegarte, assistíamos a uma apresentação musical.

Lá no palco, o cantor pernambucano Geraldo Azevedo, voz e violão, que oferecia a numerosa platéia bela música do seu repertório, boa parte de própria autoria. Aplausos efusivos animavam o clima ameno do lugar, evidenciado nos flashs constantes dos fotógrafos a registrar o acontecimento, entremeados de relâmpagos insistentes que clareavam o céu escuro à distância, cenário detrás do palco, para as bandas da Ponta da Serra. 

Isso se manteve ao ritmo das letras e cordas afiadas do instrumento bem praticado, nas sombras chuvosas da noite caririense.  

Duas ou três canções antes do término da cena, porém, nas falas com que ilustrava os intervalos das canções, o músico comunicou aos presentes que, na véspera daquela data, ocorrera a passagem de sua genitora desta vida para a outra, pondo-se, logo depois, a interpretar uma composição de autoria dela, refletindo na voz o sentimento que se pode imaginar de filho em situação semelhante.

Ao lembrar os detalhes disso, nos vemos emocionado a refletir quanto à condição dos artistas e sua proximidade com multidões desconhecidas, vínculos que se estabelecem no decorrer da existência coletiva. Enquanto dentro de si lhes sacodem no peito um coração quantas vezes macerado pelas guantes imprevistas do destino, repassam, igualmente, a imagem de quem habita condomínios eternos da mais pura felicidade. 

Missão semelhante, a exemplo do palhaço de que falamos no início, uns dançam, riem, se divertem. Outros padecem, representam, dissimulam. De íntimo transtornado pelos ardores do sofrimento de perder a mãe querida, o músico prosseguiu com a função até o fim, debulhando versos e notas, na batida intensa do expressivo violão solitário, ausente das convenções deste mundo. Isso tudo em nome do amor ao sonho da arte, herói sobranceiro da magna inspiração, porquanto o show haverá sempre de manter o curso ininterrupto ao âmago dos corações em festa.