07 julho 2021

É domingo - Por: Emerson Monteiro


Falar um pouco a propósito deste livro que nasceu nas páginas do Jornal do Cariri, na coluna do mesmo nome É domingo, título que veio nos fiapos de lembranças de tempos imprevisíveis, incertos, época da Tropicália, quando ouvia uma música de Gil (Domingou) (...) São três horas da tarde, é domingo / Na cidade, no Cristo Redentor - ê, ê / É domingo no trolley que passa - ê, ê / É domingo na moça e na praça - ê, ê / É domingo, ê, ê, domingou, meu amor (...) E eu a retornar a Brejo Santo, em tardes de fria solidão, ricas de emoções e saudades, ideais fervilhantes no peito... Longe de um mundo impossível, que mexia as estranhas pedindo existência de qualquer jeito, nem que fosse noutros sonhos reais da memória, no futuro, talvez. Domingo, dia neutro, em que as conquistas de ontem (sábado) ressurgem nas esperanças de amanhã (segunda-feira).

Domingo, daquele poema (Estatutos do Homem) de Tiago de Mello, onde (Fica decretado que todos os dias da semana, / inclusive as terças-feiras mais cinzentas, / têm direito a converter-se em manhãs de domingo).

Reuni textos em profusão, o que implicou na seleção ainda profusa que vai aqui, a pedir, quiçá, mais restrição com base nas semelhanças dos assuntos, evitando desnecessárias surpresas de uma crônica para a outra. De reflexivas em menos humoradas (anedóticas), pois quero que signifiquem material de estudo, às tardes domingueiras do leitor, quando há espécie de preparação visando retomar os assuntos, na segunda-feira, projetos pessoais revisados durante o fim-de-semana.

A princípio, imaginei poder juntar os textos e caldeá-los com algumas pinceladas, logo os dando por prontos. No entanto notei a seriedade imprescindível de caprichar na seleção e na revisão, fazendo dia a dia, um, dois, no máximo três, às vezes até com  excessiva autocrítica, porém no limite do tolerável, senão já me daria por satisfeito, numa atitude urgente e desterro do material, sem pretensões de publicar. Em sendo assim, restringiria de vez o gosto de fazer, superando o desejo de ampliar leitores e amigos. Porquanto, a sua razão principal será o pretexto de conhecer novas pessoas e informar o que se passa nas cavernas insondáveis do ser, brechas do Inconsciente, passadas na arte, o sonho posto no papel, nas paredes, no som, no jardim, nas nuvens, no discurso...

Por que publicar? Por que chorar, sorrir, caminhar, ler, escutar, perguntar, responder, viajar, comprar, vender, assistir, imaginar, arquivar, transmitir, vacilar, mirar, viver, comer, etc.?

Sartre disse que seria viver ou escrever e que ele preferiu escrever... Uma enzima que existe na natureza, que contagia pessoas desavisadas, intranqüilas, teimosas, farofentas, visionárias.

Em cada texto busquei mostrar surpresas quando a situações, o inesperado, ou pouco esperado, somando elementos do conto na crônica, ou da crônica no conto. É tanto que não sei dizer bem qual seja o gênero literário, se isto ou aquilo (conto ou crônica), ou os dois juntos, ou apenas gestos reunidos de pedaços de falas de quem faz de conta que tem o que passar aos outros, enchendo papel, imitando quem fez parecido e melhor, decerto. Uma busca de dizer o que, não sei, recontar coisas ouvidas, vividas, afã de registrar momentos que somem e  deixam ecos grudados na parede dos pensamentos,
lodo em forma de esperança, religião, etnografia, folclore, sociologia, literatura popular, nessa estática do tempo interno das criaturas, naquilo que Glauber Rocha classificou não ser nem teoria nem prática, do Cinema Novo. Restos de um tanto de repasto das dúvidas e procuras nos livros, nas paisagens, personagens, nos contos, aspirações de mudar a si nas coisas manifestadas por quem quase, ou nada, sabe além de produzir colares de gestos e falas, ouvidos, guardados.

Talvez dissesse na presença e chegasse mais perto, nessa pobreza de repassar o conteúdo. A escrita impõe condições severas, formais, hábitos estilizados, vincados, armadilhas da espontaneidade.

As palavras de Tiago Araripe, no comentário que fez do meu livro Cinema de janela, ao dizer, por exemplo, que fora escrito com a lente do olhar, corresponde um tanto ao que não consigo interpretar do que faço, por me achar sob o formato dos tubos de ensaio da vida, e me incluir nas malhas impostas pela própria paisagem, tripas viradas ao vento.

Em resumo, quisera não dar por perdido esse material que reuni em estilo de resposta ao silêncio pegajoso e insistente que sobrevoa, cruel, as latas de lixo abandonadas às estantes do Mundo.

Um senso de angústia ao modo de interrogações, tardes mornais de todos os domingos, redes armadas em varandas desertas, ao calor abafado das horas velhas amigas esquecidas... Aonde insiste o chamamento do caminho da literatura de prazer, em conteúdo passível do entendimento da fé, do inusitado, meus idealismos crônicos.

A foto da capa, de Augusto Pessoa, compõe bem o projeto, numa paisagem de Atacama, o deserto de sal do Chile, visto entre cactos de dentro de uma caverna.

 

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