12 junho 2021

Festa de Santo Antônio – por José Luís Lira (*)

 

          Hoje é dia dos namorados e quando se fala no tema, depois do romantismo e dos tantos poemas belos que podemos lembrar, uma imagem vem à nossa mente: Santo Antônio. Na música, Lamartine Babo tem uma marchinha chamada “Isso é lá com Santo Antônio”. Nela vemos uma pessoa pedindo ajuda para casar aos dois outros santos juninos: São João e São Pedro, ao que ambos respondem: “Matrimônio! Matrimônio! Isto é lá com Santo Antônio!”. Também Luiz Gonzaga questiona por que Santo Antônio casa todo mundo e nunca se casou e por aí vai. Sobre a atribuição de casamenteiro, consta que Santo Antônio, em vida, buscava promover o amor verdadeiro, convencendo os pais a não fazerem casamentos arranjados, comuns àquela época. É o que nos ensina seu mais recente biógrafo, Edison Veiga, no livro “Santo Antônio: A história do intelectual português que se chamava Fernando, quase morreu na África, pregou por toda a Itália, ganhou fama de casamenteiro e se tornou o santo mais querido do Brasil”, Editora Planeta (2021).

     Em boa parte do mundo, inclusive na Itália, onde Santo Antônio desenvolveu sua missão franciscana, e em Portugal, onde nasceu e se tornou padre agostiniano, o dia dos namorados é celebrado em 14 de fevereiro, na festa de São Valentim, patrono dos namorados. Aqui no Brasil, é na véspera da festa Santo Antônio. No Nordeste temos muita animação em tempos normais. Celebrações, fogueiras, quadrilhas dançantes etc. Em Barbalha, Ceará, onde acontece uma das mais tradicionais comemorações ao Santo, festa com registro patrimonial nacional e estadual e nesta instância tenho a honra de ter relatado o processo no Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural do Ceará – COEPA.

      Santo Antônio, a quem São Francisco chamara de “Bispo”, junto com o Santo de Assis é um dos santos mais queridos da cristandade. O biógrafo Edison Veiga registra o encontro do Santo com o Papa Gregório IX que quis tornar Cardeal aquele já considerado “Arca do Testamento”. Frei Antônio “recusou a honra, preferindo à púrpura o pardo burel franciscano que mais condizia com seu espírito humilde”. “Ele era a prova de que era possível mesclar humildade com conhecimento, simplicidade com doutrina, coração com razão”.

        Tenho por Santo Antônio grande afeição e até uma imagem que posso dizer única, pois, foi a primeira com a reconstrução facial do Santo, usando hábito marrom e numa peça de cerâmica-gesso. Foi de sua reconstrução facial que consegui, com o amigo-irmão Cícero Moraes, réplica em tamanho médio da cabeça reconstruída do Santo, impressa em 3D (2014). Ano seguinte, com o saudoso amigo Samyr Figueiredo, encontrei o artista Fabrício Costa. No dia de Santo Antônio de 2019, ele me disse que estava concluindo o trabalho. No Corpus Christi, há dois anos, fui à sua casa, em Fortaleza. Vi a imagem com o rosto fiel de Santo Antônio na sua tradicional iconografia com o Menino Jesus. Hoje essa imagem se encontra em minha casa, venerada com carinho.

       Na festa do Santo, vale lembrar, quase como prece, trecho que homilia citada por Veiga: “Vivemos aos prantos à noite, mas acordamos de manhã na alegria”. Nestes tempos de pandemia, a palavra do Santo se aplica tão bem. Que ele rogue a Deus para que felizes acordemos na manhã em que a pandemia tenha acabado. Amém!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista c(*) José Luís Lira om mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


10 junho 2021

O espelho do Tempo - Por: Emerson Monteiro


Nós é que somos isto, o espelho do Tempo, lá onde ele se reflete sem parar. Quando dizemos o tempo passa, há nisso um contrassenso, porquanto quem passa, na verdade, somos nós. Queremos admitir que sejamos o centro da calma, quando o centro da calma é privilégio do Tempo. Tal qual um rio em constante movimento, seja ele as margens e nós o fluxo contínuo das águas deslizando ao mar da Eternidade.

Então Eternidade e Tempo são meras partes de um só Universo, e nós seus frutos em maturação. Quando, porém, galgarmos a compreensão definitiva do mistério dessa condição, haveremos de nos integrar de vez com o Absoluto, e estabelecer as bases da real compreensão de tudo quanto existe. Só assim deixaremos de ser o espelho do Tempo, lá onde ele se reflete sem parar. É tanto que as idades estão em cada um dos viventes, enquanto o Tempo será sempre a mesma criança travessa que projeta a luz em todo ser que nele se dissolve na medida do seu transcorrer.

Dentro, por isso, dessa percepção, assistimos sem parar as mudanças que nos farão, um dia, seres cientes da existência em caráter permanente, e daí viver eternamente a nossa imortalidade, longe das ausências, da saudade e do sofrimento. Este o plano da perenidade que nos assiste todo momento. Resta-nos, contudo, exercitar os refolhos da consciência até galgar os páramos celestes, depois de tantas vidas reencarnadas aqui no Chão.

Diante do teatro das horas, encenamos as peças do Destino e aprimoramos valores de merecimento à medida que desenvolvemos os papeis a desempenhar os tantos dias. O Tempo, essa testemunha constante, anota e julga nossas ações, fornecendo aos fenômenos da vida os instrumentos da justiça universal. Ninguém foge ao seu destino, diz a sabedoria popular. Apenas o Tempo, senhor e juiz, conduzirá nossos passos ao pouso da mais plena Felicidade, morada dos seres já evoluídos.

(Ilustração: A persistência da memória, de Salvador Dalí).

09 junho 2021

As palavras e o pensamento - Por: Emerson Monteiro


Bem que esse tema daria de ser um conto falando em florestas, lagos, calmas noites e do movimento das folhas ao capricho do vento, sons de mistério e visões, nas réstias acesas da lua ao brilho intenso dos vegetais, pois palavras se prestam a isso com estranha facilidade. Contudo traz consigo outros segredos, quais sejam de avaliar a distância daquilo que a gente diz e o que as palavras na verdade desejam contar.

Quais seres caprichosos, elas insistem tocar as mesmas teclas dos séculos anteriores de quando ainda cresciam livres. As palavras habitavam soltas, absurdas, nas hostes do pensamento nos véus que somem logo ali adiante pelos vagões da Eternidade.

É bem aquilo de que e de onde surgiam, quando nelas germinam os grãos na crosta do tempo, nas luzes que buscam desesperadamente dominar as pessoas sem nem saber direito com que finalidade, tais quais máquinas que resolvem controlar seus criadores e correm vadias à frente dos destinos, a querer, por fina força, definir o trilho das ideias na cabeça dos viventes.

Invadissem cômodos íntimos e transformassem desejos em instintos e paixões em sofreguidão, isso de um momento a outro, só então assim dariam margem suficiente às infinitas considerações da consciência a respeito dos significados.

Sempre o pensamento e as palavras, que andam juntos até o infinito, naquelas ocasiões de achar o sentido forte que sacode a alma das pessoas. Nesse afim, corações sacolejam nas bases e outros motivos maiores navegam o rio incessante das horas, tudo proveniente da força do pensamento aliado ao sentimento que, fervilhante, penetra a caixa das palavras, logo deitadas fora num vômito de memória.

Isto de avaliar, pois, o espírito da solidão humana e encontrar senso nesse tipo de jogo entre as palavras e a função do pensamento deixa espaço a novos conceitos nunca passíveis de respostas certas. São eles quase que entes invisíveis, figuras animadas do sonho de construir, por si só, o futuro real das próprias ações das criaturas que nós somos.

07 junho 2021

Revista Cariri das Antigas - Por: Emerson Monteiro


Em mãos a primeira edição da Revista Cariri das Antigas, órgão que divulga projeto do mesmo nome, sob os auspícios do pesquisador Roberto Junior, da nova safra dos historiógrafos de nossa região. A publicação tem proposta ambiciosa de resgatar momentos importantes da história do Cariri através dos meios gráficos da atualidade, recolhendo detalhes e documentos de relevância na preservação de uma cultura rica por demais, que, felizmente, dispõe dos estudiosos exatos nos seus registros e providências.

A publicação enfoca, nesse número de abril de 2021, os seguintes temas: O palacete de Isaias Arruda, o coronel meteórico; Relógios do Cariri (O relógio da coluna da Praça Padre Cícero, a máquina suprema do Cariri); Dr. Gesteira, o médico encantado; e Percival Prince, o primeiro avião comercial do Cariri; em reportagens recolhidas com esmero, ocasionando resultados de boa apresentação, em textos bem produzidos e imagens de primeira qualidade.

Assim, o editor Roberto Junior faz valer sua intenção de trazer à baila tais temas icônicos, numa iniciativa exemplar às novas gerações dos caririenses, de comum votados aos conteúdos históricos, etnográficos e antropológicos desta civilização do interior nordestino donde procedem valores intensos da nacionalidade, porquanto marcou sua presença nalgumas das mais relevantes ocasiões da História. Nisto, divulga pesquisa de nomes marcantes do acervo tradicional, quais o Cel. Isaías Arruda, o médico Antônio José Gesteira e o mestre relojoeiro Pelúsio Correia de Macedo, personalidades inesquecíveis da história recente da Região.

Numa confecção gráfica de primeiro nível, a Revista Cariri das Antigas, confeccionada pela BSG Bureau de Serviços Gráficos, de Juazeiro do Norte, Ceará, é uma edição da Ladrinhos Editora, também vinculada ao Cariri das Antigas, com 18 páginas, tamanho de um tabóide médio, própria a ser lida e divulgada por todos que apreciam os frutos saborosos dos nossos intelectuais.

06 junho 2021

Amar é o caminho - Por: Emerson Monteiro


Quando já se falou tanto em revolução, a raça humana chega agora no clímax de compreender isso, que amar é o caminho. Depois de quantos falarem e darem vida ao sentimento maior qual razão de tudo quanto há, eis que uma claridade imensa transforma o senso desta humanidade e traz ao nível de exprimir todo o mistério das existências num simples gesto interior de vivenciar o Amor. Daí, vemos o quanto disseram, em todos os povos, desta verdade suprema que envolve de luz as vivências e acalma a busca incessante do sentido, nas muitas civilizações, num viver com suavidade e virtude, a paz em forma de amplidão coletiva dos valores. Após esgotar as mil faces do poliedro das experiências no decorrer dos séculos, lá um dia multidão aceita abrir o coração e amar com sabedoria, exercitar as fibras da alma e propiciar aos demais aquilo que transforma em fraternidade os esforços do trabalho coletivo, lembrando sermos irmãos e unir nossas forças no crescimento da grande população da Terra. Algo que nasce de dentro das criaturas à medida que ampliam os conceitos morais na forma das práticas justas e solidárias. Amar, palavra que resume as filosofias e religiões, e denota consciência de uma razão esclarecida aos fenômenos do Tempo, no âmbito das gerações, fruto da percepção dos humanos. Nesta hora de demonstrar a que viemos durante milênios a fim, no instante dessa percepção, a própria Natureza revela a si o que sempre demonstrou e poucos levaram em conta. Em ocasião mais solene de todas, nenhuma dúvida persiste da importância de somar forças e construir o mundo ideal de que falaram a beleza, a música e os sonhos, hora plena de esperança e felicidade, ao sabor desta nova chance, autora da revelação no íntimo dos seres.  

05 junho 2021

Os degraus do Paraíso - Por: Emerson Monteiro


Nesta selva de aço e contrição, seremos buscadores da realização de Deus em nós. Todos já ouvimos falar nisto e poucos, na verdade, escutam. Passo-ante-passo, deslizamos pelas entranhas de nós mesmos feitos aprendizes da sorte, na intenção de, lá um dia, ver de perto e achar a paz em que tantos falam nos variados quadrantes. Pisamos delicadamente no teto das crenças e sonhamos com um sentido absoluto de tudo quanto há, sem, no entanto, galgarmos com toda intensidade o desiderato de nos manter fieis ao Criador, nosso Pai e Senhor do Universo. Sois Deuses e não o sabeis, afirma Jesus.

No entanto carecemos da real compreensão e prática dos conceitos de tal possibilidade, face às contradições sob as quais desenvolvemos a nossa busca, mornos que, por vezes, somos em face da indefinição de nossas atitudes. Há que concretizar, por isso, valores da certeza que nos farão livres da materialidade, do apego ao senso do Chão aonde viemos desenvolver o crescimento na direção às estrelas. Eis o de que mais carecemos, pois, do desapego aos propósitos só imediatos, e encetarmos a jornada definitiva rumo à Salvação.

São estes os degraus que nos farão libertos dos laços da materialidade, significando, assim, a conquista de um nível superior de existência, desde sempre ansiado pelos que reconhecem a relatividade deste mundo. Propósito por demais alimentado desde sempre; sustentamos, porém, vinculações divergentes dessa vontade, conquanto agimos, de comum, em desacordo a quais princípios honestos e juntamos com uma das mãos para espalhar com as duas.

Outrossim, persistimos na direção da sonhada e definitiva felicidade, glória maior de tudo que existe na vida humana. E rezamos, meditamos, estudamos, criamos alternativas de praticar este sonho, todavia ainda presos aos liames da carne. Enquanto isso, os meios de revelar a si os mistérios dessa nova existência persistem ao nosso dispor durante todo tempo e em todas as vidas.

04 junho 2021

O mistério do espelho - Por: Emerson Monteiro


Quando eles, os colonizadores, chegaram aqui, entre as quinquilharias que trouxeram interpuseram os espelhos, isto a quem só se conhecia de olhar a si pelas águas calmas dos lagos, sem muita nitidez, porém que já dera origem a Narciso, o embriagado da própria sombra. É que o espelho inverte o nosso autoconhecimento daquilo que a gente pensava ser o nós mesmos, e vê, então, outro ser, o negativo de si. Causa isso, espelho, o negativo de si.

O mais surpreendente é que o espelho só inverte na horizontal, na vertical deixa tudo permanecer de cabeça no alto e pés no chão, enquanto um dos lados da face vira seu inverso, passando ao outro lado. Falei mistério, algo a ser compreendido, sobremodo quando cada lado da face corresponde a um dos lados de nosso cérebro, um dos hemisférios cerebrais, unidos apenas pelo corpo caloso, o que corresponde tão só a 25% da fronteira de entre esses dois hemisférios. A gente usa com predominância um dos dois lados, sendo o outro apenas seu assessor, na proporção de um para três.

E o espelho inverte esse ganho interior da consciência, dando impressão de que estamos do outro lado, porquanto a tal visão indica falsa imagem de si, o negativo da nossa face. Tal aspecto explica o motivo de virem os espelhos entre as fitas e bugigangas trazidas pelos colonizadores, mais sabidos do que tantos imaginam no decorrer da História. Conheciam do ofício de inverter o processo civilizatório das populações conquistadas, artimanha por demais esquisita e sofisticada, advinda do abismo dos séculos, de forças totalitárias e dominadoras.

Assim acontece desde longa data, até quando, lá um dia, Jesus propôs retomar o caminho de novas atitudes através dos segredos do Amor verdadeiro, do caminho do Coração, até chegar de volta ao Pai, razão das quantas perseguições às suas palavras, sobretudo nos grandes impérios. Uma longa história que traz a simplicidade original aos seres humanos.

(Ilustração: Narcissus, de Caravaggio).

Chapada do Araripe: candidatura a Patrimônio Mundial – por José Luís Lira (*)

 

    Na reunião ordinária do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural do Ceará – COEPA, realizada no dia 19 de maio último, aconteceu a apresentação da candidatura da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade junto à UNESCO. Na oportunidade, se pronunciaram os Professores-Doutores José Patrício Pereira Melo, Alemberg Quindins e Maria da Conceição Lopes. A candidatura da Chapada do Araripe é realizada por meio Governo do Estado do Ceará e da Secretaria da Cultura do Estado (Secult), junto com a Universidade Regional do Cariri (URCA), Funcap, Fecomércio, Sesc Ceará, Fundação Casa Grande, GeoPark Araripe e Instituto Cultural do Cariri. Por meio do “Dossiê para candidatura da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade (UNESCO): natureza, tradição e formação de um território encantado”, realizou-se inventário qualificando o diálogo sobre os desafios e possibilidades da salvaguarda patrimônio cultural e natural no Estado do Ceará. Daí o assunto ser levado ao COEPA, onde, mui honrosamente, ocupo o assento da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), có-irmã da URCA, cujo primeiro reitor, Prof. José Teodoro Soares, foi o segundo reitor da nossa Universidade Sobralense, a UVA.

    Entre alguns nomes que estão no Comitê Científico da candidatura, além dos doutores citados inicialmente, destacamos: Espedito Seleiro, Fabiano Piúba (presidente do COEPA e Secretário de Estado da Cultura do Ceará), Heitor Feitosa, Renato Casimiro, Ronaldo Correia de Brito e Weber Andrade Girão e Silva.

    A candidatura da Chapada do Araripe a Patrimônio Mundial se legitimou no Seminário Internacional Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade realizado em Juazeiro do Norte, Crato e Nova Olinda, com a participação de todos os cidadãos empenhados, singulares ou organizados, que em conjunto manifestaram o empenho pela candidatura. A Chapada do Araripe em seu contexto cultural, patrimonial e ambiental, revela condições culturais e naturais únicas, capazes de sustentar uma proposta para inscrição como bem na Lista do Património Mundial, com singular potencial Valor Universal Excepcional (VUE), conforme lemos no sítio eletrônico: http://dossiechapadadoararipe.urca.br/.

    Em fevereiro de 2020, representando o governador do Ceará, Camilo Santana, o secretário da Cultura, Fabiano Piúba, o Reitor da URCA, Francisco Lima Junior e o Diretor do Sesc/Senac Ceará, Rodrigo Leite, estiveram na  sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em Brasília (DF), para a entrega de documentos para solicitar a inscrição da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade ao presidente interino do IPHAN, Robson de Almeida. A partir daí, aquela região dos imortais Padre Cícero Romão Batista, Beatos José Lourenço e Maria de Araújo, Antonio Martins Filho (o reitor dos reitores), Patativa do Assaré, Irmãos Aniceto, Espedito Seleiro, Assunção Gonçalves, Daniel Walker, Madre Feitosa, Irmã Annette Dumoulin (filha adotiva) e futura Beata Benigna Cardoso, entre outros, incrementou essa campanha à qual, em sinal de justiça, todo o Ceará se integra, quiçá o Brasil e o mundo conhecedor da riqueza daquela chapada.

     O COEPA, unanimemente, aprovou a ideia e deu apoio à candidatura que almejamos sair vitoriosa!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


02 junho 2021

Transformações II - Por: Emerson Monteiro


Essas marcas substanciais do Tempo, eterna ação do movimento mágico da existência; as transformações que significam função dos instantes sem interrupção na máquina do mistério. Nos fins das tardes, pelo canto distante da saracura nas quebradas da Serra, vem a força deste momento. Nítidos repastos do indizível, perspontam entre o nada e o tudo, quais bichos silvestres que se aninham no peito da gente à busca de terminar o dia e alojar os sentimentos nas folhas da consciência que espera a perfeição de Deus.

São as histórias que restaram virgens de contar na sede do desejo da imaginação, fervilhando nas matas já escuras de dentro das pessoas. Narrativas de segredos bem vivos nas últimas réstias do dia que escorre pelas gretas do Infinito. Paixões alucinadas, sonhos amarfanhados em lençóis ainda frios, movimento de nuvens pelos céus, derradeiros reflexos do Sol que já sumiu no horizonte deixando pedaços de seres que somos em colagens mil, na recente penumbra; e os viventes somem ao sabor das horas em transformação. Tudo, afinal, que renova cada momento, ondas que integram camadas e cores, formas e lampejos. Seres que preenchem o solo das estrelas a reluzir nas sombras lá adiante, que chegam dos cantos da amplidão, noutras possibilidades de palavras soltas na alma da gente.

Bem isto, de mundos convulsões, viventes, luzes em ação no coração das tantas criaturas, autores dos frutos alegres, esperança e fé, instintos de vitória nos embates dos amores mais intensos. Sempre deixar crescer a firmeza de superar cicatrizes e sorrir às reconstruções de si mesmo nas barras dos dias e das noites, soma de palavras e pensamentos. Vencer instintos que ocasionaram atitudes torpes; renovar o âmbito da presença no caráter; reviver das cinzas, entes sadios desde antes trastes largados aos muros antigos. Uma pura certeza na ânsia de um viver pleno de luz e felicidade.

Hora da Ave Maria - Por: Emerson Monteiro


No ano de 1958, morando com a família em Crato, meu pai seguia, ainda por certo tempo, vinculado aos negócios do sítio, em Lavras da Mangabeira, onde deixara animais e eito de cana, de que renovava o cultivo e participava das moagens, nas épocas próprias. Nesse sentido, ia lá quase todo mês, através da rodagem de terra que cruzava a Serra de São Pedro, cheia de trechos estreitos e arriscada, conhecida pela periculosidade e acidentes fatais que provocava, percurso que agora abriga a Rodovia Padre Cícero e reduz em dezenas de quilômetros a distância para Fortaleza.

Houve uma ocasião, nessas viagens, quando já próximo do distrito de São Francisco (hoje Quitaiús), o caminhão em que viajava, de propriedade de Severino Medeiros, tombou em trecho de curvas fechadas e piçarrentas. Dentre as vítimas mais graves se achava meu pai.

Machucara uma das pernas à altura do tornozelo, fraturando ossos em três lugares e sofrendo profunda contusão, o que lhe custou séria perda de sangue e demorou um tanto para cicatrizar. Veio trazido ao Hospital São Francisco, em Crato, onde permaneceria pelo período de um mês, ou pouco mais.

Durante esse turno, não poucas vezes lhe visitei e permaneci junto dele. Era eu portador constante das encomendas entre nossa casa e o hospital.

Nunca antes havia estado naquela construção de tantos corredores, salas, lugares sombrios, silenciosos, ruídos típicos; de pessoas diferentes, agitação incessante. Andava onde podia. Menino aceso, observava as movimentações e acompanhava os acontecimentos diários.

Relembro de enfermeiras, médicos, amigos de meu pai que lhe visitavam; das áreas internas e solitárias do casarão escurecido; as rampas; os portões vetustos quase nunca abertos; e da calma da capela, que tocava o íntimo da criança de nove anos com melancolia intensa, sobretudo aos finais das tardes, quando deixava ouvir os acordes da Ave Maria, de Schubert. Misto de saudade e distanciamento fervilhava meu ser; algo de uma solene paz que envolvia o ar no véu luminoso da penumbra e, aos poucos, vinha decrescendo os restos das tardes, modificando, nas notas suaves da música, a noite e seus aspectos quase adormecidos, afastando de vez, com mãos veludosas, os clarões retardatários do outro dia.

Essas marcas especiais daqueles instantes passados costumam, depois, preencher minha memória, quando ouço o canto da Ave Maria, às 18h, nas emissoras de rádio, que tocam o disco nas suas programações, avivando em mim emoções que, nessa quadra, tomaram conta de nossa família, permitindo, no entanto, que tudo chegasse a bom termo, com o restabelecimento de meu pai, o ponto forte na condução de todos nós.

...

Hoje estive na capela do Hospital durante um bom tempo e lembrei daqueles momentos que o tempo guardou consigo.