30 junho 2021

O tribunal da Consciência - Por: Emerson Monteiro


Tão certo quanto o nascer do sol de todo dia, haverá o critério do julgamento de nossas ações logo ali adiante, depois do susto do desaparecimento. Nem nada significa deseja fugir disso. Perante as infinitas perfeições da Natureza, esta exerce o papel de passar a limpo as nossas atitudes. Ledo engano se imaginar acima do Mal e do Bem e querer acreditar numa alternativa a essa exatidão dos fenômenos naturais.

O processo de crescimento das vidas, face ao sequenciar de tudo, envolve a nossa presença tais seres detentores de imortalidade, porém ainda no exercício da autodescoberta, o que acontece no transcorrer de muitas vidas. E sujeitos às normas das nossas origens de que pouco, ou quase nada, agora sabemos com a clareza suficiente. Alguns até desconhecem que seja assim, porém de nada representa a gente imaginar diferente, porquanto a realidade persiste independente do que, na nossa pequenez, consideremos. Então, dentro desse mecanismo exato da evolução dos Espíritos, cá vamos nós, senhores, lá um dia, da herança maior da Consciência. E nisto agora seguimos aprimorando, passo-ante-passo, o mecanismo da nossa alma à busca da Perfeição, que a isso aqui estamos vivendo.

Difícil, pois, estabelecer um jeito de acalmar as consciências em xeque face aos atos praticados no decorrer das existências. Mais que nunca, somos nós à frente de nós mesmos, longe dos meios que possam escamotear a Verdade absoluta que tudo impera. Portanto, quanto mais cedo houver senso de compreender a inevitabilidade da Lei, haveremos de encontrar através de Si mesmo a humana salvação no repouso de uma consciência limpa, o maior patrimônio que o ser humano pode possuir neste mundo.

27 junho 2021

À frente é que batem as malas - Por: Emerson Monteiro


Nem de longe adiantaria isso de querer que tudo seja qual se pretende, quando mudam os acontecimentos a cada instante. Houvesse o mínimo senso nas criaturas e o mundo bem seria outro até então nunca visto. Persistir, pois, no erro de imaginar que somos apenas sujeitos de uma história que jamais aconteceu equivale a esse desejo enorme das falácias ilusórias. Portanto, ajamos quais instrumentos, invés de meros joguetes de costumes arcaicos. Façamos do presente a sementeira do futuro. Sejamos persistentes, porém nos acertos. Busquemos, nas nossas entranhas, o dever soberano de construir nova consciência a partir das manias antigas de depender tão só da linguagem comum dos que acreditam no que vem determinado nos rótulos vencidos de pacotes largados fora. Vencer o ego, este o senhor de famigerados exemplos das sucessivas perdas. E dominar a sombra do Eu, conquanto não seja esta a pura verdade. Vale unicamente de modelo do que não deveria ser. Tratemos de nós mesmos tais instrumentos de renovação da face da Terra.

Numa primeira fase, vem sendo assim, da necessidade absoluta de todos reviver o processo de transformação que a isto indica a Natureza por meio do sistema que já trazemos conosco desde as primeiras horas da Criação. Fieis detentores de todos os segredos do Universo, aqui tangemos os rebanhos das pessoas que somos e renasceremos nas mãos dessa percepção. Tratemos logo, por isso, de renovar os dias que nos esperam e construamos da esperança o fator de sobrevivência da sociedade humana, vez sermos esses que vieram a tanto determinados. Aquilo que chamamos liberdade nada mais significa do que o direito de fazer escolhas conscientes no ritmo em que definiremos o futuro através das nossas próprias ações.

Em códigos invisíveis, conduzimos nos nossos braços o poder maior de autores universais da verdadeira História que todos aguarda logo ali adiante, sentido único de tudo quanto existiu e existirá sempre.

25 junho 2021

O que cada um pensa - Por: Emerson Monteiro


Por vezes avalio existir um mundo diferente em toda pessoa. As percepções delas podem até se aproximar, no entanto serão sempre diferentes do texto original. No mínimo que seja, haverá soberbas diferenças. Isto em relação a tudo, desde aspectos de lugares, às cores, aos sons, aos momentos. Vemo-nos por trás desse muro da Realidade real. Do lado de lá, o jeito que ocorrer no tempo e no espaço, donde, em volta, cresce uma primeira parede. Do lado de cá, são as pessoas, o jeito que a gente interpreta, também por trás de outra parede. Daí as tantas naturezas vistas dos mesmos acontecimentos. Com isso, persistem as interpretações das criaturas humanas em relação a mundos que  existem, e que deles os fazemos à nossa imagem e semelhança, bem dizer em tudo irreal em relação à matriz original.

Desde sempre que vem sendo assim, de as pessoas pelejarem à busca de um termo médio desse jeito de ver o mundo e vencer essa distância imensa dos modos que a gente consegue enxergar. Portanto, as infinitas versões dos mesmos acontecimentos, dos mesmos fenômenos, das histórias e caligrafias, seriam meras recriações particulares, longe do modelo captado. Conquanto a realidade ofereça sobejamente esse fluir das ocorrências, no entanto velejamos neste mar das individualidades, constantes senhores de reinos imaginários ao sabor dos ventos da hora e da percepção. A consequência disto são atitudes particulares dos atores dessa pretensa verdade, um a um dispostos trazer em si o senso do absoluto, farsantes raramente bem sucedidos, sujeitos ao preço dos seus praticados.

Essa forma antiga e constante dos gestos humanos sujeita ao confronto do definitivo, diante da perfeição e do equilíbrio do Universo, numa linguagem matemática de tudo quanto há durante todo tempo, apesar das versões só individuais, o que pode levá-los às raias inevitáveis dos tribunais da Eternidade.

As memórias de Dr. Nildomar Soares – por José Luís Lira (*)

   Não é a primeira e não vai ser a última que repetirei Thomas Carlyle (1795/1881), escritor, historiador, ensaísta e professor escocês, que afirmava “A História é a essência de inúmeras biografias”. É o que sinto ao terminar numa manhã de domingo, de um fôlego só, a leitura do livro “Retalhos de Memórias”, do imortal Nildomar da Silveira Soares.

    Além do Direito, Dr. Nildomar chegou ao ápice da carreira, empossado desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, e da Literatura, entre ele e eu há uma familiaridade. Seu pai, Domingos Cordeiro Soares, era primo de um dos santos de minha devoção, canonizado em meu coração, Mons. Antonino Cordeiro Soares. Foi em Guaraciaba do Norte, há alguns anos, que conheci o Dr. Nildomar (que guarda traços do santo Monsenhor), num hotel-fazenda pertinho do sítio Monte-Alegre.

    Mas, o livro. Julgo da maior importância uma biografia. É tanto que já escrevi várias. O amigo e poeta Léo Prudêncio quis uma vez escrever algo assim sobre mim, mas, acho que ainda não é o momento. Mas, se um dia for feita, a preferência é do Léo. E o Dr. Nildomar, como confessa em prefácio o Presidente da Academia Piauiense de Letras, jornalista Zózimo Tavares, foi provocado, eu diria inquirido, a escrever sua biografia, suas memórias.

    O autor explica que foi “aqui e ali, contando um pouco de meu passado mais remoto, o da primeira infância, da adolescência que representou parte de um período vivido ao longo de 83 anos”... “Quantas voltas eu dei nesta vida, quantos sonhos realizei, quantas tristezas cruzaram o meu caminho, assim sou um homem feliz”.

    E o livro se inicia com a rua da infância e uma foto da velha casa da infância e a placa de denominação da rua Félix Pachêco, ainda sem acento. É naquela “velha rua, antes denominada de São José” que tudo se inicia. Ali nasceu Nildomar, aluno do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, formado pela antiga Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro (1961), que se iniciou na vida profissional como datilógrafo, passou pelo Banco do Brasil, presidiu a Ordem dos Advogados do Brasil – Subseção do Piauí, imortalizou-se na Academia Piauiense de Letras e vestiu a toga de desembargador no Tribunal de Justiça do Estado do Piauí, toga que honrou até sua aposentadoria. 

     Nildomar é casado com a Sra. Maria Salete Lopes Soares há mais de 50 anos. Ao falar de seu casamento no livro, coloca foto antiga do Iracema Plaza Hotel, de Fortaleza, foi que passou seus primeiros momentos de casado. O edifício, apelidado de Bolo de Noiva, na praia de Iracema, em Fortaleza, hoje está em abando. É de carta que ele leu para dona Salete nas suas bodas de ouro que encontro uma frase muito interessante: “As recordações são os únicos espelhos em que os velhos se miram satisfeitos”, mas, não só os mais vividos, os novos também têm suas recordações que amadurecidas poderão se tornar um memorial, como o faz o autor.

    Nildomar Soares percorre não somente suas lembranças, mas, a própria história da sua amada Academia Piauiense, do Tribunal de Justiça e da Capital do Piauí, Teresina, com seus prédios, suas praças (num dos causos lembra o “Habeas Pinho” de R. Cunha Lima), ruas, alguns de seus governos e tantas outras informações que merecem ser lidas!
    Parabéns, Dr. Nildomar!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.
 



23 junho 2021

Palavras otimistas III - Por: Emerson Monteiro


Nem eu sei por que, porém quase inútil isto seria falar de dizer e pensar quão só nas coisas boas que acontecem a todo instante, enquanto milhões param somente nas acepções negativas da realidade. Isto é, criam realidade irreal todo momento. Insistem dominar o mundo com aquilo que vaga solto dentro das suas estantes da alma. Preferem o mau humor, mesmo diante de situações que indicam o sentido contrário nas falas do destino. Precisam mais que nunca de alimentar as cassandras que lhes adormecem por meio, nesse costume arrevesado, de querer o pior invés do melhor. Trabalham dia e noite à busca de justificar suas posições por causa disso, de não enxergar o direito de tantos quererem mundo positivo, cheio de oportunidade a cada segundo. Nisso, pois, criam pântanos e se alimentam dos restos de folhas secas e apodrecidas que ali caem depois de viajar séculos nas asas do vento. Transferem ao tempo a justificativa de abandonar o objetivo dos silêncios e oferecer sonhos vivos aos mortais que disso fazem a razão principal de permanecer mais alguns dias nas sombras da noite. Falam, alarmam, desfazem o gosto de viver dos demais, a pretexto de explorar a realidade por meio de avaliações desencontradas. Fogem de si quais bichos inúteis, sobejos que assim querem ser de negar as bênçãos da Natureza. Contudo, nem um pouco realizam de vencer a força descomunal dos acontecimentos, e padecem desesperadamente debaixo das próprias patas feridas, no decorrer das histórias boas que deixaram para trás, dos sinais alvissareiros dos amanhãs festivos que sabiam existir e não apostaram neles. Conquanto aceitem padecer desses dramas que eles criam, dormem, no entanto, sob os lençóis das desumanas soluções, ainda que prejudiciais ao andamento dos astros. Amargam do fel que produzem. Entra dia e sai dia, durante as atitudes dessas criaturas desconectadas da consciência do Universo, pesarosos filhos de outros ninhos abandonados e ignorando que serão felizes hora dessas. Houvesse meios outros de chegar aos céus e eles também deixariam de lado essa raríssima oportunidade que ora transportam às mãos em seus ocultos tesouros.

21 junho 2021

O bem-estar da Civilização - Por: Emerson Monteiro


Por vezes, a gente quer o progresso nessa história, sem fazer nada que signifique ao menos atitude na mesma direção. Quer, e não quer, a um só tempo. Espera cair do céu de modo pronto. Assim escondido debaixo das folhas secas do egoísmo, observando a hora de entrar em cena e colher os frutos do que nem plantar plantou. Desumanas posições de humanos em crescimento.

Tantos erros que vagueiam soltos pelas nuances das ruas em que pessoas olham umas as outras numa distância regulamentar; se veem quais objetos jogados nas calçadas; fugitivos à busca de orientação. Somos nós esses atores circunstanciais das velhas cenas que os dias ressecaram e trituram na máquina incessante do fluir das horas em movimento. Saber, sabemos que não sabemos aonde ir. Mamulengos de nós próprios, cavamos buracos na cordilheira do desconhecido e tocamos adiante, criadores de motivos que desfazem o sólido no vento.

Mas, aguardar boa sorte, que também somos desses, enquanto a jornada prossegue nas vidas afora. Há uma missão interna que a realizar. Aprimorar a consciência. Descobrir a que viemos.

...

Enquanto que, lá fora, continuam gritos das torcidas em favor de não sei o quê, de não sei onde. Os resultados servem de justificativa de ninguém ficar parado pelos cantos escuros das noites que passam desgrenhadas. Tem que gostar da vida e viver, esse o compromisso de nós conosco. Gerar resultados de andar nesse chão. Conduzir o barco ao porto das existências. Sofejar belas canções, amar, sorrir, sonhar, desfrutar dos laços nos prazeres deste lugar.

Bem isso o tal de bem-estar da Civilização. Controlar os pensamentos e usufruir as benesses dos sentimentos mágicos aonde chegar até aqui, no tanger da carruagem de tantos dramas vividos e guardados na memória de dores sofridas e acarretadas. Que exista, pois, melhores cenários a tudo isto que ora vivemos com tanto gosto.

19 junho 2021

O império da consciência - Por: Emerson Monteiro


Desde sempre vem sendo assim, de presenciar alguém que vive ali comigo no mesmo cômodo, porém nem sempre que nos vemos e quase não nos falamos. Sobretudo nas horas quando surgem as oportunidades de ligar som alto, uma das mais malfadadas ideias até então inventadas pelos humanos, que nos desentendemos de causar espanto. Tal que estivéssemos morando juntos no ambiente comum, no entanto por vezes dotados de opiniões adversas, quais fossemos ocupantes acidentais desse lugar. Imaginemos, por exemplo, sejamos dois estudantes do interior que vivam e trabalhem na capital, querendo com isso frequentar curso acadêmico e evoluir na sociedade. Ainda que desse modo, contudo pessoas bem particulares, cada um na sua, dotados de costumes próprios, enquanto que um gosta de futebol, o outro, de música clássica. Sei que se gostam, ou não, porém que terão de morar juntos durante o tempo necessário ao cumprimento do dever. Um, ressona que é uma beleza, de assustar; já o outro, respira silencioso e dorme sem qualquer barulho, isso em camas próximas, proporcionais ao espaço do pequeno quarto da pensão, que só dispõe de um guarda-roupa, meia porta de um e a outra do outro. Existe, de um deles, equipamento sonoro; ambos têm lá seus discos. As preferências, desiguais até dizer basta. Mas vivem, chegam, trocam de roupa, dão boa tarde; um, fuma; o outro, aguenta. Um quer dormir cedo; o outro fica de luz acesa até tarde, porque gosta de ler. Um, extrovertido. O outro, saudoso, macambúzio. Dias. Meses. Anos. Espécie de filosofia de conformação predomina o tempo todo entre eles. De extremas ocasiões, ambos silenciam desconfiados. Quer-se harmonia, coexistência, de jeito que tudo chegue a bom termo nem sei quando, todavia menos horas, mais horas, persiste uma espécie de paciência nascida nem sei de onde, que acalma as duas almas naquele território neutro, cheio de instrumentos particulares de humor, de sentimentos, pensamentos, gostos, regularmente contrários. Eles dois vivem de oscilar, numa contradição infinita dos pratos de uma balança imaginária; hora, um; hora, o outro; de tristeza, alegria; desengano, esperança; desistência, fé; angústia, felicidade; fastio, desejo; ódio, amor; egoísmo, paz... Há que ser até o senso do absoluto dominar aqueles dois naquela consciência, na descoberta do equilíbrio que virá um dia desses.

 

[Imagem: CC0 Public Domain/Pixabay]

Pula a fogueira– por José Luís Lira (*)

 

   Próxima semana teremos a fogueira de São João. Domingo passado foi Santo Antônio, amado em todo o Brasil. Até concedi entrevista à BBC sobre o Santo. Os tempos são estranhos. Em torno das fogueiras (fazemos as três), costumamos reunir além da família, amigos e os amigos destes, lá no Monte Alegre. Este ano foi diferente. Alguns membros da família e a fogueira parecia solitária, ela que tantas vezes nos aquece e reaproxima. Mas, isso passará. Sentindo o calor da fogueira, fiz prece a Santo Antônio pelo fim da pandemia. Que ele, com seus méritos diante de Deus-Altíssimo, rogue por nós!

   E chegaremos à fogueira de São João. “São João disse, São Pedro confirmou, que no dia dele, nós vamos ser compadres, que Jesus Cristo mandou”. Pulando pra lá e pra cá sob uma tora de lenha acesa, selávamos a passagem de fogo aos gritos de viva aos santos juninos e aos passantes de fogo. Que saudade!
            Escrevo este texto numa sala de escritório, mas, se fechar os olhos, volto à infância e lembrar-me-ei da alegria que tínhamos de ir às fogueiras das casas vizinhas, no escuro-breu antes da luz elétrica que a tudo iluminou, lá no Sítio Correios, em Guaraciaba do Norte. Também me recordo das guloseimas, dos aluás, para os adultos, dos bolos para nós, então crianças, das bandeirolas, fogos, traques, músicas, animações, enfim.... Como esquecer dos padrinhos e madrinhas, compadres e comadres, primos e até irmãos de fogueira. Era o tempo bom da inocência.

    As nossas festas juninas vêm de Portugal e lá são em celebração a três santos, como nós aqui temos, com peculiaridades próprias, Santo Antônio, São João e São Pedro. Santo Antônio e São Pedro, celebrados nos dias de suas chegadas ao céu; já São João é festejado com fogueira, na véspera de seu nascimento. Diz a tradição que os pais do santo Batista, moravam no topo de uma montanha e que São Zacarias acendeu uma fogueira quando se aproximou o nascimento do menino para anunciar aos parentes que moravam em baixo a chegada do primo e precursor de Jesus.

   É dia de fogueira. A segunda deste período. Mantenhamos viva a chama da tradição. Contemos para os nossos filhos, netos, sobrinhos, como eram as festas de junho, por isso juninas; se possível, façamos fogueiras, nos animemos, cantemos, mas, não aglomeremos. Necessitamos desse distanciamento, da máscara e do álcool gel. Não recomendo foguetes por respeito aos animais que sofrem ao estampido deles, mas, uma bombinha, estalinho, pode. O bolo de milho e o pé de moleque não podem faltar!

    Pedindo licença à cidade, vou voltar pr’o sítio, de onde parece que nunca saí, e, ilusionando, vou me sentir criança, ouvir Luiz Gonzaga e outros clássicos das festas juninas. E não estarei só. Terei meus pais, quem sabe meus irmãos, as sobrinhas Isadora e Anne Eloísa que fazem o momento ficar encantado e, comigo estarão também tantas lembranças. Algumas tão recentes, outras tão distantes. Talvez até cantarolarei, se a voz não embargar: “Quando eu era pequenino,/ De pé no chão,/ Eu cortava papel fino,/ Pra fazer balão.../ E o balão ia subindo,/ Para o azul da imensidão.../ Hoje em dia o meu destino/ Não vive em paz/ O balão de papel fino/ Já não sobe mais.../ O balão da ilusão.../ Levou pedra e foi ao chão…”

    Viva São João e viva a nós, meus compadres!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.



18 junho 2021

Epopeia da Salvação - Por: Emerson Monteiro


De uma condição só transitória que ora vive, há que o ser humano se salvar. Desse transe daqui da realidade dessas aparências, que passam numa velocidade estúpida e somem no horizonte logo ali no outro lado, depois e sempre terá que encontrar a resposta do tanto dessas ânsias de sobreviver ao desaparecimento e reverter o quadro só transitório de vidas e vidas. Buscar a resposta e achar a luz de fora da caverna de si mesmo, e renascer das próprias cinzas. A isso que aqui viemos, pois, desvendar o mistério da natureza, habitantes que o somos no seio das criaturas; perenizar o frágil; sustentar os sonhos; e persistir no invisível bem longe, ainda que de rara probabilidade, no entanto testificado naqueles que vêm operando o painel das gerações pela comunhão da imortalidade que alimentam no que dizem e fazem.

Assim, interpretar o sentido das religiões, dos credos de luz na história das civilizações, durante as vidas dos santos e profetas, dos que resistem aos desejos ostensivos de ser feliz e perene, através da consciência. Salvar de quê, e porquê, e para quê? Do fim corrosivo de que não existirá jamais ao findar quando morre, das dores da saudade dos entes queridos que deixam aqui ou que vão embora, da destruição em massa das existências, trauma que impera na alma das criaturas humanas, susto guardado após o fim do filme de viver, tão bom. Permitir, com isso, com essa revelação de Salvação, realizar o sol da esperança na presença de todos em um mar de luz.

Os místicos falam disso na maior sem cerimônia, quais testemunhas em sua própria essência, de que ninguém perecerá, ainda que disso desconheça neste tempo de matéria. Bem dizer lugar comum de falarem isto.

Portanto, a experiência de todos nós indica a vontade do eterno, e resta-nos desvendar nuances dos destinos e chegar à Terra Prometida, reino de felicidade e paz, no coração do Infinito.

16 junho 2021

O abismo do futuro - Por: Emerson Monteiro

 

... visto que ninguém conhece o futuro. Quem lhe poderá dizer o que vai acontecer? Eclesiastes 8:7

 

Desde sempre que o desejo tem as criaturas de conhecer o futuro! Um saco de mistérios prevaza, então, lá das bandas de depois, frutos das interrogações grudadas às paredes do Infinito. Um rio corre silencioso, o Tempo, e nisto alimenta preocupações e sonhos nas folhas dos calendários, diante das quais rendemos a homenagem das aspirações inacabadas. Esse mesmo rio sacode, também, pelo coração e percorre de sangue as veias, enchendo de combustível fóssil a máquina do cérebro, conosco a fugir nos corredores dos dias, feitos atores em movimento. Ali bem perto, assistimos esse fluir das cenas, tais espectadores de nós mesmos, aos olhos da nossa consciência. Nós, autores das ausências que caem aos nossos pés dia após dia, na velocidade do vento.

- Que isto de ser assim? A quem perguntar? – Uns observam os outros e a si mesmos, nas dobras de mais profundas indagações aos céus.

Fossemos repisar o trilho do passado, por certo nos perderíamos nas dúvidas que ainda se repetem todo tempo adiante. O que aprendemos são as peças de um quebra-cabeças imortal que transportamos nas nossas malas que batem estradas afora.

Ninguém que se vanglorie da certeza no que tange os dias que virão, porquanto o mínimo de fagulha reverte de ilusões as vaidades e transforma em cinzas os maiores incêndios. Nem sei porque tantos perdem nesse jogo de reverter o presente nas carcaças no futuro. Atiram aos escombros melhores momentos e destroem esperanças num abrir e fechar de olhos, vítimas de si próprios, das humanas vaidades e humanos vícios.

Contudo há que vir à tona, ao dia aprazado, o senso de justiça que rege os fenômenos; longe de nós a força suficiente de escapar dos resultados que elaborarmos nos trilhos deste chão das almas.

15 junho 2021

Para você Refletir - Por Maria Otilia

                            Uma Reflexão sobre  Relacionamentos

"Depois de 30 anos assistindo Chaves, percebi que Dona Clotilde está aí há décadas nos ensinando a como não persistir em algo que a gente já sabe que não vai acontecer. Não importaram quantos bolos, frangos assados e águas de colônia foram entregues, não importaram os cuidados, a dedicação exclusiva, o sentimento oferecido e implorado, Dona Clotilde nunca deixou de ser coadjuvante na sua própria história de amor. A Bruxa do 71 é o retrato de nossas ligações não atendidas, de nossos convites ignorados, de nossas mensagens visualizadas e não respondidas. Somos nós esperando aqueles amores que a gente costura sozinhos rolando a noite na cama, deixando nosso sono sufocado junto a nossa paz de espírito no travesseiro. Quantos amores deixamos de viver enquanto insistimos em bater cheios de mimos na porta errada, sabendo que o impossível é que vai nos atender? Talvez ela pudesse ter se casado com o Sr. Barriga, roubado o professor Girafales, ou até aprendido a como é bom viver sozinha… morando em Acapulco. É muito arriscado o caminho que a gente segue na direção contrária do nosso destino. É muito doloroso insistir em estradas erradas, quando é o coração que caminha descalço no asfalto. Nem sempre persistir significa insistência, nem sempre amar significa confiar sempre que vai dar certo lá adiante. Desista do que é preciso. Recalcule o que não faz questão de entrar na sua rota. Jogue para o alto o que está querendo voar por ai, sozinho. Você não precisa do que te diz “não”, a gente nem sabe muito bem o que fazer com as coisas que não se encaixam. Ah, o amor não é uma coisa para viver controlando a porta, amor é liberdade de ir e vir, é tranquilidade de saber que o outro quer entrar e ficar. Não caia nessa de que tem que sofrer para ter, que tem que suar para conquistar. Ame alguém que você não tenha que puxar pelos braços. Ame alguém que esteja, que saiba se deixar ocupar, que você não precise matar um leão para conseguir um abraço. Não ame o que te cansa para ter, você precisará muito ainda do seu fôlego, vai por mim, não o desperdice no que já está fracassado. Pesquisando pela internet descobri que há apenas um episódio que exibe cenas de casamento entre a Bruxa do 71 e o seu amado. Mas, era um sonho. Na verdade, Dona Clotilde nunca se casou com seu Madrugada… só na sua ilusão. E a gente precisa de um amor que corresponda nossos planos, que responda o que plantamos. A gente precisa muito mais do que um sonho. A gente precisa viver um amor acordado.” Já Pararam para pensar que as vezes o Seu Madruga da gente nem é um Homem... Pode ser uma Situação... Uma Rotina... Um Hábito que insistimos mesmo sabendo que não tem futuro...." Se Liberte de Todos os Seus Madrugas da Sua Vida!! Autor desconhecido.....

A fome do ser - Por: Emerson Monteiro


Este desejo imenso de realizar o que nos fará livres, de obter o salvo conduto e chegar ao pomo da evolução, de querer e poder, no grau máximo da evolução, isto de justificar o quanto vivemos no decorrer dos milênios e salvar a condição de um tudo na consciência definitiva. O senso do eterno, por isso.

Afinal eis a razão do que existe e existirá, durante todo tempo, no descobrir a essência de si e reverter o quadro das incompatibilidades dos fenômenos da Natureza. Porquanto somos nós esses tais missionários da última revelação, a isso que fomos criados diante dos objetos. Essa fome inevitável de viver e encontrar o sentido da vida. Saber dos mistérios e descobrir seus reais motivos que nos farão criaturas privilegiadas, e superar a morte.

Bem isto, seres inteligentes que o somos, empreendemos a inesgotável possibilidade da Luz em nossos corações. Exercemos o papel principal do roteiro da humana condição. Assim, palmilhamos o solo das existências dotados de recursos a ser desenvolvidos através do conhecimento e do trabalho, pelos méritos das virtudes adquiridas. Em nosso haver, dispomos das oportunidades necessárias à conscientização do ser que o somos. Resta-nos tão só investir no aproveitamento dessa longa jornada que aqui desenvolvemos, sem, contudo, rejeitar a força do pensamento e a clareza dos sentimentos.

O que tanto procuravam nas extensões do Infinito, habita livremente em nós próprios, e a ânsia desse encontro domina as vertentes das gerações. Haveremos, mais dia, menos dia, de viver intensamente o encontro conosco mesmos, pois a isto estamos programados, à disposição das vicissitudes do Universo. Daí o desejo insistente da paz em nossos dias, perante as civilizações. São sintomas da perfeição a que fomos dotados no mais íntimo de Si. E a angústia de existir bem traduz essa vontade constante de chegar à Felicidade, quando, então, uniremos nosso ser ao Ser da plenitude, afinal.

(Ilustração: Fome, de Estela Baptista Costa).

14 junho 2021

Doutor Gesteira - Por: Emerson Monteiro


Desde quando cheguei em Crato, na década de 50, que ouço falar nesse médico de reconhecida capacidade profissional, além de humanitário e consciencioso. Dr. Antônio José Gesteira é uma legenda das nossas tradições. Notabilizou-se pelas suas posições políticas nos anos da ditadura getulista do Estado Novo, sendo, inclusive, levado a comparecer ao QG da 10ª. Região, em Fortaleza, no sentido de esclarecer pronunciamentos e manifestações de que fora protagonista, sendo ele também oficial da reserva das Forças Armadas.

Gesteira nasceu em Recife, Pernambuco, no dia 09 de agosto de 1908, filho de Aline Alcoforado Gesteira e Antônio Antunes Gesteira. Graduou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1931, tendo exercido a profissão no Rio; em Teresina, Piauí; Fortaleza e Crato, Ceará. Nesta cidade, trabalhou no Hospital São Francisco e fundou a Casa de Saúde Nossa Senhora da Conceição, juntamente com os médicos Dalmir Peixoto e Valdemar Penna, situada no cruzamento da Rua Santos Dumont com a Cel. Luiz Teixeira, em edifício de bela arquitetura ainda hoje preservada.

Buscou a carreira política em Crato, havendo apresentado candidatura à Câmara Municipal, permanecendo apenas como suplente de Vereador.

Exímio cirurgião, se destacou pelo exercício fiel da Medicina, com louváveis serviços prestados em todo o interior cearense, aonde vinham pacientes dos estados circunvizinhos, o que lhe daria fama de médico excepcional e bem sucedido no ofício que abraçara.

Ao lado de seus atributos de eficiente médico, Dr. Gesteira desfrutava de amplos círculos de amizade, nisto somando uma boemia incorrigível, o que o prenderia ao vício do álcool, até quando, em 27 de dezembro de 1958, viria a falecer na cidade do Crato, causando comoção de largas proporções em toda a sociedade que tanto servira no decorrer da existência.

Dada seu valor e a fama de curador, mesmo depois de morto existem narrativas de verdadeiros milagres por ele praticados. Dada esta razão, o seu mausoléu, no Cemitério Nossa Senhora da Piedade, é dos mais visitados.

Sobre a "motociata" ocorrida em São Paulo, no último sábado, 12-06-2021

 

Inicio da "motociata" em direção à cidade Jundiaí, distante 50 Km de São Paulo

Vendo a maior concentração de motos já feita no mundo, lembrei-me de trecho de um discurso pronunciado em 1968, pelo Prof. Plínio Corrêa de Oliveira, no encerramento da campanha promovida em todo o Brasil, contra a infiltração comunista na Igreja Católica Apostólica Romana, que republico abaixo:

“Há no Evangelho uma promessa de bem-aventurança que diz o seguinte: “Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra”. Bem-aventurados aqueles que não amam a rixa nem a briga; bem-aventurados aqueles que não amam a violência, porque deles será a Terra. Deles será a Terra porque eles atrairão a si o amor dos homens que realmente amam o bem; deles será a Terra porque eles saberão opor-se - com uma força invencível - àqueles que os queiram jugular por uma violência ilegítima.

“Ou a força cristã do verdadeiro católico que tem a mansidão de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus. Ou do verdadeiro católico, que tem a força indomável de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Leão de Judá! No momento em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi preso, alguém lhe perguntou: “És tu Jesus de Nazaré?” E Ele respondeu: “Ego sum”. E todos - tomados de terror - caíram com a face na terra! Esta é a majestade, esta é a força, esta é a dignidade daqueles que têm a mansidão cristã!

“Nosso país é um país cordato, um país que ama a mansidão, um país cuja história tem fugido às lutas. Mas se algum dia alguém de nós se aproximar e disser: “És ainda tu o Brasil cristão? Não aceitas a pressão que se quer fazer contra ti?” Eu tenho a certeza que esta nação responderá com uma força que ainda ninguém lhe conhece, mas que está nascendo nas tormentas do momento atual. Responderá: “Ego sum!” E todos os agitadores serão obrigados a se prostrar. E os agitadores cairão por terra, porque conhecerão isto que existe entre outras coisas de autenticamente novo no Brasil novo. É a decisão de progredir fiel a si mesmo e fiel à tradição cristã; fiel à família, fiel à propriedade e de lutar com uma força que impressionará o mundo contra quem quer que imagine que sua mansidão é moleza e que contra ele pressões possam trazer resultado.

(Publicado originalmente no Facebook do Dr. José Carlos Sepúlveda, em 03/04/2020)

À frente o Presidente da República, Jair Bolsonaro

12 junho 2021

Festa de Santo Antônio – por José Luís Lira (*)

 

          Hoje é dia dos namorados e quando se fala no tema, depois do romantismo e dos tantos poemas belos que podemos lembrar, uma imagem vem à nossa mente: Santo Antônio. Na música, Lamartine Babo tem uma marchinha chamada “Isso é lá com Santo Antônio”. Nela vemos uma pessoa pedindo ajuda para casar aos dois outros santos juninos: São João e São Pedro, ao que ambos respondem: “Matrimônio! Matrimônio! Isto é lá com Santo Antônio!”. Também Luiz Gonzaga questiona por que Santo Antônio casa todo mundo e nunca se casou e por aí vai. Sobre a atribuição de casamenteiro, consta que Santo Antônio, em vida, buscava promover o amor verdadeiro, convencendo os pais a não fazerem casamentos arranjados, comuns àquela época. É o que nos ensina seu mais recente biógrafo, Edison Veiga, no livro “Santo Antônio: A história do intelectual português que se chamava Fernando, quase morreu na África, pregou por toda a Itália, ganhou fama de casamenteiro e se tornou o santo mais querido do Brasil”, Editora Planeta (2021).

     Em boa parte do mundo, inclusive na Itália, onde Santo Antônio desenvolveu sua missão franciscana, e em Portugal, onde nasceu e se tornou padre agostiniano, o dia dos namorados é celebrado em 14 de fevereiro, na festa de São Valentim, patrono dos namorados. Aqui no Brasil, é na véspera da festa Santo Antônio. No Nordeste temos muita animação em tempos normais. Celebrações, fogueiras, quadrilhas dançantes etc. Em Barbalha, Ceará, onde acontece uma das mais tradicionais comemorações ao Santo, festa com registro patrimonial nacional e estadual e nesta instância tenho a honra de ter relatado o processo no Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural do Ceará – COEPA.

      Santo Antônio, a quem São Francisco chamara de “Bispo”, junto com o Santo de Assis é um dos santos mais queridos da cristandade. O biógrafo Edison Veiga registra o encontro do Santo com o Papa Gregório IX que quis tornar Cardeal aquele já considerado “Arca do Testamento”. Frei Antônio “recusou a honra, preferindo à púrpura o pardo burel franciscano que mais condizia com seu espírito humilde”. “Ele era a prova de que era possível mesclar humildade com conhecimento, simplicidade com doutrina, coração com razão”.

        Tenho por Santo Antônio grande afeição e até uma imagem que posso dizer única, pois, foi a primeira com a reconstrução facial do Santo, usando hábito marrom e numa peça de cerâmica-gesso. Foi de sua reconstrução facial que consegui, com o amigo-irmão Cícero Moraes, réplica em tamanho médio da cabeça reconstruída do Santo, impressa em 3D (2014). Ano seguinte, com o saudoso amigo Samyr Figueiredo, encontrei o artista Fabrício Costa. No dia de Santo Antônio de 2019, ele me disse que estava concluindo o trabalho. No Corpus Christi, há dois anos, fui à sua casa, em Fortaleza. Vi a imagem com o rosto fiel de Santo Antônio na sua tradicional iconografia com o Menino Jesus. Hoje essa imagem se encontra em minha casa, venerada com carinho.

       Na festa do Santo, vale lembrar, quase como prece, trecho que homilia citada por Veiga: “Vivemos aos prantos à noite, mas acordamos de manhã na alegria”. Nestes tempos de pandemia, a palavra do Santo se aplica tão bem. Que ele rogue a Deus para que felizes acordemos na manhã em que a pandemia tenha acabado. Amém!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista c(*) José Luís Lira om mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


10 junho 2021

O espelho do Tempo - Por: Emerson Monteiro


Nós é que somos isto, o espelho do Tempo, lá onde ele se reflete sem parar. Quando dizemos o tempo passa, há nisso um contrassenso, porquanto quem passa, na verdade, somos nós. Queremos admitir que sejamos o centro da calma, quando o centro da calma é privilégio do Tempo. Tal qual um rio em constante movimento, seja ele as margens e nós o fluxo contínuo das águas deslizando ao mar da Eternidade.

Então Eternidade e Tempo são meras partes de um só Universo, e nós seus frutos em maturação. Quando, porém, galgarmos a compreensão definitiva do mistério dessa condição, haveremos de nos integrar de vez com o Absoluto, e estabelecer as bases da real compreensão de tudo quanto existe. Só assim deixaremos de ser o espelho do Tempo, lá onde ele se reflete sem parar. É tanto que as idades estão em cada um dos viventes, enquanto o Tempo será sempre a mesma criança travessa que projeta a luz em todo ser que nele se dissolve na medida do seu transcorrer.

Dentro, por isso, dessa percepção, assistimos sem parar as mudanças que nos farão, um dia, seres cientes da existência em caráter permanente, e daí viver eternamente a nossa imortalidade, longe das ausências, da saudade e do sofrimento. Este o plano da perenidade que nos assiste todo momento. Resta-nos, contudo, exercitar os refolhos da consciência até galgar os páramos celestes, depois de tantas vidas reencarnadas aqui no Chão.

Diante do teatro das horas, encenamos as peças do Destino e aprimoramos valores de merecimento à medida que desenvolvemos os papeis a desempenhar os tantos dias. O Tempo, essa testemunha constante, anota e julga nossas ações, fornecendo aos fenômenos da vida os instrumentos da justiça universal. Ninguém foge ao seu destino, diz a sabedoria popular. Apenas o Tempo, senhor e juiz, conduzirá nossos passos ao pouso da mais plena Felicidade, morada dos seres já evoluídos.

(Ilustração: A persistência da memória, de Salvador Dalí).

09 junho 2021

As palavras e o pensamento - Por: Emerson Monteiro


Bem que esse tema daria de ser um conto falando em florestas, lagos, calmas noites e do movimento das folhas ao capricho do vento, sons de mistério e visões, nas réstias acesas da lua ao brilho intenso dos vegetais, pois palavras se prestam a isso com estranha facilidade. Contudo traz consigo outros segredos, quais sejam de avaliar a distância daquilo que a gente diz e o que as palavras na verdade desejam contar.

Quais seres caprichosos, elas insistem tocar as mesmas teclas dos séculos anteriores de quando ainda cresciam livres. As palavras habitavam soltas, absurdas, nas hostes do pensamento nos véus que somem logo ali adiante pelos vagões da Eternidade.

É bem aquilo de que e de onde surgiam, quando nelas germinam os grãos na crosta do tempo, nas luzes que buscam desesperadamente dominar as pessoas sem nem saber direito com que finalidade, tais quais máquinas que resolvem controlar seus criadores e correm vadias à frente dos destinos, a querer, por fina força, definir o trilho das ideias na cabeça dos viventes.

Invadissem cômodos íntimos e transformassem desejos em instintos e paixões em sofreguidão, isso de um momento a outro, só então assim dariam margem suficiente às infinitas considerações da consciência a respeito dos significados.

Sempre o pensamento e as palavras, que andam juntos até o infinito, naquelas ocasiões de achar o sentido forte que sacode a alma das pessoas. Nesse afim, corações sacolejam nas bases e outros motivos maiores navegam o rio incessante das horas, tudo proveniente da força do pensamento aliado ao sentimento que, fervilhante, penetra a caixa das palavras, logo deitadas fora num vômito de memória.

Isto de avaliar, pois, o espírito da solidão humana e encontrar senso nesse tipo de jogo entre as palavras e a função do pensamento deixa espaço a novos conceitos nunca passíveis de respostas certas. São eles quase que entes invisíveis, figuras animadas do sonho de construir, por si só, o futuro real das próprias ações das criaturas que nós somos.

07 junho 2021

Revista Cariri das Antigas - Por: Emerson Monteiro


Em mãos a primeira edição da Revista Cariri das Antigas, órgão que divulga projeto do mesmo nome, sob os auspícios do pesquisador Roberto Junior, da nova safra dos historiógrafos de nossa região. A publicação tem proposta ambiciosa de resgatar momentos importantes da história do Cariri através dos meios gráficos da atualidade, recolhendo detalhes e documentos de relevância na preservação de uma cultura rica por demais, que, felizmente, dispõe dos estudiosos exatos nos seus registros e providências.

A publicação enfoca, nesse número de abril de 2021, os seguintes temas: O palacete de Isaias Arruda, o coronel meteórico; Relógios do Cariri (O relógio da coluna da Praça Padre Cícero, a máquina suprema do Cariri); Dr. Gesteira, o médico encantado; e Percival Prince, o primeiro avião comercial do Cariri; em reportagens recolhidas com esmero, ocasionando resultados de boa apresentação, em textos bem produzidos e imagens de primeira qualidade.

Assim, o editor Roberto Junior faz valer sua intenção de trazer à baila tais temas icônicos, numa iniciativa exemplar às novas gerações dos caririenses, de comum votados aos conteúdos históricos, etnográficos e antropológicos desta civilização do interior nordestino donde procedem valores intensos da nacionalidade, porquanto marcou sua presença nalgumas das mais relevantes ocasiões da História. Nisto, divulga pesquisa de nomes marcantes do acervo tradicional, quais o Cel. Isaías Arruda, o médico Antônio José Gesteira e o mestre relojoeiro Pelúsio Correia de Macedo, personalidades inesquecíveis da história recente da Região.

Numa confecção gráfica de primeiro nível, a Revista Cariri das Antigas, confeccionada pela BSG Bureau de Serviços Gráficos, de Juazeiro do Norte, Ceará, é uma edição da Ladrinhos Editora, também vinculada ao Cariri das Antigas, com 18 páginas, tamanho de um tabóide médio, própria a ser lida e divulgada por todos que apreciam os frutos saborosos dos nossos intelectuais.

06 junho 2021

Amar é o caminho - Por: Emerson Monteiro


Quando já se falou tanto em revolução, a raça humana chega agora no clímax de compreender isso, que amar é o caminho. Depois de quantos falarem e darem vida ao sentimento maior qual razão de tudo quanto há, eis que uma claridade imensa transforma o senso desta humanidade e traz ao nível de exprimir todo o mistério das existências num simples gesto interior de vivenciar o Amor. Daí, vemos o quanto disseram, em todos os povos, desta verdade suprema que envolve de luz as vivências e acalma a busca incessante do sentido, nas muitas civilizações, num viver com suavidade e virtude, a paz em forma de amplidão coletiva dos valores. Após esgotar as mil faces do poliedro das experiências no decorrer dos séculos, lá um dia multidão aceita abrir o coração e amar com sabedoria, exercitar as fibras da alma e propiciar aos demais aquilo que transforma em fraternidade os esforços do trabalho coletivo, lembrando sermos irmãos e unir nossas forças no crescimento da grande população da Terra. Algo que nasce de dentro das criaturas à medida que ampliam os conceitos morais na forma das práticas justas e solidárias. Amar, palavra que resume as filosofias e religiões, e denota consciência de uma razão esclarecida aos fenômenos do Tempo, no âmbito das gerações, fruto da percepção dos humanos. Nesta hora de demonstrar a que viemos durante milênios a fim, no instante dessa percepção, a própria Natureza revela a si o que sempre demonstrou e poucos levaram em conta. Em ocasião mais solene de todas, nenhuma dúvida persiste da importância de somar forças e construir o mundo ideal de que falaram a beleza, a música e os sonhos, hora plena de esperança e felicidade, ao sabor desta nova chance, autora da revelação no íntimo dos seres.  

05 junho 2021

Os degraus do Paraíso - Por: Emerson Monteiro


Nesta selva de aço e contrição, seremos buscadores da realização de Deus em nós. Todos já ouvimos falar nisto e poucos, na verdade, escutam. Passo-ante-passo, deslizamos pelas entranhas de nós mesmos feitos aprendizes da sorte, na intenção de, lá um dia, ver de perto e achar a paz em que tantos falam nos variados quadrantes. Pisamos delicadamente no teto das crenças e sonhamos com um sentido absoluto de tudo quanto há, sem, no entanto, galgarmos com toda intensidade o desiderato de nos manter fieis ao Criador, nosso Pai e Senhor do Universo. Sois Deuses e não o sabeis, afirma Jesus.

No entanto carecemos da real compreensão e prática dos conceitos de tal possibilidade, face às contradições sob as quais desenvolvemos a nossa busca, mornos que, por vezes, somos em face da indefinição de nossas atitudes. Há que concretizar, por isso, valores da certeza que nos farão livres da materialidade, do apego ao senso do Chão aonde viemos desenvolver o crescimento na direção às estrelas. Eis o de que mais carecemos, pois, do desapego aos propósitos só imediatos, e encetarmos a jornada definitiva rumo à Salvação.

São estes os degraus que nos farão libertos dos laços da materialidade, significando, assim, a conquista de um nível superior de existência, desde sempre ansiado pelos que reconhecem a relatividade deste mundo. Propósito por demais alimentado desde sempre; sustentamos, porém, vinculações divergentes dessa vontade, conquanto agimos, de comum, em desacordo a quais princípios honestos e juntamos com uma das mãos para espalhar com as duas.

Outrossim, persistimos na direção da sonhada e definitiva felicidade, glória maior de tudo que existe na vida humana. E rezamos, meditamos, estudamos, criamos alternativas de praticar este sonho, todavia ainda presos aos liames da carne. Enquanto isso, os meios de revelar a si os mistérios dessa nova existência persistem ao nosso dispor durante todo tempo e em todas as vidas.

04 junho 2021

O mistério do espelho - Por: Emerson Monteiro


Quando eles, os colonizadores, chegaram aqui, entre as quinquilharias que trouxeram interpuseram os espelhos, isto a quem só se conhecia de olhar a si pelas águas calmas dos lagos, sem muita nitidez, porém que já dera origem a Narciso, o embriagado da própria sombra. É que o espelho inverte o nosso autoconhecimento daquilo que a gente pensava ser o nós mesmos, e vê, então, outro ser, o negativo de si. Causa isso, espelho, o negativo de si.

O mais surpreendente é que o espelho só inverte na horizontal, na vertical deixa tudo permanecer de cabeça no alto e pés no chão, enquanto um dos lados da face vira seu inverso, passando ao outro lado. Falei mistério, algo a ser compreendido, sobremodo quando cada lado da face corresponde a um dos lados de nosso cérebro, um dos hemisférios cerebrais, unidos apenas pelo corpo caloso, o que corresponde tão só a 25% da fronteira de entre esses dois hemisférios. A gente usa com predominância um dos dois lados, sendo o outro apenas seu assessor, na proporção de um para três.

E o espelho inverte esse ganho interior da consciência, dando impressão de que estamos do outro lado, porquanto a tal visão indica falsa imagem de si, o negativo da nossa face. Tal aspecto explica o motivo de virem os espelhos entre as fitas e bugigangas trazidas pelos colonizadores, mais sabidos do que tantos imaginam no decorrer da História. Conheciam do ofício de inverter o processo civilizatório das populações conquistadas, artimanha por demais esquisita e sofisticada, advinda do abismo dos séculos, de forças totalitárias e dominadoras.

Assim acontece desde longa data, até quando, lá um dia, Jesus propôs retomar o caminho de novas atitudes através dos segredos do Amor verdadeiro, do caminho do Coração, até chegar de volta ao Pai, razão das quantas perseguições às suas palavras, sobretudo nos grandes impérios. Uma longa história que traz a simplicidade original aos seres humanos.

(Ilustração: Narcissus, de Caravaggio).

Chapada do Araripe: candidatura a Patrimônio Mundial – por José Luís Lira (*)

 

    Na reunião ordinária do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural do Ceará – COEPA, realizada no dia 19 de maio último, aconteceu a apresentação da candidatura da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade junto à UNESCO. Na oportunidade, se pronunciaram os Professores-Doutores José Patrício Pereira Melo, Alemberg Quindins e Maria da Conceição Lopes. A candidatura da Chapada do Araripe é realizada por meio Governo do Estado do Ceará e da Secretaria da Cultura do Estado (Secult), junto com a Universidade Regional do Cariri (URCA), Funcap, Fecomércio, Sesc Ceará, Fundação Casa Grande, GeoPark Araripe e Instituto Cultural do Cariri. Por meio do “Dossiê para candidatura da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade (UNESCO): natureza, tradição e formação de um território encantado”, realizou-se inventário qualificando o diálogo sobre os desafios e possibilidades da salvaguarda patrimônio cultural e natural no Estado do Ceará. Daí o assunto ser levado ao COEPA, onde, mui honrosamente, ocupo o assento da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), có-irmã da URCA, cujo primeiro reitor, Prof. José Teodoro Soares, foi o segundo reitor da nossa Universidade Sobralense, a UVA.

    Entre alguns nomes que estão no Comitê Científico da candidatura, além dos doutores citados inicialmente, destacamos: Espedito Seleiro, Fabiano Piúba (presidente do COEPA e Secretário de Estado da Cultura do Ceará), Heitor Feitosa, Renato Casimiro, Ronaldo Correia de Brito e Weber Andrade Girão e Silva.

    A candidatura da Chapada do Araripe a Patrimônio Mundial se legitimou no Seminário Internacional Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade realizado em Juazeiro do Norte, Crato e Nova Olinda, com a participação de todos os cidadãos empenhados, singulares ou organizados, que em conjunto manifestaram o empenho pela candidatura. A Chapada do Araripe em seu contexto cultural, patrimonial e ambiental, revela condições culturais e naturais únicas, capazes de sustentar uma proposta para inscrição como bem na Lista do Património Mundial, com singular potencial Valor Universal Excepcional (VUE), conforme lemos no sítio eletrônico: http://dossiechapadadoararipe.urca.br/.

    Em fevereiro de 2020, representando o governador do Ceará, Camilo Santana, o secretário da Cultura, Fabiano Piúba, o Reitor da URCA, Francisco Lima Junior e o Diretor do Sesc/Senac Ceará, Rodrigo Leite, estiveram na  sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em Brasília (DF), para a entrega de documentos para solicitar a inscrição da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade ao presidente interino do IPHAN, Robson de Almeida. A partir daí, aquela região dos imortais Padre Cícero Romão Batista, Beatos José Lourenço e Maria de Araújo, Antonio Martins Filho (o reitor dos reitores), Patativa do Assaré, Irmãos Aniceto, Espedito Seleiro, Assunção Gonçalves, Daniel Walker, Madre Feitosa, Irmã Annette Dumoulin (filha adotiva) e futura Beata Benigna Cardoso, entre outros, incrementou essa campanha à qual, em sinal de justiça, todo o Ceará se integra, quiçá o Brasil e o mundo conhecedor da riqueza daquela chapada.

     O COEPA, unanimemente, aprovou a ideia e deu apoio à candidatura que almejamos sair vitoriosa!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


02 junho 2021

Transformações II - Por: Emerson Monteiro


Essas marcas substanciais do Tempo, eterna ação do movimento mágico da existência; as transformações que significam função dos instantes sem interrupção na máquina do mistério. Nos fins das tardes, pelo canto distante da saracura nas quebradas da Serra, vem a força deste momento. Nítidos repastos do indizível, perspontam entre o nada e o tudo, quais bichos silvestres que se aninham no peito da gente à busca de terminar o dia e alojar os sentimentos nas folhas da consciência que espera a perfeição de Deus.

São as histórias que restaram virgens de contar na sede do desejo da imaginação, fervilhando nas matas já escuras de dentro das pessoas. Narrativas de segredos bem vivos nas últimas réstias do dia que escorre pelas gretas do Infinito. Paixões alucinadas, sonhos amarfanhados em lençóis ainda frios, movimento de nuvens pelos céus, derradeiros reflexos do Sol que já sumiu no horizonte deixando pedaços de seres que somos em colagens mil, na recente penumbra; e os viventes somem ao sabor das horas em transformação. Tudo, afinal, que renova cada momento, ondas que integram camadas e cores, formas e lampejos. Seres que preenchem o solo das estrelas a reluzir nas sombras lá adiante, que chegam dos cantos da amplidão, noutras possibilidades de palavras soltas na alma da gente.

Bem isto, de mundos convulsões, viventes, luzes em ação no coração das tantas criaturas, autores dos frutos alegres, esperança e fé, instintos de vitória nos embates dos amores mais intensos. Sempre deixar crescer a firmeza de superar cicatrizes e sorrir às reconstruções de si mesmo nas barras dos dias e das noites, soma de palavras e pensamentos. Vencer instintos que ocasionaram atitudes torpes; renovar o âmbito da presença no caráter; reviver das cinzas, entes sadios desde antes trastes largados aos muros antigos. Uma pura certeza na ânsia de um viver pleno de luz e felicidade.

Hora da Ave Maria - Por: Emerson Monteiro


No ano de 1958, morando com a família em Crato, meu pai seguia, ainda por certo tempo, vinculado aos negócios do sítio, em Lavras da Mangabeira, onde deixara animais e eito de cana, de que renovava o cultivo e participava das moagens, nas épocas próprias. Nesse sentido, ia lá quase todo mês, através da rodagem de terra que cruzava a Serra de São Pedro, cheia de trechos estreitos e arriscada, conhecida pela periculosidade e acidentes fatais que provocava, percurso que agora abriga a Rodovia Padre Cícero e reduz em dezenas de quilômetros a distância para Fortaleza.

Houve uma ocasião, nessas viagens, quando já próximo do distrito de São Francisco (hoje Quitaiús), o caminhão em que viajava, de propriedade de Severino Medeiros, tombou em trecho de curvas fechadas e piçarrentas. Dentre as vítimas mais graves se achava meu pai.

Machucara uma das pernas à altura do tornozelo, fraturando ossos em três lugares e sofrendo profunda contusão, o que lhe custou séria perda de sangue e demorou um tanto para cicatrizar. Veio trazido ao Hospital São Francisco, em Crato, onde permaneceria pelo período de um mês, ou pouco mais.

Durante esse turno, não poucas vezes lhe visitei e permaneci junto dele. Era eu portador constante das encomendas entre nossa casa e o hospital.

Nunca antes havia estado naquela construção de tantos corredores, salas, lugares sombrios, silenciosos, ruídos típicos; de pessoas diferentes, agitação incessante. Andava onde podia. Menino aceso, observava as movimentações e acompanhava os acontecimentos diários.

Relembro de enfermeiras, médicos, amigos de meu pai que lhe visitavam; das áreas internas e solitárias do casarão escurecido; as rampas; os portões vetustos quase nunca abertos; e da calma da capela, que tocava o íntimo da criança de nove anos com melancolia intensa, sobretudo aos finais das tardes, quando deixava ouvir os acordes da Ave Maria, de Schubert. Misto de saudade e distanciamento fervilhava meu ser; algo de uma solene paz que envolvia o ar no véu luminoso da penumbra e, aos poucos, vinha decrescendo os restos das tardes, modificando, nas notas suaves da música, a noite e seus aspectos quase adormecidos, afastando de vez, com mãos veludosas, os clarões retardatários do outro dia.

Essas marcas especiais daqueles instantes passados costumam, depois, preencher minha memória, quando ouço o canto da Ave Maria, às 18h, nas emissoras de rádio, que tocam o disco nas suas programações, avivando em mim emoções que, nessa quadra, tomaram conta de nossa família, permitindo, no entanto, que tudo chegasse a bom termo, com o restabelecimento de meu pai, o ponto forte na condução de todos nós.

...

Hoje estive na capela do Hospital durante um bom tempo e lembrei daqueles momentos que o tempo guardou consigo.