10 maio 2021

Os cambiteiros - Por: Emerson Monteiro


Desde logo, o próprio Word que cuida em desconhecer a palavra (cambiteiros), porquanto se trata de um termo de pouco ou nenhum uso mais nestes tempos de agora. Cambiteiros, aqueles trabalhadores que transportavam os feixes de cana do corte ao engenho, isto no lombo dos burros de carga, animais tão brutos quanto seus operadores. Espécimes treinados nesse afazer, munidos de alimárias equipadas de cangalhas e cambitos, pedaços de madeira fornida no formado de um “v”, em que, dois de cada lado, eram apostos os feixes de cana previamente montados pelos cortadores, amarrados com as embiras feitas da palha verde da cana que cortavam. Esses feixes iam até em cima da cangalha, até o suporte dos burros. Daí, partiam em tropas rumo do salão do engenho, do onde as canas seriam levadas às moendas e desfeitas na garapa.

Um ofício rude e por demais ingrato, porém respeitado no transcorrer das moagens. Essenciais nesse transporte, os cambiteiros marcavam presença todo tempo, a fim de abastecer devidamente o processo de fabricação da rapadura. Eram eles os primeiros a chegar, tão cedo amanhecia o dia. Arriavam seus burros defronte da casa grande, a retirar do quarto das cangalhas e cabrestos os arreios e equipar suas tropas, nas quais todo burro tinha um nome próprio, sendo assim comandados. Sempre dispostos, bem alimentados, agiam com extrema precisão naquele ofício, rápidos, forçudos e dóceis, apesar de firmes no compasso das ações.

Destarte, lembrei esses dias do valor ímpar dos cambiteiros nas moagens sertanejas, verdadeiros e audazes, a tropa de choque dos engenhos. De manhã aos finais de tarde, cumpriam à risca o compromisso desse abastecimento constante da cana desde o eito do corte ao início da linha de produção, e que bem que merecem um monumento aos que fizeram o ciclo da cana-de-açúcar do Nordeste brasileiro.

(Ilustração: Cambiteiro, de Vicente do Rego Monteiro).

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