04 maio 2021

O quarto de Tia Auta - Por: Emerson Monteiro


Na casa grande do Tatu havia alguns cômodos característicos; o quarto da cera, onde rasgavam as palhas de carnaúba, depois de secas ao sol, extraindo, assim, o pó que levavam ao fogo e faziam a cera, produto bem apreciado, com fins industriais, em determinada época; o sótão, ao qual uma escada de madeira grossa dava acesso, depósito dos trastes da família, aonde nunca lembro de ter entrado, mesmo porque era proibido que tal acontecesse; daquela escada foi que Tio Gentil veio de cair e ficar prejudicado, o que ele conta num dos seus livros; o quarto da rapadura, em que meu avô guardava parte da safra a ser utilizada no sítio entre duas moagens, também ali estavam silos de zinco para depósito de grãos no intervalo dos invernos; ao lado, um cubículo escuro, que, dizem, no passado servira de prisão aos agregados desobedientes, à época de Fideralina, em que, nas paredes, existiam letras e desenhos, que, talvez, ainda hoje lá estejam; e um quarto mais isolado, com janela gradeada, ao que, contavam, servira de prisão a Tia Auta, por conta de um namoro indesejado de seus pais, mas que desconheço maiores detalhes. Tudo aquilo cheio de mistérios, num morada sertaneja ampla, de piso de cimento queimado, ou de tijolo aparente, império de muitas ocorrências e dotada de silêncio extremo aos meios-dias, só ouvíamos o zumbido das moscas, quando eu, menino, deitava de barriga no chão, na friezinha boa, amenizando o calor causticante do verão nordestino.

Adiante, naquele quarto de Tia Auta, foi ali que Tio Jorge, numa madrugada, avistou o vulto de Fideralina a lhe sacudir o punho da rede. Ele, de um pulo, levou na cabeça o farol que estava no frechar da porta e correu para o terreiro. Nunca mais teve quem lhe fizesse dormir de novo na casa grande, pelo resto de sua vida. A botija que ela quis entregar a alguns não foi encontrada, apesar de haverem revirado o chão da casa inteira, em todos os cômodos, sem achar o que desse de localizar o tão sonhado tesouro. Ao que se supõe, os tais pertences de valor, em um tacho de cobre, foram enterrados noutro lugar distante da residência.

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