17 maio 2021

Aos cair das folhas - Por: Emerson Monteiro


Quando nas estações vem o outono, pessoas também resolvem regressar ao mundo invisível e deixam saudade naqueles que aqui permanecem no ritmo sucessivo das trocas de guarda. Nisto, o mundo gira numa celeridade estonteante, por vezes no entanto monótona aos que desejam encontrar os que amam e agora vivem longe. As sensações deste chão a sumir dos pés, que tomam de chofre as mentes, parecem revirar as folhas e fazem morrer e nascer novas ilusões.

Quase que nem adianta buscar motivos de conhecer os segredos deste adeus das pessoas, porquanto elas revivem no mundo da lua suas criações individuais, desafiam a lei da gravidade e superam quaisquer justificativas que fossem, no tocante de continuar seus afazeres impacientes, porque a vida sempre segue e mantém seus continuares. Correm atrás de si próprias, nos caminhos imaginários das vidas, atores pois dos dramas da humana criação. Porém carecem, isto sim, de mil razões de sentir felicidade, e padecem da síndrome do dia seguinte, diferentes que sejam, ainda que todos assim acreditem de antemão que há uma imortalidade ali logo afora.

Viver, por isto, pelos fascículos das semanas, permanece ao dispor de todos nós, livres que fôssemos e não devêssemos responder face tudo que fizermos do direito de fazer. Migalhas do Infinito, jogamos as fichas do destino ao sabor das compreensões, enquanto padecemos do desejo do prazer, máquinas que trituram os instantes e descascam realidades. Nisto, seremos meras histórias de romances que se desfazem às nossas mãos numa velocidade estúpida.

E os outonos chegam e vão, trazendo distâncias àqueles que regressam no território do Infinito quando menos esperam, fascinados pelos fulgores exatos do tempo sem restrição. Senhor das individualidades, bem que reconhece aonde deixa os que leva consigo à presença constante da inexistência que eles terão de preencher na força das consciências, mais dia, menos dia. Nisso de que caem as folhas da estação que chegou inesperadamente, todavia tão consistente qual a ausência dos que desaparecem nos corredores sombrios da saudade.

(Ilustração: Saudade, de Almeida Junior).

Algumas notas do Instituto Cultural do Cariri - Por: Emerson Monteiro


Vimos seguindo de perto o Instituto Cultural do Cariri desde a década de 60, quando ainda era instalado na residência do Prof. Figueiredo Filho, à Rua Miguel Limaverde, em Crato, inícios de minha amizade com Tiago e Flamínio, seus netos. A sala da casa via-se preenchida de relíquias dos índios da Região, pedras raras, livros e outras relíquias, numa biblioteca especializada nos assuntos do Cariri e quadros e peças de valor inestimável, pertencentes ao ICC, isso bem nos seus primórdios.

Depois, ao regressar da Bahia, década de 70, passei a desfrutar das benesses do Instituto isto já na Praça Três de Maio, na gestão do Dr. Raimundo Borges à frente da Diretoria, de quem foi secretário, e onde permaneceria até ser transferido para duas salas no edifício defronte ao Colégio Pequeno Príncipe, sob a presidência de Olival Honor de Brito.

Vista a construção da sede própria, nas atuais instalações da Praça Filemon Teles, graças à doação de um terreno pelo prefeito Ariovaldo Carvalho e verbas do Governo do Estado, na gestão do governador Lúcio Alcântara, mediante os esforços administrativos do então Presidente Manoel Patrício de Aquino passamos a dispor de uma localização definitiva em edifício de esmerada construção.

Na gestão seguinte, tendo à frente o presidente Huberto Tavares de Oliveira, mereceríamos a regularização oficial da nova sede, através do prefeito Ronaldo Gomes de Matos, o qual custeou as despesas cartorárias a fim de termos a posse efetiva do belo edifício sede.

Na próxima presidência, sob minha responsabilidade, fizemos a segunda reforma dos Estatutos Sociais da instituição, os quais ora permanecem vigorando, visando a atualização das normas e ampliação do número de secções e cadeiras, face à demanda dos tempos, que assim o exigiam. Depois, passados 14 anos sem circulação, cuidamos de reativar os lançamentos anuais da coleção da revista Itaytera, órgão editorial da entidade, que perfaz agora 49 edições, e que permanece em franca circulação, passados que foram, até aqui, quase 70  anos desde a fundação do sodalício, em 1953.

Na gestão seguinte, do presidente Heitor Feitosa Macedo, a Itaytera seria digitalizada e disponibilizada na Rede Mundial de Computadores para todo o mundo, outro marco valioso e exponencial de nossa história.

São, pois, alguns registros a propósito da história da casa máter da cultura caririense, detentora dos melhores adjetivos na preservação das tradições históricas, antropologia, literatura, etnografia regionais.

16 maio 2021

Impressões - Por: Emerson Monteiro


Este som constante que há em tudo fala bem aqui dentro de nós. Indica os meios de saber que não estamos sozinhos diante da realidade que perpassa os fios da memória onde deslizamos constantes feitos peças definitivas. Que seres se movem no ar em volta das outras criaturas, numa dança cósmica inigualável. Que há um código secreto em movimento no decorrer do tempo que passa aos nossos olhos. Que nuvens vagam no céu, a demonstrar o eterno circular das ondas pelos mares das horas incessantes. Que vidas insistem viver enquanto, por vezes, esquecemos que também somos destes seres vivos que carecem conhecer a razão disto, desse viver. Que o Universo é infinito em todas suas direções, tal qual esfera de raio sem fronteiras, jamais, em lugar algum. Em quaisquer direções ali persistirá o infinito de mundos misteriosos e profundos, aonde existem outros seres talvez semelhantes aos que ora somos. Que durante os instantes de presenciar o quanto existe, seremos partes integrantes desta sinfonia esplendorosa a falar de um Criador, porquanto em todo nascedouro haverá uma origem e seu autor por demais poderoso e sábio. Que ninguém está sozinho perante os fenômenos que integram os componentes de uma peça única, contida neste todo universal. Que conhecer produz em Si a consciência, motivo primordial da comunhão dessa unidade original consigo própria. Que o silencio é a voz profunda de um código sob o que tudo acontece e de que somos peças integrantes. Que, à medida quando avançamos dentro de nossas camadas interiores, iremos nos deparar com essa causa primeira da existência no seu sentido mais amplo, luz necessária de seguir adiante através das jornadas sucessivas do conhecimento. Que a perfeição revelada nos detalhes mínimos da música dos céus, bem ali habita soberano o segredo de tudo quanto significa viver e amar. Que as vidas possuem o poder guardado no coração de encontrar essa perfeição à medida dos séculos. Que percorrer dentro da alma da gente os caminhos da humana finalidade desta revelação inestimável, eis o sonho maior de todos os seres enquanto durar a Eternidade.

15 maio 2021

Até encontrar a Paz - Por: Emerson Monteiro


As tantas vivências deste mundo, nas noites mais escuras, nos sóis que se sucedem, eis os quantos degraus ainda a subir na busca da sonhada Paz. Viver, repetir o mesmo gesto dos dias, construir os sonhos no modo de manter o gosto de continuar, essa a longa caminhada no sentido maior de resolver todos os dramas, de deixar fluir a força que mora em nós. Que mais querer se não isto, de achar o pouso das jornadas, nem sempre vitoriosas, porém único caminho aos passos de todos. Ter o prazer de saber que andamos nos lugares onde descobriremos meios de tranquilizar a consciência e aproveitar as oportunidades do melhor jeito, concretizando intenções sinceras, de realizar o suficiente, e, lá um dia, desfrutar a paz dos justos, e revelar o equilíbrio e a satisfação.

Nisso que se destinam as chances de estar aqui, de plantar a semente da Verdade no coração deste lugar. Ser, sempre, instrumento da virtude; nada tão significativo a fim de existir durante todo tempo. O campo em que isto acontece está naquilo que ora somos. Quais artífices dessa imensa perfeição, trabalhamos sem cessar no objetivo de resolver a equação das horas e desenvolver os instrumentos de humanidade vivos na nossa essência. Sobreviver ao vazio dos objetos e concretizar o novo que trazemos na nossa alma. Todos os caminhos levam a isto, porquanto assim fomos destinados. O que nos reserva o tempo em forma de poder chegar ao momento de germinação.

Os desafios, as contradições, os instintos e desejos, tudo tende a encontrar a Paz e compreender por que viemos, que transportamos nesse valor maior de superar as limitações da matéria e desvendar os mistérios do Espírito, motivo de vir onde estamos agora.

(Ilustração: Vincent van Gogh pintando girassóis, de Paul Gauguin).

Devoção e memória: São João Paulo II, Santo Ivo e o Dia dos Museus – por José Luís Lira (*)

     Nos dias seguintes temos algumas datas de grande significado para mim e para o mundo também. É claro que digo para mim porque as privilegio, mas, muitos, milhares também o fazem. Elas são universais. No dia 18 de maio de 1920, na cidade polaca de Wadovice, nascia Karol Józef Wojtyla, em português, Carlos José. Este era o nome de batismo daquele que ficou conhecido mundialmente como João Paulo II, o terceiro dos três papas de 1978. Todos eles intimamente ligados a Nossa Senhora de Fátima. São Paulo VI, foi o primeiro pontífice a ir a Fátima, João Paulo I, que o sucedeu e viveu poucos dias de pontificado, 33 dias, para ser exato. Sua Santidade o Papa João Paulo II esteve em Fátima antes de ser papa e manteve contato com a vidente Irmã Lúcia. Já São João Paulo II foi, por excelência, o Papa de Fátima. Seus pais viveram os dramas da primeira guerra. Ele sofreu as consequências da segunda guerra, tendo inclusive, exercido trabalhos forçados naqueles dias de chumbo. Nossa Senhora, em Fátima, anunciou o fim da primeira guerra e que nova guerra viria depois. Mas, o que o ligou, definitivamente a Fátima, foi o atentado do qual ele fora vítima a 13 de maio de 1983. Atentado que poderia ter posto fim à sua vida terrena e à missão pontifical que Deus lhe confiou, mas, a mão de Deus pela intercessão de Nossa Senhora (de Fátima) agiu e ele viveu sua missão até seu último dia de vida, em 2005. São João Paulo II completaria 101 anos neste 18 de maio. 

    Nesta data também é celebrado o Dia Internacional dos Museus, criado em 1977, por iniciativa do Conselho Internacional de Museus, organismo que integra a UNESCO. A cada ano é escolhido tema específico para debater durante o Dia Internacional dos Museus. Este ano de 2021 é “O Futuro dos Museus: Recuperar e Reimaginar”. Nestes tempos em que vivemos, o Museu, como sempre o fora, é o guardião da memória e muito se terá a contar. Às vezes imaginamos que estamos vivendo um daqueles terríveis filmes de ficção cientifica, mas, é verdade esse drama da pandemia. A solução vai chegar, pois, Deus está iluminando a ciência, como sempre iluminou, e nós livraremos disso, e nossos museus contarão essa história.

  No dia 19 de maio de 1303, falecia, na Bretanha, França, o religioso e advogado Yves Hélory de Kermartin. Conforme seus biógrafos, o santo vinha de linhagem nobre e, aos 14 anos, fora sagrado cavaleiro. Em vida ele fora aclamado advogado dos pobres. Em 26 de junho de 1347, o Papa Clemente VI canonizou Santo Ivo e, depois, o santo foi proclamado padroeiro dos profissionais de Direito, especialmente, dos advogados. Seu decálogo é uma preciosidade e quase uma base do código de ética de vários países. Aliás, várias nações têm nesse o dia do advogado, como o faz Portugal, França, Itália..., em homenagem ao Santo Advogado. Aqui no Brasil é o dia do acadêmico de Direito. 

   Advogado e professor de Direito, não posso deixar de lembrar este santo e citar dois dos mandamentos do advogado por ele composto: “o advogado deve amar a Justiça e a honradez tanto como as meninas dos olhos (VIII) e para fazer uma boa defesa, o advogado deve ser verídico, sincero e lógico (X)”.

   São João Paulo II, que conheceu nossos tempos, e Santo Ivo, cujo amor pela justiça transcendeu, roguem a Deus por nós!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


12 maio 2021

A certeza das crenças - Por: Emerson Monteiro


Eis um valor individual que a ninguém cabe contestar, toda crença, que as pessoas alimentam vidas afora, estruturando modos de pensar e praticar diante dos próprios passos. Significa a assinatura particular das criaturas humanas. Fruto do decorrer das vidas, cresce em nós esse valor maior de compreender todo fenômeno, desde tempo, merecimento, justiça coletiva, paz social, oportunidades, amores, família, saúde, aceitação, etc.

No andar dos acontecimentos, pessoas desenvolvem isso de interpretar a existência perante os fenômenos da natureza. A gente toca os elementos na medida dos nossos entendimentos. Daí a impessoalidade que norteia o jeito de todos verem o mundo. Uns vão numa vertente, outros noutra. Modos díspares da visão particular representam, por isso, o resultado das experiências e conflitos, aulas abertas das histórias de todos. Livros e livros jamais dariam de conta da transcrição que isso bem merece, patrimônio que some à medida das gerações. O que hoje revela, amanhã pode haver sumido para sempre na fragilidade das horas que passam.

Tais conceitos demonstram o valor deste patrimônio inalienável e peça valiosa da herança coletiva. Vezes me pego a cogitar no que acontece por dentro das pessoas, formatos intransferíveis de tantos valores, vivências e conteúdos. E no quanto é difícil saber o que, na verdade, cada um pensa e sente, planeja e desenvolve, longe das vistas dos demais. Nisso, também, naquilo que creem, estabelecem seus contatos junto dos planos mais avançados da consciência. Muitos até adiante da grande maioria, seres afeitos às lutas da sobrevivência, nos sonhos e práticas de vida; místicos, conhecedores do que poucos avaliam.

Nisso a importância da comunicação, das leituras, dos métodos de educação e registros preciosos da Humanidade, durante as civilizações. Dentre esses, as religiões, os ritos, mitos e culturas, vindo neste segmento artes e testemunhos que permanecem naqueles que os preservam e transmitem através das gerações sucessivas.

11 maio 2021

As palavras - Por: Emerson Monteiro


Elas têm vida própria. Diante deste silêncio que trazem as horas noturnas, quando o vento sacode as árvores e os animais acham lugar nas sombras, ainda assim elas mexem por dentro de tudo isto, as palavras, filamentos sublimes de eternidades. Elas que querem por que querem vir à tona. Mais que ninguém, sabem o que dizer daquilo que carregam nas entrelinhas das ausências, e trabalham os sentimentos das pessoas que dormem, querendo, dalgum jeito, reviver memórias acontecidas, sacudir conceitos e modificar o instinto das almas penadas que vagam pelos desertos das visagens. Quais movimento das marés, insistem acordar as criaturas e lembrar-lhes do mistério que transportam  vidas afora, instrumentos insatisfeitos de esperança e fé, nem sempre alimentados pelos humanos nessas horas mortas. E nisto querem fazer valer o peso dos instantes que passam velozes; dormem, contudo, face a face com o ritmo de um tempo largado lá fora.

Palavras, motivos soltos nos sons do silêncio. Depois que a pressa recolhe suas asas, os significados, no entanto, permanecem grudados às colinas do pensamento dessas criaturas que fazem de conta que adormeceram. Daí, vêm os sonhos na forma dos roteiros e argumentos, e aceleram o senso de saber mais dos sentimentos escondidos. Tantas histórias que buscam acordar na gente o tal poder de criação, porém se esquecem de revelar o sentido logo que despertam ao nada desses dias que viram farelo em nossas mãos desajeitadas.

No entanto elas ali permanecem indefinidas pelas esquinas do firmamento, animais vadios, indomáveis, plantas vivas. Transitam impacientes de achar nalgum dia, quando menos presos estivermos aos hábitos, de nos encontrar de verdade. Bichos afoitos e selvagens, nos tomarão apegos ao nada, e farão de tudo quanto somos só instrumentos da velocidade do ser que foge de si, atirando-nos ao clarão das madrugadas, transformando de pedras em poeira e, nesse momento sagrado, havemos de amar e dominar o destino de tudo.

                                                                                                      

Os Segredos de Fátima – por Dom Fernando Arêas Rifan (*)

 

    No dia 13 de maio, celebramos o 104o aniversário da primeira de uma série de aparições de Nossa Senhora a três simples crianças, pastores de ovelhas, em Fátima, pequena cidade de Portugal, de onde a devoção se espalhou e chegou ao Brasil. São sempre atuais e dignas de recordação as suas palavras e seu ensinamento. 

     O segredo da importância e da difusão de sua mensagem está exatamente na sua abrangência de praticamente todos os problemas da atualidade. Aquelas três simples crianças foram os portadores do “recado” da Mãe de Deus para o Papa, governantes, cristãos e não cristãos do mundo inteiro.

     Aos pastorinhos, em Fátima, Nossa Senhora revelou três segredos, mais tarde divulgados. O primeiro segredo diz respeito a cada um de nós, individualmente, e é sobre a nossa salvação eterna. Foi a visão do inferno, que assustou saudavelmente as crianças: “Vistes o inferno para onde vão as almas dos pobres pecadores...”. E recomendou-lhes a oração e o sacrifício pelos que estão longe de Deus: “muitas almas se perdem porque ninguém oferece sacrifícios por elas”. “Não ofendam mais a Deus, Nosso Senhor, que já está muito ofendido”.

     O segundo segredo diz respeito ao mundo, à sociedade em geral: a difusão do comunismo: “A Rússia espalhará os seus erros pelo mundo”. A Rússia tinha acabado de adotar o comunismo, aplicação prática da doutrina marxista, ateia e materialista.  Nossa Senhora nos alerta contra esse perigo, o esquecimento dos bens espirituais e eternos, erro que, conforme sua predição, vai cada vez mais se espalhando na sociedade moderna, vivendo os homens como se Deus não existisse: o ateísmo prático, o secularismo.  Se o comunismo, como sistema econômico, fracassou, suas ideias continuam vivas e penetrando na sociedade atual. Aliás, os outros sistemas econômicos, se também adotam o materialismo e colocam o lucro acima da moral e da pessoa humana, adotam os erros do comunismo e acabam se encontrando na exclusão de Deus. Sobre isso, no discurso inaugural do CELAM, em 13 de maio de 2007, em Aparecida, o Papa Bento XVI alertou: “Aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes do último século... Quem exclui Deus de seu horizonte, falsifica o conceito da realidade e só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas”. Fátima é, sobretudo, a lembrança de Deus e das coisas sobrenaturais aos homens de hoje.

      O terceiro segredo diz respeito à Igreja: a visão de um homem de branco, na praça de São Pedro, andando sobre os cadáveres de bispos e padres, sendo depois abatido, simbolizando a perseguição à Igreja, a cristofobia (ou cristianofobia), a decadência religiosa, a perda da fé, a perda da influência do cristianismo na civilização atual. 

    Enfim, Fátima é a recapitulação e a recordação do Evangelho para os tempos modernos. O Rosário, tão recomendado por Nossa Senhora, é a “Bíblia dos pobres” (São João XXIII). Assim, sua mensagem é sempre atual. É a mãe que vem lembrar aos filhos o caminho do Céu.

(*) Dom Fernando Arêas Rifan, Bispo da Administração Apostólica Pessoal   São João Maria   Vianney.

10 maio 2021

Os cambiteiros - Por: Emerson Monteiro


Desde logo, o próprio Word que cuida em desconhecer a palavra (cambiteiros), porquanto se trata de um termo de pouco ou nenhum uso mais nestes tempos de agora. Cambiteiros, aqueles trabalhadores que transportavam os feixes de cana do corte ao engenho, isto no lombo dos burros de carga, animais tão brutos quanto seus operadores. Espécimes treinados nesse afazer, munidos de alimárias equipadas de cangalhas e cambitos, pedaços de madeira fornida no formado de um “v”, em que, dois de cada lado, eram apostos os feixes de cana previamente montados pelos cortadores, amarrados com as embiras feitas da palha verde da cana que cortavam. Esses feixes iam até em cima da cangalha, até o suporte dos burros. Daí, partiam em tropas rumo do salão do engenho, do onde as canas seriam levadas às moendas e desfeitas na garapa.

Um ofício rude e por demais ingrato, porém respeitado no transcorrer das moagens. Essenciais nesse transporte, os cambiteiros marcavam presença todo tempo, a fim de abastecer devidamente o processo de fabricação da rapadura. Eram eles os primeiros a chegar, tão cedo amanhecia o dia. Arriavam seus burros defronte da casa grande, a retirar do quarto das cangalhas e cabrestos os arreios e equipar suas tropas, nas quais todo burro tinha um nome próprio, sendo assim comandados. Sempre dispostos, bem alimentados, agiam com extrema precisão naquele ofício, rápidos, forçudos e dóceis, apesar de firmes no compasso das ações.

Destarte, lembrei esses dias do valor ímpar dos cambiteiros nas moagens sertanejas, verdadeiros e audazes, a tropa de choque dos engenhos. De manhã aos finais de tarde, cumpriam à risca o compromisso desse abastecimento constante da cana desde o eito do corte ao início da linha de produção, e que bem que merecem um monumento aos que fizeram o ciclo da cana-de-açúcar do Nordeste brasileiro.

(Ilustração: Cambiteiro, de Vicente do Rego Monteiro).

República brasileira, ano 2021

    A maturidade de um povo está ligada à cultura, à história e a tradição de seu país. Valorizar a própria história, os heróis e os grandes acontecimentos se reflete no que a nação se transformou e para aonde irá.

     O grande problema dos brasileiros é que estes se esqueceram de sua grandeza, de sua tradição, se perderam da história. Atualmente cultuamos falsos heróis, depositamos nossas esperanças em homens e mulheres no qual não há um mínimo de esforço patriótico, admiramos pessoas sem caráter.

    O Brasil só irá se reerguer quando sua história for valorizada e quando a nação brasileira se der conta que seu passado é glorioso e que o futuro dependerá do valor do autoconhecimento de si como uma nação, que já foi digna de ser um Império.


(Transcrito do site Sou Monarquista)
Postado por Armando Lopes Rafael

09 maio 2021

Jornadas em volta de si - Por: Emerson Monteiro


Isto de viver, que alguns chamam existir, das jornadas dos pensamentos e sentimentos em torno da esfinge que a gente cria, nesse processo de experimentar os dias e as horas. Feitos pajés dançando ao redor dos totens que eles trazem no juízo de muitas luas, os demais aceitam, por força da necessidade, acreditar nesse desenrolar dos acontecimentos. Nós, enfim, estas massas informes que ganham terreno dentro das linhas do tempo, e depois tudo perdem sem a menor cerimônia. Qual quem se entregasse antes do momento definitivo, fazem de conta que usufruíram de sentido, quando, por vezes, viver nem de longe deixa assim parecer, nas dobras do firmamento.

Esses pensamentos que vagueiam soltos dentro da gente, pelas estradas do desaparecimento, são espécies de buscadores da Verdade, sendo, no entanto, só apenas joguetes que querem dominar vidas inteiras. Significam bem isso, de bancar heróis nos filmes dos dias; uns que pousam de valente, e outros que admitem representar o papel de curinga, canastrão, pretendendo, talvez, impedir o artista de ganhar a mocinha antes da cena derradeira, já que sabe não terá outro jeito senão este.

Enquanto que parecem conhecer a história, contudo eles fogem pelo labirinto dos dias, a fim de sobreviver às horas que escorrem. Muitas, por isso, as normas de controlar os arcos do silêncio, e deixar correr o barco nas águas do Infinito, conquanto, melhor do que ninguém, um a um ergue o sentimento de que tudo tende acalmar o espírito e usufruir da certeza de quem, um dia desses, será feliz e viverá a paz dos justos, afinal.

08 maio 2021

Para celebrar e viver – por José Luís Lira (*)

 

     Neste dia 8 rememoramos o primeiro ano da partida de Matusahila para o céu. Muitos a chamavam pelo seu nome literário, abreviando os sobrenomes e chamando-a apenas Matusahila Santiago. Na intimidade a chamávamos de Sahila – Zaila. Esses dias me dediquei a organizar um livro com os escritos dela. Talvez o melhor fosse usar palavras que ela costumava citar, do poeta francês Alphonse de Lamartine, quando falava de perdas: “Um único ser nos falta, e fica tudo deserto”. Matusahila era alegria, experiência, sabedoria, transparência. Coloria o mundo de quem convivia com ela, mas, era exigente. Fidelidade tinha que ser completa, é tanto que ela dizia que nós tínhamos um amor que transcendia qualquer coisa, pois, antes de nos amarmos, nossas almas se amaram. Faz um ano que ela se foi. Na seleção do material, penso que ela me ajudou. Abria aleatoriamente um arquivo e lá estava um belo texto. Fiz uma seleção baseado nos valores que ela sempre acreditou e viveu. Os seus poemas, as crônicas do dia-a-dia, algumas engraçadas ou sentimentais, como uma carta a Teresa Gomes – a “morta de linda”, as regras de etiqueta, textos históricos, a saudade... e o último texto sobre sua grande paixão, menina dos seus olhos, a “Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno”. À Sahila, minha eterna gratidão e saudade... 

     Amanhã é o dia das mães e, como já afirmei aqui, é, também, o aniversário natalício de meu pai. Então os parabéns de minha mãe, Luiza de Araújo Lira, são acompanhados dos a meu pai, Izidio Ribeiro Lira. Tenho orgulho de grafar seus nomes e dizer o quanto que aprendi e aprendo com eles e penso que se alguma coisa de bom fiz até aqui, foi graças ao incentivo que recebi deles. Neste mais de ano de pandemia passei a morar com eles novamente e é uma experiência interessante. Eles que nunca acreditam que crescemos, ainda somos crianças em seus pensamentos, aproveitam da situação. Mas, é preciso compreender, aproveitar e viver. Abraçando meu pai e minha mãe, o faço a todos, universalmente. Pois independente de região, de cultura ou de qualquer outra questão, eles têm os mesmos sentimentos por nós, seus filhos. Neste dia das Mães, além de minha mãe e todas as mães da família, destaco a dedicação de minha irmã, Elisiane e sua dedicação à nossa amada Anne Eloísa. Parabéns, maninha!

       A próxima segunda-feira é o dia da cavalaria. Todos sabem que tenho a honra de ser cavaleiro da nobre e pontifícia Ordem Equestre (de Cavalaria) do Santo Sepulcro de Jerusalém, por designação de Sua Santidade o Papa Francisco. E essa semana encontrei o significado, pois a imagem eu já conhecia, de Nossa Senhora da Cavalaria. Nossa Senhora está entronizada como Rainha com o Cristo em seu colo. Os braços de Jesus estão em forma de crucifixo, com os raios da Misericórdia Divina emitidos de Seu Sagrado Coração. Os pés de Nossa Senhora repousam sobre um apoio gravado com as palavras “DEUS LO VULT” que é o lema dos Cavaleiros do Santo Sepulcro e significa “Deus o quer”. O manto de Maria abriga os fiéis cavaleiros e damas, levantado pelos arcanjos São Miguel e São Gabriel. Dos lados estão São Jorge e o Beato Bartolo Longo, da Ordem, segurando um Rosário. A autora é Cecília Lawrence. 

       Feliz Dia das Mães a todas as mães e feliz semana a nós todos!


(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


07 maio 2021

A força que mora em nós - Por: Emerson Monteiro


São conceitos vários, espalhados nos caminhos, a falar de meios os quais permitem que venhamos a encontrar as respostas que a vida impõe. Por vezes, filosofias, crenças, experiências, no entanto formas possíveis de nos convencer, pouco a pouco, dos instrumentos necessários ao despertar de uma nova consciência. Que se sabe aonde vai dar a existência pura e simples de deixar o tempo correr; disto não existem dúvidas que resistam. Seria rotina ocasional de todos os viventes. Princípio, meio e fim, tão só que na matéria. No entanto resistem ao tempo os sistemas de outras avaliações, as percepções dos místicos e filósofos. De uma vida além da vida ninguém questiona mais, transcritas as experiências.

Há que dizer sermos os autores dessa descoberta. Não fosse assim e nada teria significado definitivo; seríamos meros joguetes das eras, barcos perdidos no mar imenso das circunstâncias, puras aparências do destino. Porém resiste ao tempo o poder da cultura dos sábios que noticiam formas novas de encarar a vida e produzir um novo ser do ser que ora somos.

Além de meros objetos da natureza física, em nós habita o senso do autoconhecimento, porta doutras dimensões, às quais viemos destinados. Esse fator de que somos a revelação representa, pois, a causa essencial de tudo quanto existe. Temos, com isso, uma vida secreta em movimento. Superar o lado escuro de que fomos dotados, a fim de comungar doutra percepção do Universo, porquanto possuímos disto a fórmula, restando apenas desvendá-la através das existências e exercer o papel de autores conscientes da própria percepção.

Creio que disso existe suficiente informação durante as jornadas de cultura a que fomos submetidos. Uns insistem na negação dessa chance, restritos ao materialismo. Outros sabem, ou têm intuição, das probabilidades espirituais; isto resume a aventura humana deste mundo. Dentro das tantas histórias individuais se impõem conclusões e confortam o viver da esperança, sobretudo naqueles que sentem a fragilidade temporal e buscam na luz a consistência de uma verdade bem maior.

(Ilustração: O olho, de Paul Klee).

Testemunhas da condição humana - Por: Emerson Monteiro


Nós, cada um, pedaços deste todo, centros ambulantes do Universo. Às vezes quer-se saber o que se passa dentro das outras pessoas, e vem isso, de sermos todos estes um só e único ente igual a todos os demais. Testemunhas privilegiadas dos mesmos direitos e das mesmas obrigações perante o nascer e o morrer; o amanhecer e o anoitecer; acordar, comer, andar, trabalhar, sorrir, amar, sonhar, dormir, desaparecer. Frutos da árvore da existência, tocamos aqui os sentimentos e os pensamentos diante da enfieira das horas sem fim, amém. Nós, estes seres dotados de cabeça, tronco e membros; ramos do tronco da humanidade; lustres do teto do firmamento; chances de acertar nas loterias da inevitabilidade; descobrir a que veio; de como atravessar o rio do tempo e encarar o mistério eterno do movimento que carrega no peito, no pulsar dos corações insistentes. Grandes, pequenos, trajados, nus, gordos, magros, azuis, avermelhados, ricos, pobres, velhos, jovens, mulheres e homens; milhares de números em profusão às portas do Infinito. Da gente que lá um dia para, querendo as respostas que demoram de vir, e observar um por um olhares do destino dos dias na forma de pequenas gotas que caem e somem na justiça das interrogações. Quer saber o que acontece ali no íntimo das criaturas que andam nas ruas, nas praças, nos caminhos, idênticos nas buscas, aprendizes das escolas deste mundo vazio, quase felizes, ainda andarilhos dos céus em desejos perenes de paz, contudo existências acesas nas fogueiras da multidão de semelhantes, com nome, endereço, família; solidão a dois, no oceano da procura de si em si; conflitos que preenchem a pauta dos momentos, e disso jamais podem sequer pensar em fugir, que não tem aonde. Parceiros da sombra que deseja piamente clarear no transcorrer dos séculos, da ausência do pouso que tanto anseiam, na certeza da dúvida. Nós, cada um, pedaços deste todo, centros ambulantes do Universo.

(Ilustração: Composição VII, de Wassily Kandisky).

06 maio 2021

O caminho dos livros - Por: Emerson Monteiro


Adolescente ainda e presenciara a inauguração de uma boa livraria em Crato, à Rua Miguel Limaverde, próximo à esquina da Praça Siqueira Campos, a Feira do Livro, cuja matriz existia em Fortaleza. Numa noite festiva, o salão se encheu de pessoas interessadas em leitura, a conhecer loja que propiciava alternativas aos aficionados, tempo aquele de cultura e quase só esse meio de entretenimento, fora cinema, bares e clubes. Lembro que comprei, na ocasião, o livro O velho e o mar, de Ernest Hemingway, autor americano de sucesso e prêmio Nobel da literatura.

Ai de mim se não existissem os livros. Sempre frequento livrarias, nos lugares aonde vou. Espécie de mania, costumo observar as prateleiras de livros qual quem procura janelas para olhar o nascer do sol. Quando revivo outros cantos em que pisei, retornam à memória mais os títulos que manuseio do que mesmo os célebres pontos turísticos preferenciais dos roteiros. Aprecio ver livros e também fotografar paisagens, interesses inevitáveis. Talvez, quero crer, não despertei até hoje para as viagens distantes porquanto na maioria dos países livros são noutras línguas, e conheço pouco, ou nada, dos idiomas, exceto o raro português de onde nasci.

Em Crato, noutros momentos, havia boas casas de livros, suficientes aos apreciadores das letras neste interior. Livraria Católica, de Vieirinha; Livraria Ramiro, cinquentenária empresa de Ramiro Maia, meu amigo de saudosa memória; SMB, de D. Auri, que sustentou a oferta de livros por longa data; Distribuidora Zé Osmar, responsável por lançamentos raros e que vendia jornais do Sul, inclusive O pasquim dos anos 60; e, já mais recente, Livraria Apoio, para falar nas principais que existiram no centro da cidade.

A fama cultural de Crato procede das suas escolas tradicionais, a começar pelo vetusto Seminário São José, passando por Colégio Diocesano, Colégio Santa Teresa, Colégio Estadual Wilson Gonçalves e Faculdade de Filosofia. Isto sem deixar de citar o Instituto Cultural do Cariri, detentor da publicação da respeitada revista Itaytera, com a marca de 45 edições anuais no decorrer de uma história iniciada em 1954. A história cratense e os livros se integram toda vida.

05 maio 2021

O senso do inesperado - Por: Emerson Monteiro


É preciso ter o caos dentro de si para dar à luz uma estrela bailarina.
 Nietszche

Bem isso de viver os séculos de noites insones e poder continuar sonhado diante das tantas câmeras em ação, nas dores inesperadas de horas em movimento, e saber conduzir o barco das vidas, ainda que face a face com os desmandos da inconsciência e dos tempos. Um tanto disso, e o azul de céu a contemplar os afazeres inúteis, porém de acordo com as leis do Cosmos, que os permitem, porquanto necessários ao aprendizado constante destas gerações. Ir ao fundo de mil poços e voltar à imortalidade.

Quero crer ser possível, pois, recomeçar a qualquer momento o que nunca existira, nem na imaginação. Precisar desaparecer até reviver das ilusões; admitir ninguém ser maior que ninguém, que inexiste o inevitável e que sobreviver significa isso de mergulhar a fundo à cratera de si mesmo e de lá reaparecer, razão de tudo, durante todo tempo.

Perder-se e, de novo, descobrir o motivo do que persistia dos universos perdidos no espaço. São muitas as histórias individuais de criaturas largadas aos sóis e que, outra vez, regressam à luz das manhãs de primavera. Andar, portanto, nas estradas do instante quais minúsculos seres doutras galáxias e assistir ao renascimento de espírito simples, suave, espécie de semente do eterno que fertiliza de esperança e fé nos corações.

Aparentemente lançados no abismo vazio doutras energias, as condições dos voos noturnos, sair-se-á noutras dimensões bem mais claras do que o quanto até aqui, então, neste universo estreito que, de certeza, abrirá circunstâncias nunca vistas aos países deste mundo. Nas vozes das montanhas, gritarão além do além, e reverter-se-ão sobre as canções das tantas jornadas do passado.

Conquanto persistam os desejos jamais imaginados dos super-heróis, maiores delírios de luz quedar-se-ão aos olhos do firmamento e dormirão o sono de paz da Felicidade.

(Ilustração: A tentação de Santo Antônio, de Hieronymus Bosch).

04 maio 2021

O quarto de Tia Auta - Por: Emerson Monteiro


Na casa grande do Tatu havia alguns cômodos característicos; o quarto da cera, onde rasgavam as palhas de carnaúba, depois de secas ao sol, extraindo, assim, o pó que levavam ao fogo e faziam a cera, produto bem apreciado, com fins industriais, em determinada época; o sótão, ao qual uma escada de madeira grossa dava acesso, depósito dos trastes da família, aonde nunca lembro de ter entrado, mesmo porque era proibido que tal acontecesse; daquela escada foi que Tio Gentil veio de cair e ficar prejudicado, o que ele conta num dos seus livros; o quarto da rapadura, em que meu avô guardava parte da safra a ser utilizada no sítio entre duas moagens, também ali estavam silos de zinco para depósito de grãos no intervalo dos invernos; ao lado, um cubículo escuro, que, dizem, no passado servira de prisão aos agregados desobedientes, à época de Fideralina, em que, nas paredes, existiam letras e desenhos, que, talvez, ainda hoje lá estejam; e um quarto mais isolado, com janela gradeada, ao que, contavam, servira de prisão a Tia Auta, por conta de um namoro indesejado de seus pais, mas que desconheço maiores detalhes. Tudo aquilo cheio de mistérios, num morada sertaneja ampla, de piso de cimento queimado, ou de tijolo aparente, império de muitas ocorrências e dotada de silêncio extremo aos meios-dias, só ouvíamos o zumbido das moscas, quando eu, menino, deitava de barriga no chão, na friezinha boa, amenizando o calor causticante do verão nordestino.

Adiante, naquele quarto de Tia Auta, foi ali que Tio Jorge, numa madrugada, avistou o vulto de Fideralina a lhe sacudir o punho da rede. Ele, de um pulo, levou na cabeça o farol que estava no frechar da porta e correu para o terreiro. Nunca mais teve quem lhe fizesse dormir de novo na casa grande, pelo resto de sua vida. A botija que ela quis entregar a alguns não foi encontrada, apesar de haverem revirado o chão da casa inteira, em todos os cômodos, sem achar o que desse de localizar o tão sonhado tesouro. Ao que se supõe, os tais pertences de valor, em um tacho de cobre, foram enterrados noutro lugar distante da residência.

02 maio 2021

Portais do Infinito - Por: Emerson Monteiro


O passado não existe mais. O futuro ainda não chegou. Estamos exatamente na fronteira dos dois infinitos. Dois lados de uma única estação. Somos os heróis de nós mesmos a transportar este fardo de um lado a outro, e nem seguiremos juntos dele, porquanto haverá outros níveis de compreensão que precisamos conhecer. Restos das horas, isto é o que somos durante todo tempo. Ânsias, vontades, ausências, tudo, afinal, em uma só persistência de vencer a fuga dos momentos que escorrem pelos nossos dedos na direção do Infinito. Houvesse alternativas outras que não fossem deixar correr o rio do Tempo e seríamos os criadores da Natureza. No entanto cabe assistir esse fluir do movimento e admirar as possibilidades que pesam em nossas mãos. Enquanto que, mesmo assim, dispomos das razões de viver com intensidade o direito de investir nessa construção da consciência diante do fugidio. Trabalhar todos os meios de que dispomos a fim de encontrar a libertação da fragilidade humana. Quais destinados à preservação de nossas almas, relutamos em desaparecer, vez que inexiste tal perspectiva.

Sempre nos deparamos com este quadro a qualquer instante. Ninguém significa inexistência. Dentro de toda pessoa viverá acesa a chama perene na descoberta dos caminhos que levarão ao definitivo, fruto da condição de todos, no senso da Eternidade. Detectores da verdade, seguiremos estradas afora, artesões da nossa presença no trilho das leis definitivas. Este o condão essencial do que somos, seres talhados ao crescimento e senhores, lá um dia, do poder de partilhar diretamente dos segredos universais da Criação.

Essas aves da salvação, conduzimos a perfeição em forma latente, força inesgotável da ciência e espíritos da imortalidade. Bem aqui, por isso, trazemos a luz guardada em nossos corações, que brilharão aos céus no tempo certo da plenitude, que ora trazemos em nós na forma de filhos diletos do Infinito que aqui habitamos. 

 (Ilustração: O espelho infinito, de Yayoi Kasuma).

01 maio 2021

O valor da cultura - Por: Emerson Monteiro


A história mostra bem isso que quero aqui dizer, de quando um povo pretende dominar outro o primeiro que faz é minar gradualmente sua cultura até o total desaparecimento. Vai sendo assim no decorrer dos tempos, o imperialismo que o diga. Antes quebram os laços originais das tradições, das famílias, dos monumentos, das religiões, da literatura, dos folguedos populares, das lendas, dos dialetos, e depois trazem as latarias das dominações deslavadas, destruindo a alma de um povo na maior sem cerimônia. Quem deseja pode pesquisar e ver de perto o tanto de perversão que arrasta a ganância dos impérios. Ameaçam, agridem, desfazem tudo de sagrado na consciência daquelas culturas, e fomentam superficialidades outras fora de raízes; massificam, pois, usando termo dos dias recentes.

O século XX apresenta essa cara nos diversos continentes. Primeiro, com o Império Inglês, seguido pela fúria nazista, adiante os russos e os americanos, máquinas de guerra que, infelizmente, solaparam os anseios de paz das muitas horas de sonhos. Havíamos vistos outros exemplos, no cordão do passado. Roma. Israel. Portugal. Espanha. Tantos e tantos predadores que marcam o elenco dos poderosos, tudo a troco de nada, qual se vê hoje, na devastação que repetem, ferindo de morte as possibilidades da Civilização.

Isto deixando de lado a utilização inconsciente dos recursos naturais, da herança da humanidade inteira, nesta época de superpopulação e fria indiferença dos líderes, voltados tão só a interesses imediatos e benefícios de grupos, num acúmulo de obscurantismo de causar apreensão, diante de fase escura que atravessa o mundo inteiro.

Na década de 60, as nações ricas mobilizaram seus conhecimentos científicos na intenção da descoberta de uma saída para os céus, através da corrida espacial. No entanto viu-se, porém, face à irrealidade; eram insuficientes os meios disponíveis a vencer o mais pesado que o ar. Pelo que indicam nítidas conclusões, a raça humana terá de resolver consigo mesma esta equação e aceitar que todos somos irmãos navegando os mares do Infinito.

(Ilustração: A dança dos camponeses, de Pieter Brueguel o Jovem).