04 abril 2021

Os Dias Grandes – por José Luís Lira (*)

 

     Logo na sexta-feira que antecede a Semana Santa nós entrávamos no clima da Paixão de Cristo. A imagem de Jesus carregando a cruz percorrendo as principais ruas e o encontro d’Ele com Maria, sua mãe, Nossa Senhora das Dores, nos emociona(va) profundamente. Quando morávamos no sítio, sábado era dia de ir à cidade comprar os mantimentos para os Dias Grandes, sem esquecer-se de trazer um pouco a mais para doar aos que vinham pedir “esmolas” para o jejuar. Ainda no sábado à tarde, acompanhávamos nosso pai para a retirada do melhor “olho” de palmeira para o Domingo de Ramos, quando íamos à Missa vespertina e voltávamos para casa contritos, pois, os dias seguintes seriam de profunda reflexão. De início, não lembro bem, penso que o feriado se estendia por toda a semana. Assistíamos na TV, em preto e branco, a Paixão de Cristo, em vários episódios. Como no sítio só tinha TV lá em casa, os vizinhos acorriam e esta era posta do lado de fora, quando não chovia. Nossos vizinhos, parentes, amigos e nós mesmos, nos emocionávamos. 

     Com o passar do tempo, o feriado foi se resumindo. Só a partir da quarta-feira de trevas, data que lembra a traição de Judas e a entrega de Jesus aos seus carrascos, era feriado. Depois, o feriado se dava a partir quinta-feira santa, data importantíssima para os cristãos e, especialmente, para os cristãos-católicos: celebração do lava-pés, instituição do sacerdócio e da Eucaristia. Atualmente o feriado é sexta-feira da Paixão. Mas, no íntimo continuo achando que a semana toda é santa. São os dias mais importantes para a nossa fé cristã. Temos um vínculo deles com o Natal, pois, o Deus que se fez menino terno naquela festa, após sofrer horrores, por amor a nós, ressuscita/renasce triunfalmente.

     A mim, no ambiente familiar, sinto o mesmo clima em relação àqueles sagrados ritos e a o preparo para os Dias Grandes. Esta semana o papai, atento, se preocupava em comprar queijo, em saber se o feijão “novo” plantado lá no sítio estará bom na Semana Santa. A mamãe lembrava que sexta-feira de Passos não comeríamos carne e parecia que o tempo voltara. O clima de Semana Santa, como antigamente, se renovou. A exemplo do ano passado, essa Semana Santa é atípica. Assistimos à Missa de Ramos pela TV, no Sítio Monte Alegre. Os outros ritos sagrados também. E a mesa com tantos convivas não teve espaço este ano. É momento de reflexão e de pedir a Deus o fim da pandemia.

     As celebrações desde mais de um ano, me fazem recordar poema do amigo Dr. Ronaldo Frigini, “Templo vazio”, escrito ano passado: “Eu vi, Senhor/ Os bancos de teu Templo vazios/ Todos os teus não estavam neles/ Mas Tu estavas lá.// Eu vi Senhor/ O teu ungido a dignificar-Te/ E proclamar a Tua palavra/ Por que Tu estavas lá... Eu percebi Senhor/ Que embora estejamos cada um no escondido/ Tu nos dás força e coragem/ Para, no tempo que é Teu, podermos voltar para lá”.

       Participamos de celebrações, rezamos em família, jejuamos na sexta-feira santa e cantaremos Aleluia neste Sábado Santo, em preparo à Páscoa, pois, o Senhor Ressurgido da morte sobre nós derrama bênçãos, tudo assistido em casa. Emocionados, renovamos a sempre esperança de que a Páscoa do Senhor nos traga o fim da pandemia e a paz que aspiramos!

    Feliz Páscoa do Senhor Jesus!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


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