27 março 2021

Especial – Museu Diocesano São José: 70º ano– por José Luís Lira (*)

 


    Falando sobre o Museu Diocesano Dom José, Gustavo Barroso afirmou: “O Museu de Sobral é na realidade o terceiro do Brasil”. Dom José Tupinambá da Frota, primeiro Bispo Diocesano, declarou o Museu Diocesano de Sobral fundado no dia 29/03/1951, quinta-feira após a Páscoa. Dom José teve sua educação para o sacerdócio dividida entre Salvador e Roma. Em Roma, conheceu os dias do pontificado de Pio X e, certamente, espelhou-se nos Museus Vaticanos para criar em sua Diocese um Museu. Para isso não mediu esforços. São muitas as provas disso. E aqui destaco trecho de uma carta de Dom José ao então Vigário de Guaraciaba do Norte, Mons. Antonino Soares, data de 25/11/1951, registrada na folha 87-v do Livro nº. 2, do Tombo Paroquial. Dom José queria acoplar ao acervo do Museu de lâmpada existente na Matriz da cidade serrana então pertencente à nossa Diocese.

    O povo da cidade não aceitou e o bispo, mostrando sua grandeza, diz ao então Pe. Antonino: “... não passou nem sequer de longe pelas minhas cogitações constranger o povo de Guaraciaba e muito menos praticar uma extorsão, porquanto, tudo isto está muito fora dos meus hábitos e da minha dignidade. Com desagradável surpresa soube da celeuma provocada por um cidadão que por meio da amplificadora local concitou o povo a levantar-se contra essa troca. Não era preciso mais do que pedir a V. Revma. que não consentisse nessa operação, e estaria tudo acabado”. Assim com dificuldades e abnegações como a compra, com recursos próprios, de um museu fechado em outro Estado, Dom José constituiu este patrimônio incalculável para Sobral, o Ceará, o Brasil e o mundo.

     A construção que abriga o Museu é datada de 1844, um sobrado, de grande valor arquitetônico, com 57 janelas externas, dispostas ao longo de dois pisos e conserva características do estilo imperial. Dom José o adquiriu ali instalou o Palácio Episcopal. Na escritura de compra e venda, data de 8/01/1934, no 1° Tabelionato Pedro Mendes Carneiro, lemos: “um sobrado à rua Senador Paula, número cento e quatro, conhecido por sobrado do Prolongamento desta cidade. Adquirente: Patrimônio da Diocese de Sobral, legitimamente representado pelo Exmo. e Revmo. Sr. Bispo Diocesano, Dom José Tupinambá da Frota. Transmitentes: João Cavalcante e sua mulher, D. Joaquina Saboya de Albuquerque e Silva”. Nosso primeiro Bispo nele residiu até sua morte, em 25/09/1959. Com sua morte, seu então bispo auxiliar, Dom José Bezerra Coutinho, foi escolhido vigário capitular e se tornou diretor do Museu Diocesano de Sobral, já o denominando de Dom José, em homenagem ao primeiro e grande bispo de Sobral e iniciou o processo de transição de Palácio Episcopal para Museu Diocesano Dom José, visto que se mudou para outra residência, deixando, inicialmente a Cúria que depois foi transferida e o prédio efetivou-se Museu.   

      Os dois bispos que sucederam a Dom José, Dom Motta e Albuquerque e Dom Walfrido Vieira, dirigiram o Museu Diocesano. Na sequência, o Mons. Joaquim Arnóbio de Andrade até 1971, o Mons. Sabino Guimarães Loyola o assumiu, se mantendo no posto até 1978 quando o Pe. Joviniano Loyola Sampaio se tornava diretor e permaneceu na função até 1980; de 1980 a 1990 foi o Mons. Manuel Valdery da Rocha; de 1990 a 1996, a primeira leiga assumiu o Museu, a Professora Minerva Sanford que em 1996 passou a condução do Museu a Professora Giovana Saboya Mont’Alverne que assumiu tendo a Professora Hilce Girão Capote na vice-diretoria e permaneceu por mais de 20 anos na função. A Profa. Giovana permaneceu até 2015 quando assumiu o Professor Antenor Coelho que permaneceu até este 2019 e de 2019 para cá, imerecidamente, estou eu na direção do Museu. Por dever de justiça, destaco a contribuição do Prof. José Teodoro Soares para a última restauração pela qual passou o prédio do Museu e sua manutenção.
    O rito da tradição católica envolveu o ato de minha posse e jurei cumprir o mandato com a mão sobre a Sagrada Escritura, diante do Sr. Bispo Diocesano de Sobral, Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos, grande entusiasta e incentivador do Museu, e do Conselho Presbiteral da Diocese de Sobral. Dia seguinte foi a posse diante do Reitor da Universidade Estadual Vale do Acaraú, Prof. Fabianno Carvalho, e da Vice-Reitora, Izabelle Mont’Alverne. A ocorrência de duas posses cumpre o preceituado no convênio entre a Diocese e a UVA. O Museu Diocesano Dom José está vinculado ao Departamento de Patrimônio da Diocese de Sobral, dirigido pelo Pe. Airton Liberato.

     No momento, o prédio do Museu passa por projeto de restauração e reestruturação, realizado pela Prefeitura Municipal de Sobral e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), por meio do PAC Cidades Históricas e celebramos seus 70 anos nesta Segunda-Feira Santa, dia 29 de março, sem grandes celebrações tanto pela restauração quanto pela pandemia. Mas, com a graça de Deus, neste ano septuagenário a Casa da Sobralidade, o Museu Diocesano Dom José reabrirá as suas portas e vamos celebrar essa grande efeméride, em prédio atualizado às necessidades atuais e livres da pandemia!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.
 

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