31 março 2021

Padre Pedro Inácio Ribeiro, outro santo do Cariri – por: Armando Lopes Rafael

 

Lembrança distribuída na missa de 7º Dia do falecimento do Padre Pedro Ribeiro

    Existe na cidade de Brejo Santo um pequeno memorial em homenagem ao Padre Pedro Inácio Ribeiro – onde estão expostos objetos de uso pessoal deste sacerdote –vigário daquela cidade durante exatos 33 anos. Padre Pedro Ribeiro morreu com fama de santidade e muitas pessoas asseguram ter obtido graças por sua intercessão.

    Nascido em Missão Velha, em 19 de maio de 1902, Pedro Inácio passou sua infância e juventude na cidade de Crato. Sentindo inclinação para o sacerdócio estudou no Seminário São José de Crato e no Seminário da Prainha, em Fortaleza, vindo a ser ordenado sacerdote no dia 17 de abril de 1927, na Catedral de Nossa Senhora da Penha de Crato, pelo primeiro bispo da diocese, Dom Quintino. Em 1º de janeiro de 1930 assumiu a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, de Brejo Santo, onde permaneceu até a data do seu falecimento, ocorrido em 3 de janeiro de 1973. Em Brejo Santo seu sacerdócio não foi vivido mediante obras especiais ou de caráter extraordinário, mas sim na fidelidade cotidiana do exercício do ministério que abraçou. Reside aí, provavelmente, a dimensão da santidade sacerdotal atribuída ao Padre Pedro Ribeiro.

   Na verdade, ele viveu seu sacerdócio na consistência do amor a Cristo e a sua Igreja; no amor aos pobres e necessitados; na compaixão pelas almas desviadas e no amor pela pregação do Evangelho de Jesus Cristo. Aliado a tudo isso, a simplicidade, mansidão e humildade de que era dotado o Padre Pedro Ribeiro contribuíram para ele conquistar o afeto de adultos e crianças. Todos em Brejo Santo tinham carinho por seu pastor.

    O trabalho missionário de Padre Pedro não foi feito somente no município de Brejo Santo. Durante alguns anos ele deu assistência ao povo da cidade e da zona rural de Porteiras, conforme atesta o historiador Napoleão Tavares Neves, no texto “O Padre Pedro que conheci”, escrito a partir da leitura feita por ele do opúsculo “O Santo do Sertão–Uma biografia”, publicado pela Fundação Memorial Padre Pedro Inácio Ribeiro, de Brejo Santo.

    Segundo Maria Santana Leite – na monografia “Pequena História da Paróquia de Brejo Santo”: “O Padre Pedro foi sempre um pai espiritual para todos os paroquianos. Estava sempre preocupado com os agricultores sofridos, especialmente na época da seca, quando as famílias pobres da zona rural passavam necessidades. Era um entusiasta com a catequese das crianças a quem dedicava um carinho todo especial, participando das aulas de catecismo, levando-as a passear em momentos de lazer, promovendo brincadeiras, além de distribuir moedas e pequenos brindes à criançada.

“Evangelizou mais com seu desprendimento das coisas materiais, sua vida de oração, adoração e contemplação; pelo seu testemunho de vida, do que mesmo pelas pregações, embora nunca deixasse de fazer as homilias por mais simples que fosse. A tônica de suas pregações era sempre o amor, a partilha, a vida de santidade. Sua metodologia era a do perdão. Pregava um Deus Pai amoroso, misericordioso. Nunca julgava nem condenava ninguém, pelo contrário incentivava e conduzia à conversão.

“Além do Sagrado Coração de Jesus, era devotíssimo de Maria Santíssima, de Santa Teresinha do Menino Jesus e de São Geraldo”. Nos últimos quinze anos de sua vida, Padre Pedro Inácio Ribeiro foi acometido de forte reumatismo que o deixou paralítico. Nos tempos finais perdeu também a visão. Nunca reclamou de nenhuma dessas provações. Ele foi, enfim, um sacerdote bom, piedoso e santo, que fez um bem imenso aos seus paroquianos.


29 março 2021

8 de março: há 213 anos a Família Real Portuguesa desembarcava no Rio de Janeiro – por Armando Lopes Rafael (1ª Parte)

   A transmigração da Família Real Portuguesa para o Brasil foi iniciada em 29 de novembro 1807, data do embarque da comitiva, com um séquito de mais de onze mil pessoas. Essa comitiva aportou em Salvador, na Bahia, no dia 22 de janeiro de 1808, Ali demorou-se cerca de um mês rumando para o Rio de Janeiro, aonde desembarcou 8 de março do mesmo ano.

    Conquanto o motivo imediato dessa transferência fosse a invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão Bonaparte – que vinha com o plano de extinguir a dinastia dos Bragança e dividir as terras de Portugal, e de suas colônias, entre a França e a Espanha – o plano de deslocar a corte portuguesa para o Brasil era uma ideia bem antiga. A primeira vez que se cogitou nesse plano foi entre 1640 e 1668, durante a guerra de independência de Portugal contra a Espanha. Registram os historiadores que, àquela época, o famoso Padre Antônio Vieira sugeriu ao Rei Dom João IV a transferência da sede do reino português para o Brasil, com o objetivo de aqui fundar o Quinto Império – um reino católico e português – que seria o substituto do Império Romano como líder do mundo.

     Já no século XVIII, em 1731, o diplomata e político Dom Luís da Cunha sugeriu, em suas Instruções Políticas, que Portugal estabelecesse sua corte no Brasil e, a partir do continente americano, refundasse sua monarquia com o título de Império do Ocidente. Ainda no século XVIII – entre 1761 e 1763 – diante da ameaça de uma invasão franco-espanhola ao solo lusitano, o Marquês de Pombal chegou a determinar a formação de uma esquadra para levar ao Brasil o Rei Dom José I e sua corte.

Os benefícios da vinda da Família Real Portuguesa para o Brasil – por Armando Lopes Rafael (2ª Parte)

      O jornalista Laurentino Gomes – autor do livro 1808 – em artigo sob o título “O ano em que o Brasil foi inventado” (in revista Aventura da História, edição 54, janeiro de 2008) afirmou peremptoriamente:

“O Brasil foi descoberto em 1500, mas inventado como país em 1808. Nenhum outro período da história brasileira testemunhou mudanças tão profundas, decisivas e aceleradas quanto os 13 anos em que a corte portuguesa permaneceu no Rio de Janeiro. Num espaço de apenas uma década e meia, o Brasil deixou de ser uma colônia proibida, atrasada e ignorante para se tornar um país independente. Portanto, o que se comemora em 2008 não são apenas os 200 anos da chegada da corte ao Rio de Janeiro. O próprio Brasil está fazendo aniversário”.

    É verdade. Tudo mudou com a chegada do príncipe-regente ao Brasil. Na escala em Salvador – aonde chegou em 22 de janeiro de 1808 tendo ali permanecido por quase um mês – a primeira medida de Dom João foi a abertura dos portos da colônia às nações amigas. Quebrava-se, assim, o monopólio do comércio com Portugal. Ainda em Salvador, Dom João VI criou o ensino da medicina no Brasil, com a fundação da primeira Escola Médica do país. Concedeu licença para construção de duas fábricas, uma de vidro e outra de pólvora, além de ordenar a feitura do plano de defesa daquela cidade.

     Já no Rio de Janeiro, Dom João consolidou aquela cidade como o centro de decisão da colônia. Editou o regulamento da Administração Geral dos Correios, criou as Escolas de Medicina e a Superior de Técnicas Agrícolas; um laboratório de estudos e análises químicas; as Academias: Real Militar (que incluía cursos de Mineração e Engenharia Civil) e a de Guardas-Marinha. Ali, o príncipe regente revogou um alvará que proibia a fabricação de qualquer produto no Brasil. Surgiram, então, as primeiras indústrias brasileiras: a fábrica de ferro, em Congonhas do Campo, moinhos de trigo, fábricas de tecidos, cordas, pólvora e barcos. 

    Dom João criou ainda: o Supremo Conselho Militar, a Intendência Geral da Polícia, o Erário Régio, o Conselho da Fazenda, o Corpo da Guarda Real e o Tribunal da Mesa do Desembargo do Paço e da Consciência e Ordens, ou seja, o Judiciário Independente do Brasil. Posteriormente, o príncipe regente criou o Banco do Brasil e várias instituições culturais, como a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico, o Real Gabinete Português de Leitura, o Teatro São João, o primeiro jornal impresso no Brasil (a Gazeta do Rio de Janeiro), a Imprensa Nacional, o Museu Nacional, a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios.

     No entanto, o maior de todos os benefícios prestados por Dom João VI ao Brasil foi, sem nenhuma dúvida, a manutenção da integridade territorial do nosso país. Não fora ele, nosso país continental tinha sido dividido em 4 ou 5 republiquetas, semelhantes as existentes na América Central.

Conhecendo a herança arquitetônica do Império do Brasil – por Matheus Meirelles Marquetti.

O Paço Imperial

        A Família Imperial Brasileira residia no Palácio São Cristóvão (prédio que foi destruindo por incêndio em setembro de 2018), localizado na Quinta da Boa Vista, no Bairro Imperial de São Cristóvão, Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

         Entretanto, no Centro do Rio de Janeiro, na hoje denominada Praça XV, existia (e continua existindo) o chamado “Paço Imperial”, antigo gabinete de despachos das autoridades do Império. O Paço Imperial foi construído em 1743 para ser a residência oficial dos Governadores da Capitania do Rio de Janeiro, e posteriormente, serviu como residência dos Vice-reis do Estado do Brasil. Com a chegada da Família Real, em 1808, passou a ser a residência provisória de Dom João VI. Com sua mudança para São Cristóvão, e, posteriormente, serviu como gabinete de despachos até 1889.

         O Paço foi o local de vários acontecimentos históricos, podemos citar:
         - A Aclamação de Dom João VI como rei do Reino Unido de Portugal, Brasil e    Algarves (1816).
         - O "Dia do Fico" (1822).
         - Comemorações das coroações de Dom Pedro I e Dom Pedro II (1822 e 1841).
         - Assinatura da Lei Áurea pela Princesa-regente Dona Isabel (1888).


          Vale lembrar que em 1889, o Paço foi sitiado pelas Tropas de Deodoro que prenderam o Primeiro-ministro Visconde de Ouro Preto. E depois, a família imperial ficou detida nesse Paço Imperial, até sua partida forçada para o exílio, que durou 56 longos anos.



28 março 2021

Em tudo há duas rédeas - Por: Emerson Monteiro


As circunstâncias e as escolhas, duas rédeas do destino, chegam às nossas mãos. Em tudo tais alternativas reclamam das nossas atitudes e providências. Ninguém se ache isento de resolver qual dos caminhos seguir senão o das próprias escolhas, marcas definitivas do nosso êxito. Somos quais autores/diretores das nossas histórias, criaturas privilegiadas no âmbito da natureza, senhores da semente que houver de plantar. Circunstâncias e escolhas, a realidade e seus protagonistas, cocredores do Universo em eterno movimento.

Muitas vezes, na correnteza das situações, chegam os meios às posições que temos de escolher, e quais plantadores, lá adiante adquiriremos o produto da lavoura que o tempo germinou com inevitável facilidade. Nisso, de comum, talvez por falta de conhecimento, quantos e quantos deixam de considerar os frutos justos das suas plantações, sofrendo horrores da inconformação, no entanto herdeiros inquestionáveis dessa justiça maior que dominar o Cosmos.

A ninguém, por isso, ignorar o desconhecimento da Lei, face à lente da consciência, voz geral em todos os humanos, que indica a presença dos dias e mostra os frutos das escolhas. Ainda que desfrutemos, pois, dos maiores benefícios das chances que tivermos na mão, cuidemos, carinhosamente, de acertar nos critérios de reciprocidade, e querer aos outros o que queremos a nós mesmos, norma essencial da lei que tudo rege.

Horas sem conta, a compreensão desses conceitos passa pelos nossos praticados, justos arqueiros das setas que disparamos. Claro que, no fervor das ocasiões, nem sempre adotamos as medidas de melhor convenientes, porém novas e verazes circunstâncias representam a existência, matéria prima da escola onde aqui aprendemos viver.

Consequência de vícios e virtudes, assim a vida segue, nos âmbitos coletivo e particular, cavaleiros que significamos desse plano daqui do Chão. Parceiros dos resultados, usufruímos as bênçãos plantadas e aprimoramos ossos dias mágicos da felicidade e da paz.

Alguém lembrou?... Hoje é domingo de Ramos

 Príncipe Dom Bertrand: "Pelo Sagrado Direito de celebrar a Semana Santa

    Na última segunda-feira, dia 22 de março, o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, teve a grata satisfação de participar de uma discussão promovida pelo benemérito Centro Dom Bosco, do Rio de Janeiro, em defesa do sagrado direito de celebramos a Semana Santa, que se inicia neste domingo, dia 28 de março, com o Domingo de Ramos, em rememoração da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

     Devido a esta já longa e deplorável emergência, em todo o Brasil parece não haver um consenso se se deve fechar ou não o comércio e permitir ou não a circulação de pessoas em determinados horários, ou quais serviços são essenciais ou não. Contudo, paralelamente a essas discussões, coloca-se outro grave problema: pode um Governador, um Prefeito ou mesmo um Bispo suprimir aquela que é a mais importante celebração do calendário da Santa Igreja?


Imperatriz Dona Thereza Christina– A Mãe dos Brasileiros

 

   A Imperatriz Dona Thereza Christina se adaptou rapidamente ao Brasil. Seu completo alheamento em relação à política, sua generosidade para com os necessitados, seu sorriso terno e bondoso e o trato sempre amável ganharam a admiração de nosso povo. Sua Majestade se tornou a “Mãe dos Brasileiros”, a senhora mais popular e respeitada em todo o Império.

    Mas para que a auréola de sua esposa não fosse trocada por uma coroa de espinhos, o Imperador Dom Pedro II a aconselhou, com prudência e sabedoria, a limitar-se à sua dupla missão de esposa e mãe, e que nunca atendesse a pedidos de favores de quem quer que fosse, pois para cada pretendente servido, haveria dúzias e centenas de pretensões malogradas.

    A Imperatriz assim procedeu, e sempre que se atreviam a importuná-la com pedidos, sua resposta era:
– Isso é lá com o Imperador.

Fonte: Leopoldo Bibiano Xavier no seu livro “Revivendo o Brasil-Império”. 1ª ed. São Paulo: Artpress, 1991, página 159.

27 março 2021

Especial – Museu Diocesano São José: 70º ano– por José Luís Lira (*)

 


    Falando sobre o Museu Diocesano Dom José, Gustavo Barroso afirmou: “O Museu de Sobral é na realidade o terceiro do Brasil”. Dom José Tupinambá da Frota, primeiro Bispo Diocesano, declarou o Museu Diocesano de Sobral fundado no dia 29/03/1951, quinta-feira após a Páscoa. Dom José teve sua educação para o sacerdócio dividida entre Salvador e Roma. Em Roma, conheceu os dias do pontificado de Pio X e, certamente, espelhou-se nos Museus Vaticanos para criar em sua Diocese um Museu. Para isso não mediu esforços. São muitas as provas disso. E aqui destaco trecho de uma carta de Dom José ao então Vigário de Guaraciaba do Norte, Mons. Antonino Soares, data de 25/11/1951, registrada na folha 87-v do Livro nº. 2, do Tombo Paroquial. Dom José queria acoplar ao acervo do Museu de lâmpada existente na Matriz da cidade serrana então pertencente à nossa Diocese.

    O povo da cidade não aceitou e o bispo, mostrando sua grandeza, diz ao então Pe. Antonino: “... não passou nem sequer de longe pelas minhas cogitações constranger o povo de Guaraciaba e muito menos praticar uma extorsão, porquanto, tudo isto está muito fora dos meus hábitos e da minha dignidade. Com desagradável surpresa soube da celeuma provocada por um cidadão que por meio da amplificadora local concitou o povo a levantar-se contra essa troca. Não era preciso mais do que pedir a V. Revma. que não consentisse nessa operação, e estaria tudo acabado”. Assim com dificuldades e abnegações como a compra, com recursos próprios, de um museu fechado em outro Estado, Dom José constituiu este patrimônio incalculável para Sobral, o Ceará, o Brasil e o mundo.

     A construção que abriga o Museu é datada de 1844, um sobrado, de grande valor arquitetônico, com 57 janelas externas, dispostas ao longo de dois pisos e conserva características do estilo imperial. Dom José o adquiriu ali instalou o Palácio Episcopal. Na escritura de compra e venda, data de 8/01/1934, no 1° Tabelionato Pedro Mendes Carneiro, lemos: “um sobrado à rua Senador Paula, número cento e quatro, conhecido por sobrado do Prolongamento desta cidade. Adquirente: Patrimônio da Diocese de Sobral, legitimamente representado pelo Exmo. e Revmo. Sr. Bispo Diocesano, Dom José Tupinambá da Frota. Transmitentes: João Cavalcante e sua mulher, D. Joaquina Saboya de Albuquerque e Silva”. Nosso primeiro Bispo nele residiu até sua morte, em 25/09/1959. Com sua morte, seu então bispo auxiliar, Dom José Bezerra Coutinho, foi escolhido vigário capitular e se tornou diretor do Museu Diocesano de Sobral, já o denominando de Dom José, em homenagem ao primeiro e grande bispo de Sobral e iniciou o processo de transição de Palácio Episcopal para Museu Diocesano Dom José, visto que se mudou para outra residência, deixando, inicialmente a Cúria que depois foi transferida e o prédio efetivou-se Museu.   

      Os dois bispos que sucederam a Dom José, Dom Motta e Albuquerque e Dom Walfrido Vieira, dirigiram o Museu Diocesano. Na sequência, o Mons. Joaquim Arnóbio de Andrade até 1971, o Mons. Sabino Guimarães Loyola o assumiu, se mantendo no posto até 1978 quando o Pe. Joviniano Loyola Sampaio se tornava diretor e permaneceu na função até 1980; de 1980 a 1990 foi o Mons. Manuel Valdery da Rocha; de 1990 a 1996, a primeira leiga assumiu o Museu, a Professora Minerva Sanford que em 1996 passou a condução do Museu a Professora Giovana Saboya Mont’Alverne que assumiu tendo a Professora Hilce Girão Capote na vice-diretoria e permaneceu por mais de 20 anos na função. A Profa. Giovana permaneceu até 2015 quando assumiu o Professor Antenor Coelho que permaneceu até este 2019 e de 2019 para cá, imerecidamente, estou eu na direção do Museu. Por dever de justiça, destaco a contribuição do Prof. José Teodoro Soares para a última restauração pela qual passou o prédio do Museu e sua manutenção.
    O rito da tradição católica envolveu o ato de minha posse e jurei cumprir o mandato com a mão sobre a Sagrada Escritura, diante do Sr. Bispo Diocesano de Sobral, Dom José Luiz Gomes de Vasconcelos, grande entusiasta e incentivador do Museu, e do Conselho Presbiteral da Diocese de Sobral. Dia seguinte foi a posse diante do Reitor da Universidade Estadual Vale do Acaraú, Prof. Fabianno Carvalho, e da Vice-Reitora, Izabelle Mont’Alverne. A ocorrência de duas posses cumpre o preceituado no convênio entre a Diocese e a UVA. O Museu Diocesano Dom José está vinculado ao Departamento de Patrimônio da Diocese de Sobral, dirigido pelo Pe. Airton Liberato.

     No momento, o prédio do Museu passa por projeto de restauração e reestruturação, realizado pela Prefeitura Municipal de Sobral e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), por meio do PAC Cidades Históricas e celebramos seus 70 anos nesta Segunda-Feira Santa, dia 29 de março, sem grandes celebrações tanto pela restauração quanto pela pandemia. Mas, com a graça de Deus, neste ano septuagenário a Casa da Sobralidade, o Museu Diocesano Dom José reabrirá as suas portas e vamos celebrar essa grande efeméride, em prédio atualizado às necessidades atuais e livres da pandemia!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.
 

25 março 2021

Às vezes - Por: Emerson Monteiro


Quando menos espero, me pego lembrando pessoas a quem poderia ter feito mais e disso não me apercebi naquele momento; hoje, vêm as cobranças lá de dentro, do que me cabia fazer e, na ocasião; fui desatento, ou insuficiente. Isso pesa um tanto (como pesa), pelos corredores da consciência tais desleixos, por vezes de consequências nada felizes. Enquanto eu, bem ali perto, talvez a pessoa escalada de cumprir tal desiderato, no entanto fora omisso por demais. Lembro alguns desses acontecimentos que fugiram dos meus domínios por comodismo, e sendo a causa da ausência de sentido, naquelas situações. Contudo agora vejo que há sempre um novo amanhecer, outras oportunidades, a depender tão só da disposição e da atenção dos que possam servir no cumprimento do dever.

São estas percepções que fazem da gente criaturas afeitas às missões no serviço dos demais. Esta a dialética entre egoísmo e caridade, palavras adotadas sobremodo nas religiões. Abrir o coração e servir ao próximo qual razão de ser das existências, no exercício da evolução. Abrir o coração ao sentimento de amar, a grandeza maior do Universo.

Toda dedicação corresponde, pois, a respostas iguais e em sentido contrário. Quem faz o bem é a si que o faz. À medida que evoluem, os seres compreendem e agem deste modo. Eis a lição principal da natureza em todo tempo. Linguagem perfeita dos que querem a sonhada felicidade; abrir mão de ganâncias individuais e ver os outros quais instrumentos de nosso crescimento moral, espiritual.

Daí quando, nas vezes em que chegam as lembranças daquelas oportunidades perdidas, sempre peço que retornem de outra forma e anistiem os passados infelizes. A isso, estejamos sempre ligados nas novas chances que venham refazer dos erros antigos e construir a paz da consciência, através de providências que as situações possam requerer. Só sabe o quanto de satisfação tem servir com alegria quem o faz de um jeito desinteressado.

24 março 2021

Tipo assim - Por: Emerson Monteiro

 


A paz do coração, que tantos buscam todo momento, pedra de toque da história das pessoas, eis a necessidade do querer a felicidade, função de viver fundamental, desde sempre. Essência de existir, olhos insistem neste poder, lá um dia, de ter paz, a paz que tantos falam de sobreviver ao gesto de andar e lavar a alma nos trilhos da evolução. A razão de tudo, achar o pouso certo de assim permanecer diante dos dias, vontade por demais soberana que invade o tempo à nossa frente e traz de volta o motivo de tudo quanto há.

Nessa missão de revelar a si o ser verdadeiro que mora em nosso coração, por vezes muda o dia, leva pessoas a exercitar o desespero qual alternativa, porém infundada e, de longe, esquecer do quanto de acerto tem o mundo. Ampliar as normas de sabedoria e praticar novos meios de alimentar o sonho de viver bem, no seio infinito da paz. Usar as técnicas de querer aos outros o que quer a si mesmo. Quem quer paz, invista na paz tudo enquanto...  

Desse jeito, de modificar o instinto em meios de intuição, aprender na experiência e justificar os praticados pela intenção de tratar o mistério com a letra da justiça, gesto simples de fazer e receber o que seja bom. Ir ao lado da própria existência como amigo e ver com a lente da limpeza, ainda que nem tudo já esteja limpo em volta.

O valor da boa música, a harmonia, a melodia, o ritmo, que nos toque a sensibilidade no esforço de crescer durante as horas; trabalhar a existência tal matéria prima de aprimorar a consciência e ser feliz.

Este dia será sempre no agora, forma simples de aceitar as contradições e reparar nos tempos os recursos que se nos oferecem; exercitar a alegria pela alegria, pela saúde, no tribunal de nossa presença. Sei que há desafios, sendo este o principal, de conhecer a nos mesmos e utilizar as teclas ideais das nossas aspirações; poder inigualável, que vive intenso no ato de existir. Tipo assim...

23 março 2021

Horas mil em um tempo de ficção - Por: Emerson Monteiro


A condição de se saber aqui neste chão das almas implica nisso, de sobrevoar a existência e querer dela fugir, qual quem foge da realidade. E nada mais misterioso do que essa realidade fria, artificial, e seus instrumentos de voo, peças soltas no ar das florestas em movimento nas pessoas e nas coisas, módulos e naves que flutuam pelas artérias do destino. Quantos segredos assim são revelados a todo instante. Cores. Formas. Luzes. Pensamentos e sentimentos. Entre eles, duas extremidades inconstantes, corre este rio das evidências, no entanto isolado pelas sombras que as escondem, pessoas que fogem de si e, aflitas, mergulham na imaginação de ser só, ninguém, de atravessar a linha do horizonte e desaparecer lá além, na consciência intocada. Sonhos. Visões. Abstrações. Medo. Ficção.

Módulos, deixados no tempo que agora nem existe mais, fixam raízes na solidão, tais puros saltimbancos de verdades que a eles parecem representar o senso e mesmo assim as evitam, porque representam valores da essência e os transformam nos encapuzados vadios da escuridão, vilões do sol, e nisso adiam até nem poder ao encontro dessas linhas paralelas, pensamentos e sentimentos. Enquanto os primeiros carregam nas tintas de criar ilusões, os segundos amarguram o que poderiam de amar e não deixam isto acontecer, o sentimento maior, a fim de atender aos instintos originais e vencer de tudo os primeiros, titulares perdidos em noites antigas. Uma queda de braços, pois, desses dois personagens, que desejam dominar o ator principal no ser que o somos, no entanto pura criação de sentenciados ao nada desde sempre, e querem a qualquer custo tomar o lugar, fornecendo amores impossíveis nas paixões desenfreadas.

Portanto, há infinitas horas de mergulho nas profundidades desta ficção, no largo período de espera sem fim na casa da humana paciência. Durante o percurso do longo itinerário, nesse esforço de construir inexistências, aqui permanecemos lado a lado com nossos algozes, senhores ainda escravos dos próprios caprichos, na função soberana de aprender a amar os inimigos, meros coadjuvantes de um zigzague febril, experimentos da multidão de prometeus dos rochedos, nas horas mortas. Ali, no íntimo dos céus, riscam distantes estrelas, no coração dos que vivem e confiam.

(Ilustração: Aquiles, o herói por excelência, de Arnóbio Rocha).

Cartas da Juventude - Por: Emerson Monteiro


Em mãos, exemplar do livro Cartas da Juventude, organizado por Assis Sousa Lima, edição da Confraria do Vento, Rio de Janeiro, 2020. São cartas que Assis recebeu de seis amigos, que as preservou com zelo e agora lança numa bem cuidada edição apresentada por Ana Cecília de Sousa Bastos e José Esmeraldo Gonçalves, com o subtítulo: Crônica de época. Recortes autoetnográficos (1968/1977). Autores das cartas: Emerson Monteiro, Eugênio Gomez, Flamínio Araripe, José Esmeraldo Gonçalves, Pedro de Lima e Tiago Araripe.

Obra de referência aos que buscam elementos largados no tempo mas que sobrevivem à sua ação. Cartas entre amigos num período humano de profundas contradições. Eram plena Guerra do Vietnam, rebeliões coletivas de estudantes nas principais cidades europeias, ascensão do rock tal instrumento de contestação, festivais da canção, movimento hippie, Guerra Fria, psicodelismo, regimes de exceção na América Latina e noutros lugares, tropicalismo, em suma, tempos de crise profunda em caráter mundial. Nisto, a expressão desses jovens em vias de elucidar o futuro e resistir aos desafios propostos aos que possuem o senso da criatividade artística, na música, na literatura, artes plásticas e, sobretudo, no afã de descobrir alternativas de sobreviver aos valores materialistas que dominam a sociedade contemporânea.

Nas palavras de Assis Lima: O objetivo não é teorizar sobre o que representam os anos finais da década de sessenta e da década de setenta com relação a costumes, comportamentos e ideologias. Mas sim, de algum modo, revisitar o período com o espelho de hoje. Um fio narrativo atravessa cada personagem. Um plano narrativo maior abarca o conjunto do material apresentado. Depende do ângulo da leitura. Aberto ao leitor.

Dito, pois, qual matéria prima de avaliar em profundidade o que acontecia à época, de dentro dos autores das cartas, o livro traz força de expressão, em estilo confessional, despretensioso, anônimo. São testemunhos de um tempo sombrio, de onde provêm os dias da atualidade.

Enquanto isto, Ana Cecília Bastos considera: Não é possível atravessar sem portas: que este livro – documento vivo de sonhos de liberdade – seja, também hoje, uma afirmação de abrir portas e dissipar sombras.

E José Esmeraldo resume: Este livro alcança a memória e resgata sentimentos íntimos de um grupo de amigos no momento em que, tais quais milhares de outros, faziam suas legítimas escolhas pessoais e profissionais.

Com isto, eis uma produção coletiva de cunho documental, editada décadas depois com esmero, acontecimento digno dos fieis credores das boas letras.

22 março 2021

O poder criador - Por: Emerson Monteiro


Pela força da iniciativa, os humanos transformam o ato de viver numa ação renovadora, pela força do querer. Perto de si, no entanto vezes distante, essa capacidade inerente e tantas oportunidades largadas ao relento. Antes de tudo que sejam eles a fonte desse poder infinito de criar, desde as concepções da existência pessoal, motivos de viver, ou desistir, que precisam conhecer mais e mais das próprias possibilidades através dos aspectos positivos dentro de si. A mesma força que destrói ela constrói, qual dizem na Bahia, toda maré que enche, vaza. O valor inestimável da fé, potencial imerso de realização que usufruem todo instante, necessidade da visão aprimorada e do sentimento , que venha e domine as ondas de pensamento, campo vasto da evolução espiritual. 

Há nisso o dispositivo da concentração mental, instrumento que conduz o equilíbrio aos devidos lugares. Espécie de sensor dos mistérios da Natureza, a intuição capta ondas e as encaminha por meios invisíveis, porém presentes sem cessar no transcorrer das horas. Somos o que pensamos, pois. Criamos disso, do que produzem os pensamentos e os sentimentos. 

A que considerar, contudo, a relevância desse grau de compreensão individualmente. Assim é se lhe parece, no falar do povo. Durante as práticas de viver, diferentes formas de reagir ao desconhecido determinam os frutos da caminhada. Isso resume os estudos das abstrações durante as civilizações, gravado nos livros, nos monumentos, nas religiões, nas filosofias, etc. Um a um, transmitem às gerações até onde chegam os mestres, escritores, profetas, evidenciando a qualidade do pensamento e seu controle, sua condução, sua prática no cotidiano. 

Eis um poder infinito que se tem, de plasmar o que aperfeiçoa o âmbito da alma e exterioriza seus praticados. Poder de criar, a necessidade primeira, da qual procedem as demais. Disso o valor das histórias, das experiências... Ninguém possui exclusividade quanto a determinados conhecimentos. Mora em nós a revelação infinita de tudo quanto possamos conquistar durante as vidas e trazer ao nível da humana criatividade. 


21 março 2021

Na escola deste universo - Por: Emerson Monteiro


Talvez alguns imaginassem existir, e só existir. Largados aqui fossem aos segredos desse movimento constante, vagassem testando as barreiras do tempo na medida das suas necessidades, ou que fossem tão só sombras do vento, meros incidentes da natureza, abandonados aos caprichos dos acontecimentos ocasionais. Talvez...

Esses aventureiros dos céus, igualmente viajantes do trem das horas, sem cessar batem calçados nas estradas; comem, dormem, trabalham, navegam, viajam, descem e sobem nas costas uns dos outros; estiram pernas em lugares os mais indefinidos; manjam e saem pelas portas dos fundos quais protagonistas de cenas que viraram fumaça na medida em que perdem a força de viver, e tudo. No esforço de responder aos tais testes, todavia, reúnem do pouco que aprendem e acalmam o instinto de continuar olhando no passado, quais quem não desejasse perder o trilho e continuar sempre a sina de ganhadores espertos.

Quadro esse, no entanto, que exige largo esforço dos protagonistas, de saber disso quase nada, a que não ser que chegaram de não sei onde e irão a lugar algum, vêm e vão aonde ir, e muito dessa jornada rumo às estrelas lhes parece ficção. Livros e livros, professores, funcionários, edifícios, multidões, nesse rio que flui de dentro e de fora das criaturas que nascem e rolam no azul das claridades. Todo esse tempo, que vibra nas conversações, aulas abertas, experimentar e sofrer, e amar, e conhecer, luzes dos olhos das manhãs, e desaparecem lá longe, no final das tardes silenciosas. 

Há que estar aqui... Eu sei. Sobreviver aos escombros das saudades, ao escarcéu dos conflitos, à fome das ilusões, nas quedas aos braços da inexistência deste chão temporário e delicioso várias vezes. Salões enormes e peças largadas inúteis, porém na razão de ser dalguma superfície que existirá no íntimo das montanhas da consciência. Vontade maior de sustentar o mistério de que são elaborados eles encontram entre tempo e espaço, doces repastos das ausências que de si carregam no peito.

Vários até se aventuram querer revelar o que lhes dizem os pensamentos, os sentimentos, meditações, sonhos, imaginação; contudo meras palavras que apenas traduzem o instinto desse dizer sem conta, e esperam das pessoas o que nem podem dar a elas, a real transformação naquilo em que ouvem os sons do coração de uma Eternidade esplendorosa.

(Ilustração: O vazio, de Daniela Agostini).

20 março 2021

As rédeas do destino - Por: Emerson Monteiro


Um jeito de firmar os caminhos pelos quais têm de viver durante a história das criaturas, qual segurar os animais que os carregam às costas, nesse chão de transportar o tempo e divisar as alternativas imagináveis... A força ideal de sustentar o comando desses animais, que fervem no senso das pessoas em forma de instintos, apetites por vezes acelerados, na secura de preencher os dias nas iras do prazer, dos desejos, quiçá insanos, de satisfazer as feras que percorrem soltas, selvagens, os corredores dessas entidades que andam fugidas nas florestas do sol... Meios de conter o medo, a culpa, o formato das ações desses sorrateiros adversários de si a andar vadios nos desvãos do firmamento, vultos exóticos das sombras que eles mesmos arrastam diante das incertezas desta galáxia do imprevisível de tantos resultados e pouca ou nenhuma consciência absoluta da plena sorte... Que fazer, no entanto, aonde desvendar essa fórmula ideal do gesto eficaz...

São isso as rédeas do destino, providências sublimes de vencer as barreiras do anonimato e do conhecimento das reais transformações pelas que deverão passar as tais alimárias que percorrem essas encostas do inesperado. Luzes que alumiam as estradas inexistentes das horas, contudo disso ninguém haverá de fugir face ao método com que aqui elaboramos as entranhas dos seres inteligentes relativos que o somos. Máquinas pensantes, as mais perfeitas feitas até então, parceiras das dúvidas durante certo prazo de existir na razão das descobertas das suas reais finalidades. Bem isto, peças de uma engrenagem maior que conquista gradualmente o equilíbrio do Universo através desses entes que enchem as trilhas sem, ainda, conhecer, na verdade, o significado destes valores que as conduzem à Salvação. 

E domar as alimárias que os arrastam ininterruptamente no barco dos instantes eis bem a que vêm todos eles, exército de buscadores de luz e aves de arribação do espaço rumo de resolver o próprio destino com as raras notícias que recebe das esferas superiores. Cápsulas presas na alma da existência, equações de possível solução.

(Ilustração: Elijah and chariots of fire).

19 março 2021

Mundos simbólicos em movimento - Por: Emerson Monteiro


Seres esses que se imaginam todo momento, que dormem e acordam sob o signo das figuras do pensamento, cercados das impressões que lhes trabalham à velocidade da luz; os seres humanos. Vivem postos nos cercados de símbolos constantes. Longe de si o desejo de jamais sonhar, conquanto vivem disso, dos sonhos inevitáveis, máquinas de produzir filmes no juízo da consciência; às vezes, em forma de palavras; às vezes, nos sons, imagens, visagens, impressões, desejos, amabilidades, saudades, planejamentos de anseios novos, viagens, afrontas e visões, o que nem sempre corresponde só a bem-estar das suas necessidades, pois deitam margem aos longos desertos de esperança e de fé ainda afastados.

Mas bem isto, essa espécie de criaturas bizarras vagando pelas sombras das próprias apreensões, antagonistas de si mesmos em atividade incessante; peças de quebra-cabeças desencontrados, sublimes. Riem por dentro; choram por fora; exercem papéis duplos, estruturas metálicas feitas de autores fantásticos, marcas largadas aos campos de batalha e que festejam a paz quase nunca duradoura. Eles, animais de sorte incerta, que jogam ao mar da vida pequenos botes que se desfazem num segundo e nas visões esquecidas na praia. Seres, antes de tudo, seres.

Houvesse alternativas de construir outras arcas da aliança, lançar-se-iam aos céus em naves silenciosas, à procura das almas dos que se foram no alvorecer, escafandristas do tempo traduzidos nessas lâminas de imagens feitas nas oficinas do mistério. Vagariam soltos pelo espaço dos dias, olhos postos em vencer apegos e egoísmos, entretanto máquinas de possessividade a todo preço. São isto os habitantes da solidão que balbuciam e suspiram ansiedades face ao inesperado que os envolve.

Menos que tudo, pequenas fagulhas deste Todo grandioso que os domina e experimenta, passo a passo, tais calçados de oficina improvisada nas barras do Infinito. E buscar a essência desse conhecimento significaria tais possibilidades, instrumentos que somos de paciência em elaboração, a trabalhar a força da humildade nos rios do coração.

(Ilustração: A palavra, de Hieronymus Bosch).



A República foi proclamada por acaso (por Carlos Chagas)

  


   O saudoso e incomparável Hélio Silva, dos maiores historiadores brasileiros, titulou um de seus múltiplos livros de "A República não viu o amanhecer".

   Contou em detalhes,  fruto de muita pesquisa, que a República foi proclamada por acaso. As lições daquele episódio não devem ser esquecidas. Vale lembrá-las com outras palavras e um pouquinho de adendos que a gente colhe com o passar do tempo, junto a outros historiadores  e, em especial, pela leitura dos jornais da época.

   Desde junho que o primeiro-ministro do Império era o Visconde de Ouro Preto. Vetusto, turrão, exprimia os estertores do chamado "poder civil" da época, muito mais poder do que civil, porque concentrado nas mãos da nobreza e dos barões do café, com limitadíssimas relações com o cidadão comum.

   O Brasil havia saído da Guerra do Paraguai com cicatrizes profundas, a começar pela dívida com a Inglaterra, mas com novos personagens no palco. O principal era o Exército, composto em  maioria por cidadãos da classe média, com ênfase para os menos favorecidos. Escravos aos montes também  haviam sido libertados para lutar nos pântanos e charcos paraguaios. Nobres  lutaram, como Caxias e Osório,  mas a maioria era composta daquilo que se formava como o  brasileiro médio.

   Ouro Preto, como  a maior parte da nobreza, ressentia-se daqueles  patrícios  fardados que começavam a opinar e a participar da vida política. Haviam sido peça fundamental na abolição da escravatura, em 1888.  Assim,  com o Imperador já pouco interessado no futuro,  o governo imperial tratou de limitar os militares. Foram proibidos de manifestações políticas, humilhados e   punidos, como Sena Madureira e tantos outros.

   Havia, nos quartéis e em certos  círculos políticos,  um anseio por mudanças. Até o Partido Republicano tinha sido criado no Rio e depois em  São Paulo, mas seus integrantes estavam unidos por um denominador comum: República, só depois que o "velho" morresse, pois era queridíssimo pela população. E quem passaria a mandar no Brasil seria um estrangeiro, o Conde d'Eu, francês, marido da sucessora,  a princesa Isabel.

   Cogitava, aquele poder civil elitista, de dissolver o Exército, restabelecendo o primado da Guarda Nacional, onde os coronéis e altos oficiais careciam de formação militar. Eram fazendeiros, em maioria. Os boatos ganhavam a rua do Ouvidor, no Rio, onde localizavam-se as redações de jornal.

   Na tarde de 14 de novembro movimentam-se  um regimento e dois batalhões sediados em São Cristóvão. Com canhões e alguma metralha, ocupam o Campo de Santana, defronte ao prédio onde se localizava o ministério da Guerra, na região da hoje Central do Brasil. Declararam-se rebelados e exigiam a substituição do primeiro-ministro, que lá se encontrava com seus companheiros. Comandados por majores, estava criado  o impasse: não tinham como invadir o prédio, por falta de um chefe de prestígio,   mas não podiam ser expulsos, já que as tropas imperiais postadas nos fundos do ministério não se dispunham a atacá-los.

   O Secretário-Geral do ministério da Guerra era o marechal  Floriano Peixoto, que quando exortado por Ouro Preto a investir à baioneta  contra os revoltosos, pois no Paraguai haviam praticado  feitos muito mais heroicos, saiu-se com frase que ficou para a História: "Mas no Paraguai, senhor primeiro-ministro, lutávamos contra paraguaios..."
 
   Madrugada do dia 15 e os majores, acampados com a tropa revoltada,  lembram-se de que ali perto, numa casinha modesta, morava o marechal Deodoro da Fonseca, há   meses perseguido pelo governo imperial, sem comissão e doente.  Dias atrás o próprio Deodoro recebera um grupo de  republicanos, com Benjamim Constant, Aristides Lobo e outros, aos quais repetira que não contassem com ele para derrubar o Imperador, seu amigo.

   Acordado, Deodoro ouve que dali a poucas horas Ouro Preto assinaria decreto dissolvendo o Exército. Não era  verdade, mas irrita-se, veste a farda e dispõe-se a liderar a tropa. Não consegue montar a cavalo, tão fraco estava. Entra  numa carruagem e acaba no pátio fronteiriço ao ministério da Guerra. Lá, monta um cavalo baio e invade o prédio, com os soldados ao lado, todos  gritando "Viva Deodoro!  Viva Deodoro!" Saudando-os com o  agitar o boné na mão direita,  grita "Viva o Imperador! Viva o Imperador!".  Apeia  e sobe as escadarias, para considerar Ouro Preto deposto. Repete diversas vezes : "Nós que nos sacrificamos nos pântanos do  Paraguai rejeitamos a dissolução do Exército." Estava com febre de 40 graus.   O Visconde, corajoso e cruel, retruca que "maior sacrifício estava  fazendo ele ouvindo as baboseiras de Vossa Excelência!"    Foi o limite para Deodoro dizer que estava todo mundo preso.

O marechal já ia voltando, o sol ainda não tinha  nascido  e os republicanos, a seu lado, insistem  para que aproveite a oportunidade e  determine o fim do Império. Ele reluta.   Benjamin Constant lembra que se a República fosse proclamada naquela hora, seria governada por um ditador. E o ditador seria ele, Deodoro. Conta a lenda que os olhos do velho militar se arregalaram, a febre passou e ele desceu ao andar térreo, onde montou outra vez o cavalo baio. A tropa recrudesceu com o "Viva Deodoro! Viva Deodoro!" e ele agradeceu com os gritos de  "Viva a República! Viva a República!" Os militares desfilaram pelas ruas do centro do Rio. Deodoro foi descansar em sua casa e,  à tarde,  meio surpreso com o que tinha  feito, recebeu homenagem da Câmara de Vereadores do Rio. Confirmou a mudança e assinou os primeiros  decretos republicanos, levados por Rui Barbosa e outros.

   Aristides Lobo escreverá depois em suas memórias que "o povo assistiu bestificado a proclamação da República."

   Preso no Paço da Quinta da Boa Vista, com a família, o Imperador teve 48 horas para deixar o Brasil.  Deodoro quis votar uma dotação orçamentária  para que subsistissem no exílio.  D. Pedro II recusou, levando apenas pertences pessoais.

   A República estava proclamada.

Um ano depois... – José Luís Lira (*)



    Há um ano eu havia passado pelo Rio de Janeiro. Tinha uma reunião com Sua Eminência o Cardeal Orani Tempesta, fiz visita à Dama de Comenda Isis Penido, Lugar Tenente da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém, assisti a uma peça de teatro, fui a uma consulta com o Dr. Luciano Negreiros. Aproveitei a viagem. Ouvia-se notícia da então, epidemia, da covid-19 no exterior, mas, não aqui. A Cidade estava linda, como sempre. No bairro em que costumo ficar, Catete, tudo transcorria normal. 

     Na volta para Fortaleza algumas poucas pessoas usavam máscaras dentro do avião ou no aeroporto. Passei em casa e vim para Sobral. Era início de semestre e recebi os alunos do primeiro período de Direito da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), na disciplina Introdução ao Estudo do Direito. Semana seguinte, dia 15, aconteceu o batizado de minha sobrinha Anne Eloísa, filha da Elisiane e do Robério. No outro dia, retornei a Sobral. As atividades no Museu Diocesano Dom José e as aulas, me chamaram. 

     Dia 17 começou a fechar tudo. Era iniciada essa “travessia”. Um ano depois, é primavera no velho mundo e chove nessa parte do novo mundo onde vivemos. Jardins floriram e murcharam. Pessoas nasceram e morreram... a vida foi seguindo. Novos hábitos se acoplaram às nossas vidas. O uso constante de máscaras; o álcool; os programas de TV com o repetido e desagradável assunto do aumento da epidemia que se tornou pandemia. Aulas remotas. Medo. Tivemos que nos isolar. Houve flexibilizações, mas, tudo volta pouco-a-pouco e temos a impressão de que estamos na estaca zero.

      Lembro-me da primeira coluna que escrevi sobre o tema, citando o poema de Irene Vella, publicado, em francês, e que o apresentador português Rui Unas emprestou sua voz. O tempo então presente se tornava passado e parece que retorna ao presente neste 2021: “Era março de 2020... As ruas estavam vazias, as lojas fechadas, as pessoas não podiam sair. Mas a primavera não sabia... Os jovens tinham que estudar online e arranjar como se ocupar em casa, as pessoas não podiam ir mais aos centros comerciais nem tão pouco ao cabeleireiro. Dentro em breve não haveria mais vaga nos hospitais, e as pessoas continuavam a adoecer... As pessoas foram colocadas em confinamento, para proteger avós, famílias e crianças. Acabaram as reuniões e refeições em família. O medo tornou-se real e os dias eram todos iguais... As pessoas começaram a ler, a brincar com a família, a aprender nova língua. Cantavam nas varandas e convidavam os vizinhos a fazer o mesmo. As pessoas aprenderam uma língua nova, ser solidários e concentravam-se n'outros valores. As pessoas aperceberam-se da importância da saúde, do sofrimento, deste mundo que tinha parado, da economia que tinha tombado...”. 

       E a autora concluía: “Então chegou o dia da libertação. As pessoas ouviram na televisão: ‘ – O vírus perdeu!’. As pessoas saíram às ruas. Cantavam, choravam, abraçavam-se os vizinhos... sem máscaras, nem luvas... E então o verão chegou, porque, a primavera não sabia. Ela continuou lá, apesar de tudo, apesar do vírus, apesar do medo, apesar da morte... Porque a primavera não sabia... mas, ensinou às pessoas... o Poder da Vida”. A libertação ainda não chegou. Façamos nossa parte e confiemos no Altíssimo Deus para que voltemos à normalidade.

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.

17 março 2021

Jano, um deus de dupla face - Por: Emerson Monteiro


A figura de Jano aparece em muitas mídias contemporâneas, como no filme 
O turista, de 2010, quando Elise explica a Frank o significado de seu bracelete: "É o deus romano Jano. Minha mãe me deu quando eu era pequena. Ela queria me ensinar que as pessoas têm dois lados". Wikipédia

 Isso que bem caracteriza a existência humana pelas figuras dos deuses, nas mitologias, quando guardam estreita relação com os fazeres das pessoas, suas oportunidades a praticar, e que na filosofia recebem o nome de arquétipos (as ideias como modelos originários de todas as coisas existentes).

Porquanto, a cultura nasce da história das civilizações e os mitos que retêm; o deus Jano, a propósito, vem das lendas romanas antigas, e representa a dupla face da personalidade, dualidade esta que permeia nossos atos no transcorre das experiências circunstanciais. Enquanto isto, ele oferta os meios das decisões; por menos que desejássemos, tantas vezes, possuir a inteira liberdade de ação diante de tudo, a ser os inventores de nós mesmos, no entanto somos submetidos às determinações da natureza original de obedecer ao poder inevitável de leis maiores que única nossa vontade.

Temos, sim, a liberdade dos inícios das ações, qual representa Jano, esse deus romano dos inícios. Seremos eixo central em torno de que giram constantemente os dois polos, ou duas faces, o passado e o futuro, em movimento contínuo (a vida), neste eterno presente aonde ora estabelecemos nossa consciência e aqui plantamos o momento seguinte. Assim, também, adiante, nossas atitudes, quando significaram no passado o plantio do futuro. Grosso modo, seremos espécie de cativos de nós mesmos, dos próprios atos, entes a se fazer de suas decisões e escolhas, causas e consequências.

De comum, quando escrevo, busco revelar a mim o que bem gostarei de transmitir perante as vivências que chegam aos pensamentos. Presencio nisto chances de conhecer um pouco mais das palavras e falar das andanças internas do ser que sou. Conquanto, as duas polaridades, aonde distingo aquilo que pretendo dizer, representam, por isto, as escolhas de que disponho e determinam os resultados, também a toda ocasião, nas práticas de vida.

 

Museu das Almas do Purgatório (por Armando Lopes Rafael)

 

Igreja do Sagrado Coração do Sufrágio, em Roma. Neste templo funciona o Museu 
das Almas do Purgatório

         Era uma quinta-feira, 5 de dezembro de 2019. Encontrava-me em Roma com mais seis familiares. Sabendo que o Bispo-Emérito de Crato – Dom Fernando Panico – estava naquela cidade, telefonei para ele a fim de combinarmos uma visita, no dia seguinte, à Basílica de Nossa Senhora do Bom Conselho, localizada em Genezzano, uma pequena cidade medieval próxima à capital italiana.

        Dom Fernando – espontâneo e generoso como sempre –, informou-me onde estava residindo: num anexo da Igreja do Sagrado Coração do Sufrágio, localizada às margens do Rio Tibre, não muito longe do Vaticano. Aquela belíssima igreja, em estilo gótico, fora administrada pela Congregação do Sagrado Coração (Ordem religiosa a qual Dom Fernando pertence). Naquela linda igreja ele foi ordenado sacerdote, em 31 de outubro de 1971. Depois de outras informações, o Bispo-Emérito de Crato acrescentou sobre sua nova morada: “É onde fica o pequeno museu das almas do purgatório”. 

          Eu já tinha lido algo sobre aquele pequeno memorial. Minha curiosidade ficou mais aguçada. 

         Dada a distância do hotel (onde eu e minha família estávamos hospedados), Dom Fernando sugeriu que nos encontrássemos, à tarde, na Basílica de Santa Maria Maior. Assim foi feito. Da Basílica fomos de táxi conhecer o memorial.  Não é um museu comum. Foi criado pelo Padre Victor Jouët, missionário do Sagrado Coração–MSC, que também construiu a Igreja do Sufrágio. Esse sacerdote era um grande devoto das almas do purgatório. E tinha como meta de vida lembrar aos fiéis a obrigação de se rezar pelas almas que ainda não chegaram ao Céu. 

Pequeno Museu das Almas do Purgatório, foto feita à noite

      Vi tudo, de forma rápida, dado o avançado da hora. O acervo do museu, guardado na sacristia da igreja, é composto de pequenas evidências deixadas por almas que tiveram autorização de Deus para vir pedir orações, a fim de abreviar seus sofrimentos no lugar de purgação. As peças foram sendo colecionadas pelo Padre Victor Jouët, ao longo de muitos anos. Oriundas de diversos países da Europa, essas peças são simples evidências físicas (papéis, madeiras, roupas) as quais pretendem provar a existência do Purgatório. 

        Vi coisas impressionantes naquele acervo. Cito um único exemplo por questão de brevidade: a marca queimada de uma mão deixada numa mesa. O móvel pertenceu à Venerável Madre Isabella Fornari, abadessa das Clarissas, no mosteiro de São Francisco de Todi. Outra, uma marca semelhante fixada num livro que estava sendo lido, em 1815, por Margherite Demmerlé, de Metz, na França. Durante a leitura ela recebeu a visita de sua sogra, que havia morrido 30 anos antes. Mas tem muitas outras peças que chamam a atenção e deixam reflexões. Enfim, o pequeno museu é um testemunho, nestes tempos de crise de fé que a humanidade atravessa,  a clamar ajuda às almas que não foram condenadas ao inferno, mas ainda sofrem no fogo purificador do Purgatório.

(Esta crônica é dedicada à memória de Monsenhor Ágio Augusto Moreira – o maior propagador, no clero da Diocese de Crato, da devoção às Almas do Purgatório. Padre Ágio é autor do livro “Fogo que Purifica – Tratado da Almas do Purgatório”, publicado em 2010. Ele foi o maior devoto das Almas do Purgatório, no Vale do Cariri, desde o início da nossa colonização, há mais de trezentos anos e  até os dias atuais. Que isso o tenha feito chegar mais rápido ao Céu).


 


16 março 2021

Era de Aquarius - Por: Emerson Monteiro


No meu segundo ano de Bahia, 1972, vivendo em Salvador, ali seria montado, no Teatro Castro Alves, o musical Hair, isto depois de sucesso excepcional, entre São Paulo e Rio de Janeiro, desde a primeira apresentação, no ano de 1969. Lançada em Nova York dois anos antes, a peça de Gerome Ragni e James Rado chegava ao Brasil numa fase politicamente repressiva ao tempo do movimento hippie, que se expandia pelo mundo inteiro; tempo de Guerra do Vietnã e da contracultura. Lá adiante, ganharia também uma versão cinematográfica de destaque.

Dotada de nomes que depois tornar-se-iam a base dos elencos brasileiros do cinema, da televisão e do teatro, a exemplo de Ney Latorraca, Antônio Fagundes, Altair Lima, Aracy Balabanian, Sônia Braga, Armando Bogus, José Luiz de França Penna, Helena Ignez, José Wilker, Nuno Leal Maia, Neusa Borges, Luiz Fernando Guimarães, Antônio Pitanga, Ney Latorraca, Denis Carvalho, dentre outros não menos cotados, eram dirigidos por Ademar Guerra, numa montagem considerada pela crítica internacional como a melhor editada de todos os países aonde viera a público. Dos aspectos mais emblemáticos da produção, ao final do primeiro ato, a peça apresentava um banho coletivo, ato era marcante, em que todos os atores ficavam despidos durante 30 segundos, uma das motivações a muitos dos espectadores que lotavam o teatro.

Eles saiam de cena, as cortinas fechavam e abriam com todos sem roupa de mãos dadas e jogavam margaridas pro público.

Muitos iam ver por causa dessa cena, mas a peça era excepcional, pelo movimento dos atores e pelas músicas maravilhosas.   

...

Nesse tempo, aos finais de semana, eu, sempre, visitava uma família de amigos no Bairro do Rio Vermelho, na Rua Fonte do Boi, o casal Gérson Penna e Ieda França, sendo ela originária de Crato. Com eles passaria momentos inesquecíveis, de atenção e fraternidade. Moravam próximo da praia, defronte ao Morro do Conselho, cercados de dez filhos, alguns de minha idade, dentre eles José Luiz Penna, atual Presidente do Partido Verde no Brasil. Nisto, numa daquelas visitas, ofereceriam um jantar a todos que trabalhavam no Hair, em Salvador, a maioria desses nomes citados acima. Tive, pois, a oportunidade de vê-los de perto, motivo de rara emoção, a conhecer tantos profissionais de escol no início de carreiras brilhantes, dos principais elencos da cena brasileira, dentre os quais o caririense José Wilker.

Quis, assim, registrar aquela ocasião, um dos pontos altos de minhas vivências na Boa Terra, enquanto escuto, com saudade e carinho, músicas da trilha sonora do espetáculo, tais como Let the Sunshine In e Good Morning Starshine, que, quase cinco décadas passadas, permanecem vivas na lembrança de nossa geração de tantas e valiosas experiências culturais.


15 março 2021

O mistério da Fé II - Por: Emerson Monteiro


Quando encontra, quem não sabe o que é, nem sabe que encontrou o quê. De tal modo são os valores espirituais. Entes de outro universo, eis que haveremos de procurar até encontrar a razão de estarmos aqui. Lembro a cena do filme 2001, Uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, no momento em que os macacos avistam um monólito (lápide polida) e ficam abismados, pois desconhecem completamente aquela pedra diferente das outras. Naquele instante, a película funde a cena de um osso atirado ao espaço pelos macacos, com uma nave sideral, isto logo no início da história. A dedução faz compreender a revolução que dali se verificaria, milênios à frente, nas ciências, o homem largando seus tempos de viver antigos aos níveis tecnológicos desta atualidade que agora conhecemos.

A revolução da Fé tem seu correspondente na história das criaturas humanas. O avanço milenar do ser materialista ferrenho em outro, de origens transcendentais, contudo vindo de dentro do próprio ser, a dominar os dois hemisférios e a natureza que transporta nas existências. Um mistério, porém, fruto da consciência em movimento; revela a potencialidade que transportava sem mesmo ora conhecer. De tanto tatear pelos corredores da dúvida e da dor, desperta no enigma do Ser e impõe possibilidades novas em tudo por tudo. Nesse esforço de dominar a fera dos desassossegos, certa feita desvenda o senso da virtude e acorda à realidade.

Isto requer vidas de largas experiências, a chegar ao desapego no que estivera escravo nos milênios de incontáveis dúvidas. No empenho dessa busca incessante que lhe caracteriza, toda criatura sonda a essência de si, transportando fardos de apegos, detido ao imediatismo em decomposição. No entanto, a exigência desse encontro de solidão incomparável será propício pela harmonia da inteligência com o sentimento, algo nítido de genialidade e amor pleno. Quais desbravadores da floresta do eu, tateiam passo a passo nos mistérios onde vivem, predestinados que estão às luzes da Verdade nas malhas do Universo.

(Ilustração: 2001, Uma odisseia no espaço, filme de Stanley Kubrick).

14 março 2021

A singeleza poética da capela de São José do Lameiro – por Armando Lopes Rafael

Capela de São José Operário do Lameiro, 65 anos de sua construção em 2021

        É domingo. O amigo Dihelson Mendonça cobra-me a republicação de uma crônica que escrevi (e lá se vai um bom tempo) sobre a capela do antigo distrito do Lameiro, hoje transformado num bairro citadino da Mui Nobre e Heráldica “Cidade de Frei Carlos”. As notícias que nos chegam, nesta manhã dominical, pela mídia sem credibilidade, são péssimas. Bastaria citar, en passant, a devastação feita, no mundo inteiro, pelo vírus que veio da China (só na China não ocorreu essa destruição). E o que dizer do agravamento da crise recorrente desta “ré-pública” brasileira, que se arrasta desde 15 de novembro de 1889? 

      Procuremos, para fugir das coisas ruins,  os fatos amenos, vindos de Deus, pois a nossa esperança e alegria está no “Senhor que fez o Céu e a Terra”. (Salmo 123).

     Devo os dados da capela do Lameiro ao Prof. José Nilton de Figueiredo, benfeitor daquela igrejinha, que  até uma canção compôs para aquele abençoado templo. Isto posto, vamos ao substrato da história da Capela de São José Operário. O prof. José Nilton as copilou a partir de dados de um livro inédito deixado pela professora Dandinha Vilar.

            Abro um parêntesis para lembrar que São José era um Príncipe Real da Casa do Rei Davi, a mais importante dinastia que o mundo já conheceu. Mas, nestes tempos medíocres e tristes que vivemos, onde impera o “igualitarismo revolucionário”, dominante numa minoria da elite privilegiada (mídia e academia) lembrar a realeza de São José é fazer reacender o velho e carcomido ódio  marxista a tudo que é nobre, belo, hierárquico e sagrado...Valha-nos Deus! 

Moderna estampa alemã de São José Operário

     A capela do Lameiro foi iniciada em 1956 pelos padres Miguel e Geraldo, da Ordem Salvatoriana, vindos de Garanhuns, Pernambuco. A construção foi feita sob orientação de Dom Francisco de Assis Pires, segundo Bispo de Crato. Já naquele ano, a Igreja Católica devocionava universalmente a invocação a São José Operário (o que é valido, pois São José foi também carpinteiro) cuja festa é celebrada em 1º de maio, Dia do Trabalho. Daí a escolha de São José como orago da nova capelinha do então distrito (hoje bairro), àquela época desprovido de um templo católico. 

     O terreno para a edificação da capela foi doado pelo Sr. José de Alcântara Vilar, respeitável cratense e proprietário de vasta área rural no sopé da Chapada do Araripe. Exerceu aquele cidadão, por várias legislaturas, o cargo de vereador à Câmara Municipal do Crato. Naquele tempo,diferente de hoje, os vereadores eram pessoas devotadas ao bem público. Seus mandatos não se prestavam à nefasta política do "toma-lá-dá-cá". José de Alcântara Vilar chegou à Presidência da Casa, proporcionando-lhe ocupar, interinamente o cargo de Prefeito Municipal de Crato. 

     Monsenhor Rubens Gondim Lóssio, que tanto bem fez ao Crato,  era o Vigário da Paróquia de Nossa Senhora da Penha, a cujo território pertencia o Lameiro. Foi ele o primeiro sacerdote a dar assistência espiritual à nova capela. Em 1967 a Paróquia de Nossa Senhora da Penha sofreu grande desmembramento e o território do Lameiro passou a pertencer a recém-criada Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, do bairro Pimenta.

     Muitos ajudaram e muitos ainda ajudam na manutenção da capela do Lameiro. Uma curiosidade: somente no dia 1º de maio de 2003, decorridos 47 anos da construção do templo, a escritura do terreno onde ela está erigida, devidamente lavrada em cartório, foi entregue oficialmente ao então pároco, Mons. Manoel Alves Feitosa, pelo então proprietário do terreno, o ex-deputado Dr. Ossian de Alencar Araripe e sua esposa dona Maria do Céu Vilar de Alencar Araripe.

     Aqui, em rápidas pinceladas, o esboço histórico da capela do bairro Lameiro, meu caro Dihelson.

Ler no tempo - Por: Emerson Monteiro


São sinais... Quando perguntam a Jesus o que virá no futuro, ele diz que o futuro a Deus pertence. Mas cita os sinais... Ora, quando estas coisas começarem a acontecer, olhai para cima e levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima. / E disse-lhes uma parábola: Olhai para a figueira, e para todas as árvores; / Quando já têm rebentado, vós sabeis por vós mesmos, vendo-as, que perto está já o verão./ Assim também vós, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o reino de Deus está perto. Lucas 21:28-31

Nisto, Silvino me pergunta, na manhã chuvosa deste domingo, as profecias preveem ou determinam?

...

Seremos, pois, tais figueiras, que, incontinente, produzirão seus frutos. Há dois frutos, os coletivos e os individuais, ao que os místicos orientais classificam de carma, ou aquilo que for plantado terá de ser colhido por quem houver plantado, diante das leis inderrogáveis da Natureza. Porquanto, significamos peças dessa engrenagem sempre em movimento; as sementeiras da existência aqui no Chão. 

Perante visão dos seres eternos, autores, portanto, das profecias, que veem tudo, o tempo e a história, o futuro já está determinado pelos atos dos seus protagonistas; e desde então sabem o que a Humanidade elabora, nos procedimentos, aquilo que resultará nos frutos logo à frente. Imaginemos um filme gravado nessas máquinas atuais; dele se pode ver quaisquer das partes a qualquer momento. Assim, o Poder visualiza e alerta dos tempos vindouros, de qualquer das fases, por ser conhecedor universal de Tudo e nos amar incondicionalmente. Quer que acertemos, mas permite que adotemos o que nos convier.

Isso, independente de serem uma previsão, as profecias demonstram o que ora fazem do futuro as criaturas perante os desígnios que lhes foram entregues na História, a gerar os frutos, ou carmas. Qual, certa vez, ouvi de suas palavras, temos liberdade a fim de acertar; se errar, nos sujeitamos à escravidão, tanto do ponto de vista coletivo, pela participação na sociedade humana, quanto em nossos praticados particulares. 

As profecias apenas revelam isso, o que virá nas dobras dos tempos, síntese do que fazemos da liberdade, no pensar, falar e agir: Vigiai, pois, em todo o tempo, orando, para que sejais havidos por dignos de evitar todas estas coisas que hão de acontecer, e de estar em pé diante do Filho do homem. Lucas 21:36


13 março 2021

Limites da resistência humana - Por: Emerson Monteiro


Há momentos por demais extremos, quando escurece o tempo e se procuram as mínimas alternativas, no entanto ausentes. Situações, a bem dizer, de absoluta solidão interior. Desafios à sanidade. Extremos limites da possibilidade desses seres que somos. Olhares em volta e total condição da pequenez de tudo quanto os cerca. Nessa hora, chegam respostas do que fizemos até então. O que reunimos de conforto dentro da alma. A fronteira da resistência. Nenhum apego mais daquilo que tanto alimentou vaidades, pretensões, orgulhos, arrogâncias, superioridades, vontades de poder...

Só de preservar sonhos ninguém vive. Acreditar no impossível e deixar correr o barco, atitudes sem bases reais, serve de convicções intelectuais de fugir ao sagrado das religiões; nenhuma consciência, porém, suficiente de sustentar teses materialistas e sofrer com dignidade, somente. Restam laivos de viver a coragem, o destemor no desespero, temeridades, a força de reconhecer a existência qual valor substancial de tudo, sobremodo nesses animais que pensam, tais somos nós.

As situações-limite dessas vivências com que nos deparamos sustentam a força da evolução; a alguns, a fé, os credos, as raças; da firmeza nas crises. Ainda que de fugir houvesse meios, nem disso haver certezas, porquanto o território da presença neste chão dispõe das barreiras do instransponível. 

Nessas ocasiões, a inevitabilidade da sobrevivência fala mais alto e pede coerência, paciência, meios de negociar com a sorte dos destinos. Contar outros valores trazidos lá de longe. Talvez da inocência da infância, do amor dos pais, de irmãos, amigos. Do amor, afinal, que revive histórias felizes e sustenta teses de salvação. Palavras de conforto daqueles que narram episódios de vitórias e curas fora de qualquer cogitação, mas acontecem. 

Aceitar o inevitável, eis o que ensinam os mestres, os filósofos, as vidas e vidas que gravaram seus nomes na História. Sejam que testemunhos de esperança, haver-se-á de servir aos que padecem os dramas daquelas ocasiões extremas e clamam dalgum universo a luz da conformação, e aceitam em paz o que tenham de padecer, mesmo face aos dias ingratos deste mundo.


Idas e vindas - Por: Emerson Monteiro


Pensar é assim, movimento de seres exóticos a percorrer os corredores de si mesmo, por vezes na escuridão de horas infindas; noutras, apenas pedaços de corpos que se desfazem nas dobras desse lugar silencioso. Uma pátria enorme de alternativas no pensar, porém às vezes sem qualquer finalidade, tão só apelos a novas possibilidades, que também somem apressadas diante dos eternos segredos do Tempo.

Nesse frisson de tantas luzes que apagam e acendem a todo minuto, os pensamentos invadem o território da imensidão cobertos de lâminas metálicas aquecidas pelos sóis de cada manhã. Vagas soltas pelo ar, aqui avançam passo a passo nas palavras, que nada mais serão que novas sementes na forma de pensamentos que chegam a outras criaturas humanas. Apenas isto, desejos informes de revelar aquilo que jamais será conhecido a não ser que germine aonde vai. Hálito forte de visões adormecidas que sobem ao deserto dessas horas e refazem as probabilidades que desaparecem nas brumas do vento. Quantos sons diluídos, pois, no instante, e que dormem no eito dos inanimados, quais serão nada logo ali no abismo do Infinito.

E perguntar pelos sonhos, as histórias adormecidas que despertaram a meio da noite e embalam almas de memórias insistentes, esquecidas falas de um mundo que vive dentro da gente e que dele quase nada conhecemos além de saber que existe. Toca o espaço dos pensamentos e diz desse universo assombrado das cavernas escondidas, no íntimo da natureza, enigmas necessários a todo o momento, rescaldos e respostas da humana Consciência em gestação.

Enquanto isso, acontecem os refolhos do indivíduo; alguém mexe consigo mesmo em face da busca incessante de fugir do encantamento que a tudo envolve. Reviram as páginas do instinto feito de palavras que renascem debaixo dos pensamentos e percorrem as veias dos sentimentos; olham extasiados os clarões de luas, elas que falam de certezas próximas e deslizam suavemente pelas fibras do coração, formam lagos de esperança e paz, e desmancham os apegos do chão no Amor à liberdade. 


12 março 2021

Desde sua origem Crato é abençoado pela Mãe do Belo Amor -- por Armando Lopes Rafael

"Ego Mater pulchrae dilectionis”
                                                                                      (Eu Sou a Mãe do Belo Amor”)

                                                                                     (Livro do Eclesiástico, 24,24)

   Por volta de 1740, chegava ao sopé da Chapada do Araripe – do lado cearense – o capuchinho Frei Carlos Maria de Ferrara. Nascido na Itália, em família rica, esse frade aportara ainda jovem à cidade de Recife. Depois, penetraria no agreste interior nordestino a pregar a Boa Nova de Cristo. Chegara Frei Carlos ao Sul do Ceará para fundar um aldeamento, destinado à evangelização dos índios Cariús. Era assim a Igreja Católica Apostólica Romana daquele tempo. A prioridade primeira era a salvação das almas. Surgia, assim, a Missão do Miranda, origem da atual cidade de Crato. Provavelmente Frei Carlos trouxera, para a nova Missão, uma pequena imagem, sob à invocação da Mãe do Belo Amor, com cerca de 40 cm, lavrada a cinzel sobre a madeira.  

     Essa estatueta da Mãe do Belo Amor passaria a ser aureolada por fatos pitorescos e lendários, incorporados ao rico imaginário das tradições populares de Crato. Serviria essa escultura – entre 1740 e 1745 – de forma provisória, para suprir a ausência de uma imagem de Nossa Senhora da Penha, esta escolhida – por Frei Carlos Maria de Ferrara – como a Padroeira da humilde capelinha de taipa, coberta de palha, construída no centro da Missão do Miranda.

        Em 1745, o Prefeito da Missão dos Capuchinhos de Recife, Frei Carlos José de Spezia, doou à capelinha da Missão uma nova imagem da Virgem Maria. Esta de tamanho médio, agora reproduzindo a invocação de Nossa Senhora da Penha. Tratava-se de uma escultura chegada à capital pernambucana em 1641. Lá, essa estátua permanecera durante 104 anos. Trata-se da hoje segunda imagem da Padroeira de Crato, chamada a “histórica”, que anualmente sai em procissão pelas ruas da cidade, na festa de 1º de setembro. Com a vinda dessa nova escultura, recolheu-se a estatueta de Mãe do Belo Amor para um lugar secundário na capelinha. O povo cratense, no entanto, manteria forte devoção à pequenina imagem primitiva.

***   ***   ***

    Sobre a linda invocação da Mãe do Belo Amor, assim escreveu o líder católico Plínio Correia de Oliveira:

"Esta expressão, tirada do livro do Eclesiástico (24,24), é usada pela Liturgia católica para honrar um dos mais gloriosos apanágios da Santíssima Virgem. Com efeito, este título evoca, de um lado a plenitude e a beleza do amor que Nossa Senhora tem a Deus e, de modo específico, à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade Encarnada, que é o Filho dEla. De outro lado, assinala a formosura que para a alma de Maria advém desse amor, fonte de esplendor moral que rejubila o mundo inteiro.

Nunca houve, e jamais haverá, em toda a história da criação, um amor a Deus tão belo, tão perfeito e tão ardoroso quanto o teve Nossa Senhora, desde o primeiro instante de seu ser". (...) "Enfim, Nossa Senhora é, sozinha, a corte inteira de Deus. Todo o resto é secundário. Ela é a Rainha da Prudência, a Rainha do conselho, a Virgem cheia de Graça. Ela é a Mãe do Belo Amor". (1)

***   ***   ***

    Crato continua a venerar – e lá se vão quase trezentos anos – a pequenina Mãe do Belo Amor... Ela é parte integrante do nosso patrimônio espiritual, artístico e cultural. Continua presente, nos dias atuais, na nossa memória comunitária. Constituindo um valor simbólico dos mais expressivos desta cidade. A imagenzinha de Frei Carlos é considerada uma defensora e dispensadora de copiosas bênçãos para nossa população. Pena que essa valiosa escultura não esteja colocada em lugar de destaque na Catedral, para ser vista pelos fiéis.  Resta-nos aguardar a construção de um nicho para que nele, com a segurança necessária, seja colocada a Mãe do Belo Amor.

(1) Revista Dr. Plinio. Ano I, Nº 7.  Outubro de 1998. Revista mensal de cultura católica, publicada pela Editora Retornarei Ltda.


Santo Antônio de todo o mundo – José Luís Lira (*)

 

    Há dias ansiava por ler “Santo Antônio: A história do intelectual português que se chamava Fernando, quase morreu na África, pregou por toda a Itália, ganhou fama de casamenteiro e se tornou o santo mais querido do Brasil”, Editora Planeta, autoria de Edison Veiga que conheci por causa de Santo Antônio. Até que o recebi de presente do amigo Macsimus Duarte, colega na advocacia e na poesia, que testemunhou minha peregrinação em busca do livro. Queria, também, presentear o amigo Cícero Moraes, e Macsimus ofereceu-nos os dois livros. Sou-lhe grato. Voltando a Veiga, por causa de Santo Antônio? Foi por meio de Santo Antônio que conheci o amigo-irmão Cícero Moares. Tudo se iniciou em 2014, quando eu realizava estágio de pós-doutorado em Messina, no sul da Itália, na mesma região, mas, distante de Padova (Pádua). Aliás, no livro em comento descobri que pode ter sido em Messina que o Santo chegou à Itália. 

    Em Padova, procurei o Sacro Convento buscando obter uma relíquia do Santo. Falei ao Frade que me recebeu de algo que soube anos antes sobre a possibilidade de haver ligação dos Liras com Santo Antônio. Uma antiga tradição – penso que lendária, pois nunca encontrei prova – afirma que após a morte de Santo, parentes dele em linha direta passaram a usar Antônio no sobrenome. Ouvi isso de um “parente” português que, embora tenha me chamando de primo ao me ver, dizendo que reconheceu meus olhos característicos da família, não comprovamos parentesco. Dizia que no século XIII ou XIV, uma parenta direta de Santo Antônio de Lisboa, por nascimento, casara com um Lira e deu origem à família “Antônio de Lira”. Depois descobri que meu bisavô era Joaquim Antônio de Lira, o pai dele, meu trisavô, Francisco Antônio de Lira. Ainda assim, desde que me entendo, sou devoto do Santo. Consegui a relíquia autêntica e indaguei ao sacerdote onde encontraria uma imagem de Santo Antônio para trazer ao Brasil.

    Ele me disse, então, que haviam estudiosos fazendo trabalho sobre a face do Santo. Que eu aguardasse, pois, poderiam vir novidades.  Um dia, após retornar ao Brasil, vendo o Fantástico, da Rede Globo, saiu a matéria. E mais, um brasileiro estava entre os cientistas. Busquei e encontrei Cícero Moraes. Este assunto está finalizando o livro de Edison Veiga. Ficamos amigos, aos poucos, venci a timidez e lhe perguntei como obter o “rosto reconstruído do santo”. Hoje o tenho em minha casa em Sobral, em imagem de mais de um metro do santo. E depois vieram os trabalhos das Santas Maria Madalena e Paulina, entre outros, com imerecida participação minha, realizados por Cícero Moraes e assim conheci Veiga. Tenho mais ligações ao biografado dele como o registro da festa do pau da Bandeira de Santo Antônio de Barbalha, que relatei no Conselho do Patrimônio do Ceará etc.

     O livro de Veiga é uma preciosidade de deixar satisfeito qualquer hagiólogo. E muito se aprende de uma forma bem contemporânea dados tão históricos, colhidos com o maior cuidado. E além de muito aprender sobre o Santo, vemos relatos interessantíssimos como a participação do Santo nos exércitos português e brasileiro, após sua morte. Em solo brasileiro, Antônio é general da reserva não remunerada e na Igreja, Doutor Evangélico. Assim, Edison Veiga trata de Santo Antônio, tão amado em todo o mundo e seu livro passa a figurar como uma das melhores biografias de Fernando de Bulhões, sacerdote agostiniano, Santo Antônio de Lisboa e de Pádua, franciscano, que teve nos braços o Menino Deus, em fato que o autor narra. Parabéns, Edison! Obrigado por tão precioso trabalho! 

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.