10 fevereiro 2021

Moacir Siqueira, uma joia que sempre brilhará

 Por Carlos Rafael Dias

 

Moacir Siqueira era um personagem típico de nossa cratensidade, apesar de ter nascido em São José do Egito, Pernambuco.

Sua história com o Crato é uma verdadeira epopeia.

Com 14 anos saiu de casa, pegando um trem para outra cidade.  O destino, entretanto, o trouxe para cá. Ele errou de trem na hora da baldeação.

Chegou ao Crato, garoto ainda, com a cara e a coragem, somente.

Cara e coragem de caboclo, trazendo nos ombros o peso da ancestralidade que se fez guerreira, para sobreviver o holocausto cruento de trezentos anos de colonização predadora.

Como ele disse, de maneira alegórica, limpou m... com as mãos para poder se radicar na Princesa do Cariri.

Mas sua sina o predestinara a ser um vencedor. Seja como jogador de futebol, defendendo com galhardia (ele gostava muito dessa palavra) times e a seleção do Crato, seja como empresário. 

Foi um político efêmero. O destino novamente se encarregou de fazê-lo prefeito da cidade que ele adotou e que também, a duras penas, o adotara.

E foi um político e mandatário atípico. A História, nem sempre imparcial, há de lhe fazer justiça.

Agora resta a sua memória de homem íntegro, amigo, pai de família.

Tive o privilégio de ser seu amigo e de ter sido seu assessor no seu breve, mas profícuo tempo de prefeitura, na condição de secretário de Cultura.

Tenho muitos exemplos de sua grandeza. Vou me reportar a um que me tocou fundo o coração.

O poeta Luciano Carneiro, outra vítima, como ele, dessa maldita “gripezinha”, era vigilante do Museu do Crato, onde também funcionava a Secretaria de Cultura.  Ele tinha passado algum tempo de licença de saúde, em decorrência de uma depressão que o acometera pela morte de um filho, vítima de um acidente de motocicleta. Retornou ao trabalho, mas não estava totalmente recuperado. Veio falar comigo. Disse-lhe que nada podia fazer, pois não tinha autoridade para tanto.

Passaram-se alguns dias e, certa noite, em um evento que realizávamos no Museu, Moacir chegou e viu o poeta de farda, no seu turno de trabalho. Moacir, então, perguntou:

- Poeta, o que você está fazendo aqui?

Luciano respondeu que estava trabalhando, pois era o vigia da repartição.

Moacir disse-lhe que “poeta é para fazer poesia”, e dispensou-lhe daquele encargo tão tormentoso, o cedendo à Morada da Poesia, gráfica da Academia dos Cordelistas do Crato, do qual o poeta Luciano Carneiro era sócio.

Na sua simplicidade, Moacir mostrou quem era e para que veio.

Agora, com certeza, está mostrando para onde vai, deixando esse conturbado mundo mais pobre de exemplos nobres como os dele.

Um comentário:

  1. Para variar somos uma cidade sem memória, sem história, onde os fatos importantes, que deviam estar presentes nos livros de história, nos quadros, cantados por poetas, passam em branco. Uma sociedade que não demarca a importância de seus fatos renega a si mesmo.

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