28 fevereiro 2021

Cores do silêncio - Por: Emerson Monteiro


Escrever tem disso, de falar consigo mesmo defronte do espelho de um mundo desconhecido, no entanto ao nosso lado, todo tempo, interpretando as necessidades e contingências do silêncio. Qual escultor diante do frio bloco de mármore, a gente decodifica a ausência dos sons e pede perdão pela audácia de falar, quebrar a mágica das folhas em branco. Espécie dos navegantes de mares profundos, mergulhamos nas ondas feitos senhores nórdicos dos reinos impossíveis, e colhemos palavras, forjamos frases e aguardamos só o momento de, outra vez, regressar ao silêncio original, em um clamor de quem cometeu heresias por não resistir às cólicas do parto da solidão. 
Daí vêm lendas, fábulas fantásticas cheias de inexistências. Contos surrealistas. Narrativas de mistério. Luzes afinal que se despejam nas teclas das máquinas de sonhar. Olhos fixos na escuridão das pessoas, esfarelam esses mundos exóticos das madrugadas, saltimbancos impacientes dos autores que viajam pelos livros abandonados nas prateleiras do vazio. Letras que conspiram desde os mundos invisíveis das horas em movimento, impacientes, que correm soltas pelas linhas de parágrafos imaginários e surpreendem os animais que vagam perdidos nas esquinas dos céus. 

Ação de quem deseja continuar nas trilhas do tempo para sempre, através do artesanato das vidas, escrever significa, sobremodo, esforço de conter o pensamento e dele extrair sentimentos da própria alma e lançá-los às almas penadas do Purgatório. Pintores de quadros apressados que se desfazem na tela do Infinito, eles, os que escrevem, insistem nisso, de dizer o indizível, contar o improvável e estabelecer contatos junto de seres inexistentes. Algo, pois, semelhante a invadir searas do Tempo e fixar moradia perante abas soltas lá no Firmamento. 

Assim são as cores do silêncio com que místicos constroem suas histórias sagradas e refazem os caminhos da Humanidade por meio dos credos e profecias, brancura rude das vozes sussurradas nesse cosmos magnânimo da criação. Nisso, convictos da violência que praticam por meio das palavras, reencontram o vigor maravilhoso do silêncio, e deitam por terra qualquer anseio de virtude; aceitam, sem outro jeito, acalmar os ânimos dessa multidão calada, regressando ao sono inevitável e puro da doce realidade. 

Monarquia moderna: qual é o papel do Imperador?

    O Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, certa feita comparou o papel do Imperador ao de um maestro, que dirige uma orquestra. O maestro não emite, ele próprio, um som que impeça os outros de serem ouvidos. Não é ele quem toca os instrumentos; ele nem sequer toca um determinado instrumento. Sem impedir cada um dos instrumentos de se fazer ouvir, ele coordena o conjunto, de maneira que todos se fazem ouvir, para a harmonia geral.

    Compete ao Imperador, dentro do estrito âmbito de suas atribuições constitucionais, estimular tudo o que há de bom em seu povo; proteger os fracos, os menos favorecidos; e corrigir o que estiver errado e precisar de correção. Essas três tarefas correspondem precisamente – conforme já destacou seu irmão e imediato herdeiro dinástico, o Príncipe Imperial do Brasil, Dom Bertrand de Orleans e Bragança – ao dever de um pai na formação de seus filhos. Mais do que nunca, deve ser este o papel do Imperador em uma Monarquia moderna.

Fonte: Armando Alexandre dos Santos. Livro: "Parlamentarismo, sim! Mas à brasileira: com Monarca e Poder Moderador eficaz e paternal". 2º ed. São Paulo: Editora Artpress, 2015. Página 83.

27 fevereiro 2021

As malhas da consciência - Por: Emerson Monteiro


Por mais queiram negar, os que se acomodam em viver ao léu de seus instintos, no entanto existe um clímax, ou ponto ideal, aonde iremos depositar o desenvolvimento do que agora somos. Esse instrumento de adquirir evolução que significamos representa bem esta necessidade do conhecimento interno do ser e do existir. No impulso de buscar aquilo que, de longe, falaram os grandes autores desde o Oriente, precisamos atualizar isso de revelar a si o que precisamos saber. Abrir as malhas da consciência ao nosso uso daqui dessas brenhas do Sertão das horas.

Ninguém viverá à margem da evolução, por isso o desejo constante de conhecer o mecanismo interno da alma da gente. Desvendar os caminhos da paz, da ciência que transportamos a qualquer instante, tão só preenchamos o corpo humano, raiz dos segredos de tudo quanto há todo tempo, pois trazemos conosco tal possibilidade; pois a isto viemos.

Dominar a escuridão e chegar na luz, eis o percurso dos seres viventes. E todos, por igual, existimos nessa mesma intenção do Universo. Os modos são as escolas que transmitem lições de achar o destino. Nem adianta querer ignorar, porquanto já viemos previstos pela infinita Natureza; quando ocorrerá o encontro dessa revelação, grosso modo, caberá aos humanos. 

Bom, até dizer isso, de ter uma finalidade, que ninguém é pedra que rola pelos tempos, importam detalhes essenciais, de reconhecer nas existências alguns fatores, a vida, a imortalidade e o progresso das gerações através das tantas vidas; passar de um corpo a outro por meio das vidas sucessivas e, lá um dia, obter a percepção da luz na Consciência, o portal da Eternidade em cada um de nós, fruto raro das forças em movimento neste plano de existência comum a todos.


26 fevereiro 2021

De poeta para poeta santo: São Francisco de Assis por Augusto de Lima – José Luís Lira (*)


    Em dezembro, encaminhei um cartão personalizado de feliz ano de 2021 ao nobre irmão na Nobre e Pontifícia Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém, Comendador Aristóteles Drummond. O nobre Comendador e conceituado jornalista me pediu o endereço. Dias depois recebi livro de seu bisavô, de quem seu avô, Augusto de Lima Júnior, herdara o nome. É “São Francisco de Assis: Poemas”, edição da Academia Brasileira de Letras, 3ª edição, 2000, organizada por Aristóteles Drummond, com introdução de Augusto de Lima Júnior. O autor, Augusto de Lima, imortal da Academia Brasileira de Letras e presidente da ABL de 1927 a 1928, tece uma bela biografia de São Francisco na riqueza poética de que era possuidor.

     Vejamos pequenos extratos colhidos do livro que se inicia com a alegria perfeita e lemos: “O caminho era estreito; a tarde era de inverno, / caía a neve; era chão lama; açoite o vento” e Frei Leão ouve do pai fundador se de dor padecer, “abençoarmos nela/ um reflexo da Dor de Cristo na Paixão,.../ que em toda a parte, em todo tempo, noite e dia,/ é nessa dor que existe a perfeita alegria”. Contemplamos em “Santa Maria dos Anjos/ da capelinha florida,/ onde floresce o perdão,/ dobrando o sino, convida/ os descontentes da vida/ a vir chorar na oração. ... Santa Maria dos Anjos!/ lá no recinto se ouvia,/ um coro de anjos cantar.../ Cantavam: ‘Santa Maria...’/ enquanto Francisco via/ aberto o céu sobre o altar”. E a arte poética de Augusto de Lima torna mais belo o diálogo de Francisco com “O Crucifixo de São Damião”: pede o santo, “— Em vossa piedade./ concedei-me uma Fé pura,/ uma Esperança segura/ e uma ardente Caridade.” E o Santo ouve: “Então, na Fé pura,/ na esperança do Céu, no ardor da Caridade,/ pôde escutar, enfim, a palavra divina/ baixar do Crucifixo, insinuante e clara:/ — Vai Francisco e repara/ a minha casa, que ameaça ruína”.

      Lima exalta o divino abandono e a dor da solidão experimentada pelo Salvador e por seu fiel imitador, Francisco. Mostra a humildade de Francisco; a Ordem Terceira; o sermão aos pássaros feito pelo poeta e cavaleiro Francisco, chamado a retomar “a aventurosa espada/ Poeta, empunha de novo a lira...”, mas, o santo segue “Jardineiro de Deus!”, lembrando que “Deus fez do Pobrezinho um divino instrumento” e quase finalizando, emociona o leitor: “Fecham-se, enfim, os lábios do Cantor.”/ “Há um silêncio profundo em derredor./ Desce o luto da noite./ Abre-se o Eterno Dia,/ em que, do amor de Deus, na perfeita alegria,/ desfeito da alma o véu,/ o serafim de Assis voou, cantando, ao Céu”. Nosso espaço é pequeno para comentarmos obra tão completa em pequeno volume. Em notas de apresentação, introdução e na quarta capa, Aristóteles Drummond, Augusto Lima Júnior e Antônio Olinto dão suas impressões sobre o clássico livro. Mas, não posso deixar de comentar o “Depoimento de Uma Conversão”. Num só relato vemos vários milagres de Santa Teresinha do Menino Jesus. Não fosse ela canonizada à época, poder-se-ia dizer que o relato seria milagre digno de colocar a freira francesa nos altares católicos. E a conversão foi firme, pois, que o relato é de 1925 e em 1930 vem a lume a primeira edição, que já consegui num sebo virtual e estou aguardando a entrega.

      Recomendo ao leitor, agradeço ao Dr. Aristóteles e dou graças a Deus por tão edificante obra: Louvado Seja Deus!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


Manhã de chuva - Por: Emerson Monteiro

 


Das características de viver neste lugar, entre o semiárido e a serra, no Cariri cearense, tem isso, de, todo ano, esperar pelas chuvas. São chuvas de verão, no dizer da Ciência, porquanto nem inverno seria no período. E esta madrugada elas vieram com gosto. Algo acima de 120mm. Trovões. Rios cheios. Terra molhada. Animação dos sertanejos de ver barreiros, açudes, barragens, refazer suas reservas e as roças e os animais desfrutar das bênçãos vindas dos céus. 

Isso além das reações na alma da gente. Algo que regressa aos idos da infância, de noites frias, bichos contentes no curral, no terreiro, marulhar dos riachos no eito das capoeiras, alento, afinal, dos dias bons de esperanças e certezas doutro ano de fartura nas plagas do Sertão. Nessas revivescências, luzes diferentes reviram dentro das criaturas, que ficam mais silenciosas, mormacentas, caladas pelos cantos. 

A caboclada aquieta de imaginar dias menos densos, os refrigérios das matas, solo mais afeito aos golpes da enxada e menos intensidade no sol da roça, face ao nevoeiro que demora e persiste com a festa de deixar chover tanto quanto a terra necessita de gerar vida. Por si só, o canto dos pássaros parece afinado ao tom das gotas na folhagem e do escorrer da água pelo chão.

Bem isto de viver as glórias desta parte de mundo, espécie de roleta incerta dos que vivem aqui e contam nos dedos os dias nas possibilidades das nuvens que chegam ao Nascente. Primeiro, formam torrões, nuvens maiores, lá na barra do horizonte. Depois, crescem avassaladoras, e próximas, despejam dadivosas o alento das chuvas anuais.

Há segredos revelados nessas épocas do inverno sertanejo, exercício de religiosidade sacrossanta, algo semelhante a sonhos bons feitos realidade. Enquanto isto, desperta no coração das pessoas o desejo forte de que seja sempre assim na continuidade da vida que segue adiante, um plantio só de uma eterna felicidade.

(Ilustração: Tempo chuvoso, foto de Mateus Dantas (Jornal O Povo).


25 fevereiro 2021

As leis do Destino - Por: Emerson Monteiro

 


Do apurado daquilo que a gente conhece, nesse mundo de livros e palavras, há duas formas de conduzir o barco pelos mares da existência, a saber, se acertar naquilo que a vida oferece e obedecer aos critérios de um equilíbrio original, isto que os orientais denominam Dharma, ou o Caminho da Virtude. Porém, face ao nível da evolução ainda limitada dos seres humanos, à medida que se experimenta a tentativa, e consequentes erros ou acertos, assim trabalhamos o outro seguimento, o Carma, isto é, a Lei da Ação e da Reação, e da qual disse Jesus: - Com a medida que medirdes, medir-vos-ão também a vós.

Visto sermos tais frutos das vivências, nas respostas disso resultantes, somos também autores inconscientes do Destino, no resultado das nossas ações. Temos livre arbítrio de escolher, eis a liberdade em sentido pleno. Só que das escolhas haveremos de colher as consequências. 

Destarte, em sendo senhores de nossas ações, somos escravos dos seus resultados; portanto a cada ação corresponde reação igual e em nosso sentido. Ninguém que seja vive à margem dessa determinação definitiva, tão espontânea e natural quanto o ato de respirar, viver, sonhar, morrer, falar, conhecer, agir. Autores do próprio destino, movimentamos nisso o condão das ordens do Universo, nos nossos laços para com a existência que exercitamos.

Nisto consiste, pois, o Poder além das cogitações apenas imediatas, a impor sustentação de tudo quanto significa a ordem dos elementos e a persistência dos seres que vivem aqui. Vez em quando presenciamos detalhes dessa arquitetura universal nos fatores em volta, quais sejam o Tempo, o Cosmos sem fim, as estruturas que compõem o Todo onde habitamos, os mistérios das galáxias, o ritmo dos acontecimentos, mesmo a História, aparentemente orquestrada pela grande humanidade, contudo prenhe de enormes surpresas e condições inevitáveis.

Ao certo modo, vivemos conduzidos sob códigos secretos e mãos invisíveis, impossíveis até de tocar nas certezas de nosso discernimento, nos termos atuais. Daí aparentes caprichos da sorte, que envolvem a sobrevivência do que ora somos e a importância maior da firmeza de seguir os melhores propósitos e obter destinos melhor aquinhoados. 

(Ilustração: Obras de misericórdia, de Pieter Brueghel).


24 fevereiro 2021

Tempos de agruras e as razões da fraternidade - Por: Emerson Monteiro


São fases assim que reclamam atitudes políticas exemplares, quando a sociedade atravessa épocas de vacas magras, fruto dos movimentos monopolistas das classes e da ausência de providências necessárias ainda sem o devido reconhecimento. As civilizações geraram o que ora passamos, vindo isto de bem longe na História. Há uma funcionalidade natural de tudo quanto existe em qualquer tempo ou lugar, porém a complexidade das sociedades humanas reclamam ações válidas, justiça, honestidade, dos cidadãos. Ninguém erra que não responda diante das tais leis universais da Natureza. 

Isso de exclusividade só de alguns é ilusão de não ter tamanho. Se imaginar herdeiros prometidos da Criação, que sejam famílias, grupos, corporações, reflete pouca ou nenhuma consciência da realidade verdadeira, neste carrossel das circunstâncias em que vivemos. Por isto, diz o povo, que quem tem olho fundo chora cedo. Conquanto em aparente naturalidade, no entanto a resposta virá do próprio agir e seus resultados no tempo.

Dizemos isso, nestas primeiras palavras, no sentido de interpretar que somos todo único na Humanidade, irmãos entre irmãos, independentes de países, continentes, raças e clãs. Durante milênios, porém, o que vemos nos tantos lugares são meras contradições a este princípio da fraternidade. Quem engana se engana. Amealhar em detrimento dos demais fere valores essenciais da existência, produzindo mais e mais dores no transcorrer das gerações. Pura falta de conhecimento imaginar que a Justiça maior dormirá sobre os louros de alguns e poucos privilegiados. 

Diante, pois, desta fase cheia de dramas graves e consequências dolorosas, persiste um clamor de coerência em tudo por tudo, perante a indiferença dos poderosos às vistas da fome das coletividades, das dores do desemprego, da insegurança, das drogas, o que vem desmascarando o progresso aparente das experiências humanas. Precisamos, pois, evoluir em maturidade e somar esforços a favor, sobretudo, dos que menos possuem e padecem atrocidades. Trabalhar o senso de justiça, nas instituições nacionais e mundiais, requer disposição inarredável dos ofícios de conquista da paz coletiva. Tenhamos sempre conosco os valores justos e posicionamentos sensatos, quando, afinal, construiremos a sociedade perfeita que tanto sonhamos vidas e vidas. 


Duas frases emblemáticas

“O problema é que existe neste País uma força que esconde a nossa História Ninguém fala em Monarquia ou na época do Império. Escondem a História. É como se a escondessem porque, se falar das coisas boas (que marcaram a nossa Pátria), ela poderá voltar.”

Príncipe Dom Pedro de Alcântara de Orleans e Bragança (irmão do Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil) em entrevista concedida ao jornal “Tribuna do Norte”, de Nata (RN).

Frase do Cardeal Pie
 

 

23 fevereiro 2021

Mistérios do Inconsciente - Por: Emerson Monteiro


Algo semelhante ao que, no conto de Aladim e a lâmpada maravilhosa, das 1.001 noites, significa descer às entranhas da Terra e conhecer a si mesmo vez sermos parte das existências daqui. A Arte vem disso, desse eu secreto das criaturas humanas, manifestação de um outro eu que flutua no interior da gente. Área reservada ao que nos cabe evoluir, se revela pouco a pouco, na medida em que aceitamos a intuição, a inspiração, sonhos, imaginação, sentimentos. Vem à tona universo inesperado que tende a preencher de novas oportunidades o instinto de conhecer o desconhecido e preencher o vazio ao dispor, e aceitar, pois, novos planos de fortalecimento de viver longe da rotina desses dias de angústia e tentativas que experimentamos no correr das horas. 

Território de que ninguém jamais fugirá, há nisto uma brisa de outras histórias que nascem de nós mesmos, ainda que disso queiramos buscar alternativas que não representem tanta responsabilidade diante das vivências, onde ninguém passa impune aos equívocos praticados neste chão. Esse eu secreto insiste manter anonimato, daí os nomes que recebe no decorrer das civilizações, de comum mistificado em códigos de sacerdotes e magos. Corpo maior daquilo que aparece no horizonte das circunstâncias, em livros, tratados, religiões. Mudar por dentro será, por isso, a fórmula ideal das revelações. 

Alguns mais afoitos até propõem soluções de continuidade ao que aprendem nos estudos e pesquisas, ocasionando roteiros de soluções aos males da alma humana. – Desça esta escada, disse o estrangeiro, e quando você chegar embaixo achara um salão. Atravesse-o sem parar um instante. No meio desse salão há uma porta que dá para um jardim. No meio desse jardim, sobre um pedestal, esta uma lâmpada acesa. Pegue a lâmpada e traga-a para mim. Se os frutos do jardim lhe apetecerem, pode colhê-los à vontade.

Sem a mínima dúvida, do tanto que sabemos resta muito mais a saber face à profundidade dos abismos da Sombra, nesta natureza de que somos parte essencial. 


22 fevereiro 2021

Como eram os diplomatas nos Tempos Imperiais

     Fiscalizar a nomeação e a promoção de diplomatas era uma das maiores preocupações do Imperador Dom Pedro II, que conhecia, pode-se dizer, a vida de cada um. Daí, por exemplo, opor-se à nomeação do futuro Barão do Rio Branco para Cônsul do Brasil em Liverpool, no Reino Unido, por se ter este amasiado no Rio de Janeiro com uma atriz belga do Teatro Alcazar, e já ter dela um filho. 

   É também conhecido o fato de um diplomata nosso que, após uma carreira sem manchas, foi nomeado Embaixador em São Petersburgo, então capital da Rússia. Naquele momento, o homem estava na Itália, quando veio a público haver ele cometido irregularidades no jogo, em um clube fechado, frequentado pela aristocracia romana. Sabedor do fato, o Imperador foi inexorável; mandou demiti-lo imediatamente, cassando-lhe ao mesmo tempo o título de Conselheiro.

   O resultado desse policiamento do Soberano era um corpo diplomático ao mesmo tempo brilhante e capaz, moldado na melhor escola, onde cada qual se impunha pelo seu valor próprio e suas altas qualidades morais. Não se viam diplomatas sem um mínimo de moralidade, ostentando publicamente as suas amantes; embriagados, praticando toda sorte de desatinos; ou fazendo falcatruas, emitindo cheques sem fundos, fazendo dívidas de jogo, tudo à sombra das imunidades diplomáticas e amparados pelos governos com o silêncio.

FONTE: Leopoldo Bibiano Xavier, no livro "Revivendo o Brasil-Império". 1º ed. São Paulo: Artpress, 1991. P. 35.

Todas as promessas - Por: Emerson Monteiro


No exercício da fé, há que aceitar todas as promessas. Andar todos os passos e resolver o enigma de pisar este chão tais andarilhos tontos. Depois de chafurdar os cinco sentidos, decidir qual direção. Bem isto de revirar as peças desse jogo enquanto estamos a caminho, porquanto há dias contados. Externar o destino em forma de transformar o momento de viver num relativo absoluto, abrir e fechar de olhos às portas dos objetos que fogem aflitos de nossas mãos angustiadas e viver realmente o objetivo de tudo. Pássaros assustados com a natureza em volta, mergulham na luz e trinam sem cessar face ao furor da liberdade.

Quiséssemos apurar o senso dessa transformação, disso tudo restaria solucionado o mistério de andar nessas paragens do Infinito, e buscaríamos viver para sempre nos braços do que nos une às marcas que aqui deixamos. Colheríamos todas as flores do Universo em nós e acalmaríamos de uma vez por todas o desejo da felicidade maior. Gestos simples, largas plantações de alegria e paz invadiriam os corações, em festas inigualáveis de carinho e fraternidade.

Fosse isso, no entanto, que esperamos de nossos movimentos desencontrados, em verdade já vivemos a todo instante o pleno vigor de uma renovação mais pura. Filhotes do tempo, saberíamos resistir ao inevitável, no pretexto de conhecer o que ainda ignoramos. Vêm os sonhos e revelam segredos inesperados, mesmo que insuficientes a que aceitemos o mistério e deixemos de andar às tontas nas estações do caminho. Criamos algemas nos próprios punhos, frutos dos equívocos por demais. Agarramos às culpas feitos vítimas da conformação do sem jeito. Devemos disso nos livrar o quanto antes e reviver.

Daí o sentido único de sair da caverna do passado e fixar propósitos no presente, viventes da imortalidade que o somos. Querer praticar o que esperamos, na forma de criaturas refeitas no primor do Paraíso perdido, agora reencontrado. Isto depende exclusivamente de nossa decisão espiritual.


20 fevereiro 2021

Um oceano de memórias - Por: Emerson Monteiro


Nele, pois, navegamos dias e dias. Surpresas dos tempos que já se foram, carregando de nós os momentos, frágeis criaturas do Infinito que somos hoje. Tangemos as velas do próprio barco rumo ao depois das horas que somem no abismo do intransponível, quais tripulantes do tempo que esvaem no horizonte. Sacudimos os instrumentos de viver, equilibramos sonhos e dosamos o destino. Aprendizes da condição atual, submissos ao desconhecido, erguemos olhos às águas e esperamos existir para sempre nesse movimento das ondas impacientes.

Reunimos, assim, pedaços do passado e formamos ilhas de solidão, dividindo com pessoas e objetos as emoções sucessivas diluídas no abstrato. Sem quaisquer intervalos, remamos no mar das saudades e lembranças, rescaldos de tantas vivências que formam o que nos imaginamos ser, a gente na gente mesma. Peças que vêm à praia nos sargaços do que fomos, e gritam aquilo que ora vivemos, brados intensos das relíquias abandonadas de náufragos trazidos aos rochedos da vista interior. Quantas e tantas recordações que nessa ocasião ferem a alma de arrependimento do nunca mais poder reviver o que antes foi.

Bem isto, fragmentos de histórias, experiências, contradições, amores, que tudo somado dá nisso que transportamos vidas e vidas, arquivos esquisitos de tempos antigos, comandantes de universo à parte que aqui carregamos conosco em forma de imagens, músicas, festas, viagens, ausências, livros, filmes, amigos, farnéis de lutas, esperanças e anseios entranhados em nós feitos feras indomáveis.

Isto do ser das águas deste mar imenso e ao mesmo tempo sustentáculo de resistir a qualquer custo aos fatores do desaparecimento. Máquinas de contar as aventuras do passado ao presente, deslizamos a vontade livre pelas ondas de certezas impossíveis, fieis buscadores de conchas entre os farrapos da ilusão. Conquanto súditos desse reino invisível, alimentamos de perguntas o vento que, morno, sopra segredos em nossos ouvidos. Quando, afinal, tocaremos o reino definitivo dessas existências só de longe iremos saber, vez que haveremos de esgotar, de tudo, o instinto de sobreviver, enfim, às nuvens transitórias da mais fria realidade.


19 fevereiro 2021

O mundo em nós - Por: Emerson Monteiro


Desde mínimos detalhes, somos o espelho que reflete a realidade presente. Vivemos na medida com que nos apercebemos disto. Crescemos conosco próprios. Artífices da nossa consciência, elaboramos o caminho dos nossos passos e tocamos adiante esse mundo que nos é dado face a uma nova percepção. Daí vêm todas as escolas que transitam pelas nossas atitudes. Assim, tais maestros que se aperfeiçoam, vivemos mundo à parte do das outras criaturas individuais. Em segredo, construímos visão nova do universo e sustentamos histórias de que somos diretor e ator principal. 

No entanto havia de existir também aquele com quem nos cabe contracenar a peça desta vida. Enquanto viajamos pelos dias, temos em nós esta companhia incessante. Havemos, lá um momento, de compreender que a solidão é mero instrumento de revelar essa presença constante, contraditória. 

Foram muitos séculos até avaliar a dimensão de transformar a realidade que refletimos em consistente compreensão deste mundo, aonde todos seguimos na busca de encontrar uma verdade definitiva. Agora existem muitos que se trabalham neste sentido, adotando providências que possam sustentar a salvação de si mesmo depois de tudo, no quanto de concreto já exista.

Nisto, seremos os professores que ensinam outra visão do que seja viver, modificando-a incessantemente qual norma de resistência diante da transitoriedade desse plano material. Prudentes na resposta que providenciam no transcorrer das existências, trabalhamos outra possibilidade além do simples percorrer das vidas e desaparecer no firmamento.

Porém essa providência inevitável requer iniciativa de valor inestimável. Exige esforço de renúncia, e reclama superação das costumeiras respostas negativas dos comportamentos ocasionais. Algo de sublime que aconteça, vindo de nosso coração, misto de religiosidade e esforço. Fé e trabalho, em favor dos valores místicos; transformação de nós em novos seres, que significam o itinerário de Si a uma nova revelação. De meras presas do destino, seremos a fonte da Perfeição de que ora somos a semente. 


Saudades de Antônio Olinto – José Luís Lira (*)


   Chega o dia de enviar a coluna para o jornal e o blog e as ideias não fluem. Este tempo que vivemos nos deixa assim. Antes alegávamos falta de tempo... Era (é?) uma correria. Hoje, muitos estamos com trabalho em casa  (prefiro o português ao inglês).  Os  dias  parecem  demorar,  mas,  têm  a  mesma velocidade. Nós é que não estamos na mesma intensidade. Faz quase um ano que assim estamos, mas, parece mais tempo. A parada foi necessária. Nunca critiquei, nem criticarei, nenhuma medida nesse sentido. Lembrando o poeta Gonzaguinha, “este tempo vai passar”.

   No quarto que improvisei como local de trabalho na casa dos meus pais, antes mesmo de ser o espaço destinado a isso, eu já colocava livros, revistas, enfim. E, hoje pela manhã, deparei-me com o livro “O Menino e o Trem”, de Antônio Olinto, da Academia Brasileira de Letras, diplomata, amigo querido. Esses dias ouvi uma entrevista dele para o também imortal Arnaldo Niskier. Aliás, guardo uma entrevista que ele concedeu ao irmão Ticar, Diassis Lira para o público em geral, quando Olinto esteve em Guaraciaba do Norte (2007). Entrevista concedida num quarto da casa do Monte Alegre. Vínhamos de Sobral onde o imortal foi na Universidade Estadual Vale do Acaraú, experimentou da carne de sol do Aragão e foi à Biblioteca Municipal Lustosa da Costa. Para acomodar dignamente a ele, sua assessora Beth Almeida, Bárbara e Henrique Ayres (filha e neto de Mello Mourão), os hospedamos no extinto Hotel Sol Nascente e o jantar foi no sítio Monte Alegre. Comida tradicional, forró pé-de-serra (Olinto até ensaiou uns passos) e café, com pó feito de grãos torrados em caco de barro. Foi um dia espetacular.

     Depois que conheci Antônio Olinto, registrado Olyntho, mas, que ele simplificou, o inverso do que normalmente ocorre hoje, ele fez três visitas ao Ceará. N’uma veio para a Bienal do Livro (2006) quando estava com a querida Nélida Piñon; n’outra para o lançamento de meu livro sobre Gerardo Mello Moura, “A Saga de Gerardo: um Mello Mourão”, ocorrido em 26 de abril de 2007 e, finalmente, em outubro de 2008, mais especificamente dos dias 26 a 29, para lançar sua biografia, escrita por mim: “Brasileiro com alma africana: Antônio Olinto”. Na última visita, Matusahila e eu o recebemos em nossa casa, em Fortaleza, juntamente com Beth Almeida, sua assessora e quase filha.

     Olinto era uma figura amável e amada pelos que o cercavam. Foi seminarista e herdou para toda a vida a religiosidade. Criança, nas Minas Gerais, teve contato com ex-escravos, agregados de família que tinham conhecimento da cultura afro. Ao chegar a Lagos, na Nigéria (Continente Africano), como adido cultural do Itamaraty, apaixonou-se pela alegria do africano, pelo profundo respeito por seus antepassados e divindades. Foi a inspiração para sua trilogia “Alma da África”. Na sua despedida, um representante tribal, ao homenageá-lo, disse que o diplomata tinha a alma negra – na tradição deles, maior elogio que se pode dar a um não-africano. Hoje me volto à enésima releitura de “O Menino e o Trem” e destaco o conto que intitula o livro e “A Palavra”, no qual ele dá vida à palavra que “tinha consciência de sua integridade verbal”. Lindo, simples, mas, sofisticado como era nosso imortal que nos acompanha da eternidade.

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


18 fevereiro 2021

Pelas ruas da cidade - Por: Emerson Monteiro


Os tempos em movimento nas situações e lembranças vivas, tempero da sobrevivência dos nativos em horas vazias de tudo. Lugares, pessoas, vivências. Filmes projetados na consciência da gente. Superposição de imagens que insistem persistir aonde quiser, pois vêm de moto próprio e invadem as sombras da consciência. Mesmas cenas de antes que regressam e confundem o senso do agora. Ninguém dormiu no passado, e despertos seguem através das criaturas dolentes que ora somos. Impregnados pela arquitetura das cidades, sustentam a necessidade das existências inevitáveis. Quantos séculos andam assim soltos no ar do infinito?!

Dizem que, de vez em quando, eles regressam na forma de sentimentos, saudades atrozes dos momentos agradáveis que perdemos nas atitudes, luzes a piscar na escuridão dessas janelas apagadas. Imagens dos seres de antigamente que percorrem, de jeito fantasmagórico, por dento, a alma das criaturas humanas. Lado a lado com esses escombros de memórias, renascem das cinzas e crescem no horizonte os pensamentos, feitos visagens renegadas, impertinentes. Guardam relíquias que as esquecemos de largar, no descompromisso da sorte de hoje, parte integrante do que fomos. Alguém que jamais deixaremos de ser, porquanto tais registros fincaram garras ao teto das visões, tangidos na espiritualidade imortal. Veremos nas tantas ocasiões nossos pecados enterrados em nós, e de nós pediremos perdão pelos atos espúrios ali praticados. Temos implorado o favor do esquecimento, no entanto ser imaginário diz que pecamos e que, com isso, reconstruiremos os velhos barcos abandonados nas praias distantes da ingratidão. Pátria do impossível, seguiremos trilhas de ausências, espécies de criação de nossos desejos que nunca sumiram de todo. Que sejam tais duas realidades, a fruto da ambição e a verdadeira, que nos devemos a ela submeter e ganhar na luta contra o desespero e a saudade. 

São bem essas as ruas da cidade onde pisamos um dia e deixamos nelas pedaços de vidas agarrados às frestas das casas e do chão, a que voltaremos em cima do rastro sob o peso dos sentimentos ali presenciados. Nós, pedaços eternos de nós mesmos, marcas indeléveis da caminhada dos sonhos e que levamos conosco até depositá-los, um dia, lá nas florestas virgens da Eternidade.


17 fevereiro 2021

O crime do aborto - Por: Emerson Monteiro


O saber natural, em sua ação persistente, criou as condições de gerar filhos e os seres humanos em sua ignorância os expelem a sangue frio natimortos, quais eliminassem animais desnecessários, sendo seus próprios semelhantes.

Houvesse leis pela preservação da vida em soberbas características de contenção dos desmandos praticados em redor do mundo e, decerto, a história mostraria inegáveis oportunidades de felicidade a esses tontos mortais esfomeados de prazer imediato. Beethoven foi o quinto filho de uma prole de deficientes, ao que aconselhariam sua família a se livrar dele antes de nascer.

Jamais, senão agora, demonstrações de ausência de lucidez parecem crescer no horizonte esfumaçado da destruição na flor da idade, no meio dos escombros da barbárie que toma conta dos séculos. Símbolos de paz viraram motivos de ausência de critério, nas promoções desencontradas de minorias vencidas.

Mas falávamos da covardia do aborto... Que pouca honestidade para com os semelhantes a nascer essa atitude... Nem de longe se deve imaginar uma coisa dessas para o Brasil, povo ordeiro e lutador Tirar a vida, como querer? Não sabemos repor o viver de quem morre, por isso não se devem eliminar os seres humanos que aguardam as mesmas chances de brotar, crescer e conhecer.

A morte dos inocentes em gestação clama consciência, portanto. Falar na esperança dessas vidinhas em sumidouro, desejos de viver na lama dos ausentes, dói e requer disposição de ânimo dos que lutam pela paz. Aquilo que seria a festa das famílias chegarem novos filhos torna-se, por isso, chama apagada no vento abusivo das palavras vazias, derramadas no lixo.

E falar em amor exige coerência a uma civilização bandida, revirada nos laços das armadilhas, caminhos tortuosos, vilã matreira de poucas luzes. Gritos de promessas, entretanto, rasgam o espaço das sombras. A força de sobreviver, falando alto nas entranhas das gentes, indica o valor carinhoso de novos sonhos.

Quisessem reverter os quadros fantasmagóricos daquela indigência e praticassem hábitos justos e alegres de salvar os que, mais que antes, precisam viver...


16 fevereiro 2021

O balbuciar das canções - Por: Emerson Monteiro


Houvesse o Sol ter que nascer sem o cantar dos passarinhos, sustento minhas dúvidas se com isso Deus concordaria. Nalgumas frases apenas as canções tocam forte nas fibras da alma da gente. Querer justificar o que cativam as melodias, nas letras, nos fás sustenidos, nas longas e breves, ninguém explica. E de onde elas vêm, quem sabe?! Doutros astrais, de longe das vistas, de longe, bem de longe decerto. Do campo das musas de profundas inspirações. Chegam aos abismos de dentro e ali permanecem plantadas para sempre na consciência distante. A beleza da poesia, da arte, da essência, que alimenta o desejo de felicidade traz consigo as pautas, os ritmos, o andamento...

Nunca esqueço o clima das canções que me fizeram a cabeça. Dos dias, daquelas horas santas de quando as ouvi. Bem claros os momentos, o estado de espírito, os sonhos incendiários. Lembro até das pessoas com quem, à época, mantinha aproximação e dividia as apreensões. Juntos tais pedaços de existências, posso, inclusive, formar, de novo, aquele eu que pensava ser e vagava nas calçadas do passado, e sofria, e angustiava, e ansiava. Espécie de romantismo crônico invadia os estágios entre as duas realidades e as canções trazidas à trilha sonora dessa perpetuação que hoje observo reviver nas audições daqueles turnos e de agora, únicas e iguais nos labirintos dos ouvidos. 

É quando escutamos a melodia, as letras, os tons, que daí advém quadros que apresentam primeiro os sentimentos, e só depois os pensamentos que dali nasceriam e salvos continuam. Tantas épocas de milhões de rostos anônimos que desfilavam à frente dos olhos, enquanto aos ouvidos vem esse comando insistente, definitivo, da música imaginária.

De comum, resumem ser saudade isso que se sente diante do que foi sem chances de regressar, a não ser que a música não houvesse, pois, de voltar. Saudade, que disseram tratar de palavra do Português no Brasil, com exclusividade. Saudade que vem de solidão, soledade, sordade, até virar saudade, tal jiló que arde nas entranhas da pessoa que padece. A música possui  condão de mexer o íntimo e reinventar do que sobrou através da arte, na sensibilidade, no sentimento que resta ao fim de nada mais. Uma fala doce que sussurra no peito as mesmas emoções antes vividas, tocadas de perto, guardadas com extremo zelo nos acordes e percussões.

De tanto esperar o invisível dos tempos, terminamos aceitando escutar, pelo sentido espiritual da audição, a presença forte e distante de tudo que retivemos às dobras do sentimento; são as músicas, que falam disso e alimentam a certeza da alegria eternizada em nós escondido na ausência. Por isso, bem melhor agora abrigar os acordes da canção no prazer de estar bem aqui e viver de novo tudo de bom.

 

Realidade provisória - Por: Emerson Monteiro


Em 1978, voltaria a Salvador, onde permaneceria por sete meses. Nesse tempo, assisti a uma palestra de Huberto Roden, filósofo e ex-sacerdote jesuíta, autor e tradutor de dezenas de livros que eu lia e estudava com frequência e entusiasmo. Tratou de um tema relativo à filosofia oriental, tendo por base o pensamento hinduísta, da cultura dos vedas. Dentre outros conceitos, abordaria a noção de maya, ou ilusão.

Seu significado é complexo porque envolve ele mesmo uma dualidade, pois maya não pode ser real se consideramos o Absoluto (Parabrahman) como a única realidade, mas não pode ser irreal pois é a base de todo o universo objetivo. A realidade última, assim, envolve a compreensão da natureza de maya sem sua negação, mas distinguindo-a do Absoluto. Wikipédia

Depois de concluída a fala principal, vieram as perguntas. Um dos presentes indagaria que, se maya não existe, porque tanta preocupação, conquanto fosse só mera ilusão. Ao que o palestrante foi incisivo em dizer que enquanto estamos aqui ela se faz parte a influenciar o comportamento das criaturas no processo de viver. Possui existência transitória, porém determinante. 

Ainda que tenhamos ciência dessa transitoriedade ilusória, no entanto somos levados a agir, tantas vezes, sob sua influência.

...

A existência terrena significa, pois, mais que apenas agir, mas reagir em face das circunstâncias. Quais atores do destino, somos dele os responsáveis diretos, através das condições que se nos apresentem. Livres, contudo responsáveis pelas nossas ações na busca da realização pessoal. Ter por que viver e liberdade em aceitar as situações. Em nossas mãos, as rédeas do destino. Se eu não fizer, quem o fará. Se não faço agora, quando farei. Hilel Já que não se podem alterar as circunstâncias, que mudemos nós. 

Em nós, portanto, a alternativa de interpretar o Universo e dominar as malhas do desafio, até preencher de sentido a arte de viver.

(Ilustração: Arqueologia egípcia).

15 fevereiro 2021

Os deuses sabem que estamos aqui - Por: Emerson Monteiro


Eles sabem e silenciam. Guardam consigo as surpresas que haveremos de viver dias e dias, nessa longa estrada. Nem de longe querem aparecer às nossas vistas, e silenciosamente até trabalham os obstáculos e as facilidades com que nos defrontamos a fim de crescer e subir aos céus. Eles exercem papel fundamental em tudo quanto existe debaixo do sol. Espécies de condutores de rebanhos selvagens, zelam e alimentam nos seus mistérios a luz do dia e na escuridão da noite, afeitos que são aos ditames da Natureza.

Destinados que foram a construir novos seres em nós, agem quais fieis servidores que o são, no ímpeto de harmonizar os destinos. Falam-nos pelos sonhos, pelo canto dos pássaros, pelo soprar dos ventos, o bater das ondas, o marulhar das correntezas e o ciciar das florestas em flores. Ouvem nossos gritos de socorro, e respondem à medida do nosso merecimento. Alimentam nossos passos quais amigos anônimos, deixando que façamos o melhor e desenvolvamos o talento da nossa salvação.

Tantos até habitam a morada onde vivamos, disfarçados de irmãos, pais, amigos, a dividir conosco a fortaleza de existir, na sabedoria do crescimento espiritual. Chegam sempre nos momentos críticos; sustentam o instinto de continuar as lutas mais insanas; trazem palavras de conforto diante das dificuldades cotidianas. Riem dos nossos risos, enriquecem a nossa imaginação e nos aproximam dos lugares mágicos que nos façam acreditar na realização dos nossos planos. 

Eles vivem, sim, bem junto de todos, instrutores da esperança, arautos dos dias melhores, da verdadeira felicidade e dos sentimentos nobres da fraternidade humana. Trazem as ideias geniais dos novos engenhos que movem o mundo; oferecem meios de elaborar aquilo de que precisamos no desenvolvimento e inspiram líderes pelos caminhos da verdade. Sobrevivem a tudo por que tenham de passar, vez serem eternos e valentes. Nisto, falam-nos através da inspiração, da intuição, quando insistem sussurrar aos nossos ouvidos que sigamos em frente rumo à libertação desta vida ainda ilusória que nos foge das mãos, e busquemos tempos de paz definitiva. 

(Ilustração: Aguirre, a cólera dos deuses, de Werner Herzog).

O princípio da religiosidade - Por: Emerson Monteiro


Que é isto que aperta o meu peito?Minha alma quer sair para o Infinito ou a alma do mundo quer entrar em meu coração?         
                                                                     Rabindranath Tagore

Desde sempre que a humanidade percorre os caminhos dessa procura, através dos meios de que dispõe. Num lado, a origem, nos tempos de uma existência em fase de perguntas, porém dotada dos instrumentos necessários ao encontro definitivo consigo nas respostas da Natureza. São mil tentativas em tudo que persiste diante do Infinito. Daí a religiosidade, que noticiam os místicos; a fase interna da evolução nas criaturas, a que viemos, nós, seres humanos. Daí as instituições religiosas, que, por vezes, quiseram deter a si verdades exclusivas, quais não fossem estas direito de todos. Assim, os dramas seculares que demonstram quanto à urgência no fim de responder coerentemente ao desafio do autoconhecimento, da busca da luz espiritual. São setas no caminho da Eternidade, em alguns momentos restritas a grupos isolados de estudos, no entanto que Deus está solto, qual diz Fernando Pessoa. Livre tal a vida, que gravita pelos céus na revelação da Consciência a se revelar no íntimo de todos. 

Destarte, haverá um dia quando tudo será claro e uniremos nossos planos aos planos do Universo, e falaremos linguagem única de sermos irmãos no real sentido. Haveremos de praticar o que ensinam os credos religiosos com toda intensidade. Nessa hora, iremos compreender, em toda plenitude, aquilo que falam os sábios. 

Este o sonho dos humanos durante os milênios, de revelar em si o poder maior da Criação. Saber com intensidade a que viemos. Evidenciar o motivo do quanto vivemos vidas a fio nas religiões, nas filosofias, em todo o conhecimento; a causa caúsica do quanto existe virá à tona. Ver-se-á, então, que as circunstâncias foram tão só a razão de estar aqui e praticar bons sentimentos, que trouxeram os livros e os cultos Pois em tudo habitará o senso da imortalidade fraterna e o Amor verdadeiro. 


Coisas da "ré--pública"

 

   Hoje faz 12 anos que o Brasil sofreu uma das maiores humilhações da sua história diplomática. O índio “cocaleiro” Evo Morales (que foi eleito e reeleito, várias vezes, para a presidência da república boliviana), sem nenhum constrangimento e com a omissão e cumplicidade do “presidente-operário” do Brasil, Lula da Silva, invadiu as instalações da Petrobrás em seu país. Apropriou-se do investimento brasileiro, acertado e oficializado em acordos diplomáticos e bilaterais, e – sem nada pagar àquela empresa – se apropriou (roubou, no popular) a refinaria da Petrobrás.

     Vivíamos os tempos do “petrolão”, de triste memória, que nos trouxe prejuízos de bilhões de dólares. A entrega da refinaria da Petrobrás à Bolívia, sem indenização alguma, foi apenas mais um episódio.

         O povo brasileiro não pode se esquecer do que fizeram esses dois pilantras...

Mesmo no exílio, a Princesa Isabel acompanhava tudo relacionado aos brasileiros

   Forçosamente exilada na França desde a quartelada republicana de 15 de novembro de 1889, a Princesa Dona Isabel, àquela altura Chefe da Casa Imperial e Imperatriz “de jure” do Brasil, tomou conhecimento de que o Doutor Ricardo Gumbleton Daunt não queria aceitar a cadeira de Deputado que lhe coubera nas eleições, pois era visceralmente monarquista e não queria, portanto, ocupar posto algum de saliência no Brasil sob a forma de governo republicana.

      Contrária àquele procedimento, a Redentora disse à irmã do eleito:
Diga ao seu irmão que ele deve aceitar a cadeira de Deputado e propugnar pela grandeza moral, econômica e intelectual de nossa Pátria. Não aceitando, ele estará procedendo de maneira contrária aos interesses da coletividade. De homens como ele é que o Brasil precisa para ascender mais, para fortalecer-se mais. Faça-lhe, pois, sentir que reprovo sua recusa.

Fonte: Livro “Revivendo o Brasil-Império” de Leopoldo Bibiano Xavier.

               A Princesa Dona Isabel de Bragança, Chefe da Casa Imperial do Brasil, 

durante o seu exílio forçado na França.



13 fevereiro 2021

O desafio das páginas em branco - Por: Emerson Monteiro


Que mais além do silêncio desta noite... Dizer por dizer... Cobrir as falas do vazio com os ruídos esquisitos vindos das entranhas da Terra nos saltos da imperfeição... Saber que ninguém conhece as raízes dos mistérios noturnos... Ciciar do vento nas árvores, pássaros que cantam fora de hora, gritos distantes de solitários esquecidos; esforços e dramas ocultos na imensidão...

As horas feitas monges enfileirados pelos minutos que desfilam nas janelas da escuridão e desaparecem para sempre nesses nada que insistem sobreviver no colo das almas. Só um fragor de esferas e essa distância imensa das estrelas no céu. Dentro de mim, o rio da saudade percorre esse infinito, olhos perdidos na ausência que não mais existirá logo adiante, enquanto o amor macera o peito; o bater dos sinos impossíveis. 

E as palavras, flores do pensamento, derramam significados sobre o papel, no desejo insano de contar as histórias do inesquecível. Transpirações da consciência, elas inventam o espaço e revelam desejos insaciáveis de continuar, ainda que persistam a dor, a morte e o medo... Lembranças que circulam em volta da sala; gnomos, fadas, duendes teimosos, que comprimem a ânsia de existir, quando claros do dia anunciam novo amanhecer.

As narrativas dos sonhos falam disso, da fome inesgotável de transportar os segredos da madrugada aos que continuavam adormecidos. Questionam o paraíso das luzes, com suas vastidões de lendas. Assim, páginas pulsam de serem vivas na imaginação, vontade extrema de acalmar o que habita aqui nos animais inocentes à procura da Eternidade. São contos das outras dimensões que despertam no frio das manhãs. Trazem farnéis de esperança e esfregam os olhos, querendo despertar de si mesmos.

As falas do dizer dos humanos... Réstias das cavernas que o somos... Estilhaços feitos pedras, dramas no coração de todos... Estranhos em movimento na face do desconhecido, isto que transportamos, tanto no pensar, quanto no querer dizer nas páginas em branco.


12 fevereiro 2021

Saudades dos Tempos Imperiais! Uma dura reflexão – por Armando Lopes Rafael

   A bem dizer, o cargo de  Presidente da República – em qualquer país que adota esta forma de governo – deveria ser o símbolo mais respeitado pela população. Deveria. Infelizmente, isso nunca aconteceu no nosso sofrido e querido Brasil. Iniciamos este novo século (e novo milênio) sendo governados por cinco presidentes. 

    Nenhum deles se afirmou como estadista! Nenhum deles serviu como motivo de união ou de unanimidade respeitosa para a totalidade da nossa dividida população. Um desses, por sua desastrada e incompetente administração, motivou milhões de pessoas saírem às ruas, Brasil afora, pedindo o seu impeachment. Outro, foi preso durante quase dois anos, acusado de corrupção, sendo o único Presidente do Brasil a cumprir tão lamentável papel. Dói dizê-lo.

  Diferentes eram os tempos do Brasil Imperial! Como bem lembrou Dom Luiz de Orleans e Bragança, atual herdeiro do Trono e Chefe da Casa Imperial Brasileira: 

“Mais de 130 anos já se passaram, e os contrastes entre o Brasil atual e o Brasil-Império só têm crescido. No tempo do Império havia estabilidade política, administrativa e econômica; havia honestidade e seriedade em todos os órgãos da administração pública e em todas as camadas da população, havia credibilidade do País no exterior. Havia dignidade, havia segurança, havia fartura, havia harmonia”.

    Nos dias atuais o Brasil tem saudades do Imperador Dom Pedro II, ainda hoje considerado “O maior dos brasileiros”. 

Dom Pedro II, conforme a Constituição do Império
"Imperador aclamado e Defensor Perpétuo do Brasil"


É Carnaval? e a Quaresma? – José Luís Lira (*)

 

     “Quanto riso, oh, quanta alegria!/ Mais de mil palhaços no salão/ Arlequim está chorando/ Pelo amor da Colombina/ No meio da multidão”, os versos dos cariocas Zé Keti e Pereira Matos (1967), este ano de 2021 ficarão só na lembrança. Fazendo trocadilho com a marchinha do ano seguinte, 1968, de Paulo Sette e Umberto Silva, vemos um recado para este ano e uma esperança para 2022: “Este não ano vai ser/ Igual aquele que passou”... Ano passado houve comemoração que rima com aglomeração. Este ano ficaremos em nossos lares e se assim fizermos podemos manter a esperança de normalidade no próximo ano.

      As origens do carnaval são diversas e nesses dias, em tempos comuns, o País para. Uns dizem que na Babilônia, na Grécia e na Roma da antiguidade, já havia algo comemorativo. O carnaval surgiu no Brasil de modo simples, sutil. No período colonial os escravos faziam a festa. Depois foi crescendo e tomando corpo, passando pelo período belo das marchinhas de carnaval que se inicia com a composição de 1899 de Chiquinha Gonzaga, intitulada “Ó Abre Alas”. E as dimensões atuais são tamanhas que fazem todo esse “reboliço”.  Neste 2021, um vírus terrível nos assombra e nos faz ficar em casa ou naquelas atividades essenciais. 

     Escrevo esta coluna numa quinta-feira, véspera da sexta-feira em que antecede o carnaval que se deseja sem aglomerações, para o bem de todos. A rodoviária de Sobral está fechada. E fazer o quê? A vida é o bem essencial e para protegê-la tudo é válido. O registro que faço é para que a posteridade conheça que o passamos. E recorro de novo a Paulo Sette e Umberto Silva para quando o próximo carnaval chegar, embora que eu nesunca tenha sido bom folião, mas, quando do carnaval deste ano falarmos, vamos dizer: “Eu não brinquei/ Você também não brincou/ Aquela fantasia que eu comprei/ Ficou guardada e a sua também/ Ficou pendurada”, “Mas este ano está combinado/ Nós vamos brincar...”, serão “... três dias de folia e brincadeira”. E voltando a Zé Keti, diremos, “Foi bom te ver outra vez/ Tá fazendo um ano/ Foi no carnaval que passou”... “Eu quero matar a saudade/ Vou beijar-te agora/ Não me leve a mal/ Hoje é carnaval”.

      Este ano o Carnaval, palavra originária do latim, carnis levale, significando retirar a carne, não terá festas, desfiles e aglomerações. As casas de praia e de serra não receberão inúmeros convidados. Ficaremos reservados. É que as autoridades nos recomendam e, no momento, se constitui necessidade vital. Portanto, este carnaval se aproxima muito mais do período que viveremos na sequência, a Quaresma, com início na Quarta-Feira de Cinzas. Há uma grande simbologia nos 40 dias da Quaresma (que a bem da verdade são mais que 40, pois, o dia festivo do Senhor, domingo, não é contado). Remetem-nos aos 40 anos de caminhada dos hebreus do Egito à Terra Prometida; aos 40 dias que Jesus jejuou no deserto. 

      Após esses 40 dias que se seguem ao carnaval, teremos a Semana Santa que culmina com a Páscoa Cristã, no primeiro domingo após a primeira lua cheia do outono do hemisfério norte. A Quaresma é a preparação para a Páscoa do Senhor Jesus, momento de triunfo da vida eterna sobre a morte humana. Que nesta Páscoa ao celebrarmos a Ressurreição de Jesus, tenhamos o fim da pandemia!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.


11 fevereiro 2021

Dimensões - Por: Emerson Monteiro


A condição das pessoas de viver entre o antes e o depois significa divisão no tempo sem senti-lo nos próprios pés, tal fossemos estações de rádio fora da sintonia exata. Bem isso, a intenção da Natureza de nos trazer aqui e oferecer os meios de encontrar o hic et nunc (o exato lugar no exato instante); invés de se dividir a favor de um dos lados, uni-los. Isto também na rota da procura de Si mesmo, no esforço de nos unir conosco, poder sobre-humano de identificação das duas forças que trazemos: o ego material e o Eu espiritual, este a porta de acesso à nova dimensão: - Meu reino não é deste mundo – afirmava Jesus.

Enquanto que as ações de quantos ficam presas só ao chão, um ser interno dentro da gente aspira sentido real de tudo quanto há. Face às tentações da matéria, muitos prendem laços nas argolas dos dias e dias, e somem como que por encanto na cachoeira do que virá. Nem sei o motivo claro, a não ser de fixar interesses aos chamamentos imediatos, esquecidos das perspectivas da disciplina e dos mistérios que os somos. Presa, pois, de armadilhas equipadas de iscas quase irresistíveis, a horda vende almas nos mercados da ilusão. 

Tratar tema desta envergadura diante das palavras exige o mínimo de compreensão de quem diz e de quem escuta. Entretanto a ausência de respostas plausíveis, coerentes, ainda vaga feito quimeras assustadoras. Os desencantos do chão fazem disso as provas. São vidas e vidas, gerações e civilizações que passam, nos dramas da História. Ninguém que foi restou além de lembranças, obras criativas, e dos ensinos que deixaram. Grandes nomes de feitos magistrais. Igualmente, apenas isto, registros de memória e desejos largados nas estradas, vidas a fora. 

Futuro bom é hoje, esta hora, a todo instante, ocasião de revelar por que viemos, e transformar rotinas de sacrifício em missão evolutiva, até cruzar a fronteira dos destinos, nessa viagem de achar a resposta e despertar o nosso o ser definitivo no coração, morada dos sentimentos verdadeiros.


Séria ameça ao Brasil: venda de terras para estrangeiros – por Hélio Brambilla


   No final do ano legislativo o Senado desengavetou um projeto que “dormia nas gavetas” havia mais de um ano. Trata-se do PL 2963/19, apresentado pelo Senador Irajá Abreu, o qual foi aprovado em apenas 44 minutos na noite do dia 15/12/2020! O projeto torna realidade a venda ou o arrendamento de propriedades rurais a empresas estrangeiras. O texto seguirá para a Câmara e, caso não sofra alteração e seja aprovado, seguirá para sanção presidencial. Segundo notícia de O Estado de São Paulo (17/12/20), a medida dispensa autorização ou licença para aquisição de qualquer modalidade de posse por estrangeiros. (…) O texto determina que a soma das áreas não poderá passar de 25% da superfície dos municípios. 

    O leitor concorda que 2.136.857 km² de nosso território de 8.547.403 km² sejam vendidos para estrangeiros? Sabe que essa área é maior que os territórios da Alemanha, França, Espanha, Itália, Portugal e Áustria juntos? Tem alguma dúvida de que a grande interessada em comprar o Brasil é a China? Deseja ver seus filhos e netos nascendo sob o regime comunista? O projeto constitui uma aberração política, pois o mais provável comprador dessas terras será a China comunista, que além de estabelecer inadmissíveis enclaves no Brasil, cultivaria essas imensas áreas para perpetuar a escravidão do seu sofrido povo. Se este não tiver o que comer, o regime vem abaixo. 

    A Europa está de joelhos, com uma população envelhecida e entulhada de muçulmanos, graças à permissividade do Papa Francisco e dos governos das nações que a compõem. As medidas econômicas suicidas tomadas por elas para enfrentar a pandemia arruinaram suas economias e não impediram a ceifa de milhares de vidas. Enquanto os países muçulmanos superpovoam a Europa, a China a locupleta com dinheiro, visando alcançar o mais rapidamente possível a sua hegemonia mundial. 

    Felizmente o governo brasileiro está na contramão dessa política suicida. Na véspera do Natal, o atual Presidente da República voltou a condenar o malfadado projeto de venda de terras a estrangeiros. Se estes comprarem 25% das áreas limítrofes de três grandes municípios, possuirão um território maior do que muitos Estados da Federação e até mesmo do que diversos países.

10 fevereiro 2021

Moacir Siqueira, uma joia que sempre brilhará

 Por Carlos Rafael Dias

 

Moacir Siqueira era um personagem típico de nossa cratensidade, apesar de ter nascido em São José do Egito, Pernambuco.

Sua história com o Crato é uma verdadeira epopeia.

Com 14 anos saiu de casa, pegando um trem para outra cidade.  O destino, entretanto, o trouxe para cá. Ele errou de trem na hora da baldeação.

Chegou ao Crato, garoto ainda, com a cara e a coragem, somente.

Cara e coragem de caboclo, trazendo nos ombros o peso da ancestralidade que se fez guerreira, para sobreviver o holocausto cruento de trezentos anos de colonização predadora.

Como ele disse, de maneira alegórica, limpou m... com as mãos para poder se radicar na Princesa do Cariri.

Mas sua sina o predestinara a ser um vencedor. Seja como jogador de futebol, defendendo com galhardia (ele gostava muito dessa palavra) times e a seleção do Crato, seja como empresário. 

Foi um político efêmero. O destino novamente se encarregou de fazê-lo prefeito da cidade que ele adotou e que também, a duras penas, o adotara.

E foi um político e mandatário atípico. A História, nem sempre imparcial, há de lhe fazer justiça.

Agora resta a sua memória de homem íntegro, amigo, pai de família.

Tive o privilégio de ser seu amigo e de ter sido seu assessor no seu breve, mas profícuo tempo de prefeitura, na condição de secretário de Cultura.

Tenho muitos exemplos de sua grandeza. Vou me reportar a um que me tocou fundo o coração.

O poeta Luciano Carneiro, outra vítima, como ele, dessa maldita “gripezinha”, era vigilante do Museu do Crato, onde também funcionava a Secretaria de Cultura.  Ele tinha passado algum tempo de licença de saúde, em decorrência de uma depressão que o acometera pela morte de um filho, vítima de um acidente de motocicleta. Retornou ao trabalho, mas não estava totalmente recuperado. Veio falar comigo. Disse-lhe que nada podia fazer, pois não tinha autoridade para tanto.

Passaram-se alguns dias e, certa noite, em um evento que realizávamos no Museu, Moacir chegou e viu o poeta de farda, no seu turno de trabalho. Moacir, então, perguntou:

- Poeta, o que você está fazendo aqui?

Luciano respondeu que estava trabalhando, pois era o vigia da repartição.

Moacir disse-lhe que “poeta é para fazer poesia”, e dispensou-lhe daquele encargo tão tormentoso, o cedendo à Morada da Poesia, gráfica da Academia dos Cordelistas do Crato, do qual o poeta Luciano Carneiro era sócio.

Na sua simplicidade, Moacir mostrou quem era e para que veio.

Agora, com certeza, está mostrando para onde vai, deixando esse conturbado mundo mais pobre de exemplos nobres como os dele.

Morreu Moacir Siqueira, o prefeito que consagrou Crato a Nossa Senhora de Fátima -- por Armando Lopes Rafael (*)

   Era o dia 27 de janeiro de 2000.

   O Palácio Alexandre Arraes, sede da Prefeitura Municipal de Crato, estava lotado. Ante uma belíssima imagem de Nossa Senhora de Fátima, o então Prefeito, Moacir Soares de Siqueira, visivelmente emocionado, comandava a solenidade de Consagração da Cidade de Crato ao Imaculado Coração de Maria, com a leitura do texto a seguir transcrito.

    “Ó Virgem Senhora de Fátima, a cidade de Crato, prostrada aos vossos pés, crê e espera, deseja e implora a realização de vossa grande promessa: Por fim, o Imaculado Coração Triunfará!
      E nós, enquanto Prefeito deste povo fiel, em união com o Santo Padre o Papa João Paulo II, com o nosso Bispo Dom Newton Holanda Gurgel, e todo o clero, aclamamos desde já este triunfo, que fará raiar no mundo o Reinado de vosso Divino Filho, Cristo Jesus, nosso Redentor.

      E, ao mesmo tempo, suplicamos a graça de sermos instrumentos em vossas mãos para edificação deste Reinado, que só será verdadeiramente de Jesus, se for inteiramente vosso! Sois Vós, Senhora, a Estrela da Esperança e a Aurora do Terceiro Milênio. Foi por Vós que Nosso Senhor Jesus Cristo veio ao mundo, e será por Vós que ele reinará no mundo.

       E nós, vossos filhos de Crato queremos buscar em primeiro lugar este Reino, o Reino de Jesus em Vosso Imaculado Coração, bem certos de que todas as outras coisas nos serão dadas por acréscimo.

       Para selar oficialmente este propósito, nos Vos consagramos – tanto quanto nos outorga nossa autoridade de representante civil deste povo católico – nós consagramos ao vosso Sapiencial e Imaculado Coração nossa cidade, com todas as suas famílias e instituições.

       Aceitai, Senhora, esta consagração. Nós a depositamos em vosso Coração Imaculado, para assim nos consagrarmos mais santa e plenamente ao Sagrado Coração de Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Divino Filho. Assim seja.”

* * *

        A emoção e o silêncio de todos os presentes dava a entender que Nossa Senhora tinha aceitado esta consagração e parecia dizer a cada coração: “Fiquem tranquilos. Por fim, meu Imaculado Coração triunfará.”

        Assim, naquela singela iniciativa de 27 de janeiro de 2000, o Prefeito Moacir Soares de Siqueira – com a legítima autoridade de que estava investido – ao consagrar o Crato a Nossa Senhora de Fátima, separou para Deus esta cidade e seus moradores, oficializando-os – no âmbito civil – como propriedade da Virgem Santíssima. Esta, certamente, cuidará ainda com mais carinho e desvelo maternal, tanto da cidade como do seu povo, que já lhe pertenciam por desígnios de Deus, e cuja pertença foi ratificada por suas autoridades civis constituídas...

(*) Armando Lopes Rafael é historiador

O caminho nos próprios passos - Por: Emerson Monteiro


Todos os que caminham de costas para o Sol estão seguindo sua sombra.
                                                                                            Rumi

Tal seja assim, andar, de ir adiante, no ensejo de quem quer que exista nas quebradas do Tempo soberano. Mundos a fio, idas adentro da gente. Busca incessante de salvar o nexo de viver, nas missões dos que aqui e quantos existam. Sonhar, seguir nas estradas das noites, dos dias, horas sem par na imensidão de futuro imenso, réstia dos séculos. Nisso, revelar a essência de si aos rochedos da Eternidade. Entes misteriosos de histórias inesquecíveis, braços estendidos ao desejo das luas novas que passam velozes no trilho do horizonte, tateamos na procura dos Céus, frutos que somos do Amor divino, filhos diletos da Criação superior.

Caímos tantas vezes nesse agir das circunstâncias, que nós, titãs da Felicidade, só admiramos as belezas do Universo; no entanto queremos experimentar o fascínio das taças do mistério quais aprendizes dos erros de ignorar, experimentos da sorte que seremos, diante da perfeição do Paraíso, e tocamos em frente à luz que transportamos no íntimo, senhores do coração. O querer que nos conforta neste passar de momentos oferece os meios de nos salvar dos medos e das ruínas.

Há isto, porém, de vir revelar o ser primordial que já habita em nosso existir, pois viemos dotados de tudo o de que carecemos até localizar na alma o poder infinito de transformar o mundo em cada um e ser. Disso falam os credos, descrevem a paisagem onde formulamos o roteiro da felicidade. Seremos sempre esses artífices da solidão no exercício da paz, dotados de suficientes recursos de fazer do barro imagens luminosas, precursoras da esperança e da realização plena do que aqui viemos buscar.

Destarte, olhos postos na imagem que ora projetamos à nossa frente, saberemos que uma luz esplendorosa nutre o caminho sobre que andamos, nesta e noutras vidas, autores dos passos seguintes, no itinerário único da Fé.


08 fevereiro 2021

Nhá Chica e a republica brasileira – por Armando Lopes Rafael

       Para quem que ainda não ouviu falar na Beata Nhá Chica, informo que este era um apelido dado a Sra. Francisca Paula de Jesus, filha e neta de escravos. Dona Francisca de Paula de Jesus – mais conhecida por Nhá Chica –, foi beatificada pela Igreja Católica em 2013. Nascida em Minas Gerais, em 1808, num distrito do município de São João del Rey, aos dez anos, em 1818, ela acompanhou sua mãe que se mudou para a vila de Baependi. Nesta última cidade, Nhá Chica viveu toda a sua vida, vindo a falecer – em odor de santidade – em 14 de junho de 1895. Ficou órfã de mãe aos dez anos de idade. E a partir daí viveu sozinha. Dizia Nhá Chica que “cresceu e viveu sob os cuidados de Nossa Senhora”. Nunca aceitou propostas para casamento.

      Nhá Chica era analfabeta. Na infância aprendeu com a mãe a amar a Deus e fazer caridade às pessoas, sem distinção. Tinha profunda devoção a Virgem Maria. Venerava, no seu humilde lar, uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição. Em frente a essa estatueta rezava por horas seguidas... E nesses colóquios recebia orientações para ajudar a quem a procurava. Ganhou fama de uma mulher santa, visionária, que sempre acertava nas profecias anunciadas.

        Quando de sua beatificação, o Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança escreveu: “Durante muito tempo o Brasil católico — a Terra de Santa Cruz — sentiu a ausência de santos brasileiros reconhecidos. Afortunadamente eles vêm chegando, como a manifestar o desvelo da Providência em que nossa Nação conte, nessa quadra histórica, com mais intercessores. E Nhá Chica é muito genuína e caracteristicamente brasileira, por suas origens, seu temperamento, sua bondade, sua Fé singela e íntegra.” 

            Mas voltemos ao título e assunto deste artigo. Com fama de vidente, Nhá Chica foi procurada, em 1889, por um grupelho de “republicanos” de Baependi, torcedores da derrubada do Imperador Dom Pedro II do Trono Brasileiro e da implantação do regime republicano na nossa pátria. No livro “Nhá Chica, perfume de rosa – Vida de Francisca de Paula de Jesus”, o escritor italiano Gaetano Passarelli, narra o fato: “Um deles saiu-se com o seguinte pedido: “Dona Francisca, reze para o Senhor ajudar a mandar embora o Imperador”. A anciã o fitou e ficou impassível. A essa altura, ela perguntou: “Por quê? é uma ingratidão com relação ao Imperador, ele é o pai de todos nós”.

              Desconsolados, eles pediram então que ela fizesse pelo menos a previsão de quem venceria a disputa: se os monarquistas ou os republicanos. Nhá Chica disse que iria rezar diante da imagem de Nossa Senhora da Conceição e voltaria com a resposta. Retirou-se. Depois de algum tempo voltou e disse: “Podem gritar: República”. Entretanto, em 1895, pouco antes de falecer, Nhá Chica teve uma longa conversa com o médico Henrique Monat. Este deixou escrito detalhes do encontro. Durante o diálogo com Monat, Nhá Chica deu seu veredito sobre os rumos do regime republicano no Brasil: “Estou vendo a República como uma coisa sem consolo nem sossego”.

                 A profecia de Nhá Chica, feita há 125 anos, não poderia ser mais exata...

Fonte de Consulta: PASSARELLI, Gaetano. Nhá Chica, perfume de rosa – Vida de Francisca de Paulo de Jesus. Edições Paulinas. São Paulo, 2013. Páginas 151,152 e 171.   

07 fevereiro 2021

Eles somos nós - Por: Emerson Monteiro


Enquanto multidão ignara bate no peito e diz que odeia política e se esconde detrás das portas do anonimato, eles saem com vontade forte a dominar os poderes e cargos públicos, determinam as bases da sociedade, e o mais já sabemos. Frutos das árvores que deixamos de plantar, e eles plantam a valer no solo das nossas mesmas chances largadas ao vento. Bem isto, no fazes por ti que os céus te ajudarão, do dizer popular. Ou se deixares de fazer, outros farão dalgum modo, quase sempre a interesse próprio, longe dos valores da coletividade.

Depois saem vagando pelas malhas deste mundo de olhos vendados às responsabilidades deixadas ao léu da sorte, que sobram às garras fratricidas dos que investem na política feitos feras famintas, por isso perdas acumuladas há séculos, no decorrer da história. De todas as vezes pouquíssimas oferendas foram aproveitadas pelos cidadãos deste mundo.

Porém nunca será tarde a que possamos exercitar o direito das nossas escolhas e transformar os destinos sociais. Contudo é urgente a participação de todos junto às instituições políticas. Abrir os olhos e agir, invés de abrir mãos desse poder sagrado. 

A respeito disso, certa feita, ouvi do então deputado federal Lysâneas Maciel a seguinte narrativa: Na Alemanha, um reverente pastor zelava pela sua comunidade religiosa quando ocorreram as primeiras detenções do período negro que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Primeiro prenderam líderes comunistas. Ele pensou consigo: - Não sou comunista, portanto nada tenho com isso. E se omitiu de reagir em face das violências daquela hora.

Os senhores da ditadura de Hitler seguiram, pois, na escalada do terror, vindo deter também os socialistas, motivando no religioso idêntico descompromisso. Por não ser socialista, permaneceu indiferente, aceitando como normais as manobras da Gestapo.

Depois, levados seriam homossexuais, prostitutas, ciganos e outras minorias perseguidas; ele apenas repetiu o raciocínio de ficar inerte diante de tudo o que observava, sem, no mínimo, falar ou demonstrar qualquer posição perante o que presenciava dos desmandos às pessoas de sua comunidade.

Também prenderiam judeus e católicos; o religioso em nada alterava suas relações com as forças do poder, conquanto via fora de propósito tomar atitudes que pensava não lhe dissessem respeito. Nem de longe avaliava qualquer responsabilidade pelas arbitrariedades praticadas. Até que, na sequência dos acontecimentos, bateram na porta da sua igreja para levá-lo, e nessa hora ninguém houve que mobilizasse forças em seu auxílio. Todos estavam ausentes. 

Sei que alguns podem ler tais palavras, o que me faz trazê-las dalgum modo, sobretudo lembrando as gerações que nos sucedem e necessitarão, de certeza, das razões que justifiquem uma ativa participação política. 

06 fevereiro 2021

As cores de Matusahila – José Luís Lira (*)

   Matusahila Pereira de Sousa ou, simplesmente, Matusahila Santiago, nasceu no dia de Santa Dorotéia, virgem e mártir, aclamada a Santa das Flores, seis de fevereiro. A Santa era nobre e bem educada. Viveu em Cesaréia, capital da província romana da Capadócia e foi martirizada por ser cristã no ano de 304 d.C., vítima das perseguições do Imperador Diocleciano.

     Foi na festa desta Santa que Deus mandou à terra Matusahila. Seu pai lhe escolheu um nome único, mostrando que a filha seria especial não só para ele, Sr. João Elmiro e Dona Olga, mas para todos os que com ela viessem a conviver.

    Matusahila herdou de sua Santa protetora, Santa Dorotéia, a nobreza e a educação e, ainda, o amor pelas flores. Era raro encontrá-la sem uma flor ornando sua beleza. Fátima Lemos lhe escreveu uma linda crônica sobre suas rosas, em sua partida. Ainda é difícil para mim sobre ela escrever. Ela possuía uma capacidade de radiografar a alma humana. 

    Relembro de suas cores: amarela (sua preferida), azul, preto, verde e vermelho.  A cor amarela representa leveza, descontração, otimismo. Simboliza criatividade, juventude e alegria. O azul produz segurança, compreensão. Propicia saúde emocional e representa lealdade, confiança e tranquilidade. O preto, segundo a tradição, permite a autoanálise, a introspecção, pode significar, também, dignidade, estando associada à inteligência e ao mistério. O verde simboliza esperança, perseverança, calma, vigor e juventude.  O vermelho ativa e estimula, significando elegância, paixão, conquista, requinte e liderança. 

    Estas, para mim, eram as cores de Matusahila que da cor amarela tinha a leveza e o otimismo que a faziam alegre e jovem sempre; a segurança, compreensão e lealdade do azul que fazia com que nela encontrássemos um porto seguro e tranquilo; do preto, a dignidade, a inteligência e o mistério; do verde, a esperança, a perseverança que não a fez nunca desistir de um intento ou de um projeto; finalmente, o vermelho era ela própria: elegância, paixão, conquista, requinte e liderança. 

    Seu nome se originou de Matusalém, do hebraico, que significa aquele que maneja a lança. Matusahila foi leitora assídua do Antigo Testamento, de onde se origina seu nome e onde encontro uma definição para ela: “Uma mulher de valor, quem a encontrará? Ela vale mais que o coral” (Provérbios 31,10).

    A Matusahila foi poeta sensível, cronista de mão-cheia e diria até que nos seus artigos sobre etiqueta social, aqui e acolá, ela resgatava histórias milenares, dava exemplos e, além de nos ensinar como deveríamos nos portarmos socialmente, ensinava-nos o que de mais precioso devemos buscar: a viver!

    Ela sabia bem o valor da imortalidade. Comigo fundou duas Academias, mas, a menina dos seus olhos foi a Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno, onde nos conhecemos e que ela tanto amava.

   Este texto foi escrito antes e agora adaptado. Com Matusahila dividi tantos sonhos, afeto, emoção... Este é seu primeiro aniversário no Céu. Ela reencontrou seu pai, sua mãe, a titia Elisa, o seu irmão Walmuso, a madrinha Mirtes..., está feliz! Para nós, ficou uma saudade imensurável e, “aquele adeus, não pude dar”. “Você marcou [para sempre] em minha vida”!

   Com lágrimas nos olhos, feliz aniversário, Sahila!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.