26 dezembro 2019

Natal de refugiados venezuelanos em Fortaleza: "Aqui tem brisa e as pessoas são muito boas".


Fonte: jornal  “O Povo”, 26-12-2019 – Por Henrique Araújo

Natal dos Venezuelanos.(Foto: Thais Mesquita/O POVO) 

Oscar Rafael e Luís Enrique chegaram de Caracas em Fortaleza há mais de um mês. Na cidade, estranharam duas coisas: o mar não tinha (mau) cheiro, e o quilo do arroz não custava metade de um salário mínimo (como acontece na Venezuela). Na última terça-feira, véspera de Natal, as duas famílias de estrangeiros, que somam 13 pessoas ao todo, haviam preparado um bolo de chocolate. Era o primeiro em quase uma década. Longe de casa, num país estranho e sem dominar o português, estavam felizes.

"Aqui tem brisa e as pessoas são muito boas", sintetiza Enrique, um administrador que trabalhava na maior estatal venezuelana até o mês passado, quando deixou a terra natal para trás depois de perder o emprego na escalada da crise, responsável por expulsar milhares de conterrâneos em meio à escassez de itens básicos, como água e remédios. Ao lado dos três filhos e da esposa, viajou com o grupo de Oscar, um colega de profissão que também resolveu desfazer-se de tudo para tentar a sorte no Brasil.Casa, móveis e roupas foram vendidos às pressas a quem o procurasse. Não trouxe nada consigo.

Aqui, passaram por Pacaraima, Boa Vista, Belém e São Luís, antes de finalmente assentarem pouso na capital cearense. Dois fatores foram decisivos para que resolvessem estender a rede e a permanência. "Os cearenses nos tratam mais como brasileiros do que como uma pessoa estrangeira", conta Oscar. "Sabem que não falamos muito português, mas nos ajudam." Enrique tem um motivo mais urgente, todavia. "Uma das coisas que nos fizeram vir pra cá foi a saúde do meu filho. Ele é epiléptico, e o medicamento que ele toma não havia na Venezuela", justifica. "A cada dois ou três meses, eu precisava viajar até a Colômbia. E aqui tem de tudo. Ele está tomando medicamento que consegui no posto. Já estamos vendo até um neurologista pra ele."

"Esta é como nossa casa agora", interrompe Oscar, pai de Isabella, de 11 anos. O venezuelano emociona-se ao contar que, antes de chegarem a Fortaleza, a menina nunca tinha comido maçã. "Aqui as frutas são baratas", surpreende-se. E repete, os olhos molhados: "As pessoas são muito boas. Sinto muita falta de quem ficou lá, mas estamos contentes". Entre eles, a saudade se mata todo dia um pouco, recorrendo sobretudo ao Whatsapp, por onde enviam e recebem mensagens de vídeo e áudio em que ouvem uns aos outros falarem de mundos diferentes.

Assim, têm notícias dos pais e irmãos. Com a ajuda de amigos da igreja no Brasil, conseguiram um lugar para ficar. Um galpão em Caucaia, na região metropolitana, onde se dividem nas tarefas do dia a dia. Pergunto como tem sido a vida naquele espaço. "Como somos 13 pessoas, temos apenas 13 pratos, 13 colheres, 13 copos. É simples a divisão. É matemática: cada um cuida do seu", relata Oscar.

No dia em que os visitamos, o pequeno Pedro, de 8 anos, enxaguava a louça depois do almoço. Na cozinha, as esposas comiam, caladas. Os dois adolescentes assistiam TV numa área. Um dia antes, haviam reunido o que restara de dinheiro e montado uma árvore de Natal, que esperavam para iluminar durante a noite. Ainda não tinham se acostumado com a energia elétrica. "Eletricidade, água, isso quase nunca há na Venezuela. Só num dia, a energia vai e vem quase cinco vezes", conta Enrique. Alheio na terra nova, Oscar diz que aprendeu à força a conjugar uma esperança rala. "A condição do nosso país mudou muito. Há 15 anos, nosso soldo era de mais ou menos 2 mil dólares. Hoje, são 4 por mês. Não se pode morar com quatro dólares por mês", fala. Mas o venezuelano não se abate: "Se você muda para um país onde você pode vestir e comer três vezes ao dia, você vive bem. E ainda temos a brisa".

Um comentário:

  1. Os exilados falam da fome e da miséria que tomaram conta da Venezuela, depois que a ditadura de Hugo Chávez/Nicolás Madura implantou, naquela nação, o famigerado “socialismo”. A Venezuela já foi um dos países mais prósperos do mundo. Depois que a esquerda tomou conta, deu no que deu. Hoje é uma segunda Cuba, onde faltam alimentos, remédios, não há liberdade e mais de três milhões de venezuelanos já fugiram para escapar da fome. Fico a imaginar: por que ainda tem, no Brasil, quem defenda esse sistema de governo? Além da “petralha /esquerda troglodita”e da ala marxista da Igreja Católica, nas universidades públicas a Venezuela é apontada como um exemplo a ser seguido pelo Brasil. Vade retro...

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