31 julho 2019

Conheça Exu, a cidade natal de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião


Fonte: Antônio Rodrigues, excertos da  matéria publicada no “Diário do Nordeste” edição de 31 de Julho de 2019 


Às vésperas de completar 30 anos da partida de Luiz Gonzaga, o jornalista Antônio Rodrigues revisita a terra natal do autor de Asa Branca, clássico feito em parceria com o cearense Humberto Teixeira

    Um trio com sanfona, triângulo e zabumba, em um posto de gasolina, nos "recepcionava" tocando "A Morte do Vaqueiro". Assim foi minha chegada a Exu, por volta de 9 horas, no sábado passado (27/julho). À medida que surgiam visitantes, de passagem para Serrita, onde acontece a tradicional Missa do Vaqueiro, os pares se formavam nas calçadas e ruas para dançar. Homem com mulher. Mulher com mulher. Homem com homem.

    Do lado pernambucano da Chapada do Araripe, vizinho ao Crato, no Ceará, formou-se esse pequeno município de 31 mil habitantes. Com mais da metade da população morando na zona rural, a economia local se dá, principalmente, pela agricultura e pecuária. Contudo, a terra onde também nasceu Bárbara de Alencar, a heroína da Revolução Pernambucana, consegue viver na sombra do sanfoneiro. "Posto Gonzagão", "Farmácia Aza Branca", "Rua Assum Preto". Por todos os lados, há referências ao homem que popularizou o xote e o baião. O único lugar em que encontro tantas citações a um só personagem é a minha terra, Juazeiro do Norte, e sua devoção quase "onipresente" ao Padre Cícero.
Museu do Gonzagão

    O Museu do Gonzagão, idealizado quando o "Rei do Baião" ainda era vivo, reúne objetos pessoais, certificados, títulos, medalhas, troféus e prêmios que recebeu ao longo da carreira. Além disso, possui sanfonas que o acompanharam em momentos marcantes, como a visita do Papa João Paulo II, em Fortaleza, em 1980, e o último instrumento que empunhou antes de morrer.

     O Parque Aza Branca hoje é o principal ponto turístico de Exu. Localizado na BR-122, quem cruza Pernambuco com destino ao Ceará ou vice-versa, costuma parar por lá. Outra dica importante é ir até o distrito de Araripe, a cerca de 12 quilômetros da sede do Município. Foi lá onde nasceu Bárbara de Alencar, na Fazenda Caiçara, em 1760. A poucos metros dali, 152 anos depois, veio ao mundo Luiz Gonzaga do Nascimento, o único dos nove herdeiros que não carrega os sobrenomes dos pais, Januário dos Santos e Ana Batista de Jesus. "Luiz", porque nasceu no mesmo dia que celebra Santa Luzia (13 de dezembro); "Gonzaga", sugestão do vigário que o batizou, porque também homenageia São Luís de Gonzaga; e "Nascimento", por ter nascido no mesmo mês que Jesus Cristo. Seu batismo ocorreu na Capela de São João Batista, que permanece viva na história do distrito de Araripe.

A verdadeira História do Brasil –– 4


Uma  República atolada em meio as crises  (por Armando Lopes Rafael)

Imagem oficial da "Proclamação da República" imposta ao Brasil por meio de um golpe militar sem a participação do povo.
    
   O que escrevo a seguir não é ensinado nos cursos de História, nem no ensino médio. A atual república presidencialista brasileira, foi-nos enfiada goela abaixo, em 15 de novembro de 1889. No dia seguinte ao golpe militar, o jornalista republicano Aristides Lobo escreveu num jornal: “Os brasileiros não compreenderam e assistiram bestializados à Proclamação da República, pensando que era uma parada militar”    A atual República foi marcada, na maior parte da sua existência, ou seja, nos últimos 130 anos, por crises políticas, golpes, conspirações, deposições de presidente e por dois longos períodos ditatoriais (1930-1945 e 1964–1984).

   Já tivemos 43 presidentes da República. Destes apenas 12 eleitos cumpriram seus mandatos; 02 sofreram impeachment (Collor de Melo e Dilma Rousseff); 7 eleitos foram depostos; 1 eleito renunciou; 1 assumiu pela força. Tivemos 2 juntas militares no lugar de um presidente; 4 vice-presidentes que terminaram o mandato de presidentes eleitos (os dois últimos foram Itamar Franco e Michel Temer); 1 eleito e impedido de tomar posse; 5 interinos, 5 presidentes em regime de exceção; 1 eleito se tornou ditador.  Nos últimos 64 anos apenas 3 presidentes civis – eleitos diretamente pelo povo – terminaram seus mandatos (Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva).

       Ao longo da fase republicana no Brasil, tivemos 12 estados de sítio (suspensão das garantias constitucionais), 17 atos institucionais (que permitem ao governante da vez violar a Constituição), seis dissoluções forçadas do Congresso, 9 golpes de estado e 6 Constituições. A atual Constituição foi promulgada há apenas 30 anos. Também ocorreram censuras à imprensa e aos meios de comunicação.

    Dói dizê-lo: O povo não confia mais nas instituições, nem nos políticos, nem nos poderes constituídos desta república. Os níveis de corrupção são alarmantes. A Transparência Internacional deu nota 3,8 ao Brasil, no ano 2011. Trata-se de uma escala de 0 a 10, sendo 10 o valor atribuído ao país percebido como menos corrupto. O Brasil é um país de analfabetos funcionais e ocupa o 53º lugar em educação, entre 65 países avaliados no exame internacional, o PISA. Em artigo, o Prof. Cesar S. Santos afirmou: “A República apresenta um saldo extremamente negativo. Devemos discutir outras possibilidades de regime político, pois uma conclusão se impõe: a República faliu e ameaça levar consigo o que resta dos valores e das forças positivas da nação brasileira”



29 julho 2019

Os parceiros da Criação - Por: Emerson Monteiro


Deus fez assim, nós próprios a participar intensamente da construção nas existências do Ser. Sim, pois em crescimento, carecemos crescer das raízes em que estamos plantados; participamos na edificação de tudo quanto há, e haverá, e trabalhamos dentro de nós a força viva das eternidades, sementes da felicidade que o somos, instrumentos da Salvação em andamento. A saber, disso o valor que todos temos no que hoje somos, que traz em nós as matrizes da solução de tudo, andamos através da maravilha dos corpos integrados ao sistema da suprema Natureza.

Nisso, parceiros nada menos do que do Autor das Existências, cavaleiros andantes da esperança, tangemos esse poder da melhor forma que podemos, no entanto, dos tais modos inseridos na perene continuidade, face às civilizações em festa com que agora fertilizamos os solos da Criação.

Quisemos, e dizemos, que somos partes necessárias ao desenvolvimento das espécies, mesmo que trabalhemos, por vezes, equivocados nas ações, entretanto aceitos na grandeza da bondade do Pai. Conquanto previstos que seja de tal maneira, seguimos os espasmos de só aparente imperfeição que leva a marca dos níveis da continuidade, e cá estamos de armas em punho a lutar na possibilidade das formas menores daquilo em que viremos chegar certo dia.

Tais raciocínios conduzem ao espaço da persistência, vontades em elaboração no concerto das espécies. Nas horas estão os meios de experiência que alimentam a fornalha dos destinos. Quantos pequenos senhores da paixão arrastam consigo esse valor infinito das largas realizações, eles, nós, mestres em formação, luzes em fermentação. Daí, julgar uns aos outros foge definitivamente de nossas crenças. Se iguais, quais aqui, razão nenhum se dispõe em querer dominar além das almas da gente mesma.

Fermentos da massa dos espíritos, pesa em nossas mãos o condão dos gestos positivos, trabalhos de Deus nos minúsculos raios de plenitude espalhados nos céus desta condição humana.

(Ilustração: Colagem, Emerson Monteiro).

A lição que nos vem da Inglaterra: um pais democrático, onde tudo funciona bem



    Na última quarta-feira, dia 24 de julho, em audiência privada no Palácio Buckingham, residência oficial da Coroa no coração da capital, Londres, a Rainha Elizabeth II do Reino Unido recebeu o novo Líder do Partido Conservador, Boris Johnson, e o convidou a formar um novo governo em seu nome, o “Governo de Sua Majestade”.

    “Mr. Johnson”, como é chamado pela imprensa de seu País, prometeu que o Reino Unido deixará a União Europeia no dia 31 de outubro próximo, “custe o que custar”. O eleitorado aguarda, já não tão paciente, mas certo de que, se ele também fracassar, virá o 15º Primeiro Ministro de Sua Majestade. Afinal, na Inglaterra, políticos vêm e vão, enquanto os governos são trocados ao sabor da opinião pública; mas a Coroa, assim com a Nação, é perene, servindo de espelho e exemplo das melhores virtudes de seu povo, velando sobre o bom funcionamento das instituições e garantindo que o Parlamento atue de acordo com as legítimas aspirações dos britânicos.

     A oposição ao novo Primeiro-Ministro, feita pelo Partido Trabalhista, é chamada a “Lealíssima Oposição de Sua Majestade”, pois todos os partidos fazem questão de se identificar com a Soberana na condução do bem comum. Enquanto isso,no Brasil, a oposição ao atual Presidente da República,  apoia os “hackers” violadores de celulares das aurtoridades constituídas; votou contra a Constituição de 1988, votou contra o Plano Real, votou contra a reforma de Previdência  e hoje torce  no “quanto pior, melhor".

     Boris Johnson aceitou o convite régio e, ao beijar as mãos da Rainha, como manda a tradição, tornou-se seu 14º Primeiro Ministro, o mais recente em uma lista de nomes que se inicia, no ano de 1952, com o grande Sir Winston Churchill, e inclui ainda a formidável Lady Thatcher, a célebre “Dama de Ferro”. Uma lista de nomes – alguns não tão ilustres – que, ao longo dos últimos 67 anos, serviram a uma Soberana que, hoje aos 93 anos de idade, permanece pairando graciosamente acima dos interesses partidários e das querelas políticas.

     O novo Primeiro Ministro tem agora a tarefa de levar a cabo a bem-acertada decisão tomada pelo povo britânico em referendo de 2016, conhecido como Brexit, de deixar a monolítica União Europeia, cujo projeto de poder é marcadamente socialista, pois não respeita as individualidades e tradições nacionais, nem tampouco a autodeterminação dos povos, e que parece caminhar para um “Estado artificial”, uma “República da Europa”, muito diferente do saudável modelo que outrora vigorou no Sacro Império Romano-Germânico, e que era todo baseado em valores monárquicos e cristãos.

God Save the Queen! Deus Salve a Rainha! como consta no Hino do Reino Unido.

(Baseado em texto publicado no face book da Pró Monarquia).

28 julho 2019

Lembrando Dr. Marchet Callou – por Armando Lopes Rafael


   No último dia 19 completaram-se doze anos do falecimento do Dr.  Marchet Callou. Quem o conheceu, pode dizer que ainda vivenciou o estilo aristocrático de Barbalha, o qual vigorou até a década 70 do século passado. Hoje, no Cariri, tudo é diferente! Tudo é material... A elite só fala em investimentos, dinheiro, progresso e globalização...

    Antônio Marchet Callou, pernambucano de Parnamirim, nascido na antiga Leopoldina (Marchet nunca se conformou quando as autoridades republicanas substituíram, – sem consultar o povo – o nome da sua cidade de  “Imperatriz Leopoldina”, para o vulgar “Parnamirim”) nasceu em 17 de novembro de 1907 e faleceu, em Barbalha, em 19 de julho de 2007, próximo de completar 100 anos de existência.

   Formou-se em Odontologia, em 1937, na Faculdade de Medicina (e cursos anexos) de Recife (PE). Em seguida fixou-se na Barbalha de Santo Antônio, onde exerceu sua profissão até o final da sua longa vida. Naquela cidade casou-se com Maria Elbe de Sá Barreto Callou, com quem teve oito filhos. Marchet foi, paralelamente ao exercício de odontólogo, um bom professor de história e geografia; era reconhecido como historiador e poeta. Foi membro de várias associações literárias, dentre elas o Instituto Cultural do Vale Caririense e a Academia Cearense de Odontologia. Participou de vários movimentos sociais em prol da melhoria do Cariri cearense.

      Algumas particularidades de Marchet: ele chegou a Barbalha em 1937, mesmo ano do nascimento de sua esposa, Maria Elbe. Casou-se com ela depois de ter completado 50 anos de idade. Até no físico Marchet era um nobre! Alvo, louro de olhos azuis, detinha sempre uma postura serena. Seus gestos eram lhanos, e a bondade transparecia no seu rosto. Tornou-se um defensor da restauração da monarquia, no Brasil, ainda na juventude, quando estudava em Recife. Foi o mais autêntico monarquista do Cariri! E se ufanava das suas convicções ideológicas, sem nunca ter se atritado com ninguém por causa delas.

      Era intelectual de mão cheia e um católico fervoroso. Seu primeiro livro de poesias (“À Sombra da Baraúna”) só veio à lume em 1987. Depois disso, publicou mais três obras poéticas.

        Muito poderíamos falar sobre as virtudes do Dr. Antônio Marchet Callou! Ele foi um defensor nato da natureza, um esposo e pai amoroso, um amigo leal, um cidadão exemplar em todos os aspectos. Doze anos depois de falecido, sua história de vida – bonita e edificante – ainda é lembrada na antiga “Terra dos Verdes Canaviais”. Naquela urbe, à entrada da cidade., existia num muro uma frase pintada que dizia: “Alto Lá senhores protestantes, Barbalha de Santo Antônio já foi evangelizada”. Há quem atribua a iniciativa dessa frase ao Dr. Marchet Callou...

27 julho 2019

Um rosto para a heroína – por José Luís Lira (*)


"Monstrengo" construído pela Prefeitura de Crato para simbolizar Dona Bárbara de Alencar. Um "aleijão" de uma "Bárbara de Alencar anã", na calçada da Coletoria Estadual, na Praça da Sé
   
    Numa conversa amena com o confrade Heitor Feitosa, do Instituto Cultural do Cariri, surgiu, por parte dele, a ideia de reconstruir facialmente a heroína Bárbara de Alencar. Penso que alguns leitores podem estar a indagar-se sobre quem é esta mulher. Nascida em 1760, dona Bárbara participou ativamente dos movimentos libertários naquele Brasil colonial. Seus filhos Senador Alencar, Tristão Gonçalves e Pe. Carlos, os dois últimos mortos durante a Confederação do Equador (1824), já no Brasil imperial. Historicamente, Bárbara de Alencar foi a primeira presa política do Brasil. Consta que ela esteve presa no Forte de Nossa Senhora da Assunção, em Fortaleza. Da capital do Ceará ela foi levada a Recife e Bahia, onde teria sido perdoada das acusações que levaram-na à prisão. De retorno ao Ceará, ela passa a residir em Crato e dali, em 1831, parte para Santana do Cariri e, posteriormente, a Fronteiras, no Piauí, onde ela veio a falecer e recebeu sepultura (1832).

    Em termos de literatura, Bárbara de Alencar é a avó do escritor José de Alencar e quinta avó de Rachel de Queiroz, como a própria escritora afirma em crônica.
A reconstrução facial é uma técnica que possibilita, a partir de dados contidos no próprio crânio da pessoa, que cientificamente se faça uma aproximação do que foi a imagem da pessoa a quem pertenceu o crânio. Cícero Moraes, designer 3D, é expert na matéria. Com ele já trabalhei em outras reconstruções e lhe propus então fazer a de Dona Bárbara. Uma das figuras mais importantes do Ceará, avó do “pai” de Iracema, logo tão importante quanto.

     Conforme protocolos que cumprimos, vimos que há muitos anos os restos de Bárbara foram levados de sua sepultura primitiva à Capela de Itaguá, distrito de Campos Sales. Então, informamos ao presidente do ICC, Heitor Feitosa, da necessidade de autorização por parte do Bispo da Diocese, a considerar o tempo da sepultura. Fomos então à Cidade de Campos Sales, recebidos na Câmara Municipal e no Seminário Paroquial, onde mostramos as intenções pretendidas. Contudo, deixamos a visita a Itaguá para outra ocasião.

     O cuidado do Instituto Cultural do Cariri em querer fazer conhecida a face da heroína Bárbara de Alencar, é dos mais justos. Por quê? Porque naquela época não havia fotografia. Nem sequer uma pintura contemporânea existe. Daí nosso interesse e da Comunidade desta dita Terra Bárbara, quem sabe em homenagem a ela. A verificação visando reconhecer os restos mortais de Dona Bárbara não pode ser feita. Assim, a imagem da heroína ficará guardada no tempo e no espaço, esperando um momento para, quem sabe, ser revelada, se seu crânio apresentar condições. Além das razões apresentadas é, também, uma forma de reverenciar a querida e amada Rachel de Queiroz que uma vez visitou o Forte, em Fortaleza, onde a heroína teria ficado e disso fez crônica, como agora o fazemos com essa “expedição”. Ademais, aproveitarei para cumprir o restante da agenda no Cariri, onde visitarei os locais do Pe. Cícero, antes de retornar às atividades do dia-a-dia.

E concluo com a expressão do tema de abertura dos vídeos da Coleção Os Cearenses, da TV O Povo, “Bárbara olha esse chão como é seco o sertão...” do Ceará tão amado!

 (*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acaraú–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade Nacional de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com mais de vinte livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.

26 julho 2019

A verdadeira História do Brasil –– 3


Manipulando a História do Brasil Império – por Armando Lopes Rafael


Um gigante territorial  e uma potência emergente, assim era o Império do Brasil

     Em artigo publicado, anos atrás, o Prof. Paulo Napoleão Nogueira da Silva, professor universitário em São Paulo, escreveu:

“Nos cem anos durante os quais vigorou a proibição de sequer falar-se em monarquia, o País foi programaticamente induzido a esquecê-la” (...) “Desde os primeiros dias da República os autores de livros didáticos para os cursos primário e secundário, segundo critério de orientação e exigências do Ministério da Educação (...) tratavam, e ainda hoje tratam, de  evidenciar as glórias da proclamação da República, o heroísmo de Deodoro e o idealismo de seus companheiros...

    A verdade, no entanto, é bem diferente do que nos ensinam os professores de história. O Império Brasileiro era tão democrático, estável e respeitoso para com os seus cidadãos que o Presidente da Venezuela, em 1889, Rojas Paul, ao saber do golpe militar de 15 de novembro de 1889, que derrubou a monarquia no Brasil, declarou: “Foi-se a única República do Hemisfério Sul.”

   Nos reinados de Dom Pedro I e de Dom Pedro II, o Brasil passou por um grande surto de progresso. Tivemos, sob a monarquia, uma inflação média anual de apenas 1,58%. A título de ilustração, transcrevemos o que publicou o jornal “O Globo”, edição  de 14.11.2011 (sob a manchete: “O país que domou a inflação “13 trilhões e 342 bilhões por cento (13.342.346.717.617,70% foi a inflação acumulada nos 15 anos que antecederam o Plano Real, em 1994” (grifo nosso), no tempo do Império, o Brasil tinha uma moeda estável e forte (o “Real”) que correspondia a 0,9 (nove décimos) de grama de ouro, e era equivalente ao dólar e à libra esterlina.

    Em 130 anos, sob a República, o Brasil teve 9 moedas, algumas que não duraram nem 1 ano de existência. Fato inédito na história dos povos. Aliás, numa dessas mudanças, o “Real” voltou a ser o nome de nossa moeda, a partir de 1994.

     No período monárquico, o nosso Parlamento era comparado com o da Inglaterra. E a diplomacia brasileira era uma das mais importantes do mundo de então. Diversas vezes, o Imperador Dom Pedro II foi chamado para ser o árbitro de questões envolvendo a Itália, França e Alemanha. Sob a monarquia, o Brasil possuía a segunda Marinha de Guerra do mundo. E foi o primeiro país do continente americano a implantar a novidade dos Correios e Telégrafos. O Brasil monárquico foi o segundo país do globo a ter o selo postal.
Com o grito de Dom Pedro I ("Independência ou morte!") teve início o Império do Brasil

A crônica do fim-de-semana (por Armando Lopes Rafael)

Imperador Dom Pedro II, o maior dos brasileiros 

   Este ano, a população vai lembrar, com grande pesar, um dos dias mais infelizes da nossa pátria: o golpe republicano de 15 de novembro de 1889, que derrubou Dom Pedro II do Trono e baniu a Família Imperial Brasileira.

    130 anos já se passaram. E, no entanto, Dom Pedro II continua sendo “O maior dos brasileiros”. Esta semana a revista “Aventuras da História” publicou uma matéria sobre o magnânimo Imperador. Trata-se de texto escrito por M.R. Terci ( com o título “O mais humilde e culto dos imperadores), do qual retirei os parágrafos abaixo.

 “(...) muitos historiadores apontam que, entre tantas outras virtudes, o reinado de Dom Pedro II teve como marca a modéstia e a humildade. Grande parcela de seus súditos era imensamente mais rica do que ele. Na corte, havia, ainda, residências muito mais confortáveis e luxuosas que a do imperador, destinadas a cientistas, artistas e intelectuais. Dom Pedro II, contudo, não exigia para si mais do que sua escrivaninha e seus livros, gosto que desenvolveu logo cedo.

    “Tal fato foi documentado por diversas personalidades ao longo de seu reinado, como na ocasião em que um diplomata francês, em visita ao Brasil em 1842, descobriu Pedro, então com 17 anos, mergulhado na leitura de Platão. Em 1847, o escritor português Alexandre Herculano escreveria: “É geralmente sabido que o jovem imperador do Brasil dedica todos os momentos que pode salvar das ocupações materiais de chefe de Estado ao culto das letras.”

***   ***   ***

     O atual Chefe da Casa Imperial Brasileira, Príncipe Dom Luiz de Orleans de Bragança, sintetizou – em 1989 – muito bem, o que foi o vasto e grandioso Império do Brasil. Disse ele. “Cem anos já se passaram, e os contrastes entre o Brasil atual e o Brasil Império só têm crescido. No tempo do Império, havia estabilidade política, administrativa e econômica; havia honestidade e seriedade em todos os órgãos da administração pública e em todas as camadas da população; havia credibilidade do País no exterior; havia dignidade, havia segurança, havia fartura, havia harmonia”.

        As crises da sociedade brasileira parecem nos lembrar: o Rei ou Imperador, por ser vitalício e hereditário, está acima das disputas políticas, e se constitui num fator de unidade da sociedade e do Estado. Todas as correntes políticas da nação têm no Rei uma autoridade imparcial, respeitada e que serve de exemplo para a população. É por isso que a Monarquia, por ser o ponto de encontro das correntes políticas, e estando à margem das disputas, assegura a estabilidade das instituições, o que não ocorre numa República, onde, a cada 4 anos, surge um presidente-de-plantão.  E no Brasil, a cada quatro anos vemos como aumenta, com essas trocas,  os nossos angustiantes problemas...

24 julho 2019

Caririensidade


Em agosto o Cariri inicia campanha para Chapada do Araripe virar Patrimônio da Humanidade


Chapada do Araripe

       A informação foi divulgada pelo jornal “Diário do Nordeste”, edição de 24-07-2019: “No período de 06 a 09 de agosto, as cidades de Juazeiro do Norte, Crato e Nova Olinda sediarão seminário com objetivo de defender o reconhecimento da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade. A diversificada programação do evento reúne debates, exposições, espetáculo teatral, oficinas e a inauguração de três Museus Orgânicos: Museu Casa do Mestre Nena, em Juazeiro do Norte; Museu Casa do Mestre Raimundo Aniceto, no Crato e Museu Casa Oficina de Dona Dinha, em Nova Olinda. A inciativa é do Serviço Social do Comércio (Sesc-Ceará).

   “O encontro tem o objetivo de apresentar a importância da região e discutir sobre os próximos passos para o título. A ideia surgiu durante encontros com organismos internacionais balizadores do patrimônio imaterial. Há quase dois anos, o Sesc-Ceará, em parceria com a Fundação Casa Grande, vem dialogando com a comunidade local sobre a influência cultural do território.
    “A Chapada do Araripe abriga fontes naturais, grutas, sítios paleontológicos e arqueológicos, além de vasta cultura popular. No Ceará, ela está situada no sul do Estado, conhecida como Região do Cariri”. 

 “Seu” Pedro Felício

       Geraldo Duarte, residente em Fortaleza, é advogado, administrador e dicionarista. Foi Procurador Geral da Prefeitura de Fortaleza. Geraldo escreve uma croniqueta semanal no “Diário do Nordeste” e, vez por outra, aborda temas ligados ao Crato e ao Cariri. Esta semana ele publicou o abaixo:

“Quadratura do círculo no Crato
Pedro Felício Cavalcanti (1905–1991), ipuense, viveu com familiares a juventude no Crato, tendo estudado em Fortaleza. Nesta capital, realizou o Curso Técnico em Contabilidade, na antiga Escola Fênix Caixeral, depois retornando à terra do Padre Cícero.

Professor, contador e poeta, fundou e gerenciou o Banco Caixeral, dirigiu a Associação Comercial, foi idealizador e instituidor do Colégio Municipal e das Faculdades de Ciências Econômicas e Faculdade de Direito.

Eleito e reeleito exerceu o cargo de prefeito durante dois mandatos (1963 a 1966 e 1973 a 1976), fazendo-se reconhecido, até a atualidade, devidos às destacadas obras públicas construídas em suas gestões.

Além de verdadeiro lutador pela implantação da Universidade Regional do Cariri (URCA), os moradores também lembram benfeitorias como a eletrificação rural, o Mercado Central, a Quadra Bicentenário, a reforma da Praça da Sé, as construções do Obelisco e Parque de Exposição Agropecuária, afora outros empreendimentos sócio-econômico-culturais.

Pedro Felício era gentil, simples, altamente metódico e conservador. Certa feita, caminhando inadvertidamente por uma das calçadas da cidade, pisou numa casca de banana, sofrendo desastrada queda e luxações. Desde então, jamais usou os passeios, deslocava-se exclusivamente pelo meio das ruas.

O neto, José Kleber Callou Filho, narra que o avô conversava com os cratenses Paulo Hélder, Ariovaldo Carvalho, Eron Pinheiro, Zé Albani Maia e outras pessoas, quando Paulo perguntou: “Seu Pedro, qual o motivo das obras que o senhor constrói serem, quase todas circulares? Como o formato da Rodoviária, das lavanderias e outras?

Resposta imediata e deveras desconcertante: “Paulo, é porque no Crato ainda existe gente muito quadrada!”.

No caminho de casa, Kleber indagou o porquê do respostar e Pedro deu somente uma risada”.

O caudilho Pinto Madeira

Imperador Dom Pedro I cuja renúncia ao Trono, em 1831, motivou Pinto Madeira a pegar em armas. Face de Pedro I reconstituida  em 3D, a partir de fotografia do crânio do monarca, por iniciativa do Prof. José Luís Lira e do designer Cicero Moraes. Esta é a verdadeira feição do nosso primeiro Imperador

      Escrevi um opúsculo sobre Joaquim Pinto Madeira, que passou à histórica como um “caudilho”.  Quem escrever sobre Pinto Madeira não pode obscurecer que ele cometeu erros e injustiças, nas suas participações em cenários da “Guerra do Pinto”, que assolou o Cariri, após a renúncia de Imperador Dom Pedro I ao Trono Brasileiro. 

      Também não se podem esconder  as qualidades pessoais de Pinto Madeira. Dentre elas, a coerência, sinceridade, lealdade e coragem de que era possuidor. Merece ser lembrada, também, a sua religiosidade, um sentimento que o levou a se filiar à Irmandade do Santíssimo Sacramento, da Paróquia de Nossa Senhora da Penha de Crato, em abril de 1816. Talvez por isso suas últimas palavras – após levar a descarga fatal que o matou – foram palavras da fé que sempre o guiou em vida:
    – Valha-me o Santíssimo Sacramento!

Escritores do Cariri:  Denizard Macedo

Denizard Macedo

     José Denizard Macedo de Alcântara nasceu em Crato, na Praça da Sé, em 1° de setembro de 1921. Ele se destacou, principalmente, como um intelectual, como professor em várias instituições de ensino de Fortaleza, bem como por ser um homem de ideias firmes e transparentes. Lecionou na Escola Preparatória de Cadetes, do Colégio Militar do Ceará, Instituto de Educação, Faculdade Católica de Filosofia, Escola de Serviço Social e vários educandários de segundo grau. Incursionando na política foi eleito vereador por Fortaleza. Foi também jornalista, ensaísta, historiador, conferencista e geógrafo. Pertenceu à Sociedade Cearense de Geografia e História, Instituto do Ceará e Academia Cearense de Letras, onde ocupou a cadeira de n° 34, substituindo outro cratense, J.de Figueiredo Filho.

    Denizard Macedo foi, ainda, Secretário da Cultura do Ceará e escreveu as seguintes obras: A Universidade na Defesa Nacional; Fundamentos da Administração Cearense; A Conjuntura Histórico-Geográfica da Industrialização Brasileira; Racionalização da Competência Administrativa do Município; Geografia da América; Cultura e Universidade; Vida do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro; Ascensão e Declínio do Magistério Brasileiro; Ensino de Filosofia no Ceará e Retrato da História da Independência.

         Católico sincero, possuidor de sólida formação religiosa, Denizard era monarquista convicto, apesar da proibição da República brasileira, a qual – durante cem anos, de 1889 a 1988 –, proibiu qualquer divulgação pública sobre as vantagens desta forma de governo. Para quem não sabe, os monarquistas foram os últimos anistiados políticos desta ineficiente república brasileira. Somente com o advento da sétima constituição republicana, a atual, promulgada em 1988, concedeu-se liberdade aos monarquistas de exporem à luz do sol, e de forma pública, suas pacíficas ideias. 

     Denizard Macedo faleceu com 63 anos de idade em 11 de novembro de 1983. Atendendo a seu pedido, a família e amigos colocaram sobre o seu caixão mortuário a Bandeira do Brasil Império

A verdadeira História do Brasil -- 2 (por Armando Lopes Rafael)

Nem os golpistas republicanos conseguiram mudar o Hino Nacional Brasileiro

    No artigo anterior vimos a "balela" que nos é ensinada na escola. Dizem hoje sobre as cores da nossa bandeira que o verde simboliza "nossas matas" e o amarelo "nosso ouro". Mentira!   Vamos saber agora a  história do outro Símbolo da Patria: o Hino Nacional Brasileiro


    Nos seus primórdios, que remonta ao Primeiro Reinado de Dom Pedro I, o Hino Nacional Brasileiro era executado sem ter ainda uma letra. Em 1822, ele foi composto, por Manuel Francisco da Silva, sendo conhecido com o título de “Marcha Triunfal”. Caiu no gosto do povo e depois teve o nome mudado para “Marcha Imperial”. Esta,  foi muito tocada nos campos de batalhas da Guerra do Paraguai. Depois desse conflito foi popularizada na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Brasil, já como nosso Hino Nacional.

     Com o advento do golpe militar que implantou a "República dos Estados Unidos do Brasil", (este foi o nome "oficial" do Brasil até 1967), no chamado “Governo Provisório” – dirigido pelo Marechal Deodoro da Fonseca – as novas autoridades republicanas queriam mudar tudo que lembrasse o glorioso Império do Brasil. Por isso instituíram um concurso para a adoção de um novo hino nacional.

     Pois bem, na noite de 20 de janeiro de 1890, o Teatro Lírico do Rio de Janeiro estava superlotado, reunindo as mais destacadas personalidades da então capital brasileira, para conhecer o novo Hino Nacional. No camarote de honra, o velho Marechal Deodoro, àquela época já bastante decepcionado com alguns companheiros do golpe militar de 15 de novembro de 1889.

       O hino que obteve o primeiro lugar no concurso foi composto pelo maestro Leopoldo Miguez, com letra de Medeiros e Albuquerque. Na verdade, uma bonita peça (hoje chamada de “Hino da República”, que começa com o refrão: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”.
       Ao final da execução do "Novo Hino Brasileiro", o Marechal Deodoro bateu, com força,  no braço da cadeira impôs:

        – Prefiro o velho!

       Foi quando ficou preservada para as gerações vindouras, a bela “Marcha Imperial”, o mesmo Hino Nacional Brasileiro de hoje, cujos primeiros acordes (“Ouviram do Ipiranga às margens plácidas/ De um povo heroico o brado retumbante”) nos enche de orgulho e nos faz reviver o pouco de patriotismo que ainda resta à “brava gente brasileira”...

22 julho 2019

O massacre da família Távora – por Armando Lopes Rafael (*)


Gravura de 1759 mostrando o martírio da família Távora, nas proximidades da Torre de Belém

    O Rei Dom José I – bisavô do nosso Imperador Dom Pedro I –, reinou em Portugal entre 1750 e 1777. Teve como Primeiro-Ministro, o cruelíssimo e impiedoso Marquês de Pombal. Este, governou o reino com mão de ferro. Pombal alimentou, ao longo da sua vida, profunda inveja contra algumas famílias aristocráticas de Portugal. Em relação ao clã dos Távoras – mais do que inveja –, Pombal nutria por eles um sentimento de ódio. Provavelmente porque a família Távora não somente fosse riquíssima.  Ela tinha ramificações (e exercia influência) noutras casas nobiliárquicas portuguesas, a exemplo das de Aveiro, de São Vicente, de Alorna, de Atouguia e de Cadaval. Todas faziam discreta restrição ao comportamento do Marquês de Pombal.

    Os Marqueses de Távora – Leonor e Francisco de Assis – possuíam um filho, Luís Bernardo, pessoa de muito destaque em Lisboa, casado com Teresa de Távora e Lorena. Era do conhecimento geral que o Rei Dom José I mantinha um relacionamento amoroso com essa nora dos Marqueses de Távora. Estes, sofriam muito com a situação moral de Teresa de Távora e Lorena. E viviam aconselhando o filho Luís Bernardo a se separar da esposa adúltera.

      Diz o livro dos Salmos 5,3-6: “os lábios da mulher adúltera no fim das contas, deixam um sabor amargo, uma ferida feita como que por uma aguda espada de dois gumes. Os seus comportamentos conduzem à morte”. Consta nos registros históricos que, na noite de 3 de setembro de 1758, Dom José I, retornava para casa, incógnito numa carruagem, depois de um encontro com a amante. No meio do caminho, a carruagem foi interceptada por três homens que dispararam contra o Rei. Dom José I ficou apenas ligeiramente ferido no braço. Mas o Marquês de Pombal tomou a si a apuração desse atentado. Dois empregados dos Távoras foram presos e torturados até declararem que o atentado teria partido dos seus patrões.

     
    Armas da Família Távora. Encimando, um golfinho; as águas azuis representam o Rio Távora, que banha uma vila da Província de Trás-os-Montes, local de origem desta família,. O Rio Távora é afluente do Rio Douro.

    O Marquês de Pombal não divulgou o atentado de imediato. Antes disso, mandou prender a família Távora (adultos e crianças), o Duque de Aveiro, e até o Padre Jesuíta Gabriel Malagrida (confessor de Teresa de Távora e Lorena). Este sacerdote foi, posteriormente, enforcado. O Marquês de Pombal aproveitou a acusação de “regicídio” (tentativa ou assassinato de reis) para expulsar todos os Padres Jesuítas de Portugal, desejo que alimentava há muito tempo. No dia seguinte ao atentado, o filho do Marquês, Luís Bernardo e o Duque de Aveiro foram enforcados. Nas semanas seguintes a Marquesa Leonor de Távora, o seu marido Francisco de Assis, e todos os seus filhos, filhas e netos foram encarcerados. Todos acusados de “alta traição” e “regicídio”. Os bens da família Távora foram confiscados pela Coroa. A casa dos Marqueses de Távora foi destruída e o terreno onde estava edificada foi salgado, para que, naquele chão, nem vegetação nascesse.

     O processo contra os membros do clã Távora tornou-se o caso judicial mais famoso da História de Portugal. À época, poucas pessoas acreditaram nas acusações feitas contra aquela família. A começar pela Princesa-herdeira do Trono (que viria a ser a futura Rainha Maria I).  Ainda hoje este é o sentimento entre os historiadores que se debruçam para pesquisar esse trágico episódio.

        Infelizmente, o plano traçado pelo Marquês de Pombal – para tentar apagar a semente   dos Távoras da face da terra – foi executado como ele planejou. No entanto, alguns Távoras conseguiram fugir para o Brasil. Enquanto isso, no dia 13 de janeiro de 1759, num local ermo, nas proximidades da torre de Belém, antecedendo à execução pública dos acusados, diversos membros da aristocracia e da alta nobreza portuguesa também foram torturados, expostos à humilhação pública e, por fim, decapitados. Os restos dos seus corpos foram queimados, com todo requinte de perversidade, e suas cinzas espalhadas no Rio Tejo.

         Morto Dom José I, em 1777, aos 62 anos, subiu ao trono sua filha, a agora Rainha Dona Maria I (avó do nosso Imperador Dom Pedro I). Ela, como um dos primeiros atos do seu reinado, mandou perdoar os Távoras e devolveu o patrimônio que havia sido desapropriado ilegalmente à família trucidada.

***
              O que aconteceu com os poucos Távoras que fugiram para o Brasil? Aqui adotaram outros sobrenomes, como “Silva” e “Fernandes”, para escapar de novas perseguições. Os descendentes desses fugitivos, residentes no Ceará, destacaram-se como homens íntegros e ocuparam funções e cargos relevantes no Brasil. Dentre eles, Juarez, Manuel e Franklin Távora (irmãos) e Virgílio Távora (sobrinho). Alcançaram eles as mais elevadas patentes no Exército Brasileiro; Juarez Távora foi candidato a Presidente da República Brasileira, em 1955; Manuel e Virgílio Távora governaram o Ceará em três ocasiões. Também foram Senadores, Deputados, Ministros de Estado. Outros membros dessa família se destacaram como jornalistas, advogados, bispos, sacerdotes...

                Atribui-se ao Monsenhor Fernandes Távora (ele foi Vigário de Crato entre 1883 a 1889) o restabelecimento do uso do sobrenome “Távora” entre os descendentes brasileiros. Consta que o Monsenhor quis cursar a Academia dos Nobres Eclesiásticos, em Roma. Dificilmente essa Academia admitia sacerdotes sem linhagem de aristocracia ou padres estrangeiros. Monsenhor Fernandes Távora viajou à Lisboa. Pesquisou e restaurou, no Brasil, o nome dessa família, o qual estava proscrito, desde 1759, em Portugal.

(Esta crônica é dedicada a três meninas nascidas no Cariri cearense: Lara, Lia e Maria, minhas netas, filhas de Carolina e Leonardo, que carregam no Registro Civil o sobrenome Távora, herdado do pai delas)
 Livro do historiador José Norton sobre a epopeia dos Távoras. A bibliografia sobre o tema é vasta

 (*) Armando Lopes Rafael é historiador, licenciado pela Universidade Regional do Cariri. Sócio do Instituto Cultural do Cariri e membro-correspondente da Academia de Letras e Artes Mater Salvatoris, de Salvador (BA). Em 2016 foi agraciado com a Comenda da Ordem Equestre de São Silvestre Papa, pelo atual Papa Francisco,  no grau de Cavaleiro.