12 junho 2019

O legado do padre Ágio foi a sua própria vida!

Carlos Rafael Dias, professor historiador

Já era monsenhor, mas sempre será o padre Ágio. Assim, leve e ágil, pois não lhe pesavam os títulos honoríficos que muitos portam envaidecidos. Ágio era um sacerdote da música, simples e belo como o orvalho da manhã.

Ele morava no Belmonte, aprazível e bucólica vila cratense, ao sopé da ‘majestosa’ Chapada do Araripe, defronte para o Vale do Cariri. Lá, plantou uma semente musical que frutificou orquestras, escolas, músicos, sonhos. Sonhos que se tornaram boas realidades, através da sagrada arte musical, mestra da decência e da cidadania.

Padre Ágio era músico, professor, compositor, escritor, ciclista; mas, antes de tudo, era um amigo, um mestre, um sábio, um taumaturgo, um santo.

Conheci-o em 1984, quando, em uma época boa dessa do ano, o entrevistei para uma matéria que saiu na Folha de Piqui, jornal alternativo que editávamos naquele tempo. Juntos, nessa feliz empreitada, estavam ainda Luiz Carlos Salatiel, Geraldo Urano e Normando Rodrigues, respectivamente, cantor/compositor, poeta e artista plástico do nosso torrão caririense.

Depois, tive diversos contatos com ele, por conta da Escola de Música Heitor Villa Lobos, por ele fundada e mantida desde 1965.

Na celebração dos 25 anos da escola, eu e Luiz Carlos Salatiel participamos ativamente da equipe organizadora. Apresentações de agrupamentos musicais do Belmonte sempre constavam dos eventos que organizávamos.

Há, porém, um episódio bem pitoresco.

Em uma certa eleição local, eu e Salatiel acompanhávamos o nosso candidato a uma visita ao Belmonte. No encontro, com a presença de alunos seus, padre Ágio se dirigiu ao nosso candidato com palavras elogiosas. Gravamos aquele depoimento e o veiculamos no programa radiofônico eleitoral. Contrariada, a campanha adversária fez o mesmo, gravando e transmitindo a voz meiga do sacerdote, dizendo palavras merecedoras ao seu candidato.

Aquele episódio foi marcante, pois atestou um lampejo da genialidade e da sabedoria do padre Ágio.

Como dizem os budistas, o caminho certo é o caminho do meio.

No entanto, o momento que mais me marcou nessa relação que tive com o padre Ágio, foi quando ele celebrou o meu casamento com a minha saudosa esposa Rosângela.

Era uma noite de sábado, na capelinha de Nossa Senhora das Graças, ao lado da casa do sacerdote, com o quinteto de cordas, por ele criado e instruído, tocando na cerimônia.

Por fim, nessa singela homenagem, gostaria de, enquanto historiador regional, fazer uma comparação que julgo pertinente.

O apostolado de padre Ágio guarda imensa semelhança com o do padre Cícero: a escolha de um pequeno e sofrido vilarejo, habitado por agricultores que eram explorados pelos latifundiários locais; a opção pelos pobres; a missão pedagógica de dotar o seu rebanho humano de um instrumental que lhe fosse, ao mesmo tempo, produtivo e digno.

Uma diferença: o padre Cícero precisou entrar para a política para salvaguardar a sua grande obra, o Juazeiro. Padre Ágio, não. E, mesmo assim, quando o intrometeram nesse intrincado campo, a exemplo da eleição referida, ele saiu-se com a maestria que lhe sempre foi peculiar.

Gratidão, mestre Ágio!

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