30 abril 2018

Arquétipos do conservadorismo – por Valmir Lopes (*)

   O conservadorismo como prática política é baseado na crença da imperfeição humana. Inicialmente, expressão e defensores dos valores do mundo agrário, o conservadorismo evolui para forma de concepção de mundo mais sofisticada e adaptada ao mundo moderno. Como crença intelectual tem origem bem definida: a Revolução Francesa. Trata-se de um pensamento contrário aos eventos revolucionários e suas ideias inspiradoras.
   A melhor caracterização é o antirracionalismo, oposição a todo construtivismo social e político, que pretende fazer experimentos com a existência humana, procurando aperfeiçoa-la. Na antropologia filosófica, os homens são concebidos como criaturas e menos como criadores. 
       Inexiste uma ideologia conservadora. Não se apoia em utopias e projetos realizados através da ação política. Nutrido do sentimento da frágil condição humana, acredita numa espécie de sabedoria imemorial materializada na realidade que não deve ser subvertida pela potência da razão. Em política, é pessimista, realista e prudente com formas inovadoras de agir. A experiência das gerações passadas está incrustada em forma de sabedoria prática muito superior a toda e qualquer especulação teórica da razão. O realismo conservador se opõe ao ilusório. É aceitação ao que existe historicamente como sendo expressão dessa sabedoria coletiva. O domínio da razão prática tem autonomia que o pensamento teórico não pode ultrapassar.  
        É errado interpretar o conservadorismo como oposto à mudança, deseja mudança dentro da ordem e conduzida pela própria realidade. Contrários às mudanças intencionais para atingir fins desejados pela razão humana, o conservadorismo sabe apreciar o valor da circunstância, dela extrai todo o conhecimento prático necessário para agir. Muito antes dos dialéticos, ele já valorizava a história como redução do tempo experienciado. É o saber praticável, distante do teorético, que o alimenta. Mudanças dentro da ordem e guiadas pelos princípios extraídos da própria realidade. O ritmo e o alcance da mudança desejada não deve ser uma invenção e propósito humano. 
      A mudança deve ser imposta pelas circunstâncias e dela deve-se extrair os indicadores do sentido dessa mudança. As circunstâncias têm um papel crucial na ação política conservadora, ela deve ser guia, ao lado da prudência das decisões políticas. Implícito encontra-se uma ideia de razão prática ou de uma razão controlada e guiada pela prática. Não é certo dizer que os conservadores valorizam mais o passado do que o presente. A ideia é que as instituições legadas do passado, já deram provas de maior adequação ao modo de existir coletivo. As instituições persistentes na história humana devem ser valorizadas porque contém a sabedoria prática dos antepassados e revelam ter ultrapassado o teste do tempo.  
      Em relação ao Estado, é propenso a apoiar regimes diversos, mesmo autoritários, contanto que promovam aquilo que considera bons valores de uma sociedade. Ao lado dos socialistas, os conservadores nutrem o fetichismo pelo Estado em sua potência realizadora. Enquanto os liberais apregoam amplas liberdades para os indivíduos, os conservadores receiam a liberdade individual e temem uma sociedade individualista. Quanto à economia, têm uma atitude ambígua em relação a sociedade de mercado. Descrentes de propostas de aperfeiçoamento humano e felicidade ofertada publicamente, apoiam-se numa ideia mínima de natureza humana imutável.

(*) Valmir Lopes, Cientista político e Professor da UFC. E-mail: lopes.valmir@gmail.com

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