11 março 2018

Gilberto Freyre: precisa-se do Ceará – por Geraldo Duarte (*)

 Publicado no “Diário do Nordeste”, Fortaleza, 10.03.2018 
  Bandeira do Ceará, a única dos estados a conservar
 o desenho da Bandeira Imperial Brasileira

   Theatro José de Alencar, agosto de 1944. Gilberto Freyre encantou plateia naquela casa de espetáculos. A conferência principiou na experiência vivida, em curso da Universidade de Columbia, USA, onde a interação com estudantes de vários países o distanciou "para sempre do puro cosmopolitismo", depois de o "ter curado do bairrismo".
    Não os abandonou de todo, combinou-os, tornando-os, psicológica e culturalmente, criadores ou fecundos.Aceitou tal posicionamento, após vivenciar com centenas de colegas da Europa, Ásia, África e Austrália. Daí, ver-se completados e intrínsecos "provincianismo e universalismo; regionalismo e cosmopolitismo; continentalismo e oceanismo" ou, uma similitude da "lição do Ceará ao Brasil; a lição constante dos cearenses aos demais brasileiros. Nenhum brasileiro é mais cosmopolita".
    Discorreu sobre o anedotário que nos indica "cigano ou judeu brasileiro". Citou o jangadeiro, com suas velas, ajudando escravos das senzalas de Pernambuco e Alagoas a chegarem nesta Terra da Luz, libertando-se. Mostrou-nos, além de primeiros abolicionistas, guerreiros no Paraguai, colonizadores na Amazônia, destaques nas artes, letras e ciências e semeadores da unidade nacional.
    Conferiu tais feitos à etnia formada por ameríndios, portugueses, africanos e ciganos na formação de um indivíduo harmônico, com seu "asceticismo angulosamente magro, romântico, ativista, andejo, inquieto, empreendedor, franciscano, fraternal". Empolgado, além da circunspecção, citou a "cultura de redes, mais para um sono indispensável e nômade que para o luxo do repouso gostoso, sedentário e contemplativo; de fabricante de alpercatas duras, ascéticas e franciscanas, próprias para caminhadas ásperas e longas, que de chinelos macios, burgueses, de couro mole, em que os pés se deliciam nos ócios caseiros e nos prazeres da sedentariedade; de especialista no preparo da carne seca".
     Não se esqueceu dos talentos e aptidões humanas do Ceará. Discorreu sobre o saber de incontáveis conterrâneos nossos. Em citações entusiastas, lembrou Clóvis Beviláqua, Juracy Magalhães, Juarez Távora, Jeová Mota e Austregésilo de Athayde e outros. Afora as redes e as rendas, como labor artesanal, salientou as peles e couros como alguns dos produtos exportados.
     Por nossa singela capacidade de estratificação e análise, a dissertação do imortal Gilberto Freyre "Precisa-se do Ceará" jamais chega à formação do destaque atribuído ao Estado.
     Comprovam-se os elogios do conferencista, recorrendo-se à intelectualidade do governador, senador, ministro e professor Parsifal Barroso, em sua obra "O Cearense" (Gráfica Editora Record, Rio de Janeiro, 1969).
     Reconhecido, Parsifal credita ao conferencista a motivação de sua produção, leitura indispensável a quem deseja buscar a essência primeira e maior de nós mesmos: a "cearensidade".
E expressa: "Faltava-me, entretanto, um roteiro que me permitisse começar essas investigações históricas. Encontrei-o em 1944, ao ouvir a inesquecível exposição de Gilberto Freyre, no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, publicada no jornal 'Unitário' sob o título 'Precisa-se do Ceará', e ainda não integrada no conjunto de suas 'Obras Reunidas'".
      Parsifal Barroso conheceu a prédica do polímata e a tomou por rumo na feitura de seu compêndio. E a curiosice: Freyre terá lido o trabalho consubstanciado na obra de Parsifal? Ler a ambos, nos enaltecimentos, abonações ou, mesmo, em sentido literalmente crítico à naturalidade cearense, faz-se encaminhador às raízes mais profundas de nossas origens, indicadas, num "talvez", ao altiplano da Ibiapaba.
(*) Geraldo Duarte. Advogado e administrador

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