12 dezembro 2017

O ciciar das cigarras na Serra - Por: Emerson Monteiro

Há nisso um código que eu sei que há, quando elas se comunicam e dizem saber, entre si, o que ainda não sei. Justificam o exercício de falar nos longos cios aquilo que dizem em resposta umas às outras, ao calor da tarde finda e o início da noite, que chega leve nos haustos do dia que foi. Atenuam o tempo através das rimas de vozes harmoniosas, que cantam o mistério das horas que logo conterão o escuro e acalmarão de tudo a festa da Natureza. O som, sons, que circula ritmado, avisando em contraponto os acordes que entrelaçam e reúnem de sinfonia o calor do sol poente, toques sibilantes das pautas invisíveis. Adentram suavemente o túnel das almas impacientes que aceitam continuar as marchas soltas da solidão em respostas indecifráveis. São elas, as cigarras, que fecham as janelas do Universo nas nuvens dos acordes que penetram o canteiro das matas. Vidas e sinais vindos lá de longe, distantes ao fulgor das estações. Chegam, cumprem o instinto de falar à vastidão dos sentimentos e tocam, quais sinos de notas intermináveis, os violinos santos da orquestra divina. Vozes dolentes, assim, riscam de voos as ondas que vêm e vão das praias da escuridão, e batem insistentes o rochedo das estrelas espalhadas nos céus. Intermitentes, gritam, balem, e baixam o tom dos instrumentos ao sabor do início, do jeito que vieram. Quais aves que regressam aos ninhos, as cigarras cumprem essa função esplendorosa de afinar o adeus das tardes e aceitar a noite que lhes abraça em albor fiel. E aos poucos silenciam, outra vez, ao gosto de contar dentro das cores esmaecidas o agora das ninfas; o dia vira sonhos, silvos de outras vozes a cantar o mundo das histórias que permanecerão vivas no coração das pessoas. Elas, então, talvez adormecidas ou presentes para sempre, circularão pela soma dos desejos quais fagulhas e segredos luminosos, a revelar fogueiras de silêncio às distâncias infinitas do Ser.

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