17 outubro 2017

Lembrando o casal Adamir e Geraldo Macedo Lobo (por Armando Lopes Rafael)

Geraldo Macedo Lobo e sua esposa Adamir (ambos falecidos)  com os nove filhos do casal

   Eu tinha dez anos de idade quando minha família fez nova mudança de residência. Fomos morar, naquela oportunidade, na Rua Teodorico Teles – mais conhecida como Rua da Cruz – numa casa alugada a Geraldo Macedo Lobo, popularmente conhecido por Doutor Geraldo.
   Nos primeiros dias, após a mudança, eu e meus irmãos menores fomos descobrindo e explorando a redondeza da nova morada. O quintal da nossa casa fazia fundo com um grande pomar – cheio de laranjeiras, tangerineiras, goiabeiras, coqueiros, dentre outras fruteiras – integrante da residência do Doutor Geraldo. Como o muro era baixo, nele subíamos e ficávamos contemplando as fruteiras enxertadas, uma novidade para a época. “Enxertar” mudas de plantas – vim a saber naquela ocasião – consistia em unir partes de vegetais oriundas de plantas distintas, resultando em uma só planta. E essa enxertia ainda eliminava os espinhos nas laranjeiras e limoeiros, além de proporcionar a produção de frutos em menos tempo do que o cultivo tradicional. O responsável por esses enxertos era Geraldo Macedo Lobo, formado na Escola Agrícola de Barbacena, em Minas Gerais.
   Pelos seus conhecimentos em agronomia, Doutor Geraldo era visto com uma aura de respeitabilidade para nós. Mas, para mim, a descoberta da personalidade de Doutor Geraldo, foi acontecendo aos poucos. Lembro-me bem dele. Míope, usava óculos de lentes grossas, que escondiam seus olhos esverdeados. Todos os dias ele se dirigia, ao Cartório de Registros de Imóveis – onde era tabelião – cujo prédio ficava localizado na Rua Senador Pompeu, a poucos metros da Praça Juarez Távora.
   Geraldo Lobo era um homem metódico, discreto e tratava com lhaneza a todos. Vivia de casa para o trabalho, embora participasse de todos os acontecimentos relacionados ao progresso de Crato. Muito raramente parava – por alguns instantes – na calçada da mercearia de Antonio Teles, lugar das costumeiras conversas dos homens que residiam nos arredores das ruas Raimundo Lobo, Teodorico Teles e André Cartaxo. E quando participava dessa roda, Doutor Geraldo só intervinha com assuntos sérios, destoando dos papos fúteis e fofocas que se constituíam em rotina naqueles encontros.
   Geraldo e sua esposa Adamir tiveram nove filhos, todos saudáveis e bonitos: Lílian, Eliane, Samuel, Paulo de Tarso, Kátia, Sandra, Soraya, Sorelle e Pierre. Formavam uma família feliz. Lembro-me de que as refeições da família eram feitas ao ar livre, embaixo de uma mangueira, numa enorme mesa de marmorite. Recordo-me também de uma empregada da família, uma negra, chamada Lindalva, que fazia parte da família, tamanha era a confiança depositada nela pelos seus patrões.
   O relacionamento de Geraldo Lobo com seus filhos mais parecia uma convivência entre amigos. Bem diferente da mentalidade da época, onde o comum era uma ligação hierarquizada, formal e de pouco afeto entre os membros dos núcleos familiares. A convivência comum era permeada pelos castigos físicos que, vez por outra, os pais infligiam aos filhos, sempre que estes incorressem em travessuras, tão comuns na infância.
   Anos depois, constatei ser verídico o pensamento de Leon Tolstoi: “As famílias felizes parecem-se todas; já as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”. Sem se dar conta, a família de Geraldo Lobo era uma referência de paz e harmonia para nós.

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