28 setembro 2017

Academia Groairense de Letras - por José Luís Lira (*)

Goaíras, cidade do norte do Ceará

É voz comum que a ideia de Academia vem muito ligada ao conhecimento, à sabedoria. Varia a terminologia em relação à instituição literária ou instituição de ensino superior. Inicialmente se liga à lembrança da escola grega de ensino fundada por Platão, na cidade de Atenas em 387 a.C., chamada Academia, em homenagem ao herói grego Academus, que lutou na guerra de Tróia. Atualmente, se filia à Academia Francesa, fundada pelo Cardeal Richelieu, ministro do Rei Luís XIII, em 1635, reunindo 40 intelectuais que ocuparam uma cadeira, escolhendo cada qual, seu patrono, com a função de zelar pelo respeito da língua francesa.
No Brasil, o Ceará partiu à frente, uma vez que a Academia Cearense de Letras foi criada em 15/8/1894, enquanto que a Academia Brasileira de Letras só seria instalada a 10/7/1897. Consta que o cearense Antonio Sales, jornalista, deputado, secretário de estado e que, por muitos anos, trabalhou no Tesouro Nacional, no Rio de Janeiro, teria sugerido a intelectuais cariocas a criação da Academia Brasileira. A partir de então, Lúcio Mendonça, Machado de Assis, entre outros decidiram pela fundação da Instituição. Sales teria rejeitado uma Cadeira na ABL. De retorno ao Ceará, ingressou na Academia Cearense de Letras, em 1922, da qual foi presidente de 1930 a 1937 e presidente de honra de 1937 a 1940.
Essas ideias me vêm à mente quando meu nobre confrade Dr. Gilberto Feijão me telefonou para convidar-me para a instalação da Academia Groairense de Letras (AGL), fruto de reunião entre os groairenses Domingos Pascoal de Melo, Raimundo Nonato Ximenes (Dr. Ximenes, um dos fundadores e guardião da memória do bairro Montese, em Fortaleza, com 94 anos) e Dr. Gilberto Alves Feijão, baluarte da advocacia sobralense. A presidência da nova Academia coube à professora Edna Maria Mendes Rodrigues e a presidência de honra ao Dr. Gilberto Feijão, escolhas muito merecidas. Além dos mencionados perfilam entre os ocupantes-fundadores de cadeira Domitila Feijão, Ana Célia Oliveira, Augusto M. Melo e outros nomes ligados ao jornalismo, à literatura, à advocacia, à cultura, enfim, a tudo o que traduz a história de Groaíras que dá um belo exemplo às outras cidades interioranas do Ceará. Parabéns aos acadêmicos e à cidade.
A Academia será instalada no dia de São Francisco, 4 de outubro, quando estarei em Buenos Aires, por conta de assuntos relacionados ao meu doutorado. Não comparecerei e, sem méritos meus, fui convidado para ocupar uma cadeira de Acadêmico Honorário, do que agradeço, muito honrado. Falo cadeira porque na AGL, os honorários têm patronos. Estarei ladeado pelos amigos José Inácio Linhares e Rafael Ponte; e para patrono, escolhi o Mons. Luís Ximenes de Aragão Freire, o Padre Ximenes. Nascido em Camocim, Mons. Ximenes foi pároco de Santa Quitéria por largos anos. Seu pai foi maquinista. Ximenes, além de grande sacerdote, era poeta sensível, autor de valiosa obra. Foi correspondente da Academia Sobralense de Estudos e Letras. Amante de trens, tinha alma “ferroviária” que nem os mineiros e dizia que se “fosse mesmo um trem (ah, quem me dera!)/ eu seria esse trem que não passou”. No dia 4/10, o “... maquinista do trem que vai de Santa Quitéria a eterna Jerusalém”, celebra 23 anos de eternidade e se torna meu patrono!

(*) José Luís Lira é advogado e professor do curso de Direito da Universidade Vale do Acarau–UVA, de Sobral (CE). Doutor em Direito e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Lomas de Zamora (Argentina) e Pós-Doutor em Direito pela Universidade Federal de Messina (Itália). É Jornalista profissional. Historiador e memorialista com váários livros publicados. Pertence a diversas entidades científicas e culturais brasileiras.

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