03 junho 2015

A barba e o frade - Por: Emerson Monteiro

Depois de raciocinar um tanto, o frade optou por deixar a barba crescer. Interpretara ser a natureza que fizera desse jeito, assim devendo seguir. Quando cofiava o queixo peludo, pensava no jeito de quem obedecia por conservar a espessa barba quase passando do peito, ancorada no avantajado bucho a lhe servir de moldura.

Os alunos respeitariam frei Atanásio de qualquer modo, pois avistavam nele o exemplo de dedicação ao magistério com carinho especial, além de saber a fundo língua inglesa e biologia, as matérias de sua predileção, que transmitia nos dois turnos do colégio.

A confiança que concedia a seus alunos permitiu, naquela manhã, dar ouvidos a Tenório indagar o uso da sua barba na hora de dormir:

- O senhor bota dentro ou fora do lençol a barba, professor?  

O bom frade aquietou. Perquiriu da memória a resposta. Nada, nada se ofereceu de imediato. Portanto, sem dispor dos elementos necessários, não conseguir lembrar as coisas acontecendo debaixo dos lençóis noturnos. Sorriu desconsolado, levando a sério o assunto. 

Disse ao pequeno que deixasse a pergunta guardada e a refizesse numa outra ocasião, achando houvessem lhe pegado em grave desatenção consigo próprio. Observar-se-ia melhor das próximas vezes.

De noite, cumpriu a disciplina e se recolheu à cela, de pensamento ligado na pergunta do aluno. Num comportamento fora do habitual, zeloso afagou a cama, preparando-se para o sono...

A surpresa maior lhe esperava. Nada obedecia ao pretendido. Buscava jeito de um lado, de outro. Revirava daqui, dali. Lençol faltava nos pés, na cabeça. E a barba necas de alojar, esquentar canto. Por dentro do cobertor, espinhava, incomodava como nunca antes. Por fora, aí também não funcionava. Por fora, por dentro... Qualquer das posições causava-lhe desconforto. Rejeição total do costume que nem chegava à lembrança das noites anteriores. 

Espantado com aquilo, o sono viajou para muito longe. No seu lugar apresentou-se a indesejada vigília. Noite inteira e o frade manteve os olhos arregalados. Aquilo, sim, pôde classificar de noite em claro.  

Cedinho, quase ainda no escuro da madrugada, saiu calorento, banhou o rosto e desceu ao pátio do colégio, onde lia o breviário. Outro espanto. Quem primeiro apareceu no corredor: Tenório e sua carinha adolescente. 

De sorriso nos lábios, parecendo saber tudo que se dera durante a noite do religioso, logo veio perguntando:

- Aí, frei Atanásio, de que lado fica a barba quando o senhor dorme?

Nessa hora, o frade ferveu por dentro. Sem contar conversa, naquela hora dirigiu ao aluno extensa preleção sobre gente bisbilhoteira que, esquecida dos modos sobre o respeito, invade a intimidade alheia. Calado, atencioso, o estudante a tudo ouviu, decidindo não mais voltar a falar no assunto ao professor, que, dali adiante, sempre conservaria raspado o simpático rosto.


Nota: História ouvida do padre José Honor de Brito.

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