13 maio 2015

Benigna, a menina-mártir -- por Armando Lopes Rafael (*)

   Desde que chegou à Diocese de Crato, em 2001, Dom Fernando Panico tomou conhecimento da veneração prestada pela população de Santana do Cariri à memoria de Benigna Cardoso da Silva, uma menina assassinada em 1941, em defesa da castidade. Sessenta anos já havia decorrido daquela tragédia, mas as novas gerações de santanenses perseveravam em manter acesa a fama de santidade de Benigna. Dom Fernando logo enxergou na existência da menina-mártir muitas virtudes, dentre as quais a pureza, bondade, caridade, inocência e piedade. O Bispo de Crato tinha autoridade para abrir um processo de beatificação. Mas faltava-lhe uma pessoa que detivesse conhecimento sobre esse árduo procedimento canônico, ou seja, um postulador da causa com experiência nesse mister. 
    Em 2009, certamente por um desígnio de Deus, chegou para residir na Diocese de Crato, um culto sacerdote italiano, monsenhor Vitaliano Mattiolli, professor nas universidades de Roma, que aceitou o desafio de Dom Fernando Panico e começou a planejar o pedido de beatificação de Benigna. Em 2012 foram nomeados os membros da fase diocesana desse processo.  O resultado do trabalho preliminar chegou já em fevereiro de 2013.  Naquele mês, o bispo de Crato recebeu correspondência do cardeal Ângelo Amato, presidente da Congregação para a Causa dos Santos, comunicando a concessão do “Nihil Obstat”, ou seja, o “Nada Impede” para a abertura do processo de beatificação de Benigna Cardoso da Silva. Esta, a partir daquela data passou a ser chamada Serva de Deus.
     Inegavelmente deve-se à iniciativa de Dom Fernando Panico e à competência do trabalho de monsenhor Vitaliano Mattioli (falecido em dezembro de 2014) o êxito inicial do processo de beatificação de Benigna. Resta-nos aguardar o desenrolar das etapas posteriores, a chamada “Fase do Vaticano” que terão como palco a Congregação para a Causa dos Santos, na cidade de Roma.
Quem é Benigna Cardoso da Silva
   Benigna nasceu no dia 15 de outubro de 1928, na cidade de Santana do Cariri e residiu, durante os seus primeiros anos de vida, na Rua do Tanque, onde ficava a humilde casa dos seus pais. Era a filha mais nova do casal José Cardoso da Silva e Thereza Maria da Silva. Seu pai trabalhava no Sítio Oiti, propriedade agrícola localizada a pouco mais de dois quilômetros da cidade, pertencente ao Sr. Cireneu Sisnando Leite e sua esposa, dona Leonor. O pai de Benigna trabalhava preparando o solo para o cultivo, ajudando na ordenha e criação do gado e executando outras tarefas correlatas, a ele confiadas pelo Sr. Cireneu. A mãe de Benigna fazia as tarefas domésticas, no humilde lar do casal, e tomava conta dos quatro filhos pequenos.     Benigna foi batizada, no dia 21 de outubro de 1928, na Igreja Matriz de Senhora Santana, pelo padre Rodolfo Ferreira da Cunha, vigário da Paróquia de Santana do Cariri.
   Embora não se tenha a data precisa, sabe-se que Benigna ficou órfã de pai e mãe, nos primeiros anos de sua infância. Após a morte dos pais, ela e seus três irmãos mais velhos – Carmélia, Alderi e Cireneu – foram adotados pelas filhas do proprietário do Sítio Oiti dos Cireneus, as irmãs Rosa e Honorina Sisnando Leite. Naquele sítio passou a residir. Lá percorreu o caminho da santificação e no Sítio Oitis sofreu o martírio.
Uma santa de Deus
   Pode-se concluir que a fé vivenciada por Benigna foi uma fé comum, simples, sem êxtases ou visões. Sem ocorrência de milagres extraordinários. Ela não realizou prodígios. Viveu o anonimato do cotidiano com uma fé calcada no modo como expressava seu profundo e singelo amor a Deus: no respeito aos semelhantes; na oração da manhã e da noite, nas missas a que assistia na igreja-matriz, esta localizada a mais de dois quilômetros da sua residência. Benigna era obediente e tinha sincero respeito às duas senhoras que a criavam. No cumprimento dos afazeres cotidianos, a menina levava uma vida igual às demais mocinhas da zona rural daqueles tempos. Fazia as tarefas de casa – apesar da sua pouca idade, lavava os utensílios domésticos, ajudava na cozinha e varria a casa – e era, ainda, a encarregada do abastecimento de água da família que a criava. Para tanto, percorria, com um pote de barro na cabeça, todos os dias, a distância entre a sua residência e a cacimba de onde retirava a água para o consumo diário. 
   Tal modo de vida, simples e edificante, não passou despercebido ao Pároco de Santana do Cariri, Padre Cristiano Coelho Rodrigues. O respeitável sacerdote, em certa ocasião, presenteou Benigna com um livro da História Sagrada. Este exemplar foi lido muitas vezes pela menina. Esta, após a sua prematura morte, seria chamada pelo Padre Cristiano Coelho de “Heroína da Castidade” e de “Nossa Santinha”. O exemplar dessa História Sagrada ainda existe e faz parte do pequeno acervo de objetos materiais deixados por Benigna, que são guardados numa pequenina capela, construída pela comunidade no Sítio Oiti, a duzentos metros do local onde a menina foi martirizada.
     Benigna viveu apenas 13 anos e 9 dias e findou sua existência terrena, ferida mortalmente, vítima de uma tentativa de violência sexual, à qual resistiu bravamente, para preservar sua castidade. Foi uma vida breve, permeada pela amizade com Jesus, vivida em meio à pobreza, orfandade, trabalhos domésticos, gestos simples e solidários. Uma verdadeira santidade leiga, na qual realizou fielmente o projeto e a Palavra do Deus Pai.
     A população católica da Diocese de Crato aguarda, confiante e jubilosa, a próxima etapa do processo de beatificação de Benigna, quando ela será chamada de Venerável. Isso acontecerá após o “Positio” (fase do processo onde se estuda se as virtudes do candidato a Beato atingiram o grau de heroicidade). Quem sabe se não sairá do Cariri a primeira Beata do Estado do Ceará?
 (*) Armando Lopes Rafael é historiador. Trabalho  escrito para a "Revista do Centenário da Diocese de Crato", que circulará nas próximas semanas.
Túmulo da Serva de Deus Benigna, localizado no interior da Igreja Matriz de Santana do Cariri.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Visite a página oficial do Blog do Crato - www.blogdocrato.com - Há 10 Anos, o Crato na Internet.